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quinta-feira, 5 de fevereiro de 2015

Entrevista a Carlos Campaniço (Diário Digital)


Safara recebe o “filho” Carlos Campaniço



Centro geográfico de lugares imaginados, Safara recebeu o seu "filho" Carlos Campaniço para a apresentação de «Mal Nascer» (finalista do Prémio Leya). O Diário Digital foi à localidade do concelho de Moura para conversar com o autor sobre a sua terra e a sua gente e em como ambos influenciam a sua escrita.

O largo de Safara está na sombra da centenária igreja. No fresco, reúnem-se os contadores de histórias. Sentei-me num banco de pedra, enquanto consultava as mensagens electrónicas no telemóvel, a ouvir os velhos perto de mim. Eles já viveram o que os novos pensam ter inventado. Um homem é feito de memórias; o alentejano gosta de as contar. “Valorizo muito a memória”, disse Carlos Campaniço, “e os meus livros estão carregados de memórias pessoais e colectivas.”
As ruas de Safara são caudais de passos e palavras que serpenteiam entre casas. Uma dessas casas bem poderia ser de Santiago, ou de Álvaro Cobra.
“Onde Mora Álvaro Cobra, Carlos?”
“Aqui e em lado nenhum”
“E Medinas é aqui?”
“Aqui e em lado nenhum”
A inquietude de Carlos Campaniço contrasta com a paz nos gestos de quem por nós passa e entra na sala onde vai decorrer a apresentação de “Mal Nascer”.
Sob um telhado de canas, agora reduzido a um exótico ornamento sob modernas telhas, a aldeia recebeu o homem que ali cresceu.
Não cabia mais ninguém na sala anexa à igreja. Todos queriam ver o seu Carlos, ouvir a escritora Alice Vieira e a editora Maria do Rosário Pedreira, há algumas semanas.
Não era só o escritor que ali estava. Estava ali o Carlos que jogava damas com os mais velhos e fazia tropelias com os mais novos. Alguns amigos confessaram-me, enquanto ouvíamos cante alentejano na praça, precisar da ajuda de vodka, quando o Carlos dissertava sobre Pessoa.
A apresentação de “Mal Nascer”, num sábado, fazia parte da semana cultural, que o escritor ajudou a fundar. Esse dia era também o dia de aniversário de Carlos Campaniço.
A apresentação prolongou-se. Os autógrafos foram muitos. Todos queriam falar um pouco com ele. A entrevista ficou para o dia seguinte.
Quando acordei no domingo, Safara cheirava a figos, limões e terra molhada. A luz espalhava-se na humidade deixada pela chuva nocturna. A igreja chamava os seus fiéis. As badaladas interrompiam o chilrear anárquico dos pássaros. Era o canto e o cheiro de Safara.
Estamos em Safara. Regressas à terra que te viu nascer, depois de sair sem ainda teres um nome de escritor;  agora voltas já como autor premiado e apreciado pelos leitores. Santiago também sai e depois volta à terra que o viu nascer. Apesar de incógnito, no fim tem necessidade de se identificar. O reconhecimento social é importante para ti, especialmente na tua terra?Não, não. Primeiro, ele sai em condições muito desfavoráveis e dolorosas. Eu não saí nessas condições. Não há aqui nenhuma analogia de trajecto. Depois, ele regressa incógnito. Eu regresso em tom de festa. Ele regressou definitivamente; eu venho visitar.
Ele veio com estatuto diferente porque estudou e progrediu na vida. Eu estudei, fiz alguns progressos, mas a minha maneira de ver a sociedade não me permite pensar que pertenço a uma elite. Antes pelo contrário. Tenho grande satisfação em cumprimentar e estar com as pessoas, de ser como elas.
Nesta altura, Safara já não é uma terra de classes. Já foi, mas já não é. As  pessoas são muito semelhantes na sua condição.
Tanto em “Os Demónios de Álvaro Cobra” ou em Mal Nascer” como na tua vida há uma ideia de viagem, de saída. Álvaro Cobra desaparece; Santiago sai e tu também saíste. Ninguém sabe se Álvaro volta. Mas Santiago e Carlos Campaniço voltam ao mesmo sítio. Há algum paralelismo?Não vejo nexo de causalidade. O Álvaro sempre viveu naquela povoação até puxar-lhe fogo e desaparecer definitivamente. É um trajecto completamente diferente. O Santiago Bento ou Barcelos regressa para se fixar na terra. E eu abalei e ainda não regressei.
Mas tens vontade de regressar?
Claro que tenho. Não sei se estás a querer explorar algum inconsciente do regresso, mas...sim…está nos meus horizontes regressar ao Alentejo. Se não for a Safara, pelo menos ao Alentejo.
Estou a tentar perceber em quantos se divide Carlos Campaniço…
Pode haver algo inconsciente de saudade, mas penso que não me deixo contaminar pela inconsciência. Escrevo de uma forma muito consciente. Em todos os livros que escrevi há propósitos que quero reflectir mais do que inconsciências ou o alter-ego do escritor. Há valores sociais e humanos, ou outros valores mais destacáveis do que o saudosismo do viajante, por exemplo.
O propósito deste livro não foi o de Santiago Bento sair e depois regressar. Isso acaba por ser um artifício para explicar melhor a história e dar mais credibilidade àquela justaposição entre o Santiago adulto e o Santiago criança. O propósito que me levou a escrever o livro foi o de em tempo de fomes, de misérias, nos tempos mais difíceis são as mulheres e as crianças quem mais sofre. Este é que é a ideia chave do livro. A questão da viagem é absolutamente secundária. É claro que eu sei o que é a saudade da terra. Mas reflectem-se mais os meus sentimentos sociais e ideológicos. Não encaro a literatura como recreativa, mas sim com alguma utilidade. O “Mal Nascer” é uma denúncia sobre determinadas condições de pessoas, de classes sociais, sobre o miserabilismo em que se vivia. É essa denúncia que se quer aqui fazer.
Escreves para investigares e saberes mais, ou escreves sobre o que já sabes?Eu escrevo sobre o Alentejo e esta geografia. Primeiro, porque quero fazer um tributo a esta gente e a esta terra, enaltecer o que foi o seu sofrimento, mas também enaltecer a sua alegria, a sua cultura e estas paisagens. É este tributo que eu quero fazer. Por outro lado, escrevo porque conheço bem os ciclos agrícolas, o modo de vida em comunidades pequenas, o grande frenesi que é haver uma novidade numa terra pequena, os mitos, os medos, a solidariedade e a amizade. Estas terras pequenas são muito ricas em relações humanas e por isso escrevo com o grande conhecimento que tenho destas sociedades. Claramente a segunda hipótese.
É uma literatura vinculada a uma causa?É uma literatura de denúncia. Não sei se há uma causa. Tem a ver com a minha consciência. Gosto de escrever romances de época, de tempos mais remotos. Disse há alguns tempos que não escrevo sobre a actualidade porque os homens agora não são capazes de grandes aventuras nem de grandes feitos. E que não me revia nos homens actuais.
Tenho essa particularidade. O primeiro livro é em 1946 [Molinos] e depois os outros são mais remotos ainda. O que me leva a escrever não é uma causa política ou ideal político, ou religioso. É ao nível de consciência. Deve haver uma denúncia e dar a conhecer as condições dos povos rurais, principalmente a do povo do Alentejo, onde se vivia miseravelmente. Por outro lado, são também comunidades muito ricas que me permitem construir a trama e a ficção com substância.
Em “Molinos”, “Os demónios de Álvaro Cobra” e “Mal Nascer” existe uma oposição de forças: com poder/sem poder, pobres/ricos, salvação/pecado… A tua literatura alimenta-se dessa clivagem?Reflecte. Ela foi tão evidente nestas comunidades rurais que é difícil fugir dela. “Os Demónios de Álvaro Cobra” não tem muito esta clivagem; percebe-se, mas não aprofundo. “Mal Nascer” e “Molinos” têm. Foi tão presente, vincado e intrínseco à sociedade que é difícil de fugir.
Pensas que a Moral continua tão dependente da Igreja, hoje, no Alentejo?Não. Alterou. Mesmo naquela altura alterava, não havia aqui, como no Norte, o homem que entregava a senhora à guarda do padre antes de emigrar, ou ia pedir conselhos ao padre sobre determinado negócio.
Havia até alguma aversão ao padre, por parte dos homens; não à religião, mas à figura do padre. O padre tem influência relativamente à elite, não na comunidade, em si. Não é um homem com tanto poder como no Norte. É muito raro haver homens na igreja. Haverá três ou quatro homens numa missa.
E a relação com a superstição e costumes místicos? Esse ambiente que tu escreves em “Mal Nascer” e, principalmente, em “Os demónios de Álvaro Cobra” ainda se mantém? Ou não existe?Ainda se mantém. Os ritos, mitos e medos ainda se mantêm. É claro que se calhar vão-se dissipando. A tecnologia ganha espaço e a televisão rouba muito do convívio entre as pessoas. Se calhar perder-se-ão esses mitos, medos e as histórias que se contavam do antigamente. Mas as questões não desaparecem de um dia para o outro. Ainda estão vincadas na sociedade.
A literatura tem um papel importante no registo desses rituais?Sim, sim… Tive professores de História que me chegaram a dizer que se nós quiséssemos compreender a época em que viveu o Eça, ou Aquilino ou Camilo era ler a literatura deles. A ficção consegue fazer quadros sociais  que, mais tarde, podem ser muito úteis para se compreender as sociedades. Neste caso concreto, tento ser credível no retracto das sociedades, dos comportamentos para depois a própria história ser credível, apesar de ficcionada.
Ainda sobre os rituais e os mitos. Publicaste “Da Serra de Tavira ao Rif Marroquino: analogias e mitos”. A base deste ensaio é a tua tese de mestrado em Cultura Árabe, Islâmica e o Mediterrâneo. Para a ficção, foste buscar alguma informação a esse estudo?Sim, sim.  Aproveitei muito o conhecimento sobre os povos semitas - e semitas não denominam apenas os judeus. Podem ser os berberes ou os árabes, por exemplo. Fui colher algum desse ensinamento para poder depois explorar naquela comunidade [“os demónios de Álvaro Cobra”] que remotamente tinha sido fundada por um berbere.
É uma espécie de “despensa”. Se me apetecer, vou ali buscar algum conhecimento.
É possível haver alguma projecção de Safara em Medinas, Molinos ou na vila não nomeada de Santiago?Há sempre um bocadinho de Safara em todas essas terras. Em Molinos, em Medinas, nesta vila que eu acabo por não denominar e na próxima que já estou a construir. Há sempre um pouco de Safara, propositadamente. E inconscientemente, também. Vivi 20 anos em Safara, ininterruptamente.
Não escrevo por inspiração, mas por inquietação. Se alguma vez puder falar de inspiração, é Safara que me inspira.
Achas que há mais literatura nas conversas de largo, numa aldeia alentejana onde todos contam histórias, do que nas discussões literárias em círculos intelectuais?Não sei se há mais. Pode haver tanto numa como noutra.
Nas conversas aprende-se muito, ouve-se muitas historietas, há uma oralidade, retórica e sapiência de saber contar uma história que deixam sempre alguma coisa em nós.
Quando cheguei aqui a Safara, andei à procura do Álvaro Cobra, de Albano Chagas, de Santiago. Há possibilidade de encontrá-los, ou figuras parecidas com eles, em Safara?Parcialmente. Hoje em dia, na sociedade actual, já é muito difícil. Aqui há uns anos era muito mais fácil.
São criações simbólicas?Não são tão simbólicas quanto isso.
O Álvaro Cobra é uma figura inusitada, pois é uma figura fantástica. É um homem que é considerado tanto santo como bruxo. Ele tem relevância e destaque numa terra pequena. Seja por medo, ou por ser tão diferente.
Quanto a Albano Chagas [“Mal Nascer”] não foi preciso fazer nenhum exercício de criatividade. Alguns homens de muito poder comportavam-se assim. Há ali verdade histórica na figura de Albano Chagas.
As localidades ficcionadas nos teus livros parecem ser muito próximas umas das outras e de Safara, também. Qual é a tua intenção com a criação destes lugares ficcionados?
Quero criar uma marca de autor em que haja uma geografia, e não apenas uma terra, que se relacione com Safara. É uma outra maneira de Safara influenciar a minha obra. São terras ficcionadas que se relacionam com terras verdadeiras e até com outras que já tinha falado anteriormente.
Quero criar uma geografia inventada numa determinada região, onde não haja um povo, mas vários povos e várias aldeias que se vão relacionando com aldeias e povos verdadeiros.
É a invenção de uma geografia alternativa para a minha ficção.
É uma espécie de Macondo?
É diferente. Em Macondo, acabam por ser várias histórias naquela terra. Aqui, há várias terras e cada uma com a sua história. Este exercício parece-me ser absolutamente novo. Não conheço outro assim…
Não tens receio de ficar preso ou limitado devido à criação dessa região para os teus livros? Ser conhecido como um escritor do Alentejo.
Não. Há a questão da universalidade. O que é ser universal? Pode-se escrever sobre assuntos locais e ser-se absolutamente universal. Por outro lado, não tenho receio porque isto não quer dizer que tenha de seguir este projecto ao longo da minha vida. Aliás, eu já intercalei. “A Ilha das Duas Primaveras” (segundo romance) e “Mal Nascer” não se incluem neste projecto que eu estava aqui a referir. Estou a falar de  3 obras em 5. Já estou a contar com o romance que estou a escrever.
Tenho feito alguma alternância. Não quero dizer que um dia não abandone isto e não parta para outro tipo de exercício ou lógica.
Penso que tenho imaginação suficiente para fazer coisas diferentes.
O que pode ser universal, nas minhas obras e noutras quaisquer, é a qualidade literária. Se tiver qualidade literária, se apaixonar os leitores e a crítica, se for aposta dos editores, então vai ser universal e levar a que sejam traduzidas e exportadas.
Há realismo mágico em “Os demónios de Álvaro Cobra”, mas não há em “Mal Nascer”. “ A Ilha das Duas Primaveras” tem um registo diferente destes dois e de “Molinos”. O que procuras com a mudança de estratégias na escrita?O autor deve escrever confortavelmente. Eu sinto-me confortável em escrever em mais do que um registo. Além disso, os livros não devem ser sequências uns dos outros. Tive boa crítica, ou quanto baste, com “Os Demónios de Álvaro Cobra”. Poderia escrever um livro parecido com esse.  Já arranjei a receita, deixa-me cá fazer o seguimento. Mas não. Arrisquei muito ao escrever “Mal Nascer”. E há algumas pessoas que ficaram um bocadinho decepcionadas porque esperavam uma continuação do Álvaro Cobra. E há outras pessoas que gostam muito de “Mal Nascer” e vão ficar decepcionadas com o próximo livro, que não tem nada com “Mal Nascer”. É o oposto.
Já li muito. Isso leva-me a conseguir fazer coisas diferentes. O pior que pode haver em literatura é a repetibilidade. Um escritor deve conseguir oferecer coisas diferentes.
A linguagem utilizada nos diferentes livros contextualiza o leitor nas épocas em que se passa a acção. Fazes algum “levantamento” vocabular?Nada.
A questão vocabular tem de estar muito ligada com a da credibilidade. Não posso  estar a contar uma história do século XIX e dizer que “ele deu corda ao relógio de pulso” ou que “ele tirou o telemóvel e fez uma chamada”.
Em “Mal Nascer”, fiz um exercício de escrita muito simples quando ele [personagem Santiago] relata memórias de infância e mais elaborado quando ele é médico. Eu não posso, por exemplo, pôr uma pessoa analfabeta com uma linguagem discursiva muito adjectivada, ou com uma linguagem muito elaborada. Tem de ter credibilidade a esse nível.
Há livros que se concentram na psicologia das personagens em detrimento da história, outros preferem contar uma história. É importante para ti haver uma história num romance?
Um bom livro tem de ter no mínimo três factores: uma boa história, uma linguagem muito apelativa e depois saber contá-la. É simples e tão difícil conseguir-se.
O teu gosto de contar histórias vem desde criança? Ontem ouvimos a tua professora a dizer que gostavas de contar histórias desde que te sentavas na cadeira.
Pode-se dizer que vem da infância, sim.
“Molinos” e “A Ilha das Duas Primaveras” são os livros mais antigos, fora da chancela Leya e antes de “Os Demónios de Álvaro Cobra”, romance que te deu maior projecção. Pensas em reeditá-los?Sou muito pouco contemplativo sobre o que fiz. Tenho os olhos postos no que quero fazer e nas ideias que tenho. Se, porventura, o meu nome justificar isso… mas ainda não chegámos a esse ponto.
Presumo que esses livros não tenham a qualidade que estas últimas obras têm. São primeiras obras. Estou mais preocupado em escrever o próximo.
Referi a reedição também por esta razão: Ontem, na apresentação de “Mal Nascer”, referiste a importância da tua editora, Maria do Rosário Pedreira. Um livro é produto da colaboração entre escritor e editor, ou não permites que o texto seja alterado?Permito, mas não é fruto de colaboração. Não chega a tanto. O texto é produto do autor. No entanto, os meus textos quando chegam à Rosário levam uma “lipoaspiração”. Há conselhos que são muito positivos. A Rosário explicou-me algumas coisas no início que eu colhi. Já não repito alguns erros que fazia. Nuns aspectos tenho sido bom aluno, noutros não sei.
Mas não se chega a tanto. O livro não é fruto da conjugação entre autor e editor. Não vou mostrando o livro página a página, ou capítulo a capítulo.  É um produto do autor. Depois chega às mãos do editor e tira-se o que está a mais ou a menos e corrige-se incongruências. Porém, uma coisa é indiscutível, um livro depois de passar pelo editor melhora substancialmente.
“Mal Nascer” e “Os Demónios de Álvaro Cobra” teriam a mesma qualidade se não fossem editados por do Rosário Pedreira?Podiam não ter, porque Maria do Rosário Pedreira é, de facto, uma extraordinária editora. É muito profissional, muito rigorosa, muito exigente e muito presente. Ela cria boa equipa com os autores.
Penso que tenho a inteligência para perceber que ela sabe muitíssimo de literatura e colho e aceito os ensinamentos dela.
Depois de “Os Demónios de Álvaro Cobra” (Prémio Cidade de Almada) e “Mal Nascer” (finalista do Prémio Leya) deixaste de ser um desconhecido. E agora, Carlos? Sentes pressão?Não sinto pressão nenhuma. Sou uma pessoa confiante. Para se ser escritor, ser-se editado pela Rosário e pela Leya, tem de se ter confiança. Não sou, contudo, excessivamente confiante. Ouço muito o que as pessoas dizem, ouço a crítica, colho os conselhos.
A formação do escritor depende da formação como leitor. Quando é que percebeste que estavas pronto para editar?Foi difícil porque sou perfeccionista. Tive “Molinos” na cabeça durante muitos anos. Eu pensava que tinha de ler “Levantados do Chão”, ou “D. Quixote de la Mancha”, etc. Só lendo aqueles livros todos é que estaria preparado para lhes “roubar” a técnica e a essência.
Nunca me pareceu que estaria pronto. Quando escrevi pareceu-me que se fosse dali a uns anos… E já comecei a escrever o romance com 30 anos.
Depois dei-me conta que escrevendo se evolui muito. Um escritor evolui muito escrevendo, mas evolui tanto lendo. Mas a base fundamental é a leitura. Não há bom escritor que não leia muito.


http://diariodigital.sapo.pt/news.asp?id_news=743012

domingo, 29 de junho de 2014

Apresentação de "Mal Nascer" de Carlos Campaniço na Biblioteca Pública de Évora







"O menino Santiago, criança pobre e abandonada, regressa à aldeia muitos anos depois já como Dr. Santiago.É um homem em fuga de uma mulher manipuladora e de ameaças de morte em plena contenda entre liberais e absolutistas."












"De facto, há diferenças entre os demónios e a obra de que falamos. Mas não há uma diferença de qualidade. Essa mantém-se. Se há algo que o Carlos prova com Mal-Nascer é que tem capacidade mais do que suficiente para merecer toda a atenção dos leitores e da crítica literária."




















"A escrita de CarlosCampaniço é uma escrita que se preocupa com o Outro.

Essa preocupação com o Outro é parte essencial na temática desta obra:

Repare-se na luta entre classes sociais,

no peso da Igreja nas sociedades menos letradas e mais fechadas

e
na pobreza como influência decisiva na formação do ser humano"








"A pobreza não é romantizada em Mal Nascer. Carlos Campaniço percebe, se me é permitido dizer, que a dignidade do Homem é posta em causa quando em situação de pobreza. E não me refiro só à pobreza material, embora saibamos que sem pão não há literatura ou filosofia. Refiro-me à pobreza de espírito, também.



O padrasto de Santiago Barcelos é um pobre de espírito embriagado pela ilusão de poder, pelo álcool e pela violência.

A mãe de Santiago Barcelos é uma mulher pobre tanto no aspecto material como em espírito, pois mal tem côdea para a boca e não percebe que há uma saída libertadora da violência doméstica."












"As personagens destes dois livros de que tenho falado são personagens complexas e muito reais; não são representativas do bem ou do mal. Não há maniqueísmo. Se prestarmos atenção, são pessoas que, de alguma forma, já conhecemos algures na nossa vida.
Vemos muitos Albano Chagas na nossa sociedade.  São aqueles que exercem o poder sem a mínima preocupação com a dignidade do Outro e que impõem a culpa onde ela não existe. É o que Albano Chagas provoca na aldeia, na mãe do menino Santiago e no padrasto. "






"O leitor é seduzido pelo enredo e é também chamado a completar, com a sua experiência de vida e imaginação, a aldeia, as personagens, os acontecimentos.

Estamos perante um autor que sabe que a literatura só existe quando o leitor intervém e recria, na sua cabeça, o que está a ler. "

quinta-feira, 12 de junho de 2014

Mal Nascer (Casa das Letras), de Carlos Campaniço

E assim nasce um excelente escritor.

“Mal Nascer” (Casa das Letras) confirma a capacidade de Carlos Campaniço (Safara; 1973) em criar personagens marcantes e ambientes envolventes. A possibilidade de “Os Demónios de Álvaro Cobra” ser um sucesso irrepetível é negada por “Mal Nascer”. Não há realismo mágico, nesta obra, mas existe o mesmo labor na escrita, igual complexidade psicológica das personagens, um ambiente sugestivo e um enredo capaz de seduzir o leitor.

Em tempos de contenda entre liberais e absolutistas, o Doutor Santiago Barcelos regressa à aldeia onde passou a sua dura infância. Vindo de Lisboa, o médico foge de ameaças de morte e da obsessão de uma mulher. Na aldeia, onde lhe semearam ódios, não há espaço para nada além da sobrevivência. O pouco de dignidade existente é património dos mais abastados, personificados por Albano Chagas, e da igreja. Os outros sofrem devido à fome e obedecem aos que ostentam riqueza.
Com início no regresso do médico Santiago Barcelos, que substituiu o apelido paterno de Bento por o apelido do padrinho Barcelos, Carlos Campaniço constrói a narrativa em dois tempos intercalados (infância/juventude e idade adulta). O passado mais remoto é um afluente da acção principal. O autor alentejano conta a causa para exponenciar os efeitos dramáticos da consequência. A razão de Bento em se manter escondido noutro nome reside em acontecimentos dramáticos acontecidos na sua infância. O todo-poderoso Albano Chagas impõe que  Santiago e os seus amigos assumam uma culpa inexistente devido a um acidente que vitimou o seu primogénito.
O leitor assiste tanto à evolução do problema (passado) como da resolução (presente).
Apesar de já terem passado muitos anos após a sua partida, Santiago reconhece o ambiente inabitável da sua infância, onde a inocência morreu perante a violência doméstica. A sua ingenuidade infantil deu lugar às dores dos dias de trabalho, e o riso das brincadeiras foi trocado pelos seus lamentos de criança num hostil mundo de adultos embrutecidos.
“Não posso impedi-lo, nem sei se a minha mãe sobreviverá a mais esta bestialidade. A última vez que lhe supliquei para que não lhe batesse arriou-me como nunca, com mais força ainda com que lhe batia a ela. Levo as lágrimas postas num rosto de infortúnio e parece não ser curiosidade para ninguém, porque não há um único que me pergunte sobre o sucedido” Pág. 61
Ele foi obrigado a crescer demasiado depressa. O ódio foi aumentando dentro do seu peito. Mas, ao contrário de Álvaro Cobra, personagem do anterior romance de Carlos Campaniço, o protagonista suplanta a pobreza e a miséria moral. Ao tornar-se médico, é aceite pela mesma classe social que mantém a maioria da população na pobreza.
Os habitantes não reconhecem no médico a criança pobre que ele fora. É tempo de ajustar contas com o passado. Mas apesar de tudo o que não fizeram por ele e pela sua mãe, Santiago cura as pessoas das respectivas doenças. E se não o fizeram é porque a dor de muitos deles não era menor. A culpa pesa como uma cruz nas costas de um povo condenado a viver com a perda e a solidão.



O enredo montado possibilita diversos desenvolvimentos da acção e aprofundamentos na caracterização psicológica das personagens secundárias. No entanto, Carlos Campaniço opta por não desenvolver tanto quanto poderia. A narração numa primeira pessoa possibilita o conhecimento mais aprofundado da psique dos intervenientes principais, mas impõe limitações no progresso dos “subenredos”. Em consequência, a perspectiva do leitor é mantida no essencial à condição de logro e de dominado pelo ódio em que se encontra o Dr. Santiago Barcelos.
De certa forma, Santiago é cativo daquela aldeia: o ódio prende-o ao passado e o amor por Sebastiana, sua assistente no consultório, prende-o ao presente. Ele terá de escolher um caminho.

Carlos Campaniço continua a demonstrar a qualidade já presente em “Os Demónios de Álvaro Cobra”. A sua temática tem-se construído, até agora, assente em assuntos como a luta entre classes sociais, a pobreza como influência decisiva na formação do ser humano e sobre o poder do Clero na Moral e nos costumes.
A prosa de “Mal Nascer” e de “Os Demónios de Álvaro Cobra” tem o humanismo de Ferreira de Castro.
“Mal Nascer” , finalista do Prémio Leya, é mais uma importante obra no surgimento de um autor com muita qualidade na Literatura Portuguesa: Carlos Campaniço.

Mário Rufino


http://diariodigital.sapo.pt/news.asp?id_news=708196

My rating: 4 of 5 stars
O meu texto sobre "Mal Nascer" para o Diário Digital:
“Mal Nascer” (Casa das Letras) confirma a capacidade de Carlos Campaniço (Safara; 1973) em criar personagens marcantes e ambientes envolventes. A possibilidade de “Os Demónios de Álvaro Cobra” ser um sucesso irrepetível é negada por “Mal Nascer”. Não há realismo mágico, nesta obra, mas existe o mesmo labor na escrita, igual complexidade psicológica das personagens, um ambiente sugestivo e um enredo capaz de seduzir o leitor.

http://diariodigital.sapo.pt/news.asp...

Texto sobre apresentação do livro:

O Planeta Livro esteve presente, findava a tarde do dia 09 de Maio, na Livraria Ler Devagar para assistir à apresentação de “Mal Nascer” (Casa das Letras), o mais recente romance de Carlos Campaniço (n.Moura; 1973).
A apresentação ficou entregue a Maria do Rosário Pedreira (editora) e Afonso Cruz, escritor recentemente premiado com o prémio Sociedade Portuguesa de Autores, devido ao seu livro “Para onde Vão os Guarda-Chuvas”.
http://oplanetalivro.blogspot.pt/2014...







sábado, 10 de maio de 2014

Apresentação de Mal Nascer, de Carlos Campaniço





O Planeta Livro esteve presente, findava a tarde do dia 09 de Maio, na Livraria Ler Devagar para assistir à apresentação de “Mal Nascer” (Casa das Letras), o mais recente romance de Carlos Campaniço (n.Moura; 1973).
A apresentação ficou entregue a Maria do Rosário Pedreira (editora) e Afonso Cruz, escritor recentemente premiado com o prémio Sociedade Portuguesa de Autores, devido ao seu livro “Para onde Vão os Guarda-Chuvas”.

Maria do Rosário Pedreira caracterizou “Mal Nascer” como “romance de retorno”. Tal qual Ulisses, em “Odisseia”, Santiago Barcelos, personagem principal, regressa à sua terra para perceber que, ao contrário das suas dolorosas memórias, não havia reconhecimento da sua identidade por parte dos conterrâneos.
“Mal Nascer”, finalista do Prémio Leya, é “literatura preocupada com o outro”, segundo Maria do Rosário Pedreira.
Afonso Cruz defendeu também a ideia de retorno num romance contextualizado pelas lutas entre liberais e absolutistas.
Para o autor recém-premiado, que demonstrou ser um exímio contador de histórias, o personagem principal tem questões difíceis de assumir nessa época: Ser-se pobre, ateu e liberal.
Com uma “linguagem cuidada” e um “enredo muito cativante”, “Mal Nascer” aborda a questão política e, principalmente, a situação de pobreza.
Carlos Campaniço, por último, afirmou haver um pensamento sempre presente no seu livro:
Em tempo de guerra, em tempos difíceis, são sempre as mulheres e as crianças que mais sofrem.
“Estar ao lado dos pobres nunca foi o caminho mais fácil”, afirmou.
“Mal Nascer”, tal qual “Os Demónios de Álvaro Cobra” (Teorema), vencedor do Prémio Literário Cidade de Almada de 2012, baseia-se no Alentejo, região de origem do autor. A cultura alentejana é essencial na criação da sua imagética literária.
A apresentação terminou após algumas perguntas do muito público presente.

O Planeta Livro já teve oportunidade de abordar o livro anterior de Carlos Campaniço: “Os Demónios de Álvaro Cobra”.
Este romance, onde o leitor tem a possibilidade de acompanhar o extraordinário personagem chamado Álvaro Cobra, foi considerado, por Planeta Livro, um dos melhores romances lidos em 2013.
Brevemente, os leitores do blogue poderão ler a crítica a “Mal Nascer”.




LINKS ÚTEIS:

Texto sobre “Os Demónios de Álvaro Cobra”:

OS MELHORES DE 2013:


SITE INTERACTIVO DO ROMANCE:


fotos: Sofia Madalena Escourido



  

terça-feira, 14 de maio de 2013

"Os demónios de Álvaro Cobra", de Carlos Campaniço (Diário Digital)



http://diariodigital.sapo.pt/news.asp?id_news=630895


Carlos Campaniço (n. 1973, Moura) construiu um extraordinário universo literário, onde cintilam personagens memoráveis.
“Os demónios de Álvaro Cobra”, editado pela Teorema, é um livro que merece toda a atenção dos leitores e da crítica literária.
Medinas, a fictícia aldeia alentejana onde habita a família Cobra, só tem uma porta de entrada e outra de saída. Nela se entra pela primeira página do livro, dela se sai pela última página. Não há mapa que a indique.
Dentro dessa aldeia de pagãos, novos cristãos e judeus, o importante peso da igreja católica na moral é inferior à superstição, aos costumes e aos mitos ancestrais. Por lá passam um anarquista que ensina a escrever e a ler, uma prostituta, dona de um bordel, que deseja casar as suas “meninas” com os homens mais ricos, uma cadela que adivinha o tempo, um pássaro que canta, sem nunca errar, em sincronia com a hora exacta e grifos e mais grifos…
Enquanto visita esse maravilhoso ambiente criado por Carlos Campaniço, o leitor  vai conhecendo as estranhas peculiaridades de cada membro da família Cobra, principalmente de Álvaro.
“ (...) aquela era uma família insólita: o marido com suas singularidades inusitadas e suas coleiras de epítetos; a bisavó, quem sabe, a mulher mais velha do mundo; a cunhada, doente com febre toda uma vida; e a sogra com duas mãos desiguais.”

A história de “Os demónios de Álvaro Cobra” é de abnegação, sofrimento, de derrotas e de vitórias. É uma história sobre o peso do destino e a (in) capacidade para o construir.
A pergunta essencial para a compreensão deste romance cedo se impõe:
Até quando aguentará Álvaro Cobra tanta dor?
O leitor tem, nas suas mãos, um romance de personagens. A narração vai apresentando várias peripécias que tanto podem provocar tristeza ou alegria; serem violentas ou ternurentas, fatalistas ou de esperança. O principal objectivo desses acontecimentos é provocar uma atitude, um gesto, uma palavra, que permita ao autor/leitor assistir a determinado comportamento.
Carlos Campaniço não deixa “pontas soltas”. Tudo está lá por alguma razão. Mais cedo ou mais tarde, o leitor entenderá o objectivo de determinado acontecimento.
A realidade imposta pelo visível e tangível é manipulada de forma coerente e credível.
É inevitável a referência ao realismo mágico. Neste aspecto, o autor parece seguir os mesmos caminhos de Garcia Márquez (Medinas em vez de Macondo), Riço Direitinho (características de algumas personagens de “breviário das más inclinações”), ou de alguma literatura nórdica.
O trabalho lexical é muito relevante. Os regionalismos estão presentes em abundância. O próprio autor faz questão de o mencionar.
“ Até cento e oitenta e duas palavras, capturadas ao regionalismo local, que não coabitavam no seu léxico da Língua Portuguesa, eram berberismos e arabismos falados apenas em Medinas. Mencionou como exemplo, abrindo os braços à multidão, o nome da praça onde estavam reunidos.” Pág. 94
“Os demónios de Álvaro Cobra”, obra vencedora do Prémio Literário de Almada 2012, é um livro marcante devido à capacidade do seu autor em criar e descrever, com muito equilíbrio, um ambiente singular onde habitam personagens que provocam empatia e estranheza no leitor.

O leitor não se esquecerá de Álvaro Cobra.

Mário Rufino


Os Demónios de Álvaro CobraOs Demónios de Álvaro Cobra by Carlos Campaniço
My rating: 5 of 5 stars

Garanto-vos: Vocês vão querer ler este livro.
O meu texto sobre "Os demónios de Álvaro Cobra" para o Diário Digital

O mundo mágico de Carlos Campaniço.

http://diariodigital.sapo.pt/news.asp...

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