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quarta-feira, 16 de janeiro de 2019

Top 10 2018: Ficção






1 -"Eliete - a vida normal parte I" (Tinta da China), de Dulce Maria Cardoso

Desvendar o espaço que nos separa das outras pessoas. É uma das maiores conquistas do novo romance de Dulce Maria Cardoso. Depois de “Retorno”, a escritora nascida em Trás-os-Montes apresenta-nos Eliete, personagem e tema desta cartografia sobre a solidão. Dulce Maria Cardoso mostra a sua mestria na análise fina aos comportamentos, no seu decifrar e, sempre, na deíctica de que os movimentos mais banais sublinham a constante incapacidade de eliminar a solidão. 





2 -"Sessenta Contos" (Cavalo de Ferro), de Dino Buzzati

O tom encantatório de Dino Buzzati é irresistível.  “Sessenta Contos” (Cavalo de Ferro) compreende uma selecção representativa,  efectuada pelo autor, de um universo efabulado, onde o real é habitado por criaturas místicas, anacoretas, tiranos, devotos e cínicos. A singularidade da sua escrita, a simplicidade das histórias e a excelência na forma como as conta estão ao alcance de poucos escritores.



3- "A Casa Sombria" (E-Primatur), de Charles Dickens

Com uma míriade de personagens, "A Casa Sombria" é um dos mais intrincados romances de Charles Dickens. É muito fácil para o leitor se perder nas múltiplas relações entre os avatares, assim como foi fácil estes se perderem nas burocracias  de um sistema judicial que abafa classes altas e classes baixas. É a própria justiça que se torna a principal personagem deste romance passado numa Londres caracterizada com os conhecidos traços "dickensianos".

"A Casa Sombria" é considerado um dos melhores romances de Dickens e levou a uma ampla reforma do sistema judicial inglês. A edição da E-Primatur contempla um prefácio de G. K. Chesterton




4- "Berta Isla" (Alfaguara), de Javier Marías

Há sempre algo de indizivel e inultrapassável na relação entre um homem e uma mulher. Javier Marías opta por um estilo dissertivo na caracterização psicológica das personagens e na forma como enfrentam as vicissitudes da vida quotidiana, as zonas escuras da existência alheia, ou mesmo as suas próprias. O período pós-Franco, com respectivas as sequelas, o período de maior e beligerante divisionismo entre Irlandas e Inglaterra são vistos tanto numa narração na 3ª pessoa como pela voz de Berta Isla. Por muito que se tentem conhecer, tanto Berta como o marido Tom Nevinson (profissão: espião) são ilhas um para o outro. Ilhas inalcançáveis.Sofrerá Marías do "efeito Roth"? O merecido Nobel tarda em chegar.


5- "Um Cavalo Entra Num Bar" (Dom Quixote), de David Grossman
Numa época em que o riso tem de ser comedido ou inexistente, por imperativos de correcção política, David Grossman (Jerusalém, 1954) propõe a catarse individual e colectiva através de um número de stand-up comedy. O risco, enorme, compensou. Se o proposto é uma stand-up comedy, o que sai da mente do escritor israelita é mais do que isso. Uma piada é mais do que uma piada, e "Um Cavalo Entra Num Bar" (vencedor do Man Booker Prize) é bem mais do que um número de comédia.



6- "Krabat - O Moinho do Feiticeiro" (Sextante), de Otfried Preußler

Com uma história enraizada na literatura tradicional alemã, Otfried Preußler (1923-2013) tem em “Krabat - O moinho do feiticeiro” (Sextante) um livro para todas as idades.

Otfried Preußler conjuga arquétipos, folclore europeu, semiótica cristã e pagã num texto dotado de várias camadas interpretativas.




7- "A Lã e a Neve" (Cavalo de Ferro), de Ferreira de Castro

Ferreira de Castro exerce literatura no espaço que existe entre favorecidos e desfavorecidos, patronato e operários, evolução tecnológica e mão-de-obra.
Em "A Lã e a Neve", a adaptação do homem às novas tecnologias de tecelagem não se faz sem dor. Do pastoreio às fábricas, são as ilusões de uma vida melhor que vão sendo destruídas. Mais um grande livro de um dos melhores romancistas portugueses.




8- "Cair para Dentro" (Abysmo), de Valério Romão

O mundo de Valério Romão é o mundo da poesia, é o mundo da filosofia. Estes são também os mundos de Eugénia. Literatura e metaliteratura numa história tão próxima da vida quotidiana, marcada pela doença, pela dor, pelo esquecimento benigno e maligno. "Autismo", "O da Joana" e "Cair para dentro" inscrevem na literatura portuguesa contemporânea uma voz inconfundível.  





9- "No Jardim do Ogre"(Alfaguara), de Leila Slimani

Adèle solta-se dos atilhos da moralidade e entrega-se à pulsão sexual que o seu corpo impõe. Casada, não se inibe de usar o corpo, o seu e de outros homens, para satisfazer a insaciabilidade. Seduzido o parceiro e dominado pelo sexo, Adèle perde o interesse e embeleza-se, como predadora, para escolher e dominar o próximo parceiro sexual. Tudo o que quer é sentir-se desejada. A banalidade dos outros entedia-a. A inciativa executa-se em ataques predadores em busca de sexo casual e fortuito. Com o marido, Adèle é inócua, sem opinião e, segundo o ele, tão banal como qualquer pessoa.  “Os homens vão pensar que é malandra, leviana, fácil. As mulheres vão rotulá-la de predadora, as mais indulgentes dirão que é frágil. Todos estarão enganados” Um livro na linha de "Canção Doce": pungente, perturbador, hipnótico



10 -"Miguel Strogoff" (E-Primatur), de Jules Verne

Uma boa história leva-nos muito longe.  
É esta premissa de Jules Verne (1825-1905) que impele Miguel Strogoff a percorrer milhares de quilómetros. Essa viagem, com todas as suas atribulações, prende o leitor da primeira à última página.
O primado da história não afasta o texto das qualidades literárias. O ponto de vista do autor (sempre presente, seja qual for a opção) é um instrumento narrativo. De uma forma muito simplificada, podemos dizer que Verne privilegia o conteúdo em detrimento da forma. O leitor caminha no dorso das suas palavras ao lado dos personagens que entram e saem conforme a necessidade narrativa.








sexta-feira, 6 de junho de 2014

"A bíblia de Lôá" (Tinta-da-China), de Dulce Maria Cardoso e Vera Tavares



O Louvor à criação.

Dulce Maria Cardoso (texto) e Vera Tavares (ilustrações) conjugaram esforços e competências na produção de um belo, sensível e rico texto literário.
“A bíblia de Lôá” (Tinta-da-China) é o nome de uma colecção composta por vários episódios referentes a momentos essenciais da Bíblia Sagrada. “Lôá e a véspera do primeiro dia” e “Lôá perdida no paraíso” são os dois primeiros volumes e cobrem o período bíblico deste a Criação do Mundo até à Expulsão do Paraíso.

A simplicidade dos dois livros é ilusória. Na verdade, as duas obras conseguem abranger diversos tipos de leitores devido à abertura a interpretações plurais detentoras de maior ou menor profundidade. A abordagem ao texto tanto pode ser de simples fruição como de leitura assistida ou mesmo de âmbito académico, em sala-de-aula. Os dois volumes são enriquecidos, no seu final, com propostas de abordagem pedagógica ao texto literário.
Motivados por esse lado pedagógico, os leitores poderão analisar, entre outros aspectos importantes, a construção sintáctica (predominam as frases curtas), a aquisição de novos traços semânticos (Louvor, Loa> Lôá) e a formação de neologismos (pára isso>; paraíso) em 2 textos reveladores da mestria da escritora portuguesa. Poderão, também, compreender que as ilustrações de Vera Tavares revelam-se, tal como o texto, de uma perspicaz e complexa riqueza simbólica.
A alegoria nas histórias da menina Lôa é enriquecida com o ponto de vista feminino das duas autoras. A menina é a deusa que, suspensa num estado febril, desenha um mundo no seu caderno para, num sopro iniciático, espalhar e divulgar as suas criações. ELA é a criadora do significado e do significante.
 No primeiro episódio, ou volume, intitulado “Lôá e a véspera do primeiro dia”, Lôá, que pode ser um anagrama de “Olá” ou significar “cântico em louvor dos santos, ou de Deus, ou da Virgem”, é a matriarca de um mundo imaginado, desenhado num caderno, cada vez mais complexo.
Tudo começa nesse sublime acto criativo em que, a partir do nada simbolizado pela folha em branco, ela responde ao desafio de Sôssô, um eco que reflecte (e não repete) o que se lhe diz. A partir daqui, Lôa, talvez por metonímia com Dulce Maria Cardoso e Vera Tavares, vive perdida no mundo por si criado.
No 2º episódio, nasce Élô como Adão, homem primeiro no mundo. E com ele nasce a noção de culpa, de escolha e divergência. Tal como Adão, Élô rebela-se contra o criador. A menina-deusa perde, inevitavelmente, o domínio sobre a sua criação. Eló segue o seu caminho acompanhado de Élá, Eva criada à sua imagem..
A polissemia da palavra “reflectir”, repetida por Sôssô, é utilizada como matéria-prima na construção da visão das personagens. A reflexão narcísica leva à criação. Posteriormente, a interpretação de Élô sobre o mesmo acto ou objecto é diferente. A visão da criadora é diferente da visão da criatura. Se para o objecto lápis diz-se “Lápis”, para Élô, que vê o reflexo, o objecto tem o nome de “Sipal”. A visão de Élô é uma tradução daquela realidade.
Este pormenor é mais importante do que pode, numa primeira análise, parecer. Toda a criação de Lôá é o seu reflexo; tem as suas qualidades e defeitos. Assim como toda a criação é uma projecção do seu autor.

Os dois volumes de “A bíblia de Lôá” são um louvor à criatividade, seja ela artística ou divina.
Dulce Maria Cardoso e Vera Tavares ironizam com a ideia de um demiurgo platónico. A mulher, ventre da criação, detém e aplica o seu poder demiurgo.
Em “A bíblia de Lôá”, o poder criativo é feminino.

Mário Rufino


Mariorufino.textos@gmail.com

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