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segunda-feira, 6 de junho de 2016

Festival Literário da Gardunha 2016



O destino especial dos portugueses



No segundo dia do Festival Literário da Gardunha, Dulce Maria Cardoso, Pedro Mexia, Mário Zambujal e o professor Alexandre Manuel (moderador) participaram na primeira “Mesa Redonda”, no Teatro Clube de Alpedrinha.

O Festival Literário da Gardunha começou no Auditório Moagem, no dia anterior, e continuou fora do Fundão, no Teatro Clube de Alpedrinha.
A paisagem envolvente já promete as desejadas cerejas. Os caprichos da Natureza atrasaram a produção deste ano.
Dulce Maria Cardoso, que esteve em residência literária ao abrigo do festival, revelou que a cereja era vangloriada em Angola, durante a infância da autora.
Devido à sua delicadeza, a cereja chegava mirrada e pouco saborosa a um país onde os frutos são luxuriosos. Mesmo assim, os portugueses comiam o fruto vindo da sede do Império como se fosse de sabor e aspectos raros.
As experiências e imagens coleccionadas na infância são matéria-prima para a criação literária da autora de livros como “O Retorno”, “Campo de Sangue” ou “Os Meus Sentimentos”.
“Eu ainda cantei hinos ao Império, na escola”, afirmou.
A mistificação do Império era algo muito presente.
“Tudo isto me foi vendido pessoalmente”.
Para Dulce Maria Cardoso, os portugueses pensam ter um destino especial; é algo que já vem dos Descobrimentos. Aos poucos, a História vai sendo descoberta.
“Seis Milhões de africanos foram deslocados para o Brasil”.
A versão actual ainda é dominada pela ficção. Só mais tarde teremos ensaios e estudos que permitirão saber a verdade.
“Fomos aos rio de Meca, Pelejamos e roubamos”, disse a autora citando Gil Vicente.




Pedro Mexia, actual consultor para a cultura do Presidente da República, disse que para os portugueses a viagem é uma espécie de justificação. É uma forma de autodescoberta.
Os portugueses procuraram na viagem (e na expansão) uma forma de contrariar a pequenez geográfica. A viagem transformou-se num desígnio.
A desintegração do Império marcou Portugal. A pequenez geográfica originou uma ferida narcísica, característica não partilhada por Inglaterra, cujo império também se desmantelou.
Segundo Pedro Mexia, a crítica à expansão aparece muito cedo na literatura portuguesa. Sá de Miranda, Gil Vicente e Camões são mordazes. “Auto da Índia”, de Gil Vicente, é particularmente violento. No entanto, existe também no ser humano um impulso para a descoberta de o Outro, sem intuitos marcados pelo egoísmo.





Mário Zambujal chegou ao Teatro Alpedrinha “fresco de paisagens”. Antes da “Mesa Redonda”, o autor de “Crónica dos Bons Malandros” esteve num colóquio sobre vinhos na região do Douro. Confessou ter feito todas as provas de vinho.
Mário Zambujal não se sente tentado a escrever sobre paisagens, pois vê-as como inertes. As paisagens humanas são-lhe mais entusiasmantes.
“Viajei muito no tempo em que se viajava pouco. O que nos encanta é a novidade e a surpresa. Isto vai-se perdendo”
O escritor confessou que quando está no estrangeiro quer voltar para Portugal.
“Sou um portugalão. Sou mesmo daqui. Adoro estar aqui.”
Segundo Mário Zambujal, a viagem só é perfeita quando a cabeça está a observar o que os olhos vêem.
O segundo e último dia de viagem do Festival Literário da Gardunha viria a voltar ao Fundão para, depois de várias “Mesas Redondas”, terminar com a Conversa Cruzada entre Tiago Salazar e Clara Ferreira Alves sobre viagens.



Festival Literário da Gardunha iniciou a sua 3ª viagem



Festival Literário da Gardunha iniciou a sua 3ª viagem



A 3ª edição do Festival Literário da Gardunha começou, oficialmente, no dia 21 de Maio.
Gonçalo M. Tavares, Ana Margarida de Carvalho, Fernando DaCosta e Margarida Gil dos Reis (moderadora) foram os protagonistas da primeira “Mesa Redonda” do festival.
Após a Conferência de César António Molina, antigo ministro da Cultura de Espanha, os três autores portugueses conversaram, com maiores ou menores desvios, dentro do mote proposto para esta edição: “Escrever a Paisagem”.

Gonçalo Tavares vê a energia humana como algo de muito atraente. Depois de estar isolado a escrever, o autor de “Uma Viagem à Índia” precisa de ter pessoas à sua volta.
“Se a paisagem não incluir seres humanos, entedia-me”.
O indivíduo contemporâneo limita-se a passar repetidamente pelos mesmos lugares sem qualquer observação do que o rodeia. A repetição desse trajecto desenha uma figura geométrica no mapa. É o traço deixado pela rotina. Além da vertente concreta e geográfica da viagem, a deslocação do indivíduo é também formada por uma variável: a velocidade.
A linha recta, que indica o caminho mais curto e mais rápido, tornou-se uma obsessão. Esta realidade elimina o gozo de viajar. Hoje a viagem começa e acaba no ponto final, ou seja no destino.
Antes do vício em velocidade, a viagem era o trajecto entre o ponto de partida e o ponto de chegada. Daqui resulta o interessa do autor pelos situacionistas e pelo conceito de desvio. Sair da forma geométrica e reduzir a velocidade permitem que o indivíduo repare. Se uma pessoa viaja mas continua com a atenção no local de partida, em verdade não viaja.
Fernando Dacosta, autor de “Viagens Pagãs” (Parsifal), lembrou as histórias trágico-marítimas. Nessa época, os reis mandavam embarcar pelo menos um cronista em cada caravela. Era o “registador de factos”, capaz de grandes descrições dos costumes e das paisagens.
A tradição da viagem na literatura portuguesa prolonga-se no século XIX com “ Viagens na Minha Terra”, de Almeida Garrett, entra no século XX com “As Ilhas Desconhecidas”, de Raúl Brandão e, já no século XXI, prossegue com “Uma Viagem à Índia”, de Gonçalo M. Tavares.
Há uma característica fundamental no pensamento do homem português, para Fernando Dacosta: Portugal não é o centro do mundo.
Em consequência, o português sente o apelo pela viagem.
A vontade de viajar tanto pode ser mental, como a do sedentário Fernando Pessoa, ou mais física, como a de Padre António Vieira e Luís Vaz de Camões.


Ana Margarida de Carvalho, que viria a apresentar o seu novo romance no Festival Literário da Gardunha, afirmou que escrever é estar parada e isolada num sítio.
“Que importa a fúria do mar” (Teorema) foi construído através da investigação e não através de uma viagem a Cabo Verde e ao Tarrafal. As possíveis incoerências factuais não são relevantes. Na ficção a verosimilhança é muito mais importante do que a verdade.
A viagem tem várias declinações. O Festival Literário da Gardunha promoveu desvios aos hábitos dos habitantes desta região. O Auditório Moagem, no Fundão, recebeu muitos interessados em fugir da rotina através da literatura.


MR




sábado, 11 de julho de 2015

Entrevista a Ana Cássia Rebelo


Ana Cássia Rebelo: Vencer a morte através da escrita


Ana Cássia Rebelo conhece os seus limites. Aos 46 anos, já tentou cortar a linha da vida tecida pelas três Moiras, figuras mitológicas responsáveis pela Humanidade. O blogue «Ana de Amsterdam» (cujo nome advém de uma canção de Chico Buarque) é o espelho desse desespero. Mas não só. A autora nascida em Moçambique diagnostica a hipocrisia de uma sociedade machista e procura reconquistar para a mulher a importância exigida.


Ana Cássia Rebelo analisa-se e fala sobre a condição da mulher, do sexo, da maternidade, de literatura, do seu emprego na banca, do seu divórcio e das banalidades diárias que preenchem a sua vida. Sem autocomiseração e com a noção de que alguns dos problemas são comuns a muitas mulheres caladas pela vergonha.


Do seu blogue nasceu um livro com o mesmo nome. «Ana de Amsterdam» (Quetzal), com uma selecção de textos feita por João Pedro George e pela autora, é literatura construída com destroços. O livro resulta da quantidade de seguidores e da qualidade literária dos textos. A autora tem vindo, ao longo dos 9 anos de existência do seu diário online, a criar empatia, comoção e constrangimento. A naturalidade com que fala dos assuntos mais escondidos é desarmante. Submete o homem ao seu bisturi. Quer castrá-lo sem piedade quando se mostra ordinário, mas também o elogia quando vê necessidade. Sem banalizar os temas nem cair no trivial, a autora conversou com o Diário Digital, no Festival Literário da Gardunha, sobre o sexo, a masturbação, a maternidade, a depressão e a literatura. Sempre de forma segura e desconcertante. 
Parece que nem Zeus se atrevia a interferir na ordem tecida pelas Moiras. Atreva-se, caro leitor, a entender a (des)ordem de «Ana de Amsterdam». Vale a pena.


Estou a entrevistar uma escritora ou uma blogger?
Tenho dificuldade em responder a essa pergunta. O que faço é escrever num blogue. Por enquanto, é o sítio onde me sinto confortável a escrever. Tenho sempre a tentação de publicar no blogue todos os textos que escrevo e a pretensão de que estes tenham um cunho literário. É consciente e assumido. A linguagem dos blogues é efémera, mesmo que depois se façam colectâneas de textos. Eu quero que os meus textos permaneçam. Continuo a ter muito desconforto a identificar-me como escritora. A literatura é importante na minha vida. Tenho um amor profundo a alguns escritores. Sinto-me ainda muito de fora, sobretudo leitora.


No livro e no blogue tiveste a pretensão de reavaliar o papel da mulher na maternidade e no sexo?
Não. Eu não quero ser voz de ninguém. Escrevo sobre mim e nisso sou narcísica. Os textos do blogue são confessionais. Nunca tive a pretensão de estar ali a reflectir o papel da mulher na sociedade portuguesa. No entanto, a verdade é que os ecos que tenho tido de quem se aproxima de mim são de quem passou pelo mesmo. Acontece muito as pessoas dizerem: “ leio os teus textos e parece que são sobre mim.” Há essa identificação, mas não fiz nada conscientemente para que isso acontecesse. 


Há uma entrada no teu blogue em que dizes o seguinte sobre a dor: “De tão assumida, escancarada, exposta, perdeu impacto, tornou-se banal, simplesmente maçadora. Não devia impressionar, ou preocupar ninguém. Faz parte de mim.” 
No entanto, entre milhares de blogues, “Ana de Amsterdam” é muito seguido e chega a livro. Como é que se explica isto?
É bom espreitar pela fechadura. Ficciono alguma coisa, mas parto sempre de alguma coisa real. Apesar do desconhecimento e incerteza de se saber o que é verdade ou ficção, está ali uma janela um pouco aberta para a minha vida, que é uma vida banal de alguém que se levanta todos os dias, leva as crianças à escola, tem um trabalho das 09 às 17. Mas, depois, há o resto, uma certa profanação da minha própria intimidade.


Li o seguinte no blogue “é tudo gente morta”:
“Se fosse um aprendiz, quem seria o seu mestre?
[A tua resposta] Tinha de ser uma mulher. Recuso-me a aprender seja o que for com um homem.”
A que se deve esta recusa?
Muitas vezes fala-se da coerência como sendo uma virtude extraordinária. As pessoas que permanecem fiéis, toda a vida, a determinadas ideias são extremamente burras. É importante mudar. As nossas atitudes e reacções são condicionadas por aquilo que vivemos e aprendemos. Na altura em que dei essa resposta, eu era profundamente ressentida em relação aos homens porque vivia um casamento péssimo. Queria divorciar-me, mas o meu marido não queria. O amor dele era uma prisão. Odiava o meu marido. Agora já não odeio, passaram muitos anos e ultrapassámos uma série de coisas. Mas, nessa altura do divórcio, odiava o meu marido e todos os homens. Isso fazia-me dizer os maiores disparates. Hoje, não penso assim. Já não advogo esse feminismo bacoco, primitivo, ressentido, estúpido. Mudei de opinião. Mudo constantemente de opinião, geralmente em função das leituras que faço sobre determinado tema. Quando vejo essa resposta, acho-a disparatada, mas estou a ver-me há uns anos a responder assim.
 

Achas que hoje o homem ainda quer dominar o corpo e o pensamento da mulher?
Lembro-me da discussão sobre a interrupção voluntária da gravidez, da maior precariedade na situação profissional…
Somos tratados de forma igual na legalidade do papel. No entanto, entre a protecção legal e a maneira como a mulher é socialmente encarada e tratada há ainda muito a fazer. Em relação à sexualidade, que é uma questão que me interessa porque gosto de sexo e acredito que não há realização pessoal sem realização sexual, penso que a sexualidade feminina continua a ser um grande tabu. Ouves falar da impotência masculina, com alguns constrangimentos, mas ouves falar. Vês medicamentos. E da frigidez feminina? Fala-se? Vês alguém falar? Vês anúncios? Vês alguma mulher a dizer que vai para a cama e o seu corpo não “funciona”, não sente, não deseja? E por que é assim? Porque se continua a pensar que a sexualidade feminina é algo menor, ao contrário da sexualidade masculina. A mulher não sente prazer? Paciência…Muitas vezes são as próprias mulheres as primeiras a não assumir a sua inapetência sexual.


Desde Platão até Kant, aproximadamente, que o sexo está vinculado à procriação. Achas que ainda existem resquícios desses princípios?
Tenho família goesa. O meu pai é goês e católico. A sociedade católica goesa exerce ainda uma grande importância na vida das pessoas. A doutrina da igreja é levada à letra. Não tenho nada contra as religiões. Não tenho fé, não acredito em Deus e sinto-me livre por não acreditar. Em Goa, tenho primos da minha geração que, como eu, têm formação superior, percursos idênticos, mas que têm essa estranha visão de o sexo ser para procriação. Em Portugal, no mundo ocidental, não será assim, mas o sexo continua a ser um tema muito desconfortável para muita gente. Mais facilmente se vêem cenas de violência extrema do que cenas de sexo. Na televisão, se aparecer uma cena de um homem na cama com uma mulher, tu afastas os teus filhos e dizes “não é para a tua idade”. É pornografia ou é erótico. Se aparecer uma cena em que alguém mata outra pessoa com violência, tu deixas o teu filho ficar. O sexo ainda tem a conotação de proibição, de sujo, de uma coisa que se esconde.


Dizes não acreditar em Deus, mas falas muitas vezes, no teu blogue, em ir à Igreja. “Ana de Amsterdam” é um confessionário. Tens a literatura como religião?
Talvez. Através da literatura eu transcendo-me. Vou muito à Igreja de Nossa Senhora de Fátima, que fica perto do meu trabalho. É bom ler na igreja, há silêncio, posso recolher-me e ler em sossego.


O binómio amor/sexo faz sentido? Uma implica a outra?
O amor e o sexo? Ui! Não, claro que não. Sexo é bom, com ou sem amor. Assim, como o amor é bom, com ou sem sexo.


O sexo é assunto transversal ao teu livro e ao teu blogue. Em “Pietá” e em “Seda libanesa” falas da masturbação. A eliminação do filtro entre ti e a escrita é uma luta que tens ou acontece naturalmente?
Acontece naturalmente.

Não pensas que é melhor guardar isto ou aquilo para ti?
Não, não penso. Qual é o problema de falar de masturbação? Tristes os que não se masturbam. Tenho alguns filtros. Por estranho que pareça, tenho algum pudor em expor os meus filhos. Isso é o que me preocupa mais, mas não sei bem como fazê-lo, às vezes.

Em “linfoma”, escreveste “é doloroso ler o que escreves, explicou ontem a minha mãe ao telefone”. Preocupa-te a avaliação feita pela tua família, seja a tua mãe ou os teus filhos?
Eu sou depressiva desde os 20 anos. Ao longo da vida, tive altos e baixos. Houve períodos em que me fui completamente abaixo. Durante muito tempo vivi numa solidão muito grande porque tinha vergonha de assumir isso. As pessoas diziam-me “porquê? És uma mulher bonita, inteligente, tens filhos, tens um emprego. Não tens razão para estar assim.” Isso exercia sobre mim um grande mal-estar. Interrogava-me por que me sentia assim. Sentia vergonha e culpa. Sofria em silêncio. Não é uma dor qualquer, porque é uma dor profunda, física, que te colhe completamente e te desespera. A partir do momento em que comecei a escrever sobre a depressão, pensamentos suicidas e tentativas de suicídio de alguma forma o meu processo de cura, que tem vindo a evoluir porque encontrei o psiquiatra certo e comecei a fazer psicoterapia, começou a dar resultados. Claro que isso tem consequências. Os meus filhos não lêem o meu blogue, mas entretanto já leram o livro. Os meus pais e a minha irmã lêem e muitas vezes sentem-se desesperados. Os meus pais têm de estar preparados para isso. Em relação aos meus filhos, é mais complicado. Quando o livro saiu, tive de falar e assumir uma série de coisas e fi-lo de uma forma muito directa. Eles sabem agora que a mãe é depressiva, vai a um psiquiatra, já se tentou suicidar. Sabem também o meu amor por eles é incondicional e que é esse amor que muitas vezes me salva. Curiosamente, os meus filhos não têm a ideia da mãe como uma pessoa frágil. Precisamente ao contrário. Têm a ideia de que a mãe tem superado e seguido em frente.

Foi uma forma de pedires ajuda e de criares alguma coisa dessa destruição toda…
Há uma máxima do hinduísmo que diz ser preciso destruir tudo para se poder construir de novo.

“Como se mata uma amiga, a melhor, que vive dentro de nós?”, escreveste. Conseguiste matar a melhor amiga que vive dentro de ti?
Não, não. A minha depressão é crónica. Eu nunca me vou livrar dessa minha “melhor amiga”. No entanto, há maneiras de me relacionar com ela e de não deixar que ela tenha um ascendente sobre mim. Eu já conheço os sinais todos. Sei quando ela vem, percebo logo. E também sei, mesmo durante aqueles períodos de crise profunda, que ela tem um carácter transitório. Esse sentimento de angústia profunda chega e depois vai-se embora.


Em “libélulas”, afirmas: “(…) sou interessante, é verdade, apesar de isso resultar, em parte, da psicose de que padeço”
Pensas que a tua criatividade está ligada a esse estado emocional?
Tenho pensado muito sobre isso. Vou manter o blogue, é uma forma de diário. Li diários de vários escritores como Virgínia Woolf e tantos outros. É uma boa prática. Obriga-me a escrever, disciplina-me. Tenho aquele compromisso. No entanto, gostava de me libertar um de mim própria. Nesse sentido o meu estado de espírito deixa de ser decisivo naquilo que escrevo, sendo certo que podemos sempre escrever sobre os outros escrevendo sobre nós.

Em “Toutinegras” falas de um livro teu. Dizes assim: “escrevi um livro que é uma grande merda. Disse-o eufemisticamente o editor.”
 Isto é altamente sarcástico em relação a ti própria…
Temos que ser um pouco sarcásticos em relação a nós próprios. Não há paciência para aqueles escritores cheios de si próprios. São insuportáveis. Não consigo estar ao pé dessas pessoas. Também não gosto do sentimento de autocomiseração. É importante rirmos de nós próprios.

Sentes-te mais preparada agora?
Não, não me sinto.

Há entradas no teu blogue que são contos. Li, também, as narrativas curtas “Translucidez” (2012), “Os pés de Rudolf Nureyev” (2010) e “Enanito” (2012), em diferentes blogues.
Pensas que é um caminho para a tua escrita?
É o caminho que eu gostaria de seguir. Escrever um romance exige um esforço que eu talvez não tenha. Gosto de romances, mas também gosto muito de ler contos. Ando sempre com um livro de Tchekov que encontrei numa edição muito antiga, em papel parecido com papel-bíblia. É óptimo, porque a qualquer momento posso pegar no livrinho e lê-lo.


http://diariodigital.sapo.pt/news.asp?id_news=781447

 

terça-feira, 23 de junho de 2015

Entrevista com Susana Moreira Marques no Festival Literário da Gardunha




Susana Moreira Marques procurou olhar a morte nos olhos. Nas aldeias de Trás-os-Montes, a autora de “Agora e na hora da nossa morte” (Tinta-da-China) acompanhou uma equipa de cuidados paliativos. Nas muitas visitas, falou com pessoas em fim de vida. Os testemunhos foram registados, em livro, com invulgar sensibilidade. Susana Moreira Marques presenciou e inscreveu a humanidade de quem parte, a saudade sentida por quem fica, a partilha do medo do desconhecido. São vozes em debate sobre a Grande Fronteira. São despedidas. E são as dores da própria autora. Tudo se envolve numa prosa avessa ao melodrama e sintomática de uma preocupação em registar as histórias de “heróis comuns”.
“Os outros somos nós”, pode-se ler no livro. E daí talvez resida a capacidade de as histórias nos comoverem, mas também de nos amedrontarem. “Agora e na hora da nossa morte” reflecte a precariedade dos entrevistados, o choque emocional da autora e a mortalidade dos leitores.
Nós seremos os outros.
O Diário Digital conversou com a jornalista no Festival Literário da Gardunha, entre cerejeiras e castanheiros, sobre este seu livro que foi considerado por vários críticos literários, em 2012, como um dos melhores do ano.
No site andotherstories.org, li esta frase sobre ti: “A journalist with a poet´s sensibility, a poet with a journalist´s clear eye”. Com “Agora e na hora da nossa morte” estamos perante o “new journalism”?

“And Other Stories” é uma editora inglesa independente que publica muita literatura estrangeira, em inglês. Vai publicar o meu livro no Reino Unido, em Setembro, e nos Estados Unidos, em Outubro.
Essa descrição foi feita por alguém da editora ou pela tradutora. A dada altura, eles chamam ao meu livro “reportagem filosófica”, algo que eu nunca tinha ouvido, mas eu identifico-me com a descrição, de facto. É possível que o meu livro tenha mais em comum com uma prosa poética do que com um romance.
Os jornalistas no “Novo Jornalismo” chamavam aos livros de não-ficção que faziam “non-fiction novel”. Foi uma influência para mim, como foi para todos os jornalistas que querem fazer um tipo de jornalismo que conta histórias. O “Novo Jornalismo” é incontornável e é sempre uma inspiração. Nele podem-se ir buscar exemplos de autores que trabalharam com a realidade, sem ter inventado nada, e conseguiram fazer obras literárias extraordinárias, com capacidade de comover o leitor, de deixar lastro na própria sociedade e até na história da literatura. Curiosamente, de todos os autores do “Novo Jornalismo”, o que mais me influenciou é o menos conhecido, ou conhecida, pois é uma mulher, a Joan Didion. Em Portugal, ela tem só um livro publicado (“O ano do pensamento mágico”), que é uma memória da morte do marido dela. Nos anos 60 e 70, época do “Novo Jornalismo”, ela escreveu muitos ensaios de estilo pessoal ou reportagens pessoais, que eu descobri há alguns anos e que foram para mim uma revelação. “Pessoal” talvez não seja a palavra. É uma escrita muito íntima, que traz o leitor para a intimidade da própria autora de uma forma diferente da dos outros autores do “Novo Jornalismo”.
Eu acredito no poder da não-ficção em ser literatura. Tenho pena que em Portugal isso tenha ainda pouco peso, ou exista pouco.
É difícil “catalogar” o teu livro…

Tive receio de que ele não resultasse. Tive medo de que as pessoas que fazem ficção, ou mesmo os críticos literários, pensassem que isto não era suficientemente literário e que as pessoas do jornalismo pensassem que isto era demasiado literário. Ou seja, que ficasse uma coisa no meio sem agradar nem a gregos nem a troianos. Felizmente isso não aconteceu. Estando nessa fronteira, as pessoas apreciaram o livro. Quando me sentei para escrever não pensei em escrever um livro difícil de catalogar, com uma forma diferente. Não tinha esse objectivo. A forma apareceu-me naturalmente como a certa para aquilo que eu queria contar e para utilizar da melhor maneira o material que tinha. Não tinha intenção de quebrar géneros.
Tinha a ambição de fazer qualquer coisa que ficasse. Muitas vezes, quando trabalhamos com a realidade no jornalismo, as coisas são muito perenes, pois estão muito dependentes da realidade daquele momento. Percebi que tinha potencial naquelas histórias para fazer qualquer coisa que ficasse, pelo menos um pouco mais de tempo, e que fosse um livro para fazer pensar sobre a morte. Tinha ambição nesse aspecto, mas não tinha a ambição de fazer algo transgéneros. Queria fazer algo literário no sentido de ter um valor como texto. Muitas vezes, o problema da não-ficção é que só é visto pelo conteúdo, pelo impacto que pode provocar, pela história. Raramente é apreciado o trabalho da linguagem. Eu queria fazê-lo. E esse trabalho talvez não seja diferente do de um ficcionista. Todo o trabalho de escritor está lá, sendo que o material é o real. O trabalho da linguagem em si é igual. Os instrumentos são os mesmos: as palavras, os ritmos de narração, a forma mais longa ou mais curta...
Vou citar algumas frases do teu livro para contextualizar a pergunta:
“Manual de Sobrevivência:
3- Fazer das pessoas personagens
4- Não deixar de chorar pelas personagens”
Foi a estratégia que adoptaste para manter distanciamento e objectividade?

Sim, por um lado foi uma estratégia de sobrevivência para poder escrever sobre pessoas que estavam a passar por situações muito duras. Quando se invadem momentos tão íntimos, em que as pessoas estão a sofrer fisicamente ou psicologicamente, tens de manter um certo distanciamento, um certo “sangue frio”. Por outro lado, não podes ser “frio”. Seria quase desumano não te comoveres. Não te podes deixar de comover porque isso é a tua humanidade.
Tem também uma outra leitura, agora em relação ao processo de escrita em si. Nós para podermos escrever bem sobre pessoas reais temos que as transformar em personagens. Temos que pensá-las como personagens. Os leitores não conheceram aquelas pessoas, por isso temos que descrevê-las e torná-las reais, tal como personagens de um romance. Nesse sentido é preciso pensá-las desta forma, mas sem deixar de chorar por elas porque as suas histórias são verdadeiras e não queremos que se tornem figuras menos próximas de nós.
“No cemitério, uma fotografia, e às vezes só um nome. Os nomes sobrevivem, mas nunca foram os nomes que nos fizeram únicos”
Foi por isso que deste voz às pessoas no teu livro? Passaste do discurso indirecto para o directo.

Em parte sim. Queria dar voz a essas pessoas que nunca têm voz. Há uma parte do livro antes da entrevista com o senhor João e a senhora Maria em que eu falo do meu avô.
Os meus avós tiveram um percurso típico dos portugueses daquela época. Eram pessoas de famílias sem grandes posses, em pequenas aldeias. Os avôs tinham a 4ªclasse, as avós nem isso tinham. No início dos anos 50 emigraram para Angola como milhares de outros portugueses.
Sempre quis prestar-lhes homenagem.
É um pouco essa ideia: dar voz a estas pessoas que nunca tiveram direito a história. Nada fica deles quando desaparecem.
Por outro lado, apercebi-me, também, que as pessoas diziam coisas extraordinárias e lindíssimas. Numa região como Trás-os-Montes, usam-se termos que só se dizem naquele sítio. Quis deixar esse registo e, nesse sentido, o livro é um documento. Por vezes, vejo os ficcionistas a construirem vozes inteiras. Eu percebi que tinha um material incrível que nenhum ficcionista conseguiria recriar.
De onde veio a necessidade de olhar a morte nos olhos? Estavas grávida na altura, se não me engano…

Sim, estava.
Há um paradoxo muito interessante. Viste as pessoas no fim, enquanto tu própria estavas a gerar uma vida.

Fiquei grávida quando já tinha começado a trabalhar para o livro e durante toda a gravidez estive a trabalhar neste livro.
Indo à primeira parte da tua pergunta: este livro foi um acaso. Interessavam-me os cuidados paliativos porque eu tinha tido uma experiência bastante forte e não muito boa com a morte dos meus avós. Em 2010, perdi dois dos meus quatro avós num espaço de seis meses. Foi a minha avó materna e o meu avô paterno. E ambos tiveram uma “má morte”; ambos morreram sozinhos, sem a família junto deles. Isto foi algo que tive muita dificuldade em aceitar. Senti muita raiva e impotência por não ter conseguido fazer mais para ajudá-los nesses últimos momentos de vida. Isso despertou-me para a questão dos cuidados paliativos e comecei a perceber que muitas pessoas tinham passado pela mesma experiência com avós, ou pais, em que a partir de certa altura, por causa de doenças incuráveis ou prolongadas, há muita falta de apoio físico e psicológico. Uma amiga, que trabalha nesta área, disse-me que a Gulbenkian estava a fazer um enorme investimento nos cuidados paliativos, e eu fui entrevistar a pessoa responsável, o Director do Departamento de Saúde da Gulbenkian, para o jornal Público. Durante a entrevista, ele falou-me deste projecto-piloto de cuidados paliativos domiciliários para ajudar as pessoas a morrer em casa, nas aldeias, no Alentejo e em Trás-os-Montes.
Pensei em fazer uma reportagem. No entanto, a Gulbenkian já tinha a ideia de pedir a alguém que fizesse um trabalho que pudesse documentar aquele projecto, e sugeriu-me que lhe fizesse uma proposta para algo mais longo. Fui para casa pensar e depois propus fazer um livro. Convidei o André Cepeda para ir comigo. Ele fez as fotografias que aparecem na 1ª edição, uma co-edição entre a Gulbenkian e a Tinta-da-china.
Foi muito bom porque pude trabalhar com condições. Teria sido muito difícil fazer este livro sem dinheiro. Não se tratava só de estar em casa a escrever. Implicava fazer viagens e passar tempo com muitas pessoas. Fiz três viagens a Trás-os-Montes em momentos diferentes para acompanhar algumas famílias. Foi um privilégio enorme. É tão raro poder fazer um trabalho deste género com tempo!
Muitas vezes, as pessoas perguntam-me se não foi uma experiência muito dura, como é que eu aguentei fazer isso. Na verdade, foi muito menos duro do que eu imaginava que ia ser. A primeira viagem foi realmente muito dura, muito difícil. Cada dia, ia com uma médica e um enfermeiro e seguia a rotina deles; é um ritmo intenso, pois vão de aldeia em aldeia, de casa em casa. Eu chegava ao hotel depois de fazer 8 a 10 visitas a pessoas gravemente doentes ou mesmo acamadas, algumas a viver em situações de pobreza incríveis. Chegava completamente arrasada ao hotel.
Quando eu dizia, há pouco no debate, que a morte é real, é porque é um processo físico real; vê-se a degradação das pessoas. A morte passou a ter uma imagem para mim. Isso foi um choque, mas a partir do momento em que se tem esse choque e a morte passa a ser real, deixa de ser tão misteriosa e não mete tanto medo. Percebi que as pessoas quando estão numa situação limite vêem as coisas de outra forma: dão valor à vida e vêem o que é realmente importante.
Quanto ao facto de eu estar grávida, é verdade que supostamente as mulheres ficam mais sensíveis, mas eu senti que a gravidez me tornava ainda mais forte e capaz de enfrentar o trabalho que estava a fazer.
Essa rima entre estar a ver pessoas em final de vida e estar a dar vida, o facto de eu estar perante todo o ciclo da vida naquele momento, dava-me força. É de um enorme consolo: a vida acaba, mas recomeça.
Há várias tonalidades de medo no teu livro. Somos animais governados pelo medo?

Somos governados pelo medo, no nosso dia-a-dia. E não só pelo medo da morte. Temos medo de perder o nosso trabalho, ou de não estarmos à altura das nossas expectativas. Temos muitos medos. Quando se está numa situação limite, as pessoas não deixam de ter medo, mas é nessas alturas que mostram a coragem que têm. O ser humano tem uma capacidade de coragem e de aguentar sofrimento extraordinária. Nós somos cobardes e corajosos, permanentemente. Vamos vivendo as duas coisas a par uma da outra.
Há várias menções a Deus. O próprio título é parte de uma oração. A religião serviu de “intermediária” entre ti e as pessoas? A religião está presente nessas regiões?

Trás-os-Montes é um lugar onde a religião é muito forte. Existem aldeias que não têm quase nada, não têm correios, às vezes nem sequer um café, mas têm uma igreja.  As minhas personagens eram pessoas que tinham tido uma educação religiosa tradicional e que se apoiavam muito nessa fé. Havia muitas questões que eu me colocava, mas que eles não se colocavam precisamente porque tinham, sobre o que era o fim da vida, uma narrativa que vinha do que eles tinham aprendido em crianças. Há um momento bonito numa das entrevistas com um senhor mais velho, que tem 80 anos, em que ele diz assim a propósito da ressurreição de Lázaro: “Jesus também ressuscitou, e dizem que nós todos ressuscitamos, mas eles ressuscitam ao cabo de dois, três dias, e nós ao cabo de milhões de anos. O que eu aprendi no berço só no túmulo me esqueça. Os meus pais deram-me esta fé. É a que tenho. Parece-me que há qualquer coisa depois da morte. Tenho essa ideia. Tanto nos metiam medo com coisas! Para que nos andariam a enganar?”
Por outro lado, as pessoas de Trás-os-Montes – sobretudo a geração que viveu a ditadura e emigrou – aceitam a morte como aceitaram a vida, de forma estóica e sem grande questionamento: a vida é assim, é sofrimento, temos de passar por estes sacrifícios... Vivem a morte com essa resignação mas também com a naturalidade própria do mundo rural. O ciclo da natureza está sempre presente: morrer, renascer… Essa permanente visão da vida a acabar e a recomeçar - seja nas plantas ou nos animais - faz com que as pessoas tenham outra maneira de encarar a morte.
Eu não sou uma pessoa religiosa. No entanto, a morte coloca-nos a questão da existência e por mais que sejamos não-crentes não deixamos de ter a grande interrogação: Para que é que foi a nossa vida? O que é que acontece a seguir?
Dei por mim a dialogar com um Deus em que não acredito, mas não havia mais ninguém com quem dialogar.
“Os outros somos nós”.
Há uma parte no teu livro em que tu falas de uma certa maneira de mostrar amor que, segundo interpretei, parecia estar perdida para ti. Conseguiste encontrá-la no meio dessas pessoas e de situações tão difíceis?

Sim, consegui, mas depois voltei a perdê-la.
Vivemos na cidade e num mundo com muitos estímulos. É difícil focarmo-nos. Estas pessoas estavam num ambiente muito diferente: em aldeias com poucas pessoas, onde todos se conhecem e se entreajudam, onde as pessoas são muito unidas. Essa experiência, de passar tempo nas aldeias, foi muito forte para mim, vinda de onde estava a vir. Por outro lado, é em situações limite que percebemos o que é importante. Quando as pessoas estão à beira da morte, as pessoas percebem o que é importante. E o que é mais importante é o amor. Eu queria que o leitor fizesse esse caminho: olhar para estas pessoas e perceber que elas somos nós. O que lhes aconteceu não só nos pode acontecer como nos vai acontecer.
Claro que nós não podemos viver permanentemente com essa agudeza, essa capacidade de ver a essência. Seria o ideal, mas não é a nossa vida do dia-a-dia, porque nós estamos completamente assoberbados. Por vezes penso nisso. Aprendi muitas coisas que, entretanto, já esqueci.
Eu esqueço, mas o texto não esquece. Isso é o mais importante.
A tua vontade em falar dos cuidados paliativos, ou da questão dos imigrantes (conjunto de artigos para a “P2/Público”) vão ao encontro do que disseste na mesa de debate: Olhar a história por outro lado. Enquanto todos olham para o mesmo sítio, o jornalista observa um lado diferente.

Sim, identifico-me muito com essa ideia. Talvez tenha a ver, simplesmente, com a minha personalidade. Nesse aspecto não estou tão preocupada em captar a actualidade, ou o que está mais “quente” no momento. Procuro olhar para as situações que as outras pessoas não estão a olhar. Talvez porque me pareça importante, ou porque precise de procurar as minhas próprias histórias.
Tem a ver com a perenidade de que falaste?

Sim, sim… Tenho muita vontade de registar coisas que vão desaparecer e fazer com que elas fiquem. Grande parte da minha motivação para escrever talvez seja essa.
Neste momento estou a trabalhar sobre memórias de pessoas mais velhas, do tempo da ditadura. Interessa-me muito a história das pessoas comuns. Temos um país de heróis comuns que atravessaram momentos históricos difíceis e que viveram aventuras inacreditáveis.
Talvez esse trabalho até tenha começado neste livro, onde para além da morte aparece muito o fim de um estilo de vida e de uma forma de olhar o mundo. Sinto muita urgência em registar esse olhar


No Diário Digital:  http://diariodigital.sapo.pt/news.asp?id_news=778312

segunda-feira, 15 de junho de 2015

Festival Literário da Gardunha - Balanço


Gardunha






A Gardunha é terra de castanheiros e de cerejeiras. O verde pontilhado a vermelho espalha a sua sombra nas localidades. E os homens saem de casa de forma a viver da riqueza da terra. Colhem as cerejas para fruição de quem chega ao interior. É fruto merecedor do canto de um artífice como Eugénio de Andrade. As metáforas do poeta são janelas para o imaginário:
“ (…) Abrir os braços, acolher nos ramos/ o vento, a luz, o que quer que seja,/ sentir o tempo, fibra a fibra,/ a tecer o coração de uma cereja” (A uma cerejeira em flor)
A aragem e a sombra dos castanheiros do “Glamping Casa do Guarda”, a intimidade do “Teatro Clube de Alpedrinha” e a formalidade do “Auditório|A Moagem”, no Fundão, receberam, nos dias 23 e 24 de Maio, a 2ª edição do Festival Literário da Gardunha.
Diversos ficcionistas, poetas e jornalistas falaram sobre “Lugares Imaginários” através da ficção, da metáfora e do factual.
Apesar de não se terem confirmado as programadas contribuições de Carlos Vaz Marques, Ricardo Araújo Pereira, Eduardo Lourenço, João Tordo, Ferreira Fernandes e João de Melo, o festival conseguiu dotar de interesse a maior parte das mesas de debate.
Autores emergentes como João Pedro Ricardo (Prémio Leya), Ana Cássia Rebelo (autora de “Ana de Amsterdam”), Andréa Zamorano (“A Casa das Rosas”), Susana Moreira Marques (“Agora e na hora da nossa morte”), juntaram-se a escritores com produção literária longa e consolidada como Inês Pedrosa e Nuno Júdice.
Foram exactamente estes dois escritores que, acompanhados de Tatiana Salem Levy e Margarida Gil dos Reis (moderadora), participaram na primeira conversa.
Nuno Júdice gosta de imaginar as viagens dos outros. É devido a essa vontade que a sua poesia é dotada da imagética oriunda de lugares que nunca conheceu. Sente que pertence tanto aos lugares por onde passa, ou fica, como dos locais por onde viaja mediado pelo olhar dos outros. Os encontros com personagens e a passagem por lugares imaginários fazem dele um “turista acidental”.
A vontade de Nuno Júdice, que não sente ser essencial deslocar-se, é contrária à de Tatiana Salem Levy. A autora de “A Chave da Casa” (Prémio São Paulo de Literatura) e de “Dois Rios”, editado pela Tinta-da-China, afirmou necessitar da experiência real dos lugares. Não conseguiria, confessou, escrever “Budapeste”, como Chico Buarque o fez. A sua escrita é construída com a mistura de imagens de países, imaginação e de realidade. Os seus lugares são sempre uma soma de lugares. Para a escritora radicada no Brasil, a deslocação física pode não chegar a ser viagem; ir ao encontro do outro, do desconhecido, requer tempo e abertura.
Para Inês Pedrosa, que partilha a paixão pelo Brasil, a viagem essencial para o escritor é dentro da sua cabeça. Seriam as viagens interiores e exteriores de Pessoa a mediar o conhecimento adquirido por Inês Pedrosa sobre Lisboa.
Raquel Ochoa é da mesma opinião. O seu trabalho como romancista é imaginar.
As palavras são base de comunicação e fonte de imaginação. A autora de “A Casa-comboio” (Prémio Agustina Bessa-Luís) participou no debate com Valério Romão (autor de “Autismo”), Pedro Eiras (“Bach”), Ana Cássia Rebelo e Luís Ricardo Duarte (moderador).
Ana Cássia Rebelo, que foi entrevistada pelo Diário Digital, afirmou que os blogues e as redes sociais são um lugar imaginário, uma realidade paralela e de delírio.
Esse lugar imaginário foi o suporte para o seu blogue “Ana de Amsterdam”. As suas mudanças anímicas, principalmente as que a levam ao desespero, são registadas nesse lugar virtual.
Segundo Pedro Eiras, mudamos ao longo dos anos e continuamos a pensar que somos os mesmos. A grande utopia é a de pensar que estamos perante uma realidade que podemos transformar em palavras. A consciência do ser humano depende da linguagem. E é esta consciência, segundo Valério Romão, o factor ordenador do mundo e do universo para o ser humano.
João Ricardo Pedro em conversa com Manuel João Ramos e Fernando Paulouro Neves (moderador) contou ter passado a sua infância na região onde se encontrava. Filho do êxodo rural, o autor de “O teu rosto será o último” (Leya) recordou os avós que eram de uma pequena aldeia. Desta forma, o lugar imaginário de João Ricardo Pedro é a infância. Os dias passados na piscina de Alpedrinha eram o Paraíso. As histórias das gentes dessa terra, ouvidas na apanha da azeitona, foram o primeiro contacto com a literatura.
Toda a vida de Manuel João Ramos, antropólogo e autor de “Histórias Etíopes: Diário de Viagem” (Assírio & Alvim), andou à volta de lugares utópicos apesar de, conforme o próprio, ele ter uma vida sedentária.
De acordo com Tânia Ganho, “O passado é um país do qual todos nós emigrámos”. Esta citação de Salmon Rushdie enfatizou as próprias palavras da autora: “Tenho a noção de que, quando acumulamos muitas vidas, o passado torna-se uma ficção, um lugar imaginário.”
As personagens de Tânia Ganho têm consciência do seu desenraizamento. A autora de “A Mulher-Casa”, livro editado pela Porto Editora, procura dotar as suas personagens, essencialmente mulheres, de voz e identidade próprias. Essa noção de desenraizamento pode estar ligada às constantes mudanças de casa e de país da autora, no passado recente.
O passado de José Manuel Castanheira está em Alpedrinha, local onde decorreu o debate. Cada rua, pedra, lugar e pessoa faz parte do imaginário do cenógrafo. No Teatro Clube de Alpedrinha, local onde brincou, José Manuel Castanheira lembrou os dramaturgos que escreviam textos “de cordel”, todas as semanas, para exactamente esse teatro onde decorreu a mesa. De acordo com o cenógrafo, “a cenografia é a arte de invenção de espaços para qualquer interpretação”.
De acordo com Andrea Zamorano, que partilhou a mesa de debate com Tânia Ganho, José Manuel Castanheira e Rui Lagartinho (moderador), o Brasil tornou-se um lugar imaginário. A autora, oriunda do Rio de Janeiro, afirmou que o Brasil que existe hoje é diferente do Brasil recriado pelas suas memórias da infância e adolescência. Os locais, para Andrea Zamorano, são olhados através da biblioteca pessoal e, como tal, tornam-se pessoais e imaginados também.
A autora brasileira terminou a sua intervenção com a leitura de “Vou – me embora pra Pasárgada”, de Manoel da Bandeira.
A Pasárgada de Manoel da Bandeira, ou um outro lugar imaginado, foi provavelmente desejado como local de refúgio por algum do público presente na mesa menos interessante do festival.
O último debate do dia 23 foi o contraponto dos restantes cinco. Sob a moderação de Ricardo Paulouro Neves, a longa exposição de Gonçalo Salvado e Maria João Fernandes não permitiu que João Morgado, autor de “Vera Cruz” (Clube do autor), e Manuel Silva Ramos, autor de “Pai, levanta-te, vem fazer-me um fato de canela!” (A.23 edições), tivessem oportunidade para desenvolver as suas participações.
Manuel Silva Ramos ainda teve tempo para afirmar que o lugar imaginário dos portugueses é o cu-de-judas. Mas pouco mais. Não houve imaginação que resistisse. Teria sido a hora ideal para ir ver as cerejeiras do belíssimo “Camping – Casa do Guarda”.
Foi a antítese da mesa anterior, que contou com as participações de Susana Moreira Marques, António Valdemar e Rui Cardoso Martins.
O debate moderado por Fernando Paulouro Neves foi o espelho da qualidade do Festival Literário da Gardunha. Os “lugares imaginários” ficam mais afastados quando o factual impera. A jornalista Susana Moreira Marques, que foi entrevistada pelo Diário Digital, disse escrever para os lugares deixarem de ser imaginários. A autora de “Agora e na hora da nossa morte” (Tinta-da-China) afirmou que o seu livro teve a intenção de tirar a morte desse lugar imaginário.
O jornalista e escritor Rui Cardoso Martins, autor de “O osso da borboleta” (Tinta-da-China) ” tenta explicar pela ficção o que com ele se passou na infância e adolescência.
A fronteira entre realidade e ficção é tão ténue que o autor, quando cavalgou com índios norte-americanos, teve a sensação de estar a misturar essa realidade com os filmes de John Ford. Os livros e os filmes, áreas-primas da ficção, influenciam as experiências vividas, de facto.
Factos foi o que não faltou a António Valdemar, dono de memória e cultura prodigiosas.
Foram dois dias de debates a finalizarem um festival que, na realidade, já decorria desde o dia 18, com o início das residências literárias de Valério Romão, Tatiana Salem Levy e residência artística da fotógrafa Céu Guarda.
O espectáculo “Portugal, meu remorso”, com João Reis e Ana Nave (dia 23), a apresentação (dia 22) de “Desamparo” (D. Quixote), de Inês Pedrosa e do Lançamento de “Viagem a Itália”, de José Manuel Castanheira e Pedro Castanheira, no piquenique literário (dia 23), também fizeram parte do programa do Festival Literário da Gardunha.
É raro assistir a um festival literário com esta envolvência com a natureza. A organização aproveita e bem tudo o que área oferece.
A Serra da Gardunha (e circundante) foi lindíssimo “palco” para um festival que, ao 2º ano da sua existência, mostra qualidade suficiente para ir conquistando público.



Mário Rufino

http://diariodigital.sapo.pt/news.asp?id_news=774913


sexta-feira, 22 de maio de 2015

Festival Literário da Gardunha - texto de lançamento


Palavras e cerejas no Fundão

Por Mário Rufino











As palavras e as cerejas estão há muito unidas na sabedoria popular. Diz-se que as conversas vêm umas atrás das outras, sem se dar conta, fluidas e agradáveis. Durante os próximos três dias, a sabedoria popular será creditada pela literatura. Depois de uma bem-sucedida primeira edição, em 2014, o Festival Literário da Gardunha volta ao Fundão, terra da cereja e cada vez mais de literatura.

De 18 a 24 de Maio, os “Lugares Imaginários”, tema da 2ª edição, são descobertos pelos leitores e por diversos escritores.
Depois do “workshop Da estrada para o papel” orientado por Rui Pelejão, Jorge Flores e João Ferreira, nos dias 21 e 22 de Maio, Margarida Gil dos Reis finaliza o dia 22 com a apresentação de “Desamparo” (D. Quixote), de Inês Pedrosa, na Sala da Concha do Casino Fundanense (18:30). O lançamento do mais recente livro de Inês Pedrosa precede o início oficial do festival e a participação de cerca de 20 escritores em diversos debates
Posteriormente à “Sessão de Abertura” no dia 23, Tatiana Salem Levy, Nuno Júdice e Inês Pedrosa, com moderação de Margarida Gil dos Reis, iniciam (10:30, Auditório Moagem) o ciclo de debates do Festival Literário da Gardunha.

Ainda no dia 23 e no mesmo local, Valério Romão, Raquel Ochoa, Pedro Eiras e Ana Cássia Rebelo verão o seu debate (11:45) moderado por Ricardo Duarte.
O Glamping Casa do Guarda foi o local escolhido para o diálogo (15:00) entre Susana Moreira Marques, António Valdemar, Ferreira Fernandes, Rui Cardoso Martins, com moderação de Afonso Camões, e ainda para um outro debate (16:30) entre Maria João Fernandes, Gonçalo Salvado, João Morgado e Manuel da Silva Ramos, moderado por Ricardo Paulouro Neves.
Depois de Fernando Paulouro Neves apresentar (14:30) o livro “Viagem a Itália”, de José Manuel Castanheira e Pedro Castanheira, o dia termina com o espectáculo “Portugal, meu remorso”, de João Reis e Ana Nave, no Auditório Moagem (21:30).
No dia 24, o Teatro Clube de Alpedrinha recebe os dois debates do dia:
O primeiro (10:30) será moderado por Fernando Paulouro Neves e conta com a participação de João de Melo, João Ricardo Pedro e Manuel João Ramos. A manhã terminará com o debate entre José Manuel Castanheira, João Tordo, Tânia Ganho e Andrea Zamorano. A moderação será de Rui Lagartinho.
A “Sessão de Encerramento” (15:30, Auditório Moagem) terá a moderação de Carlos Vaz Marques e as participações de Ricardo Araújo Pereira e do Professor Eduardo Lourenço.
A proliferação de festivais literários, em Portugal, demonstra a capacidade construtiva de um país em grave crise financeira. 2015 tem sido e continuará a ser um ano de assinalável actividade cultural, no âmbito da literatura.

A Gardunha assiste à 2ª edição do seu festival literário. O Diário Digital, de igual forma que na 1º edição, estará presente para registar o essencial das mesas de debate e entrevistar duas escritoras com louvadas estreias na ficção nacional: Ana Cássia Rebelo, autora de “Ana de Amsterdam” (Quetzal), e Susana Moreira Marques, autora de “Agora e na hora da nossa morte” (Tinta-da-China).

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