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quarta-feira, 19 de abril de 2017

Fronteira- Festival Literário de Castelo Branco: " A pós-verdade em tempo de idiotas."


A 5ª edição do Fronteira- Festival Literário de Castelo Branco promoveu conversas sobre como a ficção e a realidade formam opiniões.  A pós-verdade foi a debate no dia das mentiras 



Há um acordo tácito entre o leitor e os jornais/jornalistas no primeiro dia de Abril: As mentiras são toleráveis. O consumidor de informação olha para a primeira página de um jornal com alegre desconfiança. Ali há uma mentira a querer passar por verdade. É um jogo praticado há vários anos. Por vezes, os mais incautos são levados a acreditar na história contada. No dia seguinte, a verdade é reposta. O incrédulo leitor percebe que caiu na armadilha.
No caminho para a Biblioteca de Castelo Branco, onde iriam ocorrer grande parte das conversas, várias papelarias expunham primeiras páginas. Depois de lidas, ficou a pergunta: Será que Centeno foi mesmo sondado para o lugar de Dijsselbloem? 
Rui Cardoso Martins, em conversa com o jornalista Hélder Gomes, acreditou na informação, num primeiro momento. Depois, percebeu que era dia das mentiras. Durante a conversa, percebeu-se que a dúvida ainda resistia.
O autor de "E se eu gostasse muito de morrer" afirmou que algumas das melhores expressões deste princípio de século foram inventadas por idiotas. Factos alternativos, por exemplo, foi uma frase utilizada pela primeira vez por Kellyanne Conways, Conselheira do Presidente, numa entrevista a "Meet the Press".
Neste dia das mentiras, ou "April Fools Day", Donald Trump foi considerado como o "Rei dos Idiotas", no rescaldo do tradicional desfile em Nova Iorque. Foi eleito de forma unânime.   
Ignorar a sua própria ignorância é um dos seus problemas, afirmou Rui Cardoso Martins. 
No desfile em Nova Iorque, Donald Trump foi representado por um boneco gigante sentado numa sanita com a frase "Make Russia Great Again".
Depois de a uma visita à Rússia, por causa de um romance que estava a escrever, Rui Cardoso Martins passou a compreender as diferenças entre os dois presidentes. Vladimir Putin não exibe a ignorância de Trump. A sua competência linguística é louvada pelos seus compatriotas, assim como a frequente citação de clássicos da literatura russa. 
O escritor pode criar factos alternativos. Essa função não pode ser ocupada pelo jornalista ou, nos casos mencionados, pelos políticos.
A "suspensão da descrença" foi referida por Jaime Rocha, recuperando a expressão  de Samuel Taylor Coleridge, num século em que as expressões não eram “inventadas por idiotas". A ficção pode utilizar essa suspensão no "jogo" com o leitor. Hoje, a informação difundida principalmente através das redes sociais rivalizam com a ficção. A "suspensão da descrença" está a ser aplicada à realidade. No entanto, essa suspensão não faz parte da relação entre jornal/jornalista e leitor. Ao jornalismo cabe informar sobre o que está realmente a acontecer. A ficção põe o leitor a questionar-se. A verdade não é essencial à ficção; só a verosimilhança. No entanto, é um facto que ficção e informação partilham cada vez mais o mesmo espaço. Vejamos um caso que faz agora 40 anos, a propósito do dia das mentiras: 
O jornal The Guardian, a um de Abril de 1977, publicou uma reportagem sobre um país chamado San Seriffe. Essa reportagem de sete páginas apresentava informações minuciosas, como um mapa, o nome do arquipélago e da capital do arquipélago, do governador que, em regime ditatorial, governava o país. As sete páginas tinham ainda artigos sobre a política monetária, as características da economia, o impacto do turismo e ainda comentário político ao regime ditatorial. Havia também publicidade, referente ao arquipélago, e um anúncio de emprego. "The Guardian" recebeu imensas cartas e telefonemas de leitores a interrogarem sobre como poderiam passar lá férias e ainda várias candidaturas a essa vaga em San Seriffe.
Era tudo falso. A credibilidade da reportagem estava na verosimilhança e não na verdade. A ficção tomou conta do espaço dedicado à informação. Foi há quarenta anos. Hoje, a desinformação é mais uma actividade profissional, com “sites” de "fake news", do que uma brincadeira do dia das mentiras. 
Fernando Pinto do Amaral, na conversa mantida com Jaime Rocha e João Céu e Silva (moderador), afirmou que nesta "floresta de enganos" já não há honra e vergonha. Todos estamos, até certo ponto, mal-informados em áreas que não dominamos. A guerra na Síria é um exemplo. A complexidade existente faz com que não compreendamos muito do que acontece. "Já não sei em que acredito. Tenho fome de verdade", afirmou o autor de "Manual de Cardiologia". 
A informação recebida pelo consumidor é vital. O direito à informação é valor essencial em democracia.
No berço da expressão "factos alternativos", a Sociedade Interamericana de Imprensa veio afirmar que "O quarto poder é uma das marcas da democracia norte-americana; uma imprensa livre funciona como controlo sobre o poder governamental. (…) Embora seja comum haver tensões entre a imprensa e a Casa Branca, a retórica da Administração de Trump não tem precedentes e ameaça minar a capacidade dos meios de comunicação" 
A relação da comunicação social com o estado democrático é da mesma ordem de importância dos três poderes fundamentais desse mesmo estado: O poder legislativo, o poder judiciário e o poder  executivo.
A miscigenação entre factualidade e ficção fez com que o ex-Ministro da Justiça Laborinho Lúcio só enveredasse pela escrita de romances após a sua reforma como magistrado. O autor de "O Chamador" preocupou-se com a imagem, pois procurando a verdade e os factos, não queria entregar-se à ficção. Poderia não ser bem-entendido.
Em entrevista com Ana Sousa Dias, Álvaro Laborinho Lúcio conseguiu, magistralmente, fazer a ligação entre a Justiça, um dos pilares da democracia, e a ficção:
"Se nós caminharmos ao longo da história do Direito e da Justiça e ao longo da história do Teatro,  vamos encontrar semelhanças que têm paralelismo quase constante. (…)  Eu próprio no Centro de Estudos Judiciários, trabalhava o efeito de distanciamento de Bertold Brecht e dizia que qualquer juiz tinha de conhecer isso como técnica de julgamento, ou seja a capacidade de se afastar ou recuar perante o que é evidente  para depois questionar o que é evidente e o que não é evidente. Tudo isto está tratado em Bertold Brecht."  
O dia em que se debateu a pós-verdade, em Castelo Branco, viria  a terminar com a entrevista de Hélder Gomes a Lídia Franco e Vítor de Sousa. Os dois actores sublinharam uma ideia que Rui Cardoso Martins havia mencionado na primeira mesa desse mesmo dia: a ideia de que os artistas têm capacidade de pegar nas cordas do tempo e prever o que vai acontecer. Os artistas preparam-nos para o futuro. Foi o que aconteceu com o "Tal Canal", que estava muito à frente do seu tempo. 
O Fronteira – Festival Literário de Castelo Branco levou à capital de distrito cerca de 20 convidados que, entre os dias 29 de Março e 1 de Abril, visitaram escolas, participaram em mesas de debate e deram “workshops” com o objectivo de analisar conceitos como pós-verdade, possibilidade de expressão, direito de ser informado e liberdade para criar. 




Mário Rufino





sábado, 18 de abril de 2015

Fronteira - Festival Literário de Castelo Branco: Valter Hugo Mãe brilhou entre escritores consagrados




A 3ª edição de “Fronteira-Festival Literário de Castelo Branco”, com produção da Booktailors e organização da Câmara Municipal de Castelo Branco, decorre nos dias 10, 11 de Abril e 4 de Maio. Esgotados os dois dias marcados para Abril, o Fronteira interrompe-se até 04 de Maio, dia em que Mia Couto irá ser homenageado em Castelo Branco.

Durante o primeiro período do Fronteira, o público teve a oportunidade de assistir a debates entre João Afonso e Renato Filipe Cardoso (1ª Mesa; tema: “Onde fica a fronteira entre razão e sentimento”), Bruno Vieira Amaral e João Tordo (2ª Mesa, “Fronteiras para o século XXI”), João de Melo e Valério Romão (3ª Mesa, “Entre Macondo e a Ilha dos Amores”), Francisco José Viegas e José Manuel Fajardo (4ª e última mesa, “De Espanha, nem bom vento nem bom casamento”).
Gémeo Luís, Marta Torrão, Joana Lopes, José Pires, Fernando Alvim, Catarina Correia Marques e Paulo Galindro foram os autores que dialogaram com os alunos das diversas escolas visitadas.
Pedro Vieira (ilustrador e escritor) deu uma Oficina de Ilustração e, intercalando com Tito Couto (Booktailors), moderou diversas Mesas.
O encerramento deste período do festival viria a ser um dos momentos a memorizar pelo público presente. Valter Hugo Mãe mostrou a sua capacidade e inteligência para criar empatia com o público que encheu o anfiteatro da Escola Superior de Educação de Castelo Branco.
A fronteira conceptualiza-se no imaterial e no material. O tempo divide-se, com maior ou menor demarcação, entre presente e passado, enquanto o som não existiria sem relação com o silêncio. A fronteira geográfica é mais do que um posto fronteiriço. A cultura é património que une, mas também tem avassaladora capacidade de divisão. A separação é imprescindível na existência de uma fronteira. No entanto, a relação entre emoção e razão é demonstrativa da falibilidade das relações que não tenham em consideração a interacção entre elementos. O som e o silêncio, as culturas, o tempo, a emoção e a razão têm na interacção a demarcação de um espaço são e fértil.
Durante o “Fronteira”, Castelo Branco é mais do que uma cidade da região centro do país; é um território onde as fronteiras são pensadas e debatidas.
A colaboração entre som e palavra tem na poesia a sua simbiose. A música de João Afonso encontra nas palavras de Agualusa e Mia Couto (em “Sangue Bom”) o perfeito complemento.
Na 1ª Mesa do festival, o músico falou sobre a ligação entre o som e a palavra nas suas composições. A influência de Zeca Afonso (seu tio), José Mário Branco, Fausto, Sérgio Godinho forma a sua vontade em cantar com a mesma naturalidade com que se fala. A métrica e a acentuação são características que respeitam o sentido e a musicalidade. A ligação ao exterior, à sociedade, acontece pela intervenção cívica e política das suas composições. Essa intervenção pluralizou-se e emancipou-se da exclusiva influência política.
A relação entre pessoas e a ostracização pelas novas tecnologias são campos de intervenção. A racionalidade encontra no imaterial o seu veículo de protesto. A lógica das ideias utiliza o veículo emocional para influenciar o pensamento de quem ouve.
Renato Filipe Cardoso nomeou o “hip-hop” ou o “rap” como novas e actualizadas formas de denúncia. A inquietação mantém-se, mas com renovadas demonstrações.
Segundo João Tordo (Mesa 2), temos o privilégio de viver um período único, pois há a “diluição” de fronteiras, com a União Europeia, e por estarmos a viver um longo período de paz. Na literatura, o vencedor do Prémio Saramago em 2009 não resume a sua obra a geografias. O seu território é a linguagem literária.

Para Bruno Vieira Amaral, o universalismo é mais uma questão de ângulo do que de geografia.
No entanto, a capacidade do escritor em captar essa universalidade não chega. Na recepção do texto é necessário existir um leitor dotado de ferramentas para a descodificação da mensagem.
A universalidade é resgatada, segundo João de Melo (Mesa 3), pegando-se na pequena geografia. A literatura para ser verdadeiramente literária tem de ser de um lugar e de todos os lugares, de um tempo e de todos os tempos.
“Tentei definir a minha própria fronteira. E a minha fronteira seria de escrever livros onde os açorianos se continuassem a lidar, mas onde também os de cá [continente] vissem que afinal aqueles territórios e pessoas eram familiares”.
As línguas continuam, no entanto, tanto a unir como a dividir povos e respectivos imaginários. Sem uma chave comum de descodificação do sentido, o indivíduo não consegue chegar ao Outro. A distância torna-se mais difícil de percorrer, mesmo não sendo quilómetros, milhas ou léguas a medida de valor.
Valério Romão tem em “Autismo” uma louvada obra literária em que a realidade coexiste com o imaginário. Para conseguir transmitir ao Outro essa experiência, o autor adoptou a linguagem.

“O material de trabalho na escrita é o material da subjectividade e da experiência, ou da abstracção a nível da quantificação ou qualificação de um espaço imaginário. E a linguagem é o único instrumento pelo qual nós podemos passar a experiência subjectiva para qualquer coisa objectiva. É uma moeda de troca comum da minha experiência com as outras pessoas”
Há sempre uma fronteira não ultrapassada porque o livro não é a realidade do leitor; permite somente a “ilusão de domínio da experiência alheia”.
O escritor espanhol José Manuel Fajardo enalteceu, em diálogo com Francisco José Viegas (Mesa 4), a importância do escritor se manter ligado à realidade.
“É importante o contacto com a realidade porque acontece muitas vezes nós morarmos no mundo real, onde fazemos as coisas quotidianas, mas morarmos ao mesmo tempo numa realidade virtual mais antiga que a realidade virtual da internet.”
A realidade imposta pelos preconceitos, pelos muitos erros cometidos no passado e pela ausência de interesse em compreender o outro formam a relação entre Portugal e Espanha. É uma relação histórica de amor-ódio, típica de dois vizinhos, assente em questões psicológicas e históricas formadoras da actual psique colectiva.
No entanto, a demarcação de uma fronteira cultural é muito ténue. De acordo com José Manuel Fajardo, que vive em Portugal, a diferença no quotidiano não é relevante. A grande diferença entre um povo e outro é a língua, que não deixa de ser compreensível em ambas as direcções.
A ligação de Francisco José Viegas com Espanha é pacífica e de afecto. O editor da Quetzal foi buscar muitas influências na sua formação cultural ao outro lado da fronteira, numa época de restrições à circulação de bens e de pessoas.
Hoje, a pluralidade racial e cultural é outra e bem mais evoluída do que na época anterior à União Europeia (ou CEE).
Para Fajardo, “A primeira função de uma fronteira é estabelecer um ponto onde tu não podes atravessar sem autorização expressa das pessoas do outro lado da fronteira”.
Com a nova política europeia e o crescimento das novas tecnologias de comunicação, as divisões geográficas e culturais são menos vincadas do que outrora.
O melhor momento destes dias de festival estava guardado para o fim.
Valter Hugo Mãe demonstrou em “Fronteiras e territórios literários” a sua capacidade de criar empatia com o muito público que o esperava. O escritor nascido em Angola cativou a audiência graças à genuinidade das suas palavras.
Em debate com Tito Couto e Pedro Vieira na Escola Superior de Educação, o autor de “A Desumanização” (Porto Editora) falou da sua “cobiça” por várias áreas artísticas. “Não consigo ser passivo na maneira como gosto das coisas”, afirmou.
O autor declarou o seu deslumbramento pela beleza e pela possibilidade de transcendência.
“A capacidade de as pessoas fazerem algo que as transcende, que nos leva a suspeitar da humanidade que levou àquele resultado, sempre me obcecou”
A diversidade de registos de Valter Hugo Mãe avaliza essa obsessão: a música, a prosa, a edição e o desenho são áreas a que se dedica na procura dessa transcendência. Mas nenhuma está tão presente, em si, como a Poesia.
“A literatura acontece sobretudo por causa da poesia. E convenço-me muito cedo e até hoje que na poesia é onde está a extremidade da palavra. Tenho até a convicção de que os romances começam a ser bons, ou acedem à condição de arte, quando se aproximam da poesia.”
Do lado da recepção do texto, o leitor de poesia é mais exigente do que o da prosa, disse Valter Hugo Mãe. O leitor de poesia rejeita o poeta que se aproxima demasiado de outro poeta. “O plágio na poesia é de uma obscenidade tão grande que o poeta «copião» é liminarmente rejeitado.”
A angústia do autor está concentrada em conseguir escrever livros em que acredita. Tem mais importância do que as vendas. Mas ele não deixa de estar dependente de quem lê as suas obras.
Em relação ao último romance, “A Desumanização”, o autor confessou a sua alegria quando os jornalistas, que são “pessoas que não me devem nada, que devem a eles próprios a honestidade de opinarem com clareza sobre aquilo em que acreditam”, disseram que era o melhor livro dele.
Enquanto não sabe as primeiras reacções, a ansiedade é grande.
“Sofre-se um bocado”, afirmou.
O “Fronteira – Festival Literário de Castelo Branco” termina no dia 04 de Maio com a homenagem a Mia Couto, autor recentemente nomeado para o Man Booker International Prize.
A adesão do público ao festival permite pensar em aposta ganha pela Câmara Municipal de Castelo Branco.
Se dúvidas houvesse sobre a frutificação do investimento cultural, essas foram dissipadas com um testemunho de uma espectadora no anfiteatro.
Visivelmente emocionada, afirmou que assim que o seu bebé tivesse interesse em pegar nos livros da mãe, ou, antes disso, tivesse interesse em ouvir a mãe a ler, então o primeiro livro seria “O Paraíso São os Outros” (Porto Editora), de Valter Hugo Mãe e Esgar Acelerado.

Fronteira-Festival Literário de Castelo Branco: Programa




A 3ª edição de “Fronteira-Festival Literário de Castelo Branco”, produzido pela Booktailors e organizado pela Câmara Municipal de Castelo Branco, decorrerá em Castelo Branco nos dias 10, 11 de Abril e 4 de Maio
O festival contará com a presença de Valter Hugo Mãe, Francisco José Viegas, Fernando Alvim, João de Melo, Bruno Vieira Amaral, João Tordo, Valério Romão entre os 15 autores convidados.
No dia 10 de Abril, vários escritores e ilustradores visitam diversas escolas do concelho. No mesmo dia, Pedro Vieira (ilustrador da “Ler” e escritor premiado com o PEN) orienta uma oficina de ilustração, no Museu Cargaleiro, às 11:30, e João Morgado, vencedor do Prémio Literário Fundação dr. Luís Rainha Correntes d'Escritas' 15, apresenta “Vera Cruz” (Clube do Autor), na Biblioteca Municipal de Castelo Branco, às 11:30.
O primeiro dia termina às 21:30, com a Mesa 1, sobre o tema “Onde fica a fronteira entre a razão e sentimento?”, no Centro Cultural de Alcains, com os convidados João Afonso e Renato Filipe Cardoso.
A 11 de Abril, acontecem 3 Mesas de debate, sempre na Biblioteca Municipal de Castelo Branco: “Fronteiras para o Século XXI” (15:00), com Bruno Vieira Amaral e João Tordo; “Entre Macondo e Ilha dos Amores” (16:00), com João de Melo e Valério Romão; “De Espanha, nem bom vento, nem bom casamento” (17:00), com Francisco José Viegas e José Manuel Fajardo
O “Fronteira- Festival Literário de Castelo Branco” encerra às 21:30, na Escola Superior de Educação de Castelo Branco”, com “Fronteiras e Territórios Literários”. O convidado é Valter Hugo Mãe.
Esta edição homenageia Mia Couto (Prémio Camões). No dia 04 de Maio, a sessão de homenagem ao escritor moçambicano decorre no Cineteatro Avenida, às 21:30.


O Diário Digital estará em Castelo Branco a acompanhar as diversas actividades contempladas no programa.

Mário Rufino


Valério Romão

João Tordo

João de Melo

Fernando Alvim

Francisco José Viegas


Fronteira - Festival Literário de Castelo Branco: Apresentação de "Vera Cruz" (Clube do Autor), de João Morgado


«Vera Cruz», a missão de João Morgado


João Morgado (n.1965; Covilhã), vencedor do Prémio Literário Fundação Doutor Luís Rainha Correntes d'Escritas 2015, apresentou «Vera Cruz» (Clube do Autor), o seu novo livro, no “Fronteira- Festival Literário de Castelo Branco”. A Biblioteca Municipal de Castelo Branco foi o local escolhido para a apresentação do romance que, de acordo com o autor, demorou cerca de três anos a preparar e a escrever.

Tito Couto (Booktailors), a quem ficou entregue a apresentação, sublinhou o facto de haver um conhecido contexto cultural, mas alguma ignorância sobre os bastidores desses grandes acontecimentos protagonizados por Pedro Álvares Cabral, figura central de “Vera Cruz”. A fome, o frio, o medo e o ímpeto sexual das tripulações das naus são assuntos a que têm sido dedicada pouca ou nenhuma atenção.
Os Descobrimentos foram um período tormentoso para as tripulações. Condenados à pobreza, muitos preferiram sair de Portugal para, em consequência, as famílias receberem metade do valor atribuído pelo trabalho de anos em viagem. Voltando vivo, o marinheiro recebia a outra metade. Mas isso não acontecia, frequentemente.

Em “Vera Cruz”, o realismo da narrativa aproxima-se, sem mistificação, das dificuldades experienciadas pelos marinheiros (falta de água, de salubridade e de comida). A dignidade do homem era posta em causa e cedia através da pedofilia, da pulsão sexual e do instinto de sobrevivência (os ratos eram um petisco). A morte espreitava sempre.
A precariedade financeira e a moralidade da época incentivavam a venda de crianças, por parte das próprias famílias, para as naus. Entrava dinheiro, saía uma fonte de despesa.
“Vera Cruz” regista literariamente uma versão menos “higienizada” da História de Portugal.
Figuras como Vasco da Gama e D. Manuel I, dois contemporâneos de Pedro Álvares Cabral, são analisadas através das suas relações de interesses, das suas traições e dos papéis na aquisição e manutenção de poder.

Um livro histórico, segundo o autor, é feito de dados históricos, dos quais não se pode fugir. Quanto a “Vera Cruz”, o leitor pode usufruir de um texto composto por dados históricos, probabilidades e ficção.
Ainda de acordo com João Morgado, a essência de “Vera Cruz” está na interrogação a que o romance tenta responder:
“Qual é a verdadeira missão de Pedro Álvares Cabral?”
A apresentação foi enriquecida com leitura, pelo poeta Renato Filipe Cardoso, de um excerto do texto e com a música de João Afonso, intérprete convidado pela organização do “Fronteira – Festival Literário de Castelo Branco”.

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