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quarta-feira, 15 de junho de 2016

“O último Natal de guerra”, de Primo Levi



O lado menos conhecido de Primo Levi


Primo Levi (1919-1987) fez do inferno o núcleo da sua criação literária. A vida do autor italiano é indissociável dos campos de extermínio. Perto do fim da II Guerra Mundial, os prisioneiros de Auschwitz e campos circundantes foram retirados devido à proximidade das forças aliadas. A deslocação para outro campo foi denominada Marcha da Morte. Uma doença incapacitante permitiu que o autor italiano e judeu ficasse na enfermaria e sobrevivesse.
Primo Levi viria a escrever um dos mais medonhos e brilhantes livros sobre a experiência humana em condições absurdas. O já muito estudado “Se isto é um homem” é um dos livros marcantes da literatura universal.
A experiência nos campos de concentração é contada sem qualquer autocomiseração. A honestidade põe a descoberto a sempre emergente possibilidade do mal, mesmo na vítima. “Se isto é um homem” seria mais do que o suficiente para inscrever Primo Levi na História da Literatura, mas ainda há qualidade muito apreciável em outras obras.
Entre elas, “O último Natal de guerra” (Cotovia).
Esta obra póstuma é composta por vinte e seis textos publicados durante dez anos em diversos jornais. O absurdo e a brevidade das narrativas são matéria comum a todos os textos.
O contraste entre a verdade e o paradoxal tem um efeito perverso. O genocídio causa menos perplexidade do que um canguru numa festa, uma poça alienígena a fazer uma entrevista, ou a existência de seres bidimensionais em um país bidimensional.
A profícua narração sobre o genocídio perpetrado pela Alemanha Nazi fez que com que o choque perante tal aberração fosse atenuado ou desaparecesse. Neste livro de narrativas breves, que conta também com textos sobre os campos de concentração, é o inverosímil que causa estranheza. É a impossibilidade de um canguru participar num jantar volante que põe o leitor em sobressalto. Não é a narração do assassínio de milhares de seres humanos. O maior absurdo inscreveu-se no real. O texto que dá nome ao livro é demonstrativo. Um rasgo de bondade num campo de concentração é visto como uma impossibilidade lógica. Não é a maldade que constrange; é a bondade.
A raiz do ódio, contrariada pela personagem de “O último Natal de guerra”, é ficcionada em “As duas bandeiras”. O ódio é ensinado até integrar a cultura de uma comunidade. A lógica é deturpada devido à assimilação de ideias disparatadas. A reconquista de um vulcão é o o exemplo dado por esta parábola:
“Em todas as escolas da Lantânia ensinava-se que a anexação do vulcão por parte dos gundúwios tinha sido uma empreitada de bandidos, e que o primeiro dever de um lantano era o de se treinar militarmente, odiar a Gundúwia com todas as suas forças (...) Que o vulcão, a cada três ou quatro anos, devastasse dezenas de aldeias, e todos os anos provocasse terramotos desastrosos mão parecia ter importância: lantânico era, e Lantânico voltaria a ser”
A violência é constante na prosa de Levi. Em “Força Maior”, a perspectiva de M. sobre a vida é alterada após ser arbitrariamente agredido.
Primo Levi utilizou diversos e extravagantes pontos de vista na análise sociológica e psicológica do ser humano. Neste livro, há espaço para entrevistas a uma bactéria intestinal, a uma gaivota, a uma aranha, e a outras personagens nada habituais. A substituição de elementos esperados por inesperados causa estranhamento. Não é a história nem a estrutura conservadora dos textos que causa impacto. São os elementos pouco habituais que, utilizados estrategicamente, incutem estranheza no leitor.
Kafka fê-lo, com a reconhecida qualidade, em “Metamorfose”. Levi, leitor do autor checo, compartilha essa estranheza, sendo, contudo, um escritor que procura mais a mente humana do que os mecanismos que a limitam. Essa procura é visível no conto “O fabricante de espelhos”, em que se nota também a presença de obras de Pirandello. Este conto sobre um homem que constrói um espelho metafísico está ligado pela temática a “Um, ninguém e cem mil”. Pirandello, escritor da mesma nacionalidade de Levi, interrogou-se sobre as diferentes perspectivas que compõem a sua imagem. Cada pessoa, uma ideia.
Tal como Vitangelo Moscarda, em “Um ninguém e cem mil”, Timóteo percebeu que “não havia duas imagens que coincidissem entre si: em resumo, não existia um verdadeiro Timóteo”
Primo Levi registou em obras maiores a sua memória. É um escritor mais de reconstituição e de testemunho do que de imaginação. “O último Natal de guerra” apresenta características menos vistas do autor italiano. A capacidade imaginativa de Levi fomenta a estranheza. O antropomorfismo das personagens mais surpreendentes obriga o leitor a adequar as suas expectativas em textos ficcionais que compõem este livro.

Nos textos de não-ficção presentes neste livro, há esse exercício de memória. O biografismo sustenta narrativa, que perde em estranheza, mas ganha em pungência.

http://diariodigital.sapo.pt/news.asp?id_news=827942

Mário Rufino

quarta-feira, 28 de outubro de 2015

"Assim foi Auschwitz" (Objectiva), de Primo Levi


O relatório do Horror


http://diariodigital.sapo.pt/news.asp?id_news=792343

No fim da Segunda Guerra Mundial, o exército alemão percebeu que os russos estavam a conquistar território e prestes a chegar a Auschwitz. Em consequência, milhares de prisioneiros foram retirados. Essa evacuação ficou conhecida como a Marcha da Morte. Quando o exército russo chegou a Monowitz, um dos campos pertencentes a Auschwitz, encontrou Primo Levi (n. Turim; 1919-1987) e Leonardo de Benedetti (n. Turim; 1898-1983), entre muitos outros prisioneiros. Por estarem doentes, tanto Benedetti como Levi haviam ficado no campo. De forma a documentar a atroz realidade dos “Lager”, o governo russo pediu a Primo Levi e a Benedetti que fizessem um documento sobre o quotidiano dos campos de extermínio. «Assim foi Auschwitz» é a resposta a esse pedido.
Esta obra editada pela Objectiva reúne depoimentos, cartas, fotos, notas e anexos sobre a destruição física e moral de judeus, ciganos, homossexuais e adversários políticos. Todos os documentos foram escritos entre 1945 e 1986.
Lendo os testemunhos, o leitor percebe que dentro daquele inferno as existentes réstias de humanidade estavam confinadas ao pão bolorento, à sopa insípida, ao salame exíguo, às reduzidas doses de remédios e à ridícula salubridade hospitalar. Eram réstias e momentâneas. Os prisioneiros, em caso de doenças incuráveis, eram levados para as câmaras de gás. Segundo a ironia e amargura de Levi, a matança era uma “medida profiláctica”.
Os guardas no campo, quando encaminhavam os prisioneiros para as câmaras de gás, eram de um cruel engano. Ao ditarem a entrada na câmara com chuveiros falsos,  diziam «Não economizem sabão» ou «Lavem-se, porque limpeza é saúde». As portas eram fechadas e pelas válvulas do tecto era lançado um preparado químico. No rótulo das latas, lia-se “Zyclon B - Para a destruição de todos os parasitas animais”.
Os guardas retiravam os dentes de ouro aos mortos, cremavam os corpos e usavam as cinzas como fertilizante das hortas e restantes terrenos.
“Assim foi Auschwitz” dispensa o filtro proporcionado pela ficção. A linguagem é mais objectiva, informativa e vinculada aos factos. Levi (principalmente) tenta ser denotativo no seu testemunho. O texto onde se aproxima mais da metáfora e da parábola é em “Esboço de texto para o interior do Block italiano em Auschwitz”. Nesse documento, escrito em 1978, o autor italiano escolhe a perspectiva dos mortos para responder à pergunta que lhe é muitas vezes feita: Por que continuar a falar das barbaridades da 2ª Guerra Mundial?
“Neste local, onde nós, inocentes, fomos mortos, chegou-se ao fundo da barbárie. Visitante, observa os restos deste campo e reflecte: de qualquer país de onde venhas, não és um estranho. Faz com que a tua viagem não tenha sido inútil, com que não tenha sido inútil a nossa morte. Para ti e para os teus filhos, as cinzas de Auschwitz sirvam de advertência: faz com que o fruto horrendo do ódio, cujos vestígios aqui viste, não dê novas sementes, nem amanhã nem nunca”
Primo Levi tem consciência da sua dupla condição de testemunha e de escritor. Desde o seu primeiro livro, o autor italiano quis que as suas obras fossem obras colectivas e que a sua voz fosse representativa das vítimas dos “Lager”. Serão os livros, de acordo com a vontade do autor, a ser “uma ponte entre nós [deportados] e os leitores.”
Conhecer a não-ficção permite ler com outra profundidade obras como “Se isto é um homem”. Em “Assim Foi Auschwitz”, “o leitor de Se isto é um homem encontrará - além de Jean Samuel, o «Pikolo», e Alberto - muitos outros que lhe são familiares, talvez com alguma variação ortográfica (...)”
Primo Levi suicidou-se em 1987. A depressão imposta pelo horror nunca o abandonou. Para Elie Wiesel, Nobel da Paz em 1986, Primo Levi morreu em Auschwitz, muito antes de se ter suicidado.
70 Anos depois do fim da Segunda Guerra Mundial, é urgente ler os testemunhos de quem suportou a desumanidade. 

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