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segunda-feira, 17 de junho de 2019

Roberto Osa: CELA| Connecting Emerging Literary Artists










 CELAConnecting Emerging Literary Artists




O Projecto:

O projeto CELA (Connecting Emerging Literary Artists) abre o palco europeu a uma nova geração de criadores literários. Permite uma cooperação transnacional intensiva entre talentosos escritores, tradutores e profissionais literários europeus em início de carreira. No decurso do projeto, os participantes enfrentam algumas das mais exigentes realidades da nossa era — de fraturas cada vez mais acentuadas na Europa a um setor editorial em mudança — e põem-nas em perspetiva, partilham o seu trabalho e colmatam o fosso que os separa do setor editorial e do público europeu.
As organizações literárias de seis países europeus uniram forças para fundar o projeto de incubação de talentos cela — Connecting Emerging Literary Artists. Partilhamos a necessidade de estabelecer uma infraestrutura sustentável de incubação de talentos para preservar a diversidade da literatura europeia e dar maiores oportunidades a línguas minoritárias. 
O projeto proporciona um percurso de dois anos com formação, instrumentos e uma rede que visam tornar possível uma carreira internacional e estabelecer uma prática profissional integrada. Com uma atenção em competências e mobilidade transnacional, incluímos especialmente as oportunidades digitais na literatura, novas formas de os participantes conseguirem emprego e rendimento.
Cada edição do projeto cela decorre durante dois anos. No primeiro ano, as organizações literárias orientam os escritores, tradutores e profissionais literários e proporcionam-lhes um programa multinacional de residências, formação e master classes para os preparar para trabalhar no mercado europeu e para um público internacional. No segundo ano, os participantes são inseridos por via de marketing internacional e campanhas publicitárias, uma digressão por festivais
europeus e apresentações ao público e a profissionais europeus por escritores e tradutores de renome (os nossos embaixadores cela) e organizações literárias. 

Os autores e tradutores participam em campanhas internacionais, festivais literários em diferentes países e numa rede de trabalho que proporcionará contacto entre todos os participantes.
Kick-Off: Hay Festival Segovia (Espanha)Tinto-no-Branco- Festival Literário de Viseu (Portugal), Book Fest (Roménia), Pisa Book Festival (Itália), Lev-Literatura em Viagem (Portugal), Passa Porta Festival (Belgium), Wintertuinfestival (Holanda) recebem os autores e tradutores do projecto CELA.


Parceiros:
Booktailors
Escuela de Escritores
Flemish-Dutch House deBuren
Passa Porta
Pisa Book Festival
Wintertuin


Biografia

ROBERTO OSA



Ano de nascimento 1981
Nascido Espanha
Vive e trabalha em Madrid
– Cresceu numa aldeia em La Mancha, terra de Dom Quixote e Sancho Pança
– Estudou Comunicação Audiovisual na Universidade Complutense, realização televisiva na Escuela CEV e guionismo na Escuela de Escritores
– Escritor e realizador de televisão, colabora com vários meios de comunicação, combinando texto escrito com audiovisual
– O seu primeiro romance, Morderás el polvo (Morderás o Pó), foi premiado com o Prémio Felipe Trigo de Romance (2016) e finalista do Prémio Nadal de Romance (2017), o mais antigo prémio literário de Espanha


Sobre ROBERTO OSA

«Tenho um emprego muito barulhento. Trabalhar em televisão é, na
verdade, sempre barulhento. E em casa o ambiente também não é
propriamente tranquilo: os filhos, o cão, os telemóveis. Só à noite é que os
estímulos diminuem. Quando as coisas acalmam em casa, é aí que a escrita
corre melhor.»
Para além de trabalhar como produtor, realizador e colunista,
Roberto Osa escreve guiões para cinema e televisão, mas mais
recentemente começou também a escrever livros. Fala sobre o assunto com
uma calma que parece ter trazido do seu escritório. «Gosto de escrever,
mas também gosto de ruminar sobre as coisas.» Tem uma voz suave, uns
olhos escuros e pequenos. «O romance é uma forma textual reflexiva, um
processo contemplativo de escrita. É bonito poder combinar isso com a
escrita para a televisão, que é um meio muito mais acelerado. Isso dá-me
versatilidade, gosto bastante disso: escrever para meios de comunicação
diferentes, penso que isso também é uma exigência para um escritor do
século XXI.»
Enquanto realizador de cinema, Osa desenvolveu uma sensibilidade
para com as imagens. Ele pensa que é possível reencontrar essa influência
na sua escrita. «Dizem-me muitas vezes que escrevo de forma
cinematográfica. Considero-o um elogio: tento que o meu trabalho seja
visual, dedico atenção ao decorativo, ao exterior, mas também ao ambiente.
Penso que também se notam essas influências ao nível da estrutura. Talvez
eu escreva, mais do que outros, com um guião em mente. É uma maneira
muito funcional de criar estrutura.»
Osa inclina-se para trás. Parece um pensador. Talvez tenha a ver com
a postura cerrada dele, as sobrancelhas um pouco afastadas uma da outra,
ou talvez seja da barba aparada. Não surpreende que goste de pôr de lado os
textos que escreve. «É uma parte importante do meu processo de escrita. Já
o havia feito com a minha primeira novela: meti o texto numa gaveta da
secretária e não olhei para ele durante três semanas. Só aí é que consegues
reler os teus próprios textos.»
Como é que se relacionam as crónicas, os textos para teatro e a prosa
que Osa escreve? O autor dá uma resposta formal: «É tudo ficção. Só as
crónicas é que não, e no ano passado fiz por exemplo um documentário
sobre um ilusionista espanhol. Mas os meus projetos pessoais são sempre
ficção. Ou queres dizer uma ligação temática? A verdade é que não penso
sobre isso. É algo que vou descobrindo com o tempo.»
«Gosto de escrever sobre famílias, talvez sobre rejeição e solidão,
mas durante a escrita nunca faço essa análise. Mas digo a mim mesmo
constantemente: não penses nisso, não penses nisso. Preciso de ritmo»,
explica Osa. Ele ri-se um pouco: o sorriso dele é largo, incha-lhe as 
bochechas. «Talvez isso também seja uma herança do meu trabalho televisivo. Há tempos fui abordado por um leitor que me queria dar um
elogio. Ler o meu livro era como andar a cavalo, disse ele. É prosa que
nunca para, é veloz e quando galopa, não volta a perder o compasso. Fiquei
muito grato com o que ele disse. Isso atrai-me, a mistura entre a velocidade
da televisão e a lentidão e profundidade do romance.»



                                                      Vídeo





Conto de Roberto Osa


Luz estava há mais de meia hora à espera ao sol. De vez em quando,
percorria o passeio de um extremo a outro para desentorpecer as pernas e
aliviar o peso da barriga. Os seus olhos moviam-se com rapidez entre os
carros que circulavam pela avenida, especialmente quando se ouvia uma
aceleradela. Mas nada.
Decidiu refugiar-se do calor debaixo do beiral do edifício. Foi
então quando, de trás de um autocarro, apareceu ziguezagueando o
pequeno carro vermelho. Luz viu como Jaime travava bruscamente e se
punha a tocar a buzina repetidas vezes, como se estivesse há muito tempo
à sua espera. Ela aguentou um pouco mais à sombra.
A buzina continuava a ouvir-se, por isso Luz atravessou o passeio e
entrou para o carro antes que o chefe assomasse à janela perguntando
quem era o idiota que tocava a buzina sem parar.
— Feliz aniversário — disse Jaime.
— Arranca, estamos em segunda fila.
As costas de Luz bateram contra o assento quando Jaime levantou
o pé da embraiagem e acelerou.
O carro atravessava uma rotunda atrás de outra enquanto eles se
mantinham em silêncio.
Já nos arredores, Luz disse:
— Não vamos a casa?
Jaime esboçou uma expressão triunfal.
— Espreita debaixo do teu banco.
Com muito esforço, Luz dobrou-se sobre a barriga para alcançar a
embalagem que Jaime tinha deixado ali. Era uma caixa do tamanho de um
livro, embrulhada em papel de presente verde.
Ao retirar o selo, Luz leu em voz alta:
— «Vive a experiência».
— E isso é o que vamos fazer.
— Agora?
— Claro. O aniversário é hoje, e então… Queria compensar-te de
alguma maneira.
— Compensar-me.
— Sim. — Jaime tentava dar algum tempo ao seu cérebro. — Bom.
Pelo que se passou estes dias.
— Estou a ver.
Tinham saído da cidade e minutos depois tomaram uma estrada
secundária ladeada por oliveiras. Luz ligou o rádio, que preencheu o
silêncio durante mais uns poucos quilómetros.
Passado um bocado, Luz voltou a falar:
— E onde vamos viver a experiência, pode saber-se?

— Tu gostas de animais.
— Adoro.
— Bem, então vai ser um sucesso, já vais ver.
— São três da tarde e não comi.
Jaime esticou o braço para trás do seu banco e apanhou um saco de
plástico que pôs sobre as pernas de Luz. Ela olhou para o interior: uma
garrafa de água, uma sandes vegetariana, várias barras de chocolate, um
pacote de bolachas e dois refrigerantes.
— Agora sim, estou impressionada. Tirou o plástico da sandes e
começou a comê-la.
Luz terminava a sandes quando o carro parou em frente a um
grande arco onde dizia: «Safari: a vida selvagem muito perto de sua casa.»
Na entrada, um tipo vestido de explorador deu-lhes uns folhetos e
esteve a explicar-lhes as regras do parque: podem fazer o percurso com o
vosso próprio carro, mas nada de saírem, é absolutamente proibido sair do
carro; pode-se tirar fotos mas sem baixar o vidro; não se pode tocar a buzina
e deve-se respeitar a prioridade dos animais, que andam à solta pela
propriedade. É totalmente proibido dar-lhes comida: «Sobretudo os
macacos ficam muito chatos e podem tornar-se violentos», disse enquanto
indicava o caminho de pó onde começava o percurso.
O carro movia-se devagar. Jaime ia agarrado ao volante, como se
temesse que a qualquer momento um rinoceronte os abalroasse.
Entretanto, Luz dava pequenos goles no refresco e percorria o deserto com
a vista.
Durante alguns minutos o carro avançou entre o pó sem que
pudessem ver um único animal.
— Olha! — disse Jaime travando o veículo bruscamente.
Duas girafas passaram a trote diante deles, a terra tremeu debaixo
dos bancos do carro.
— São maiores do que parecem na televisão.
— Eu já tinha visto girafas — respondeu Luz.
— Quando?
— No jardim zoológico. Em pequena.
Jaime esperou uns segundos. Depois, meteu a primeira e o carro
voltou a andar.
Dentro de uma vedação havia um rinoceronte e, junto à cerca, uma
placa: «Kenny, rinoceronte branco. República do Congo».
— Mas ele é cinzento — disse Jaime.
— Branco é por causa da raça. Acho.
Continuaram a avançar pelo caminho.
Debaixo de um freixo, o leão dormitava alheio aos mirones.
— Aquele é o mais rápido — disse Jaime.
— A que é que te referes?
— Bom, já sabes, a história de ser o rei da selva e assim.
— Não. Não sei.
— Pois, é isso. A leoa vai caçar e tal e o leão deita-se à espera de que
lhe tragam a comida.
— Estás a brincar?
— Sempre foi assim.
— Não posso acreditar no que estou a ouvir.
— A sério, os documentários e as enciclopédias dizem-no sempre,
não é uma coisa minha.
— Estás a superar-te.
Jaime decidiu calar-se. Conduziu um bom bocado em silêncio.
Passaram perto de um pequeno lago junto ao qual pastavam três
zebras. Luz inclinou-se e pôs a cara muito perto da janela.
— Para. — Jaime travou devagar. O veículo ficou à sombra de umas
árvores enormes que ladeavam o caminho. Através dos troncos, Luz
continuava a admirar as zebras.
— São muito bonitas.
— Pois a macaca é feia como o caraças.
— Que macaca?
— Aquela. Está na árvore da direita, vês?
Luz olhou para cima. Na árvore havia um macaco enorme de pelo
grisalho.
— Como é que sabes que é macaca e não macaco?
— Repara no volume que tem colado à barriga. É a cria.
— Sim. Pode ser.
— Mas que raio, são mesmo feios os babuínos.
— Nem sequer sabes se são babuínos ou macacos ou sei lá o quê.
— Claro que sei. É pelo pelo.
A macaca fazia um gesto de tirar algo que a cria tinha entre as
orelhas.
— Na savana abundam os babuínos.
— Mas não estamos na savana. Além disso, já te viste ao espelho?
— Vais-me comparar a mim com um babuíno?
— A pobre macaca não tem culpa.
— Por favor, Luz, não estragues tudo.
— Eu não estrago nada.
— Estava tudo a correr bem até teres começado…
— Já viste isto? — Luz agarrava o ventre com as duas mãos, como se
lho mostrasse a ele pela primeira vez.
Jaime desviou o olhar para fora do carro.
— Não comeces — falou em voz baixa, quase a fugir à resposta.
— Isto é teu também, para de evitar o tema.
— Não o estou a evitar. Só que…
— O quê?
— Bem. Sei lá.
— És um cobarde.
— Muito bem.
— Quero um pouco de compromisso da tua parte, vê lá se abres os
olhos em relação àquilo que nos espera dentro de três meses.
— Que chata — disse para si, mas o suficientemente alto para
também ela o ter ouvido.
As zebras tinham desaparecido enquanto um grupo de macacos
começou a agrupar-se em redor do carro; subiam pelos troncos das árvores,
alguns farejavam perto das rodas.
Luz e Jaime ficaram a olhar para os babuínos, ouviam o afã das
unhas a arranhar a terra do chão. A macaca que tinha uma cria começou a
subir aos ramos mais altos, até que finalmente a perderam de vista. Jaime
olhou além do lago. Ouvia-se o coaxar das rãs.
— Eu nunca disse que sim.
Não podia encará-la, mas ao dizer aquelas palavras sentiu que o seu
sangue circulava com mais força.
— Não se pode viver assim, Jaime.
— Nunca. Nunca te disse que sim, que queria.
— Julgavas que isto era como uma constipação?
Jaime pôs as mãos no volante. O seu olhar estava agora no fundo do
caminho, perdido entre as árvores que pareciam juntar-se ao longe.
— Não tens tomates.
— Estás sempre com essa dos tomates.
— Cobarde. Seu cobarde de merda.
Antes de Luz conseguir continuar, ouviu-se o estalar de um ramo, e
logo a seguir um macaco caiu sobre o capô. O corpo tinha batido na chapa
do veículo com tanta força que a parte central ficou afundada. Luz gritou.
E não tinha acabado de gritar quando o macaco se sentou sobre as patas
traseiras. Tinha um sorriso trocista, não parava de lhes mostrar os dentes.
Os babuínos que estavam em redor começaram a dispersar-se. Mas o
do capô continuava lá.
— Porra do macaco. Quase tive um ataque cardíaco — disse Jaime
quando se recuperou do susto. — Espero que tenham seguro. Alguém tem
de pagar isto.
Luz apertava o saco da comida contra o ventre. Tirou uma barrinha
de chocolate e começou a comê-la com pequenas dentadas. O babuíno
olhava-a muito atento.
— Acho que tem fome. — Começou a procurar algo dentro do
saco.
— Vá lá, Luz, deixa-te de disparates.
— Estava aqui, ia jurar que já tinha visto uma…
Jaime agitava os braços na direção do para-brisas do carro, tentando
assustar o macaco.
— Aqui está.
Luz tirou um invólucro vermelho e alongado do saco. Aproximou-o
do nariz, como se pudesse cheirar o chocolate sem o desembrulhar, e
depois aproximou-o do para-brisas. O macaco dava pequenas pancadas
com o dedo sobre o para-brisas.
— Um Twix? — perguntou Jaime. A cara do babuíno estava cada
vez mais perto do vidro. — Vais dar um Twix ao macaco?
Jaime rodava a chave da ignição, mas a porta do passageiro tinha
começado a abrir-se um momento antes e Luz já estava fora do veículo.
— Luz!
Ela ignorou-o, só tinha olhos para o macaco, que tinha caminhado
sobre o capô e já estava muito perto de Luz, esticando o focinho para o
chocolate.
— Entra imediatamente. Juro-te que me vou embora e deixo-te
aqui.
O ruído do motor obrigava-o a falar mais alto.
— Luz!
Ela estendeu o braço. Quase não teve tempo de esticá-lo totalmente,
quando o macaco já lhe tinha tirado o chocolate; de um salto pôs-se
novamente sobre a amolgadela e começou a rasgar o invólucro com os
dentes. Luz não ficou surpreendida com a destreza da criatura, que comia o
Twix, segurando o chocolate pela parte inferior, como se temesse sujar os
dedos. Mastigava tranquilo, olhando de vez em quando para Luz com os
seus olhinhos brilhantes, mas sem reparar demasiado nela, como se de
repente a mulher fizesse parte da paisagem.
Jaime parou o motor e deslizou do seu banco para a porta do
passageiro para suplicar em voz muito baixa:
— Entra no carro. Por favor.
O macaco tinha os dentes castanhos, lambia o invólucro, chupava os
dedos entre mordidelas. Parecia uma criança. Uma criança peluda que
saboreava o seu prémio por bom comportamento.
Sobre as árvores além do lago, o céu começava a adquirir a cor
alaranjada do entardecer, e ouvia-se as rãs a coaxarem, cada vez mais perto,
enquanto o babuíno mastigava.
Luz juntou as mãos sobre o ventre, sem desviar os olhos do animal.
— Não — disse ela. — Ainda não. — Mas o chocolate já quase tinha
terminado.

Tradutor

MATIAS GOMES

Ano de nascimento 1972
Nascido Portugal
Vive e trabalha em Lisboa
– Tradutor de espanhol > português, inglês/francês > português e português > inglês
– Professor de Português (ensino secundário)
– Mestrado em Literatura Medieval Portuguesa (publicação de várias comunicações feitas em Congressos da Associação Hispânica de Literatura
Medieval — AHLM)
– Dinamizador da comunidade de leitura «Conversas Para Lê-las» (só literatura de mulheres escritoras) durante cinco anos
– Organizador e dinamizador de workshops «Drag King» (p. ex., «Here Comes Your Man»), enquanto ativista de género.



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