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quinta-feira, 24 de setembro de 2020

“Aproximadamente do Tamanho do Universo”, de Jón Kalman Stefánsson

 




Um universo demasiado pequeno


Depois de uma excelente trilogia, um díptico menos conseguido. Jón Kalman Stefánsson envolve as personagens numa densa neblina, exigindo total concentração ao leitor. Valerá a pena o esforço?


O jornal norueguês Dagbladet compara Stefánsson a Melville enquanto o The Independent o faz em relação a Cormac McCarthy. Se resulta em termos comerciais, também desnuda as diferenças entre “Aproximadamente do Tamanho do Universo” e obras como “Moby Dick” ou “A Estrada”. Enquanto o livro de McCarthy e principalmente o de Melville conseguem desenvolver as vertentes sociológicas e psicológicas- Moby Dick é também documental- o de Stefánsson fica aquém.  O autor nascido em Reiquiavique não consegue delinear, com igual interesse, a inóspita Islândia, a sociedade em transformação e a psicologia das personagens que nela se movem. Mesmo que evitemos a comparação proposta pelo TLS, The Independent e Dagbladet é inevitável compararmos com obras anteriores do mesmo autor. Esta obra díptica terminada com este livro não chega ao patamar da anterior trilogia. 

“Aproximadamente do Tamanho do Universo” continua a partir do fim de “Os Peixes Não Têm Pés”.

A história de três gerações estabelecidas neste inclemente lugar do planeta começa, em “Os Peixes Não Têm Pés”, com uma informação em jeito de aviso para quem entra nas 660 páginas deste díptico sobre Ari e a sua família:

“Em Keflavík há três pontos cardeais:

o vento, o mar e a eternidade.”

Em “Os Peixes Não Têm Pés”, Ari regressa a Keflavik, sua terra natal. Após a leitura de uma carta, ele suspeita que o seu pai tem pouco tempo de vida. Nesta pequena localidade islandesa, “cercada por campos de lava”, Ari recorda os anos 70 e 80. Nessas décadas, ouvia Pink Floyd e Beatles, assaltava camiões de abastecimento que saíam da base militar norte-americana e cortejava as raparigas.

De forma intercalada, decorre a história do pai e a história dos seus avós, Oddur e Margret. Os dois anciãos percorreram o inóspito caminho de uma terra com pouco para oferecer. O mar era fonte de alimento, mas também de dor, solidão e medo.

Já em “Aproximadamente do Tamanho do Universo”, o autor dá mais informação sobre Oddur, Margret e Ari. De forma similar ao primeiro livro, trata-se de um regresso. Ari sai de Copenhaga e volta a Keflavik para se encontrar com o pai, em final de vida, apesar de nunca terem tido uma relação próxima.

“Na verdade, não conversaram de todo durante quarenta e cinco anos, as palavras só serviam para pedir leite, o comando, a colher de pedreiro. Jakob nunca disse: Meu filho. O Ari nunca disse: Meu pai.”

Neste livro, Stefánsson estende a sua visão até aos anos 60, dando a conhecer a mãe de Ari. 



São três gerações com histórias a espelhar a evolução do século XX do território. A Islândia continua ligada ao mar, tanto geográfica como emocionalmente, mas a organização social foi mudando desde Oddur e Margret até Ari.

“Os habitantes de Keflavik aborrecem-se amiúde hoje em dia, a quota pesqueira pertence ao passado, o exército americano partiu, Rúnni Júll morreu, pouco sobrou além do desemprego e dos três pontos cardeais – vento, lava, eternidade -, e vender um carro e comprar outro que o substitua é, por conseguinte, uma ideia brilhante, porque pelo menos assim acontece alguma coisa, tanto nas nossas vidas quanto na carreira profissional do vendedor de automóveis, e Keflavík torna-se imediatamente um lugar melhor.” 

A austeridade sob um céu cinzento, que tanto pode oprimir como convidar a poesia e o sonho, é património das diferentes gerações. Tal qual a literatura, mas este bem comum parece estar a rarefazer-se. Ainda feitos de histórias, cada vez menos islandeses as ouvem. Stefánsson insiste em manter vivo o cânone literário enquanto sublinha os rasgos da modernidade (“Landnámabók”- O Livro da Colonização ecoa na sua prosa). A Islândia não é a Islândia dos postais nem das palavras fervorosas de adeptos iludidos. Stéfansson sabe disso e denuncia-o. Assim o fez quando esteve presente no Fólio- Festival Literário Internacional de Óbidos, em 2016, e em consequentes entrevistas em Portugal. Assim o faz em “Aproximadamente do Tamanho do Universo” através da narrativa de um Ishmael sem carisma. Podemos chamar-lhe conforme nossa vontade, pois não nos é dado um nome. Esta voz poderia transformar um todo fragmentado numa narrativa homogénea, mas não o faz. A sua presença aproxima-se de uma voz autoral sem grande impacto no rumo das personagens numa Islândia que – honra seja feita a Stefánsson- foge aos estereótipos.  No entanto, o autor entrega um texto literário com rarefeita luz a incidir sobre as personagens. A profusão de figuras secundárias e planas prejudica o vínculo entre leitor e avatares, provavelmente até entre leitor e a própria obra.

Esta voz dispersa-se com tiradas filosóficas e abstractas, considerações sexuais marcadamente masculinas e repetições dos mesmos assuntos em “loop” com os pormenores mais mundanos. 

Devido a isso e à aparente autocomplacência do narrador, o caminho torna-se fastidioso.

Acompanhamos com interesse o onirismo tão próximo de Laxness ou de Gunnar Gunnarsson, as mudanças tecnológicas num país castigado tanto pelo vento e frio como pelo esquecimento, mas as personagens de “Aproximadamente do Tamanho do Universo” estão muito longe de arrebatar como  Jens, de “O Coração do Homem”, conclusão da trilogia iniciada com “Paraíso e Inferno” e continuada com “A Tristeza dos Anjos”.

Em entrevista ao extinto Diário Digital, em 2016, o autor afirmou que “A história em si é importante, mas está longe de ser a única coisa que importa. O estilo é tão ou mais importante do que a história. O estilo é a forma como contas a história. (…) Escrever um romance é, em parte, técnica de poesia. A poesia é ilógica. O tempo não é em “linha recta”. A nossa mente e o nosso sangue estão cheios de passado, de coisas que nos aconteceram e de palavras que alguém nos disse. Todo o tempo nós estamos parte passado e parte no presente. Nesse sentido, o tempo não existe. O passado e o presente são invenções nossas.”

São ideias fundacionais de “Aproximadamente do Tamanho do Universo”.

Stefánsson tem extremo cuidado com a linguagem. O tom poético transforma o texto em imagens soniais. É o grande mérito da obra, mas é inevitável que esse mérito seja diluído entre línguas tão diferentes. Por muito valioso que seja o trabalho do tradutor, é inevitável a perda da cadência da língua de partida, neste caso do islandês.  

A tradução é de João Reis. O tradutor de “Os Peixes Não Têm Pés”, assim como de “Paraíso e Inferno”, “A Tristeza dos Anjos” e “O Coração do Homem”, é a voz mais adequada para nos recriar a melodia de Stefánsson. A escolha do mesmo tradutor dá coerência aos livros editados em português. Torna-se interessante perceber o esforço do tradutor em transferir o mais possível de uma realidade tão soturna para a soalheira língua portuguesa. O precioso labor de João Reis deve ser mencionado, pois, por vezes, é mais interessante assistir ao seu trabalho sobre a linguagem poética do que tentar encontrar o caminho de volta para o cerne de “Aproximadamente do Tamanho do Universo”.

“A vida não é linear. A vida não é ir numa direcção; é ir sempre em todas as direcções. Eu quero pôr isso nos meus textos”, afirmou o autor na mesma entrevista. Cumpriu com essa premissa.


Não nos deixemos enganar por uma obra menos conseguida. Jón Kálman Stefánsson é um dos nomes mais relevantes da literatura escandinava contemporânea. E já o comprovou em “O Coração do Homem”, “Paraíso e Inferno” e “A Tristeza dos Anjos”. Merece ser acompanhado pelos leitores.

Embora possam ser lidos isoladamente, há muito a ganhar quando “Aproximadamente do Tamanho do Universo” é lido depois de “Os Peixes Não Têm Pés”. Mas depois de termos conhecido a excelência da sua escrita na trilogia anterior, chegamos ao fim da obra díptica com uma pergunta:

Será que valeu a pena?



Publicado em https://observador.pt/2020/06/30/um-universo-demasiado-pequeno/



quinta-feira, 17 de setembro de 2020

"Se o Disseres na Montanha", por James Baldwin

 




Chama-se John Grimes, mas podia chamar-se James Baldwin. 

O primeiro romance do escritor nascido no bairro de Harlem, em Nova Iorque, é um exemplo de dor transformada em literatura. O caminho de John é, em grande parte, o caminho de Baldwin. Mas se não ficamos a saber como o personagem seria na idade adulta, vemos hoje como o autor fez literatura do “pão que o diabo amassou”. 

“Se o Disseres na Montanha” (Alfaguara) é merecedor de constar no cânone da literatura norte-americana.


A autobiografia é evidente. Baldwin, tal qual o personagem John Grimes, foi criado pelo padrasto, que era Pastor numa igreja pentecostal.  Da mesma forma que Grimes, Baldwin sofreu uma conversão religiosa aos 14 anos. Posteriormente viria a ser Pastor durante três anos. De forma similar, o autor era descendente de escravos oriundos do sul dos Estados Unidos da América e nunca conheceu o pai biológico. O que poderia ser somente uma projecção da sua vida, é muito mais do que isso. “Se o Disseres na Montanha” retrata a contínua tensão entre aspectos individuais e irreconciliáveis “ismos” na sociedade. 

Oleitor está perante a tacanhez de uma sociedade religiosa e pentecostal dos anos 50, sofrida devido à segregação racial.

John Grimes, menino de 13 anos, a entrar na adolescência, começa a interrogar tudo e todos. E a interrogar-se. James Baldwin é delicado na sugestão do princípio do desejo sexual em John. Faz 14 anos, vê o corpo de uma mulher nua numa mancha amarela no tecto, lembra-se de ter pensado, na casa de banho da escola, em “rapazes, mais velhos maiores, valentes, que faziam apostas uns com os outros sobre quem conseguia o maior arco de urina, e viu acontecer em si uma transformação de que não se atrevia a falar”. Ele pecara com as mãos um pecado inconfessável e quase imperdoável. A luta com o amigo Elisha parece um bailado sensual entre dois rapazes, na casa de Deus, antes da liturgia dada pelo padrasto de John. Luta de rapazes, num jogo de forças sem caso maior, que serve a Baldwin para mostrar a emergente e indefinida sexualidade de John. O corpo está em transformação, mas a mente mantem-se inócua ao chamamento divino. E assim, John, através das tão bem calibradas frases do autor, vê-se cada vez mais inadaptado à sociedade. Esta ausência de credo no coração é radical. A sociedade negra apela a Deus pela vitória dos humildes, pela emancipação perante os brancos. Apela a Deus como os hebreus apelaram sob o jugo dos romanos. Neste caso, dos brancos.

É disso que trata a canção “Go tell it on the mountain”, que empresta o título ao livro.

Sem autor conhecido, sabe-se que a música veio de escravos africanos. De tom popular e espiritual, é datada do século XIX e tem sido interpretada por diversos coros gospel e destacados cantores como Mahalia Jackson e Dolly Parton. A primeira versão celebra o nascimento de Cristo (“go tell it on the mountain, that Jesus Christ is born”), mas tem sido adaptada ao longo dos anos, sem perder o substracto religioso.

Na década de 60, a apologia dos direitos civis, na América, motivou os cantores Peter, Paul e Mary a adaptarem o original. Na nova versão, o título foi mudado (“tell it on the mountain”), a letra foi adaptada ao “Êxodo” e foi inserida a frase “libertem o meu povo”.

"Se o Disseres na Montanha” em muito se assemelha a “Se Esta Rua Falasse”, anterior romance publicado pela mesma editora. Baldwin escreveu um manifesto adaptado à ficção, não separando o activismo social e político da produção romanesca. A crítica social é acutilante num romance habitado por personagens complexas e desenvolvido através de situações dramáticas.

Num caso em que uma menina negra foi violada por um grupo de brancos, o pai da menina foi espancado quando procurou justiça. Depois disso, todos os negros daquela comunidade foram ameaçados. O medo toldou-lhes os movimentos. Encerrados em casa, agradeceram a Deus quando os passos dos brancos não foram interrompidos às suas portas. O sangue dos bíblicos cordeiros, agora metafóricos, afastaram os crentes dos ímpios. Mas até uma simples porta pode ser um avanço social, uma protecção da dignidade. Nem sempre houve portas que protegessem. Os negros de agora são descendentes dos negros escravizados, dos negros das plantações, subjugados pelos homens brancos. Eles, os brancos, “pensavam que o chicote os salvaria, e usaram o chicote; ou a faca, ou a forca, ou os blocos de leilão; achavam que a generosidade os salvaria, e o senhor e a sua senhora desciam às cabanas, a sorrir, dando atenção aos pretinhos e distribuindo presentes.”




Desde sempre, as classes pisadas procuraram e encontraram refúgio na Palavra de Deus. Desde as plantações até ao dia em que John e a sua família se refugiaram em casa para não serem sovados pelos brancos. Até ao dia de John, nos anos de 30 da sociedade americana vincada pelo segregacionismo, e até aos dias de hoje. Até que num momento- assim anseiam- poderão dizer “os escravos ergueram-se". Eram estas as histórias que sua mãe lhe contava para distrair a fome e o frio.

A palavra de Baldwin é continuada por autores como Ta-Nehisi Coates e Maya Angelou; é uma palavra que já vem de há muito tempo, de discursos ditos em surdina até o medo deixar de amarrar a voz.  Em “Se o Disseres na Montanha” as vozes são distintas, plurais, mas tematicamente em uníssono. São o coro de “Go tell it on the mountain” cantando as desventuras dos negros, as condições impostas por um pé centenário, esmagador, sob o qual estrebucham em busca de liberdade e de dignidade. Essas desventuras são narradas em constantes “flashbacks” através da vida de Gabriel (padrasto), de quem John pensa realmente ser filho, de Elizabeth (mãe) e de Florence (tia).

Diversos conflitos são entrelaçados ao longo do romance: conflito entre pai e filho, mudança de idade (entrada na adolescência), crise de fé, conflito com passados violentos, cheios de culpa e projectados no presente. Sempre em constante diálogo com os textos bíblicos. 

A pungência dos episódios na igreja, com vozes evangélicas unidas num coro gospel, de crentes batendo com os pés no chão enquanto levantam as palmas das mãos ao céu e louvam Deus ao toque melódico do pregador Elisha oferece algumas das melhores páginas da literatura norte-americana. O leitor está lá, consegue ver o suor a correr pelas testas dos crentes, os esgares feéricos da fé nas suas caras, o fervor das almas, a cadência das pandeiretas. Essa comunhão, num determinado momento, é bruscamente cortada por uma denúncia de pecado, ou melhor, de “pré-pecado”. 

“(…) pela sua juventude, não conhecia, as armadilhas que Satanás reservava aos imprudentes. Apesar de o pecado não estar nas suas mentes... ainda: o pecado já estava na carne; e, se continuassem a andar sozinhos pelas ruas, a partilhar segredos e gargalhadas e a tocar-se nas mãos, pecariam seguramente um pecado sem perdão”

Depois dessa queda no estado pecaminoso, os pecadores são salvos e ascendem à condição de “santos” na congregação desta igreja pentecostal. 

O diálogo com a Escritura é ora ostensiva, ora subliminar. É nos “Actos dos Apóstolos” que os baptizados são apelidados de santos:

““Expulsando todos para fora <da sala>, Pedro, pondo-se de joelhos, orou e, voltando-se depois para o corpo, disse: «Tabitá, levanta-te.» Ela abriu os olhos e, vendo Pedro, sentou-se. Dando-lhe a mão, Pedro pô-la de pé. Chamando os santos e as viúvas, apresentou-a <no meio deles> vida.” (9:40-41). 

É a essa condição a que ascende John, numa outra demonstração da portentosa qualidade da prosa de Baldwin.

James Baldwin tem milhares de vozes negras na sua prosa. Ele é um coro de indignação e resiliência. Um manifesto seria somente um manifesto caso se limitasse a difundir uma mensagem. Os livros de Baldwin são muito mais do que isso. “Se o Disseres na Montanha” é muito mais do que isso. A luta pela dignidade está desde a primeira até à última página, numa cadencia frenética e pungente marcada por cada frase. Uma luta contemporânea com raízes históricas que tem na literatura de James Baldwin expressão de qualidade singular.


https://observador.pt/2020/05/09/o-gospel-da-dor-e-do-alento-de-james-baldwin/





terça-feira, 1 de setembro de 2020

O Silêncio das Mulheres, de Pat Barker




Todas as histórias têm várias vozes. E cada voz é uma perspectiva diferente. Ainda que por um traço, um relance, um tom menos ou mais moderado, cada ponto de vista soma mais uma tonalidade.
Demasiadas vezes vemos a voz feminina como o outro lado, uma outra versão, insidiosamente subalterna.
Pat Barker traz-nos Briseida, rainha de Linersso, troféu de Aquiles após a conquista de Troia e da cidade de Briseida.

A Ilíada é o primeiro livro da literatura europeia, segundo Frederico Lourenço, e nenhum outro conseguiu superá-lo.
“Ler a Ilíada é reclamarmos o lugar que por herança nos cabe no processo de transmissão da cultura ocidental: cada novo leitor acrescenta mais uma etapa, ele mesmo um novo elo”, escreveu Frederico Lourenço no introito à sua tradução de Ilíada.

Hoje, submerge da história o poder da mulher. E é essa actualização que leva a autora a dar importância, em “O Silêncio das Mulheres” (Quetzal; trad. Tânia Ganho), a quem foi relegada e tida como inferior.

Onde o olhar não incidiu, eu vou apontar e contar. Assim deve ter pensado Pat Barker (n.1943) ao iluminar os pontos escuros da epopeia de Homero. Briseida conta o não visto ou o relegado para um plano subalterno à masculinidade do mundo de Aquiles; interessam-lhe os despojos, a sobrevivência dos vencidos, a humanidade escondida pelo guerreiro, a humilhação das mulheres. A visão não é de quem grita vitória sobre as cinzas das cidades conquistadas. O olhar do leitor é o olhar de quem viu a cidade a arder, as filhas violadas, os filhos e os maridos mortos, o seu corpo partilhado como um prémio menos valioso que um óbolo.






As epopeias de Homero têm raízes com muitas centenas de anos no imaginário dos leitores. Se resistem ao desgaste do tempo é também por se fundarem em arquétipos da psique humana. Enfrentar esse património e arriscar dar-lhe novos prismas é coisa de loucos e trabalho para poucos.
Pat Barker não se amedrontou. Briseida dá-se a conhecer e dá a conhecer um Aquiles sem armadura, sem as defesas que sustentam a ferocidade trucidante e impiedosa.

“Como é que separamos a beleza do tigre da sua ferocidade? Ou a elegância de uma chita da celeridade do seu ataque? Eis Aquiles: a beleza e o terror constituíam os dois lados da mesma moeda”.

A actualização contemporânea do texto intemporal de Homero dotou a narrativa de feminismo e mudou a forma da poesia para a prosa. Há um certo desvio do arquétipo, pois é uma mulher a personagem forte; é ela que trata de Ulisses, é dela o pensamento que seguimos (não exclusivamente). No entanto, a masculinidade de Ulisses é demasiado forte, magnética, para a narradora totalmente se emancipar e criar uma história sua, abandonando o eixo de “Ilíada”, ser núcleo em vez de satélite.

Barker liga a sua prosa à poesia de Homero, trocando importâncias. Temos Pátroclo, Ájax; temos Páris e Agamémnon, mas temo-los de acordo com a perspectiva de uma mulher. São figuras secundárias numa realidade até agora subalterna no canto sobre a conquista de Troia. Não é por acaso que Troia não é a cidade primordial em “O Silêncio das Mulheres”. Será Linersso, cidade próxima.

Conhecer muito bem o texto de partida e complicar pouco a forma de o recontar. É um dos grandes méritos de Pat Barker (vencedora do Booker Prize).
Uma belíssima história capaz de momentos arrebatadores numa voz credível que enleia tradição e contemporaneidade. Um triunfo literário de Pat Barker.


Publicado em https://www.comunidadeculturaearte.com/de-o-silencio-das-mulheres-de-pat-barker-irrompe-a-voz-de-briseida/






terça-feira, 25 de agosto de 2020

"A Ocupação", de Julián Fuks






Entramos em “A Ocupação” (Companhia das Letras) como se tivéssemos acabado de sair de “A Resistência”, anterior romance de Julián Fuks (São Paulo, 1981). A cadência é similar e a qualidade mantém-se. Dois romances depois, verificamos que há uma voz merecedora da atenção do leitor. Sensibilidade e inteligência unem-se em simbiose tanto num romance mais pessoal, como “A Resistência”, ou mais político, como “A Ocupação”. 



 A prosa de Julián Fuks, , vencedor do Prémio José Saramago, do Prémio Oceanos e do Prémio Jabuti, é a expressão literária de quem tem demonstrado em várias entrevistas um pensamento bem estruturado, rico e com marca pessoal.  O autor aproxima a ficção da factualidade. Entre uma e outra, algum poder digressivo propõe ideias e demonstra a vulnerabilidade individual. Existe em “A Resistência”, existe em “A Ocupação”. No mais recente romance, Fuks tenta chegar ao Outro, ora conseguindo, ora esbarrando em palavras e anseios próprios. A sua vontade é deixar-se ocupar, ser recipiente de tudo o que o rodeia e verter tudo isso para literatura. Sebastián, o narrador, quer sair do “presente em ruínas”, ocupar o olhar do Outro e deixar-se levar por fluxos citadinos. Só olhar, deixar-se ocupar pelas personagens e ambientes, para depois escrever. Nas ruas da cidade, vagabundam os sem-tecto, que ocupam praças, ruas e prédios vazios. Para Sebástian 

“Ocupar era uma urgência dos corpos, convertida no mais contundente dos actos políticos, a afrontar a resignação dos serenos. Ocupar, nem que fosse para estar entre muitos, para existir ainda uma vez em colectivo.”








  
Entre afastamentos e aproximações ficcionais ou reais, o Brasil está no pai, na mulher e em Najati. Por mais que se tente afastar de si para concretizar a alteridade, não consegue por ser inviável. Nos olhos dos outros está o seu reflexo. Por mais que use a ficção para chegar aos outros, ele sabe estar presente nessa metamorfose. E em vez de se esconder, Fuks faz desse jogo matéria literária. 

 “Pai, vou ter um filho. Que notícia linda, Julián. Obrigado por me dizer. Obrigado a você, pai. Mas aqui você me chama de Sebastián 

Se, como Saramago dizia, o leitor lê o autor quando está a ler o livro, essa premissa é denotativa em “A Ocupação”. No entanto, Fuks procura ser Sebastián; ele não pretende ser narcisista. Essa luta para ir além dos dramas pessoais é inglória, mas não fútil. Essa luta é matéria prima. Vemos os outros, vemos o reflexo do autor nos outros e vemos o esforço na procura da alteridade. O autor mostra as fundações do romance e ao fazê-lo vai além da história pessoal ou de terceiros; ao fazê-lo dota o texto de componentes metaliterárias. A ficção, ao debruçar-se sobre si, faz da metaficção seu objecto ficcionalUm dos muitos exemplos é a carta a Mia Couto. Nas palavras de Fuks destinadas ao autor moçambicano está a essência de “A Ocupação”. A chave de leitura do romance está nessa carta. É aí que são expostas inquietações e denunciados objectivos. Apesar de não serem atingidos na íntegra, está longe de ser um romance falhado. E isso não acontece porque, como já foi dito, Fuks fez desse caminho, com os obstáculos ultrapassados e por ultrapassar, matéria romanesca. 

“Acho que não consegui me perder, que em cada palavra que atribuí aos outros encontrei uma palavra minha, em cada casa alheia vasculhei a minha, em cada rosto reconheci o meu rosto, por vício, por teimosia. Se queria me aproximar dos outros, se queria entendê-los, posso ter falhado miseravelmente.” 

Há desalento nas palavras. A melancolia une-as quando têm si a miséria, o exílio, a raiva pela realidade brasileira, a tragédia de não se encontrar uma solução. A definição de Ocupar indica-nos a tomada de posse, ou o exercer de controlo sobre determinado espaço. Verbo transitivo, precisa de um complemento para completar o sentido. Fuks procura que os sem-tecto tomem posse dos espaços, o bebé ocupe o corpo da mulher e conta-nos sobre o corpo do pai ocupado pela doença. Uns completam o sentido dos outros; todos complementam a voz de Julián Fuks. 


quinta-feira, 20 de agosto de 2020

"Almanaque da Língua Portuguesa" e "ABC da Tradução", de Marco Neves





A inteligência necessária para compor e utilizar uma linguagem chega a patamares milagrosos.
Toda a plasticidade cerebral existente demonstra a inata capacidade do ser humano para decliná-la em línguas. Teóricos (Chomsky, Krashen, Lewis...) apontam a luz para conhecermos o “hardware” pré-existente, mesmo ainda no útero, e o “software” (adquirido ou também pré-existente).
A capacidade de exercer uma linguagem verbal não se resume a meia-dúzia de iluminados. É património comum da espécie humana. Talvez por ser tão omnipresente e, em consequência, banalizada,  é vista como um dado adquirido. O falante não pensa muito sobre isso nem se preocupa em detectar os desvios da norma no acto de comunicação.

A conjugação entre sons permite o nascimento de palavras, das palavras nascem frases. Formam-se as línguas a partir do “apparatus” existente. Dentro dessas línguas pulsam povos e épocas com todos os seus hábitos culturais. Cada acto de comunicação envolve história da humanidade.
Toda a construção obedece a regras mais ou menos complicadas, mais ou menos perceptíveis. Dentro dessa lógica há espaço para o absurdo desarrumar pensamentos.


Temos o conhecimento comunicativo, adaptado a estratos sociais, a comunidades, tal qual tribos, com os seus elementos e respectivos idiolectos. Mas, muitas vezes, não temos o conhecimento linguístico. Utilizamos as regras, mas não sabemos porquê. Assimilámos sem nos interrogarmos. Pensar nisto e pensar na necessidade de transpor todas as regras e culturas para uma outra língua assemelha-se a uma tarefa para semi-deuses. Não é preciso tanto, mas não deixa de ser um trabalho de filigrana, a cujos artífices chamamos tradutores.





Marco Neves publicou dois livros nos dois primeiros meses do ano que iluminam alguns aspectos particulares da língua portuguesa e que, de forma objectiva, proporcionam ferramentas para levar a cabo uma tradução.
“Almanaque da Língua Portuguesa” e ”Abc da Tradução”, ambos da editora Guerra e Paz, são propostas do autor do blogue “Certas Palavras”.

Na primeira proposta, as pequenas irritações, aquelas “preciosidades” linguísticas capazes de nos fazer respirar fundo, juntam-se a breves explicações sobre fenómenos inexplicáveis até agora.
Queria ou quer? Um copo de água ou um copo com água? E feira? Porquê segunda-feira, terça-feira, quarta-feira? Se segunda é o primeiro dia da semana, porque não se chama primeira-feira? E afinal já estamos numa década diferente?


O leitor encontrará respostas no “Almanaque da Língua Portuguesa.”
Marco Alves escreveu “um calendário anual, com datas importantes, mas também indicações úteis e ainda textos «amenos e variados»” Segundo o autor, “é um livro para aprender e para usar todos os dias.”

Cerca de 200 páginas claras e de efeito prático vão esclarecendo perguntas antigas, de criança, para as quais, tantas vezes, não temos respostas. Marco Neves não perde de vista o leitor, sabe que tem do outro lado alguém cuja atenção precisa de ser captada e mantida. Consegue-o. “Almanaque da Língua Portuguesa” é um livro divertido e informativo. Nada de academismos. É feito de informação explicada ao “comum dos mortais.” Calma, parece dizer, por vezes as línguas não são lógicas. Não se preocupem. Divirtam-se com isso. “Almanaque da Língua Portuguesa” é um bom companheiro para o fazerem.




Ainda com maior preocupação operacional é ”Abc da Tradução”. É um instrumento para tradutores, talvez até um excelente instrumento para os iniciantes. Mas fica-se quase por esse mercado. Defeito? Nem por isso. O próprio título estreita o relacionamento do livro com possíveis destinatários. Não engana, ou para usar um falso “amigo”, não cria ilusões.

“Abc da Tradução” é um conjunto de textos- muitos publicados em “Certas Palavras” e no portal Sapo 24- sobre o que faz um tradutor e o que faz um gestor de projectos.
“E assim visitamos o País da Tradução e Arredores.”, diz o autor.
Os problemas e peculiaridades da tradução são explicados da mesma forma que os problemas linguísticos de “Almanaque da Língua Portuguesa”: De forma clara, por vezes lúdica, sempre instrutiva.

A relação com este livro é claramente instrumental. Para quem começa, há sugestões de trabalho e dicas para evitar armadilhas linguísticas. Será muito útil para o novato; talvez seja redundante para quem já habita esse “País da Tradução.” Muito se pode dizer no âmbito da Teoria da Tradução, das dificuldades da “terra de ninguém” entre a língua de partida e a língua de chegada. Não é esse o objecto deste livro. Marco Neves reúne ferramentas e dá algumas instruções como utilizá-las.

O leitor não encontra Voltaire, Cícero, São Jerónimo ou Walter Benjamin. “Abc da Tradução” apresenta o novato às “CAT tool («computer-assisted translation tool»), às memórias de tradução, com suas garantias de qualidade, ao reconhecimento óptico de caracteres, aos recursos de pesquisa em linha, ou mesmo aos motores de tradução automática. É um livro para se meter “mãos à obra”; não é um tratado filosófico ou histórico da tradução.
Se é muito ou pouco útil, depende dos conhecimentos do tradutor. Marco Neves faz a sua parte: Dá um simples e claro manual de instruções e conselhos.

Dois livros com méritos distintos, mas sempre bem conseguidos. Um para todos, outro para quem faz ou quer fazer da tradução o seu mundo.

Texto publicado em https://www.comunidadeculturaearte.com/marco-neves-artifice-das-palavras/

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