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sábado, 19 de junho de 2021

"estes ventos negros", de João Narciso

 



Poética da solidão.

 

Por vezes, surge na literatura portuguesa uma espécie de cometa a rasgar a monotonia.  
"estes ventos negros" (Edições Caixa Alta), de João Narciso (n.1982, Pedras Lavradas), ilumina durante cerca de 70 páginas a vida do leitor. E fica em chama na memória, como aqueles cometas mais brilhantes, ainda que já se esteja a ler o livro seguinte. 



 

João Narciso quebra a sintaxe e entrega-se a um jogo semântico e rítmico na construção de uma poética da solidão e do abandono. 
A gestão da frase e do seu silêncio confronta-nos com um afastamento afectivo e físico cada vez mais largo e mais fundo. 
A pandemia veio escavar a distância entre palavras e gestos. 
A construção sintática transmite essa ideia de ruptura da normalidade. É através do rasgo que são mostrados os rituais perdidos, a vida desarrumada, os novos gestos de protecção, mas também de afastamento. É no silêncio, no não-dito, que mora a melancolia e, tantas vezes, a tristeza das personagens.  
Narciso não se amarra a uma história linear que, de tão repetida, seria fastidiosa. Uma simples história sobre esta solidão escavada pela pandemia, com todos os neologismos e palavras resgatadas ao pó, mostraria pouco mais do que a vida exposta diariamente na imprensa, rádio e televisão. A história desta família desagregada pelo acrílico que os separa deste homem velho, seja na sua qualidade de pai, sogro ou avô, pelas máscaras que os impede de beijar e de dar palavras limpas, seria mais uma se não fosse a estética. O autor sublinha o efeito emocional em detrimento do esmiuçar das causas.  Sempre com frases em cadência poética, desafiadoras, a radiografar os efeitos do novo normal
 numa lógica de abandono. 

A linguagem encontra o seu equivalente neste homem velho, dentro de um lar. Ele é a ruptura. Tal qual João Narciso, este homem velho prefere o risco. A segurança imposta pelos outros, ainda que seja por motivos meritórios, prende-o à solidão. A necessidade de toque, de afecto, de voltar a colar a vida das pessoas impele-o às rotinas antes da pandemia. Ele quer tirar o acrílico e abraçar, quer tirar a máscara e falar sem mordaça. Na sua vida, cada vez mais abreviada pela idade, ele prefere estar envolvido nos braços do filho. Não quer viver protegido e isolado.
 
“chegas-te a ele e abraça-lo com a força da tua saudade, //quão violenta é a força da saudade?,/e se ele nunca mais te toca?, //abraça-lo e fechas os olhos,/assumes a escuridão/abres portas à noite,//abraças o teu filho e anuncias que não o largarás/até que ele te beije e abrace,// fazes o teu anúncio de olhos fechados perante a assistência/que te observa de caninos afiados, forças o abraço e pedes/ o beijo, és um terrorista doente, em estado terminal,/ que faz reféns e depois exige que o resgate seja pago em/liberdade, em vez de pedir tempo,// quero liberdade, não me dêem tempo” 


João Narciso desencostou-se do previsível e conseguiu, com muita segurança e qualidade, construir um exercício de linguagem com sentido e emoção num livro de extensão exacta. A leitura do autor Ivo Canelas espelha esse equilíbrio entre ritmo e tempo. 
A leitura demora um fôlego. O efeito dura muito mais. 




segunda-feira, 14 de junho de 2021

Shot #29: "Não Mais Amores", de Javier Marías







 

São 30 anos de distância entre “A Demissão de Santiesteban (1975) e “Caído em Desgraça” (2005), dois dos 26 contos presentes em “Não Mais Amores” (Alfaguara). Javier Marías organizou-os em duas partes: 23 “Contos Aceites” e 3 ”Contos Aceitáveis”. 


Em grande parte, o autor madrileno debate-se com as limitações inerentes a este género literário.
 
As suas frases longas e encadeadas estão aprisionadas num espaço curto, sem vislumbre de liberdade. Embora existam contos de excelência (“Não Mais Amores”, “A Demissão de Santiesteban”, “Na Viagem de Núpcias”, “Binóculos Quebrados”, “Domingo de Carne”, “Enquanto Elas Dormem”) não poucas são as vezes em que o autor parece um maratonista obrigado a fazer uma prova de velocidade. A necessidade de desenvolver personagens, situações e, principalmente, ambientes é limitada pelas características da narrativa breve.  Não é breve (ou curto) o que não demora muito a contar. Não chega. Tem de assumir outras características. O conto deve também ser condensado e homogéneo, elementos que não estão aperfeiçoados em vários contos deste volume.
 E não estão porque o fôlego de Marías é outro, o trabalho sobre a linguagem necessita de mais liberdade para fluir.
Nos mais bem-sucedidos, o autor de “Assim Começa o Mal” observa a duplicidade como potencial (o que somos e o que poderíamos ser numa tensão bem gerida e tão bem demonstrada em “Gualta”, por exemplo, e até na génese de “A Canção de Lord Rendall”) e dá-nos também a antecâmara da acção principal, incindindo a luz sobre o acessório e deixando o desfecho em aberto. As causas são o “ponto cego” que Marías pretende iluminar em detrimento da consequência.
 
Consegue, nos momentos altos, provocar desconforto e surpresa; nos momentos baixos, a mente do leitor afasta-se e o escritor fica a falar sozinho. 
 
Armando Moreno, no seu “Biologia do Conto” (Almedina) é muito pertinente quando afirma que “Não interessa se dada personagem vai matar a mãe ou carpir a morte da filha, mas a sensação que desperta no leitor, isto é, a função que desempenha como elemento literário: a acção
 que teve sobre o escritor enquanto concebia e a que tem sobre o leitor enquanto lê”
 
Por vezes, em "Não Mais Amores", divergem em demasia.
Sabemos que há mais amores e esses são os romances publicados.
 
O próprio Marías não se inibe de desvalorizar o labor aplicado na construção de obra neste género literário. 
 
“E dado que nos últimos anos dediquei muito pouca energia ao conto e também não tenho em vista vir a dedicar-lhe num futuro próximo (…). Nada nunca é certo, mas, dado o pouco que frequentei a nobre arte do conto nos últimos tempos já não escreva mais nenhum (…). Tenho poucas dúvidas de que, a ser assim, o dito género não perderá grande coisa.”
 
Marías habituou-nos a melhor, mas não é preciso ir tão longe. Não sejamos tão duros. É previsível haver dissonância de qualidade numa compilação de contos.

 
Em suma, o melhor Marías não mora aqui, mas o mediano Marías é mais do que suficiente para uma leitura aprazível.
 


Não Mais Amores
de Javier Marías 
ISBN: 9789897841033
Edição/Reimpressão: 11-2020
Editor: Alfaguara Portugal
Idioma: Português
Dimensões: 154 x 234 x 26 mm
Encadernação: Capa mole
Tradução: Elsa Castro Neves, Manuel Alberto e Miguel Filipe Mochila

Páginas: 408

Preço: 23,50
                    


















terça-feira, 25 de maio de 2021

"Contra Mim", de Valter Hugo Mãe

 


FOTOGRAFIAS: DR / PORTO EDITORA




Andar nu pela vida 


Os mais fortes de memória lembrar-se-ão das fotos onde Valter Hugo Mãe (Saurimo, Angola; 1971) se expõe sem pano nem timidez. Foi onde mais se desvelou física e publicamente. No entanto, se ao olhar fizer falta um conhecimento mais apurado, deve ir além da pele.  Se a curiosidade tem fome de alma, então anseia por livros ditados pela vida. 

 

 

O medo reside em quem faz das palavras o principal acesso às memórias mais esconsas. Com o escritor fica o medo do ridículo, o medo de se escangalhar, feio, sob o olhar de quem lê. E, no entanto, não deixa de se expor aos leitores, a ele também, num mundo habitado por gente resgatada ao esquecimento. Tudo vai ficando claro ao olhar de quem conta e ao olhar de quem lê. No fim, o escritor revela-se sob uma luz mais ou menos cruel, com um filtro inversamente proporcional à honestidade, ocultando ou não o sangue que tem para dar. Tem sido assim com a criação literária de Valter Hugo Mãe, seja na poesia ou na prosa. 

No primeiro número da Granta (“Eu”, 2013), Valter Hugo Mãe confidencia:

 

“Ando a pensar que a poesia acontece como expressão súbita que me leva até o que eu não sabia de mim, não saberia admitir. A prosa é mais cerimoniosa. Pede mais licença. Disfarça-me um pouco, não é tão repentina que me faça sentir roubado, acusado ou ridicularizado” 


Em entrevista a Carlos Vaz Marques (Revista Ler, Março de 2020), o jornalista declama um poema de Valter Hugo Mãe: 

“devias morrer no dia dezoito de março de/ mil novecentos e seis, como dizes que/ vai acontecer, para que se acabe essa/ imprecisa sentença que é a vida”  

“Sim”, respondeu o autor, “Isso é também, em muito, a realidade de a máquina de fazer espanhóis”. 

 

Depois de sair, em 2018, “Publicação da Mortalidade”, onde são reunidos os seus melhores poemas, surge-nos a ideia de haver uma noção ou necessidade de retorno ou mesmo de balanço.  De onde vem essa necessidade que, em boa verdade, não é de agora? 

Em todos os seus livros o autor se desenrola. A poesia é onde se sente mais exposto, mas dificilmente haverá mais exposição, ou, pelo menos, exposição mais compreensível do que a existente em “Contra Mim” (Porto Editora). Há livros que são mais espelhos do que outros. 

Em entrevista a Maria João Costa, na Rádio Renascença, afirmou que 


“Este ano pandémico solicitou-me uma revisitação à pessoa que eu quis ser, de maneira a eu voltar a afinar ou ganhar coragem para um regresso franco aquilo que são as minhas pulsões mais naturais.” 






As histórias e as pessoas que formaram Valter Hugo Mãe vêm à tona e apresentam-se ao leitor. Em consequência, há exposição como nunca houve. O autor sai do esconderijo dado pela ficção e revela-se como um homem imprudentemente poético. Mas é nessa sua humanização que reside grande parte do mérito deste texto literário. 

A melancolia e sensibilidade de outros livros são mantidas, mas com denúncia declarada: Este livro é sobre ele próprio e é sobre as pessoas que habitaram a sua infância. É um nu retratado em espaço interior. 

“Contra Mim” mistura as primordiais cores garridas africanas com a infância em Paços de Ferreira e o começo da adolescência em Caxinas. São dois livros num só; duas fases em que a passagem geográfica é acompanhada pela passagem da fronteira entre a infância e a adolescência. É o autor no seu desamparo de criança, na crença inabalável nas palavras, juntas na procura de parcerias imprevistas, e nas pessoas que o formaram. Pessoas e acontecimentos, indissociáveis no sonho e na violência.  

A narrativa é um melancólico elogio do espanto perante a vida que se lhe depara e tantas vezes o atravessa sem piedade; é a voz autoral a contar as reguadas na escola e o braço partido do colega, a relembrar o cristo resgatado ao lixo, a mostrar a ânsia do divino na redenção de tudo, o terror dos louva-deus, o interesse na recolha de expressões e hábitos dos familiares e, principalmente, é a voz de quem parece ser assaltado por tudo. Um diálogo com os mortos, tal qual afirmou na página 98, que detinham a propriedade do seu irmão Casimiro, esse “menino horizontal” que “estava ali deitado à espera que uma árvore grande nascesse e chegasse até ao céu.” 

Também Valter Hugo Mãe, na capa, se apresenta despojado de roupa, sentado, raiz de árvore com palavras a tentar chegar ao firmamento. 

A obra de um escritor necessita da aceitação da crítica, da academia e dos leitores. Valter Hugo Mãe tem sido multipremiado pelos júris, aceite consistentemente pelos leitores e vê, como aconteceu em “Nenhuma palavra é exata- estudos sobre a obra de Valter Hugo Mãe” (Porto Editora), a sua obra estudada e sujeita à exegese mais demorada e exigente. 

Desta vez, demorou-se a observar as histórias que o fizeram escritor. 

Enfrentou o medo de se expor, misturou palavras com doses generosas de empatia, sensibilidade e poesia. Saiu um belo e revelador livro. 


Mário Rufino

quarta-feira, 19 de maio de 2021

"Manhã e Noite", de Jon Fosse.

 




Quando um homem anoitece. 

 

Um livro pequeno, pensamos, quando tomamos nas mãos a edição da Cavalo de Ferro de “Manhã e Noite”. São 111 páginas de prosa poética, sem estéreis efeitos prosódicos.  

Jon Fosse (N.1959, Strandebarm) conta-nos o caminho de dois homens numa linguagem elevada a elemento principal, uma linguagem que rivaliza com o debate interior de Johannes, no limiar da vida, e com o do seu pai, quando assiste ao parto de um mundo novo. Filosofia, teatro, poesia, ensaio (registos tão do gosto do autor) misturam-se num texto que tem corrente interior ainda mais rica do que a ondulação das palavras.
Peter e Johannes são dois homens cuja vida foi feita em partilha. Cortavam o cabelo um ao outro há muitos anos, sabiam dos rituais que os moldavam. Por isso, Johannes não estranhou a presença do amigo na barca depois de acordar sem os habituais vómitos. Somente o viu mais magro e se preocupou com o tamanho do cabelo. Tenho de ir a casa dele para lho cortar, pensou num assomo de cuidado enraizado em muitos anos.

  

“O cabelo cresceu-te tanto, dá-te pelos ombros, diz Johannes 

Devias, sim, diz Peter 

e Johannes vê Peter levar o seu velho cachimbo à boca 

Há já muitos anos que cortamos o cabelo um ao outo, diz Johannes 

Estou a tentar fazer o cálculo, diz Johannes, penso que já terão passado 

Sim, já terão passado perto de quarenta anos, diz Peter"  


Peter estava ali para Johannes. Embarcaram para viajar pelo rio de margens cada vez mais difusas. 
Entrando no “Dicionário dos Símbolos” (de Jean Chevalier e Alain Gheerbrant) para nos ajudar a compreender, chegamos à ideia de a barca ser muito mais do que um meio de transporte.  


“A barca é o símbolo da viagem, de uma travessia efectuada pelos vivos, seja pelos mortos"


Símbolo presente em todas as civilizações, a barca pode ser a garantia de segurança, depois de ambos terem navegado por uma vida dorida e atribulada. 

Um e outro, na vida e na morte, ajudam-se mutuamente. 
Sobre a água do rio, vão de margem a margem. A água, como símbolo, resume-se a três temas dominantes: fonte de vida, meio de purificação, centro de regenerescência. Nas tradições judaica e cristã, a água simboliza a origem da criação. 




 

Esta forma de amor entre amigos nem a morte desenlaça. Este tipo de amizade- um dos três tipos de “Philia” referidos por Aristóteles em “Ética a Nicómaco”- é acarinhada entre homens de bem: 


“Estes querem-se bem uns aos outros, de um mesmo modo. E por serem homens de bem são amigos dos outros pelo que os outros são. (…) Tais amizades são, de facto, raras porque são poucos os homens desta estirpe. Além do mais, é preciso tempo e cumplicidade, pois, tal como diz o provérbio, não é possível que duas pessoas se conheçam uma à outra sem antes terem comido juntas a mesma quantidade de sal”. (edição da Quetzal,2009; trad. António de Castro Caeiro). 


Jon Fosse contrapõe Eros e Thanatos numa prosa de filigrana, sensível como um poema. Dá-nos a conhecer os extremos da vida de Johannes. Vemo-lo a nascer, vemos o desconcerto dos pais na génese de uma vida. É um amor diferente aquele que une pai e mãe na violência inoculada pela vida a florescer. Na outra margem, o desconcerto no abandono da vida incorporada e a espera de quem partilhou a mesma quantidade de sal. Saiu do nada, saiu do não-lugar onde não há corpos nem palavras, para o não deixar desamparado na transição. 
Jon Fosse manteve-se na essência, sem palavras espúrias, nem divagações snobs. 
Em “Manhã e Noite” (Trad. do inglês de Manuel Alberto Vieira), o leitor reconhece as suas margens e percebe que um dia terá de chegar àquela onde o esperam. No entanto, uma forte luz na penumbra, este optimismo do autor norueguês, deixa-o a desejar, quando chegar ao fim do caminho, por um amigo como Peter, um amigo que o leve a bom e luminoso porto de desembarque. 


Este livro tem tanto em si. Clama à releitura.  


Publicado em https://www.comunidadeculturaearte.com/manha-e-noite-de-jon-fosse-o-crepusculo-do-homem/



quinta-feira, 29 de abril de 2021

"Marrom e Amarelo", de Paulo Scott: tantas cores tem o Brasil

 



 


 

Separados por cores, unidos por uma história moldada pela força. O Brasil, para quem vive na Europa, é um território de promessas. O idílio encontrado há séculos mantém o fascínio de quem olha de fora, do estrangeiro, de quem procura a beleza do turismo asséptico. Do outro lado, do lado de quem percorre as avenidas, ruas e favelas já não há o fascínio do índio pelo branco colonizador ou pelo negro escravizado. É demasiado intrínseco para causar estranheza. O olhar estrangeiro é o de quem procura conhecer sem ser incomodado. Quer ver o Cristo Redentor olhando por cima das cabeças de quem fez do Brasil o seu dia-a-dia. Se tiver o interesse em baixar o olhar e ver mais de perto observará múltiplas tonalidades na tez do povo brasileiro. Se procurar além do samba na fala, então olhe um pouco mais para baixo, olhe para as prateleiras das livrarias, selecione o trabalho de quem espelha a vida nas palavras. Livros como “Marrom e Amarelo” (Tinta-da-China) são o oposto dos postais ilustrados. Autores como Paulo Scott (n. 1966) não se prestam ao serviço de guias turísticos a pastorear turistas. O Brasil de Paulo Scott é o Brasil de quem conhece o cheiro das favelas, o Brasil de quem sabe como os séculos os empurraram até este momento.  


“Nenhuma boa história é leve, Federico, Nenhuma boa história deixa de fora o que é denso, o que é pesado, observa.”  


A consciência social do autor nascido em Porto Alegre já havia ficado bem vincada em “Habitante Irreal” (Tinta-da-China). Nesta obra, galardoada com o Prémio Machado Assis em 2012, é pensada a questão indígena e o autoconhecimento do indivíduo, necessariamente contextualizados pela vertente sociológica. Scott procura compreender o outro e denunciar as injustiças endémicas da sociedade brasileira. “Marrom e Amarelo” mantém essa substância. Agora não são os indígenas, mas esse racismo endógeno à psique do povo brasileiro. A miscigenação é em tal grau que a divisão cromática é inverosímil.  Tudo fica mais complexo quando a existência de racismo não é declarada inimigo público. Mais, nem é reconhecido como problema. Neste mês de Novembro de 2020, aconteceu mais um exemplo. Um homem foi espancado até à morte numa loja Carrefour. Chamava-se João Alberto Silveira Freitas, 42 anos, e a sua pele tinha a cor “errada”. É um daqueles casos em que arte e realidade se cruzam. João Alberto Silveira de Freitas foi morto na cidade do autor, foi morto na idade dos personagens Federico e Lourenço.

 Hamilton Mourão, vice-presidente da República afirmou, em declarações à comunicação social, que “No Brasil não existe racismo. Isso é uma coisa que querem importar aqui para o Brasil. Isso não existe aqui.”  Esta opinião é secundada por Sérgio Camargo, presidente da Fundação Cultural Palmares, quando afirmou que não existe racismo estrutural no Brasil. Para Sérgio Camargo, é algo circunstancial. 

Não é o que história nos ensina.

Entre o princípio do século XVI e o fim do século XIX, mais de 12 milhões de africanos foram raptados, vendidos e transportados para o continente americano. Cerca de 5 milhões foram para o Brasil. A miscigenação entre indígenas, europeus e africanos foi consequência previsível. A formação da identidade nacional fundou-se na mestiçagem como local de convergência entre negros, indígenas (também escravizados), portugueses e outras nacionalidades europeias. 

O Brasil é um dos países com maior população negra fora de África. No entanto, a representação negra no poder de decisão na sociedade brasileira é reduzida. Mesmo que haja instrumentos legais que impeçam descriminação, o racismo manifesta-se informalmente. Essa informalidade espelha-se no poder, mas tem raízes emaranhadas no substrato do pensamento do povo brasileiro. No pensamento, mas não no diálogo. É algo latente, mas afastado do debate. 

Em “Marrom e Amarelo” existem dois irmãos com peles e pensamento distintos. Federico é de poucas falas, mas de muito activismo. Tem a pele clara, ao contrário do seu irmão, Lourenço. 

Os dois vivem nos subúrbios de Porto Alegre, onde cresceram, e sentem a mal-escondida tensão racial. Federico, em conversa com a mãe, atreve-se a destapar esse mal-estar: 


“Eu olho pra maneira como vocês me criaram, pra criação que tu e o pai deram pra mim e pro Lourenço, e não vejo quase nada de negritude, do mundo negro, quase nada da cultura negra, falo dum modo dramático, que, por ser a minha mãe a interlocutora, não consigo evitar, Nós somos uma família negra, porque tu sempre disse que a gente era negro, Tudo bem, Mas onde tá a nossa negritude, Nós parecemos uma família branca, só nos relacionamos com gente branca, teus colegas e amigos, com exceção dos Moreira e dos Arantes, são gente branca, os colegas e amigos do pai são brancos, A gente se blindou, Porque acho que, no fundo, esse era o jeito do pai de se afirmar, De se blindar e não enxergar nada que envolvesse essa história de raça, de ignorar os brancos, de ignorar os brancos que não gostam de gente escura, Mas também de ignorar todo o resto, Os negros, A cultura negra, O racismo, digo. Tu tá falando do quê, Federico, diz. Estou falando dessa palavra que, até pra nós, é um tabu, Racismo.”  

 



 

Paulo Scott não cala a denuncia. Em cada palavra há um assomo de raiva, de ferocidade, perante as assimetrias sociais no Brasil. A torrente de frases intercaladas, qual estilística saramaguiana, levam o leitor ao ritmo dessa ânsia de justiça brandida por Paulo Scott.

A narração não cabe a um “eu” narrativo, mas dificilmente poderia ser mais pessoal. A corrente interna da prosa de “Marrom e Amarelo” é o ponto de vista do autor sobre o país onde vive. Talvez devesse ser denominado como países, ou como Brasil –Reino policromático e desunido pelas diversas cores dos seus constituintes. E são tantas e esbatidas pela miscigenação racial até ao ponto de ser caricato dividir a sociedade conforme a cor da pele. No entanto, essa divisão existe: 


“Tu é metidão, Federico, sempre foi, Olha tua cor, olha o teu cabelo, o jeito que tu usa esse teu cabelo lambido, Tu tem essa tua casca de branco, essa pele passe-livre do caralho, Tu nunca vai entender o que é ser preto, ser um fodido perseguido vinte e quatro horas na tua rua, no teu bairro, na tua cidade, Tu não sabe, Tu é metidão (…)” 


Parece haver uma separação insanável marcada pelos efeitos sociais provocados pela cor da pele, ou melhor, as divisões sociais que aproveitam a cor da pele para separar e escarnecer. O que poderia ser riqueza e orgulho é transformado em pobreza e violência. A pluralidade racial está na raiz do Brasil. Como diz um personagem,  


“Não tem como criar uma régua de cor, um negrômetro, uma régua racial para inserir num programa de computador (…)” 


A tentativa de fixar quotas no Ensino Público Federal, com base nas nuances cromáticas, mostra o absurdo de uma sociedade mais burocrata que libertária:

 


“Da parte dos negros, primeiro foram alguns alunos pretos contra alunos pardos que, nos critérios daqueles alunos pretos, não eram suficientemente pardos (…) E também os alunos pretos e alunos pardos contra os alunos que se diziam pardos claros, mas nem pardos claros eram porque eram brancos na avaliação dos núcleos de militância negra, brancos safados que, aproveitando a exclusividade do critério da autodeclaração racial, pegando umas sessões em câmara de bronzeamento, aplicando autobronzeador spray na pele, pintando a pele, fazendo permanente no cabelo, preenchimento labial com botox, alegavam ser negros ou, sem recorrer a qualquer artifício, deixando que a pele clara continuasse clara, juravam ser de comunidade negra, netos de negros, bisnetos de negros (…)” 


Identidade é a palavra chave das ideias de Paulo Scott. Mais do que protesto- e também “Marrom e Amarelo” tem essa vertente- o livro agora semifinalista do Prémio Oceanos é uma honesta procura da identidade brasileira. Nessa procura, cabe a denúncia, as dúvidas, a raiva e a frustração. 

“Marrom e Amarelo” não é um panfleto; é uma ferida destapada por Paulo Scott. 

Fica confirmado, em Portugal, o que “Habitante Irreal” apresentou: uma voz autoral distinta, denunciadora e apaixonada pelas causas que a substanciam.

 


Publicado em: https://www.comunidadeculturaearte.com/as-cores-do-brasil-em-marrom-e-amarelo-de-paulo-scott/

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