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terça-feira, 21 de setembro de 2021

Shot #31: "Juntos", de Luke Adam Hawker

 


Cartografia da solidão e da amizade.


A pandemia tem sido substrato para a criação artística. Há necessidade de contrair o tempo vazio e a solidão.  Umas vezes, usufruímos dessa criação, em outras suplicamos para que se pare. 

A pandemia democratizou o isolamento. De repente, um vírus aumentou a distância entre pessoas. E mais do que nunca, o ser humano percebeu que a solidão só é boa quando existe por livre escolha. De outra forma, arranca-nos as raízes e torna-nos ilhas em erosão. 

Luke Adam Hawker (ilustração) e Marianne Laidlaw (texto) olharam para distância entre cada um de nós e criaram “Juntos” (Porto Editora; trad. Valter Hugo Mãe), uma pérola formada dentro da rugosa dureza dos novos tempos. 

Em cada ilustração de Hawker espreita a esperança na capacidade do ser humano em contrariar a corrente, se levantar e, principalmente, de chegar ao outro e tocar-lhe. 




São páginas preenchidas com ruído e silêncio, com multidões e um só homem, com edifícios e ruas vazias. 

A estreita ligação afectiva entre um homem e um cão sente-se em cada traço; são a companhia um do outro na tempestade que apartou multidões. São eles a guiar-nos no ruído e no silêncio, no afastamento e na aproximação. Este homem é o seu avô, ou é baseado no seu avô, por quem o autor nutria grande afecto, e o cão é a sua cadela, vivaça e de indomável energia. 

Tanto no livro como na realidade, muitas pessoas só viram companhia nos seus animais de estimação. Cães ou gatos ajudaram a colmatar o vazio que ficou quando tudo o que era dado como adquirido desapareceu. 

Em nenhum momento, a pandemia é nomeada. Percebemos a que os autores se referem, mas não é importante dar-lhe um nome.  O essencial é observar o que nos une e nos separa; o essencial é observar a imperativa necessidade de estarmos juntos.  

"Juntos" mostra-nos o belo a emergir do escuro.




JUNTOS
ISBN: 978-972-0-03418-2
Edição/reimpressão: 09-2021
Editor: Porto Editora

Idioma: Português
Dimensões: 197 x 252 x 16 mm
Encadernação: Capa dura
Páginas: 64






terça-feira, 24 de agosto de 2021

Shot #30: "O País dos Outros", de Leila Slimani

 



Leila Slimani aumentou a parada.
“O País dos Outros” (Alfaguara; trad. Tânia Ganho) é o projecto mais ambicioso entre os livros já publicados em Portugal.
“Canção Doce” e “O Jardim do Ogre” mostraram a capacidade da autora nascida em Rabat, Marrocos. Este seu mais recente livro confirma-a.

Mathilde, casada com o marroquino Amine, muda-se para Meknés, em Marrocos. A versão idílica do marido depressa é contrariada pela realidade. A quinta deixada em herança pelo pai de Amine precisa de ser recuperada e a terra dessa quinta é quase estéril. Mas pior do que isso: Mathilde sente o afogo de costumes a cercar a liberdade. Marrocos na segunda metade do século passado- em transformação antes e depois da independência- não é um lugar igualitário. E é ali que terá de educar a sua família.
Naquele lugar, com aquela gente e com aquelas ideias, Mathilde não passará de uma estrangeira. 

“Os filhos eram as suas raízes e ela estava involuntariamente apegada àquela terra. Sem dinheiro, não tinha para onde ir e essa dependência, essa submissão, matava-a. Os anos bem podiam passar, que Mathilde não se conformava e continuava tomada pela náusea, era uma espécie de dobra dentro dela, um esmagamento que a fazia ter nojo de si própria.”




Toda esta tensão entre Marrocos e França, entre hábitos arcaicos e liberdade individual, entre colonizado e colonizador não permite que as raízes se aprofundem no solo. São ideias beligerantes em constante confronto.  Mathilde, alsaciana de gema, ouve o seguinte de um velho empregado: 

"Se um dia, sobretudo à noite, eu vier ver-te, não abras. Mesmo que seja eu, mesmo que diga que é urgente, que há alguém doente ou a precisar de ajuda, não abras a porta nunca. Avisa os teus filhos, diz à criada. Seu eu vier, será para te matar"

Os inimigos, como diz Amine, são as pessoas com quem vivem há muito tempo. Algumas são amigas, vizinhos, até família. 

Leila Slimani mete gente dentro dos livros. As personagens não existem como postais decorativos a abrilhantar uma ideia. Elas são a ideia, ou parte essencial da mensagem que a autora quer passar. Conhecemo-las primeiro, afeiçoamo-nos a elas depois.
Slimani não abdica da sua condição feminina, de ideias como a liberdade, seja qual for a condição que a ameace. Sem cair na escrita panfletária.
A narração por uma visão exterior permitiu contruir um livro bem calibrado, com vozes dissonantes a quebrar uma estrutura que, de outra forma, seria demasiado rígida.
“O País dos Outros” tem gente e contexto, tem História e estórias. E muita qualidade.


O País dos Outros
de Leïla Slimani 
ISBN: 9789897840043
Edição/Reimpressão: 05-2021
Editor: Alfaguara Portugal
Idioma: Português 
Dimensões: 149 x 234 x 22 mm 
Encadernação: Capa mole 
Páginas: 344









sexta-feira, 23 de julho de 2021

“Suspense ou a Arte da Ficção”, de Patricia Highsmith

 



A escrita é uma actividade solitária, uma actividade de quem prefere chegar ao mais intrínseco do ser humano sem o fumo das convenções sociais. É praticada por indivíduos recolhidos em si próprios, enrolados para dentro, e exógenos à realidade mundana que os cerca. Para lá das interrogações sobre a execução física da escrita -de pé, sentado, ao computador, com um caderno – subsistem dúvidas: Quais as ansiedades dos escritores? Que problemas têm de ultrapassar? 

“Suspense ou a Arte da Ficção” (Cavalo de Ferro) é a resposta de Patricia Highsmith. 

 


 

Existem algumas respostas no mercado: Stephen King (Escrever- memórias de um ofício), Joyce Carol Oates (A Fé de um Escritor) e, em Portugal, Mário de Carvalho (Quem Disser o Contrário É porque Tem Razão) e João Tordo (Manual de Sobrevivência de um Escritor), entre muitos outros, iluminaram as dúvidas dos leitores e dos escritores, consagrados ou em início de carreira, com possibilidades. 

Em “Suspense ou a Arte da Ficção”, a autora texana confessa logo de início a impossibilidade de se explicar como se escreve um livro bem-sucedido. Afasta a ideia de se ver esta obra como um livro de instruções. As suas reflexões, fundamentadas com os desafios que “O talentoso Mr. Ripley”, “O Desconhecido do Norte Expresso” ou “A Cela de Vidro” apresentaram, destinam-se “a escritores jovens e principiantes”. 

A autora parte das fontes de inspiração e percorre o trajecto até às preocupações comerciais e ligadas ao vil metal, sem relegar a importância de “captar a atenção do leitor contando-lhe algo divertido ou que valha a pena dedicar uns minutos ou umas horas.” 






Patricia Highsmith promete e cumpre. Este breve ensaio é uma visita guiada à “casa das máquinas” de quem sabe do ofício, como poucos escritores, na área do suspense. O percurso é aprazível muito devido ao princípio tão norte-americano de não perder o leitor de vista, de comunicar com ele. Para que escritor e leitor comuniquem a linguagem é informativa, simples e até lúdica: 


“Uma coisa é certa: o público, os leitores, os espectadores televisivos querem entretenimento, ficar presos a uma história. Querem algo invulgar, que fique gravado na sua memória, que os faça estremecer, rir, que seja tema de conversa e possa ser recomendado aos amigos. Entre a semente de uma ideia e um público vasto e elogioso vai um longo caminho.” 


A autora entrega-nos histórias sobre os seus livros desde a concepção, passando pelo parto até à emancipação. 

Tudo é material de escrita, tudo está em potência antes da filtragem pelo tempo. As experiências pessoais eram fonte primordial dos seus contos. Mas também as palavras dos outros e os acontecimentos que arrebanhava em segunda mão. Histórias miscigenavam-se com outras histórias na criação de um corpo a ser desenhado pela escritora. 

Highsmith descreve- tanto quanto possível num livro de 143 páginas – o princípio, o desenvolvimento do enredo e a sua conclusão, após várias versões. Não deixa de apontar obstáculos nem de sublinhar angústias inerentes a cada revisão.

 

“Não é avisado contra-argumentar, pois o editor, provavelmente, sabe mais do que nós e tem a vantagem de discutir a questão com muitas outras pessoas na editora. É surpreendente a quantidade de escritores principiantes que se enfurecem com pedidos corriqueiros como estes, ou quando solicitam que eliminem uma personagem de um livro. Por vezes, agastados, cortam relações com os seus agentes literários ou retiram o manuscrito à editora.” 


Uma das características mais interessantes é a ausência de pudor (tão presente em Portugal) quando aponta para a comercialização das obras. A autora chega a sugerir a adequação do texto às características do mercado. Na expectativa de sustento, a literatura vai além da necessidade de organizar a vida numa narrativa escrita. 


“Caso tenha em mente um determinado mercado, o melhor é a obra ter a extensão adequada logo de início.” 


É uma perspectiva global desde a génese ao consumo. Sem prurido. 

“Suspense ou a Arte da Ficção”, publicado ela primeira vez em 1966, é uma janela para os bastidores do livro, este e outros; é uma espreitadela para o local de trabalho do escritor, por convite do mesmo.
O leitor deixa o texto para observar a mão que o escreve. 

 


sábado, 19 de junho de 2021

"estes ventos negros", de João Narciso

 



Poética da solidão.

 

Por vezes, surge na literatura portuguesa uma espécie de cometa a rasgar a monotonia.  
"estes ventos negros" (Edições Caixa Alta), de João Narciso (n.1982, Pedras Lavradas), ilumina durante cerca de 70 páginas a vida do leitor. E fica em chama na memória, como aqueles cometas mais brilhantes, ainda que já se esteja a ler o livro seguinte. 



 

João Narciso quebra a sintaxe e entrega-se a um jogo semântico e rítmico na construção de uma poética da solidão e do abandono. 
A gestão da frase e do seu silêncio confronta-nos com um afastamento afectivo e físico cada vez mais largo e mais fundo. 
A pandemia veio escavar a distância entre palavras e gestos. 
A construção sintática transmite essa ideia de ruptura da normalidade. É através do rasgo que são mostrados os rituais perdidos, a vida desarrumada, os novos gestos de protecção, mas também de afastamento. É no silêncio, no não-dito, que mora a melancolia e, tantas vezes, a tristeza das personagens.  
Narciso não se amarra a uma história linear que, de tão repetida, seria fastidiosa. Uma simples história sobre esta solidão escavada pela pandemia, com todos os neologismos e palavras resgatadas ao pó, mostraria pouco mais do que a vida exposta diariamente na imprensa, rádio e televisão. A história desta família desagregada pelo acrílico que os separa deste homem velho, seja na sua qualidade de pai, sogro ou avô, pelas máscaras que os impede de beijar e de dar palavras limpas, seria mais uma se não fosse a estética. O autor sublinha o efeito emocional em detrimento do esmiuçar das causas.  Sempre com frases em cadência poética, desafiadoras, a radiografar os efeitos do novo normal
 numa lógica de abandono. 

A linguagem encontra o seu equivalente neste homem velho, dentro de um lar. Ele é a ruptura. Tal qual João Narciso, este homem velho prefere o risco. A segurança imposta pelos outros, ainda que seja por motivos meritórios, prende-o à solidão. A necessidade de toque, de afecto, de voltar a colar a vida das pessoas impele-o às rotinas antes da pandemia. Ele quer tirar o acrílico e abraçar, quer tirar a máscara e falar sem mordaça. Na sua vida, cada vez mais abreviada pela idade, ele prefere estar envolvido nos braços do filho. Não quer viver protegido e isolado.
 
“chegas-te a ele e abraça-lo com a força da tua saudade, //quão violenta é a força da saudade?,/e se ele nunca mais te toca?, //abraça-lo e fechas os olhos,/assumes a escuridão/abres portas à noite,//abraças o teu filho e anuncias que não o largarás/até que ele te beije e abrace,// fazes o teu anúncio de olhos fechados perante a assistência/que te observa de caninos afiados, forças o abraço e pedes/ o beijo, és um terrorista doente, em estado terminal,/ que faz reféns e depois exige que o resgate seja pago em/liberdade, em vez de pedir tempo,// quero liberdade, não me dêem tempo” 


João Narciso desencostou-se do previsível e conseguiu, com muita segurança e qualidade, construir um exercício de linguagem com sentido e emoção num livro de extensão exacta. A leitura do autor Ivo Canelas espelha esse equilíbrio entre ritmo e tempo. 
A leitura demora um fôlego. O efeito dura muito mais. 




segunda-feira, 14 de junho de 2021

Shot #29: "Não Mais Amores", de Javier Marías







 

São 30 anos de distância entre “A Demissão de Santiesteban (1975) e “Caído em Desgraça” (2005), dois dos 26 contos presentes em “Não Mais Amores” (Alfaguara). Javier Marías organizou-os em duas partes: 23 “Contos Aceites” e 3 ”Contos Aceitáveis”. 


Em grande parte, o autor madrileno debate-se com as limitações inerentes a este género literário.
 
As suas frases longas e encadeadas estão aprisionadas num espaço curto, sem vislumbre de liberdade. Embora existam contos de excelência (“Não Mais Amores”, “A Demissão de Santiesteban”, “Na Viagem de Núpcias”, “Binóculos Quebrados”, “Domingo de Carne”, “Enquanto Elas Dormem”) não poucas são as vezes em que o autor parece um maratonista obrigado a fazer uma prova de velocidade. A necessidade de desenvolver personagens, situações e, principalmente, ambientes é limitada pelas características da narrativa breve.  Não é breve (ou curto) o que não demora muito a contar. Não chega. Tem de assumir outras características. O conto deve também ser condensado e homogéneo, elementos que não estão aperfeiçoados em vários contos deste volume.
 E não estão porque o fôlego de Marías é outro, o trabalho sobre a linguagem necessita de mais liberdade para fluir.
Nos mais bem-sucedidos, o autor de “Assim Começa o Mal” observa a duplicidade como potencial (o que somos e o que poderíamos ser numa tensão bem gerida e tão bem demonstrada em “Gualta”, por exemplo, e até na génese de “A Canção de Lord Rendall”) e dá-nos também a antecâmara da acção principal, incindindo a luz sobre o acessório e deixando o desfecho em aberto. As causas são o “ponto cego” que Marías pretende iluminar em detrimento da consequência.
 
Consegue, nos momentos altos, provocar desconforto e surpresa; nos momentos baixos, a mente do leitor afasta-se e o escritor fica a falar sozinho. 
 
Armando Moreno, no seu “Biologia do Conto” (Almedina) é muito pertinente quando afirma que “Não interessa se dada personagem vai matar a mãe ou carpir a morte da filha, mas a sensação que desperta no leitor, isto é, a função que desempenha como elemento literário: a acção
 que teve sobre o escritor enquanto concebia e a que tem sobre o leitor enquanto lê”
 
Por vezes, em "Não Mais Amores", divergem em demasia.
Sabemos que há mais amores e esses são os romances publicados.
 
O próprio Marías não se inibe de desvalorizar o labor aplicado na construção de obra neste género literário. 
 
“E dado que nos últimos anos dediquei muito pouca energia ao conto e também não tenho em vista vir a dedicar-lhe num futuro próximo (…). Nada nunca é certo, mas, dado o pouco que frequentei a nobre arte do conto nos últimos tempos já não escreva mais nenhum (…). Tenho poucas dúvidas de que, a ser assim, o dito género não perderá grande coisa.”
 
Marías habituou-nos a melhor, mas não é preciso ir tão longe. Não sejamos tão duros. É previsível haver dissonância de qualidade numa compilação de contos.

 
Em suma, o melhor Marías não mora aqui, mas o mediano Marías é mais do que suficiente para uma leitura aprazível.
 


Não Mais Amores
de Javier Marías 
ISBN: 9789897841033
Edição/Reimpressão: 11-2020
Editor: Alfaguara Portugal
Idioma: Português
Dimensões: 154 x 234 x 26 mm
Encadernação: Capa mole
Tradução: Elsa Castro Neves, Manuel Alberto e Miguel Filipe Mochila

Páginas: 408

Preço: 23,50
                    


















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