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sexta-feira, 23 de julho de 2021

“Suspense ou a Arte da Ficção”, de Patricia Highsmith

 



A escrita é uma actividade solitária, uma actividade de quem prefere chegar ao mais intrínseco do ser humano sem o fumo das convenções sociais. É praticada por indivíduos recolhidos em si próprios, enrolados para dentro, e exógenos à realidade mundana que os cerca. Para lá das interrogações sobre a execução física da escrita -de pé, sentado, ao computador, com um caderno – subsistem dúvidas: Quais as ansiedades dos escritores? Que problemas têm de ultrapassar? 

“Suspense ou a Arte da Ficção” (Cavalo de Ferro) é a resposta de Patricia Highsmith. 

 


 

Existem algumas respostas no mercado: Stephen King (Escrever- memórias de um ofício), Joyce Carol Oates (A Fé de um Escritor) e, em Portugal, Mário de Carvalho (Quem Disser o Contrário É porque Tem Razão) e João Tordo (Manual de Sobrevivência de um Escritor), entre muitos outros, iluminaram as dúvidas dos leitores e dos escritores, consagrados ou em início de carreira, com possibilidades. 

Em “Suspense ou a Arte da Ficção”, a autora texana confessa logo de início a impossibilidade de se explicar como se escreve um livro bem-sucedido. Afasta a ideia de se ver esta obra como um livro de instruções. As suas reflexões, fundamentadas com os desafios que “O talentoso Mr. Ripley”, “O Desconhecido do Norte Expresso” ou “A Cela de Vidro” apresentaram, destinam-se “a escritores jovens e principiantes”. 

A autora parte das fontes de inspiração e percorre o trajecto até às preocupações comerciais e ligadas ao vil metal, sem relegar a importância de “captar a atenção do leitor contando-lhe algo divertido ou que valha a pena dedicar uns minutos ou umas horas.” 






Patricia Highsmith promete e cumpre. Este breve ensaio é uma visita guiada à “casa das máquinas” de quem sabe do ofício, como poucos escritores, na área do suspense. O percurso é aprazível muito devido ao princípio tão norte-americano de não perder o leitor de vista, de comunicar com ele. Para que escritor e leitor comuniquem a linguagem é informativa, simples e até lúdica: 


“Uma coisa é certa: o público, os leitores, os espectadores televisivos querem entretenimento, ficar presos a uma história. Querem algo invulgar, que fique gravado na sua memória, que os faça estremecer, rir, que seja tema de conversa e possa ser recomendado aos amigos. Entre a semente de uma ideia e um público vasto e elogioso vai um longo caminho.” 


A autora entrega-nos histórias sobre os seus livros desde a concepção, passando pelo parto até à emancipação. 

Tudo é material de escrita, tudo está em potência antes da filtragem pelo tempo. As experiências pessoais eram fonte primordial dos seus contos. Mas também as palavras dos outros e os acontecimentos que arrebanhava em segunda mão. Histórias miscigenavam-se com outras histórias na criação de um corpo a ser desenhado pela escritora. 

Highsmith descreve- tanto quanto possível num livro de 143 páginas – o princípio, o desenvolvimento do enredo e a sua conclusão, após várias versões. Não deixa de apontar obstáculos nem de sublinhar angústias inerentes a cada revisão.

 

“Não é avisado contra-argumentar, pois o editor, provavelmente, sabe mais do que nós e tem a vantagem de discutir a questão com muitas outras pessoas na editora. É surpreendente a quantidade de escritores principiantes que se enfurecem com pedidos corriqueiros como estes, ou quando solicitam que eliminem uma personagem de um livro. Por vezes, agastados, cortam relações com os seus agentes literários ou retiram o manuscrito à editora.” 


Uma das características mais interessantes é a ausência de pudor (tão presente em Portugal) quando aponta para a comercialização das obras. A autora chega a sugerir a adequação do texto às características do mercado. Na expectativa de sustento, a literatura vai além da necessidade de organizar a vida numa narrativa escrita. 


“Caso tenha em mente um determinado mercado, o melhor é a obra ter a extensão adequada logo de início.” 


É uma perspectiva global desde a génese ao consumo. Sem prurido. 

“Suspense ou a Arte da Ficção”, publicado ela primeira vez em 1966, é uma janela para os bastidores do livro, este e outros; é uma espreitadela para o local de trabalho do escritor, por convite do mesmo.
O leitor deixa o texto para observar a mão que o escreve. 

 


sábado, 19 de junho de 2021

"estes ventos negros", de João Narciso

 



Poética da solidão.

 

Por vezes, surge na literatura portuguesa uma espécie de cometa a rasgar a monotonia.  
"estes ventos negros" (Edições Caixa Alta), de João Narciso (n.1982, Pedras Lavradas), ilumina durante cerca de 70 páginas a vida do leitor. E fica em chama na memória, como aqueles cometas mais brilhantes, ainda que já se esteja a ler o livro seguinte. 



 

João Narciso quebra a sintaxe e entrega-se a um jogo semântico e rítmico na construção de uma poética da solidão e do abandono. 
A gestão da frase e do seu silêncio confronta-nos com um afastamento afectivo e físico cada vez mais largo e mais fundo. 
A pandemia veio escavar a distância entre palavras e gestos. 
A construção sintática transmite essa ideia de ruptura da normalidade. É através do rasgo que são mostrados os rituais perdidos, a vida desarrumada, os novos gestos de protecção, mas também de afastamento. É no silêncio, no não-dito, que mora a melancolia e, tantas vezes, a tristeza das personagens.  
Narciso não se amarra a uma história linear que, de tão repetida, seria fastidiosa. Uma simples história sobre esta solidão escavada pela pandemia, com todos os neologismos e palavras resgatadas ao pó, mostraria pouco mais do que a vida exposta diariamente na imprensa, rádio e televisão. A história desta família desagregada pelo acrílico que os separa deste homem velho, seja na sua qualidade de pai, sogro ou avô, pelas máscaras que os impede de beijar e de dar palavras limpas, seria mais uma se não fosse a estética. O autor sublinha o efeito emocional em detrimento do esmiuçar das causas.  Sempre com frases em cadência poética, desafiadoras, a radiografar os efeitos do novo normal
 numa lógica de abandono. 

A linguagem encontra o seu equivalente neste homem velho, dentro de um lar. Ele é a ruptura. Tal qual João Narciso, este homem velho prefere o risco. A segurança imposta pelos outros, ainda que seja por motivos meritórios, prende-o à solidão. A necessidade de toque, de afecto, de voltar a colar a vida das pessoas impele-o às rotinas antes da pandemia. Ele quer tirar o acrílico e abraçar, quer tirar a máscara e falar sem mordaça. Na sua vida, cada vez mais abreviada pela idade, ele prefere estar envolvido nos braços do filho. Não quer viver protegido e isolado.
 
“chegas-te a ele e abraça-lo com a força da tua saudade, //quão violenta é a força da saudade?,/e se ele nunca mais te toca?, //abraça-lo e fechas os olhos,/assumes a escuridão/abres portas à noite,//abraças o teu filho e anuncias que não o largarás/até que ele te beije e abrace,// fazes o teu anúncio de olhos fechados perante a assistência/que te observa de caninos afiados, forças o abraço e pedes/ o beijo, és um terrorista doente, em estado terminal,/ que faz reféns e depois exige que o resgate seja pago em/liberdade, em vez de pedir tempo,// quero liberdade, não me dêem tempo” 


João Narciso desencostou-se do previsível e conseguiu, com muita segurança e qualidade, construir um exercício de linguagem com sentido e emoção num livro de extensão exacta. A leitura do autor Ivo Canelas espelha esse equilíbrio entre ritmo e tempo. 
A leitura demora um fôlego. O efeito dura muito mais. 




segunda-feira, 14 de junho de 2021

Shot #29: "Não Mais Amores", de Javier Marías







 

São 30 anos de distância entre “A Demissão de Santiesteban (1975) e “Caído em Desgraça” (2005), dois dos 26 contos presentes em “Não Mais Amores” (Alfaguara). Javier Marías organizou-os em duas partes: 23 “Contos Aceites” e 3 ”Contos Aceitáveis”. 


Em grande parte, o autor madrileno debate-se com as limitações inerentes a este género literário.
 
As suas frases longas e encadeadas estão aprisionadas num espaço curto, sem vislumbre de liberdade. Embora existam contos de excelência (“Não Mais Amores”, “A Demissão de Santiesteban”, “Na Viagem de Núpcias”, “Binóculos Quebrados”, “Domingo de Carne”, “Enquanto Elas Dormem”) não poucas são as vezes em que o autor parece um maratonista obrigado a fazer uma prova de velocidade. A necessidade de desenvolver personagens, situações e, principalmente, ambientes é limitada pelas características da narrativa breve.  Não é breve (ou curto) o que não demora muito a contar. Não chega. Tem de assumir outras características. O conto deve também ser condensado e homogéneo, elementos que não estão aperfeiçoados em vários contos deste volume.
 E não estão porque o fôlego de Marías é outro, o trabalho sobre a linguagem necessita de mais liberdade para fluir.
Nos mais bem-sucedidos, o autor de “Assim Começa o Mal” observa a duplicidade como potencial (o que somos e o que poderíamos ser numa tensão bem gerida e tão bem demonstrada em “Gualta”, por exemplo, e até na génese de “A Canção de Lord Rendall”) e dá-nos também a antecâmara da acção principal, incindindo a luz sobre o acessório e deixando o desfecho em aberto. As causas são o “ponto cego” que Marías pretende iluminar em detrimento da consequência.
 
Consegue, nos momentos altos, provocar desconforto e surpresa; nos momentos baixos, a mente do leitor afasta-se e o escritor fica a falar sozinho. 
 
Armando Moreno, no seu “Biologia do Conto” (Almedina) é muito pertinente quando afirma que “Não interessa se dada personagem vai matar a mãe ou carpir a morte da filha, mas a sensação que desperta no leitor, isto é, a função que desempenha como elemento literário: a acção
 que teve sobre o escritor enquanto concebia e a que tem sobre o leitor enquanto lê”
 
Por vezes, em "Não Mais Amores", divergem em demasia.
Sabemos que há mais amores e esses são os romances publicados.
 
O próprio Marías não se inibe de desvalorizar o labor aplicado na construção de obra neste género literário. 
 
“E dado que nos últimos anos dediquei muito pouca energia ao conto e também não tenho em vista vir a dedicar-lhe num futuro próximo (…). Nada nunca é certo, mas, dado o pouco que frequentei a nobre arte do conto nos últimos tempos já não escreva mais nenhum (…). Tenho poucas dúvidas de que, a ser assim, o dito género não perderá grande coisa.”
 
Marías habituou-nos a melhor, mas não é preciso ir tão longe. Não sejamos tão duros. É previsível haver dissonância de qualidade numa compilação de contos.

 
Em suma, o melhor Marías não mora aqui, mas o mediano Marías é mais do que suficiente para uma leitura aprazível.
 


Não Mais Amores
de Javier Marías 
ISBN: 9789897841033
Edição/Reimpressão: 11-2020
Editor: Alfaguara Portugal
Idioma: Português
Dimensões: 154 x 234 x 26 mm
Encadernação: Capa mole
Tradução: Elsa Castro Neves, Manuel Alberto e Miguel Filipe Mochila

Páginas: 408

Preço: 23,50
                    


















terça-feira, 25 de maio de 2021

"Contra Mim", de Valter Hugo Mãe

 


FOTOGRAFIAS: DR / PORTO EDITORA




Andar nu pela vida 


Os mais fortes de memória lembrar-se-ão das fotos onde Valter Hugo Mãe (Saurimo, Angola; 1971) se expõe sem pano nem timidez. Foi onde mais se desvelou física e publicamente. No entanto, se ao olhar fizer falta um conhecimento mais apurado, deve ir além da pele.  Se a curiosidade tem fome de alma, então anseia por livros ditados pela vida. 

 

 

O medo reside em quem faz das palavras o principal acesso às memórias mais esconsas. Com o escritor fica o medo do ridículo, o medo de se escangalhar, feio, sob o olhar de quem lê. E, no entanto, não deixa de se expor aos leitores, a ele também, num mundo habitado por gente resgatada ao esquecimento. Tudo vai ficando claro ao olhar de quem conta e ao olhar de quem lê. No fim, o escritor revela-se sob uma luz mais ou menos cruel, com um filtro inversamente proporcional à honestidade, ocultando ou não o sangue que tem para dar. Tem sido assim com a criação literária de Valter Hugo Mãe, seja na poesia ou na prosa. 

No primeiro número da Granta (“Eu”, 2013), Valter Hugo Mãe confidencia:

 

“Ando a pensar que a poesia acontece como expressão súbita que me leva até o que eu não sabia de mim, não saberia admitir. A prosa é mais cerimoniosa. Pede mais licença. Disfarça-me um pouco, não é tão repentina que me faça sentir roubado, acusado ou ridicularizado” 


Em entrevista a Carlos Vaz Marques (Revista Ler, Março de 2020), o jornalista declama um poema de Valter Hugo Mãe: 

“devias morrer no dia dezoito de março de/ mil novecentos e seis, como dizes que/ vai acontecer, para que se acabe essa/ imprecisa sentença que é a vida”  

“Sim”, respondeu o autor, “Isso é também, em muito, a realidade de a máquina de fazer espanhóis”. 

 

Depois de sair, em 2018, “Publicação da Mortalidade”, onde são reunidos os seus melhores poemas, surge-nos a ideia de haver uma noção ou necessidade de retorno ou mesmo de balanço.  De onde vem essa necessidade que, em boa verdade, não é de agora? 

Em todos os seus livros o autor se desenrola. A poesia é onde se sente mais exposto, mas dificilmente haverá mais exposição, ou, pelo menos, exposição mais compreensível do que a existente em “Contra Mim” (Porto Editora). Há livros que são mais espelhos do que outros. 

Em entrevista a Maria João Costa, na Rádio Renascença, afirmou que 


“Este ano pandémico solicitou-me uma revisitação à pessoa que eu quis ser, de maneira a eu voltar a afinar ou ganhar coragem para um regresso franco aquilo que são as minhas pulsões mais naturais.” 






As histórias e as pessoas que formaram Valter Hugo Mãe vêm à tona e apresentam-se ao leitor. Em consequência, há exposição como nunca houve. O autor sai do esconderijo dado pela ficção e revela-se como um homem imprudentemente poético. Mas é nessa sua humanização que reside grande parte do mérito deste texto literário. 

A melancolia e sensibilidade de outros livros são mantidas, mas com denúncia declarada: Este livro é sobre ele próprio e é sobre as pessoas que habitaram a sua infância. É um nu retratado em espaço interior. 

“Contra Mim” mistura as primordiais cores garridas africanas com a infância em Paços de Ferreira e o começo da adolescência em Caxinas. São dois livros num só; duas fases em que a passagem geográfica é acompanhada pela passagem da fronteira entre a infância e a adolescência. É o autor no seu desamparo de criança, na crença inabalável nas palavras, juntas na procura de parcerias imprevistas, e nas pessoas que o formaram. Pessoas e acontecimentos, indissociáveis no sonho e na violência.  

A narrativa é um melancólico elogio do espanto perante a vida que se lhe depara e tantas vezes o atravessa sem piedade; é a voz autoral a contar as reguadas na escola e o braço partido do colega, a relembrar o cristo resgatado ao lixo, a mostrar a ânsia do divino na redenção de tudo, o terror dos louva-deus, o interesse na recolha de expressões e hábitos dos familiares e, principalmente, é a voz de quem parece ser assaltado por tudo. Um diálogo com os mortos, tal qual afirmou na página 98, que detinham a propriedade do seu irmão Casimiro, esse “menino horizontal” que “estava ali deitado à espera que uma árvore grande nascesse e chegasse até ao céu.” 

Também Valter Hugo Mãe, na capa, se apresenta despojado de roupa, sentado, raiz de árvore com palavras a tentar chegar ao firmamento. 

A obra de um escritor necessita da aceitação da crítica, da academia e dos leitores. Valter Hugo Mãe tem sido multipremiado pelos júris, aceite consistentemente pelos leitores e vê, como aconteceu em “Nenhuma palavra é exata- estudos sobre a obra de Valter Hugo Mãe” (Porto Editora), a sua obra estudada e sujeita à exegese mais demorada e exigente. 

Desta vez, demorou-se a observar as histórias que o fizeram escritor. 

Enfrentou o medo de se expor, misturou palavras com doses generosas de empatia, sensibilidade e poesia. Saiu um belo e revelador livro. 


Mário Rufino

quarta-feira, 19 de maio de 2021

"Manhã e Noite", de Jon Fosse.

 




Quando um homem anoitece. 

 

Um livro pequeno, pensamos, quando tomamos nas mãos a edição da Cavalo de Ferro de “Manhã e Noite”. São 111 páginas de prosa poética, sem estéreis efeitos prosódicos.  

Jon Fosse (N.1959, Strandebarm) conta-nos o caminho de dois homens numa linguagem elevada a elemento principal, uma linguagem que rivaliza com o debate interior de Johannes, no limiar da vida, e com o do seu pai, quando assiste ao parto de um mundo novo. Filosofia, teatro, poesia, ensaio (registos tão do gosto do autor) misturam-se num texto que tem corrente interior ainda mais rica do que a ondulação das palavras.
Peter e Johannes são dois homens cuja vida foi feita em partilha. Cortavam o cabelo um ao outro há muitos anos, sabiam dos rituais que os moldavam. Por isso, Johannes não estranhou a presença do amigo na barca depois de acordar sem os habituais vómitos. Somente o viu mais magro e se preocupou com o tamanho do cabelo. Tenho de ir a casa dele para lho cortar, pensou num assomo de cuidado enraizado em muitos anos.

  

“O cabelo cresceu-te tanto, dá-te pelos ombros, diz Johannes 

Devias, sim, diz Peter 

e Johannes vê Peter levar o seu velho cachimbo à boca 

Há já muitos anos que cortamos o cabelo um ao outo, diz Johannes 

Estou a tentar fazer o cálculo, diz Johannes, penso que já terão passado 

Sim, já terão passado perto de quarenta anos, diz Peter"  


Peter estava ali para Johannes. Embarcaram para viajar pelo rio de margens cada vez mais difusas. 
Entrando no “Dicionário dos Símbolos” (de Jean Chevalier e Alain Gheerbrant) para nos ajudar a compreender, chegamos à ideia de a barca ser muito mais do que um meio de transporte.  


“A barca é o símbolo da viagem, de uma travessia efectuada pelos vivos, seja pelos mortos"


Símbolo presente em todas as civilizações, a barca pode ser a garantia de segurança, depois de ambos terem navegado por uma vida dorida e atribulada. 

Um e outro, na vida e na morte, ajudam-se mutuamente. 
Sobre a água do rio, vão de margem a margem. A água, como símbolo, resume-se a três temas dominantes: fonte de vida, meio de purificação, centro de regenerescência. Nas tradições judaica e cristã, a água simboliza a origem da criação. 




 

Esta forma de amor entre amigos nem a morte desenlaça. Este tipo de amizade- um dos três tipos de “Philia” referidos por Aristóteles em “Ética a Nicómaco”- é acarinhada entre homens de bem: 


“Estes querem-se bem uns aos outros, de um mesmo modo. E por serem homens de bem são amigos dos outros pelo que os outros são. (…) Tais amizades são, de facto, raras porque são poucos os homens desta estirpe. Além do mais, é preciso tempo e cumplicidade, pois, tal como diz o provérbio, não é possível que duas pessoas se conheçam uma à outra sem antes terem comido juntas a mesma quantidade de sal”. (edição da Quetzal,2009; trad. António de Castro Caeiro). 


Jon Fosse contrapõe Eros e Thanatos numa prosa de filigrana, sensível como um poema. Dá-nos a conhecer os extremos da vida de Johannes. Vemo-lo a nascer, vemos o desconcerto dos pais na génese de uma vida. É um amor diferente aquele que une pai e mãe na violência inoculada pela vida a florescer. Na outra margem, o desconcerto no abandono da vida incorporada e a espera de quem partilhou a mesma quantidade de sal. Saiu do nada, saiu do não-lugar onde não há corpos nem palavras, para o não deixar desamparado na transição. 
Jon Fosse manteve-se na essência, sem palavras espúrias, nem divagações snobs. 
Em “Manhã e Noite” (Trad. do inglês de Manuel Alberto Vieira), o leitor reconhece as suas margens e percebe que um dia terá de chegar àquela onde o esperam. No entanto, uma forte luz na penumbra, este optimismo do autor norueguês, deixa-o a desejar, quando chegar ao fim do caminho, por um amigo como Peter, um amigo que o leve a bom e luminoso porto de desembarque. 


Este livro tem tanto em si. Clama à releitura.  


Publicado em https://www.comunidadeculturaearte.com/manha-e-noite-de-jon-fosse-o-crepusculo-do-homem/



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