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segunda-feira, 11 de janeiro de 2021

O Espelho e a Luz, de Hilary Mantel

 






O poder alimenta-se de sangue.

 

Sobreviveu às tareias dadas pelo pai, ascendeu aos mais altos cargos do reino, caiu em desgraça.
Eis Cromwell contado por Hilary Mantel. “ O Espelho e a Luz” mostra-nos como o poder é efémero.

 


Quando o leitor entra num texto com a dimensão de “O Espelho e a Luz” tem consciência de ter uma pausa longa na sua realidade. Durante essa viagem por um tempo histórico muito longe do tempo em que o seu corpo interage, o leitor experimenta- teoricamente- curiosidade (por costumes e figuras históricas), êxtase (pela descrição/dramatização de momentos fulcrais da História), mas também tédio e abstracção. Por outras palavras, entedia-se e distrai-se, como se de uma conversa em pano de fundo se tratasse. 
Um livro com 875 páginas leva-nos para uma realidade onde ficamos durante muito tempo. Sendo, como neste caso, pertencente a uma trilogia, implica um compromisso do leitor em viver numa época diferente, entre pessoas desconhecidas e alienado da realidade em que as suas acções implicam um efeito. E tal como na vida real, por vezes o tédio toma conta dele. Se este tédio foi um objectivo de Hilary Mantel, uma estratégia para entrar na vida, por vezes enfadonha, de Thomas Cromwell, então o resultado é de excelência. No entanto, ao fazê-lo empurra muitas vezes o leitor para fora do texto. Há tanto que se perde por causa do tom monocórdico.
O capítulo final da trilogia é uma máquina construída com atenção a cada peça, numa obsessão pelos pormenores e pelo desenvolvimento em passos lentos da personalidade dos seus avatares, principalmente de Thomas Cromwell.
 
O compasso é longo e a sucessão de tempos dentro da narrativa é executada com o vagar de quem procura tanto quanto possível estender o prazer em estar nesta companhia. A marcação do tempo e o andamento transmitem a sensação própria de um voyeur a acompanhar a vida de um vigiado. Em grande parte da narrativa observa-se a banalidade, aqui e ali pontilhada por momentos disruptivos. E é isto que falta na prosa da vencedora do Booker (duas vezes, ora com “Wolf Hall”, ora com “O Livro Negro”). As disrupções na prosa são escassas; mantém-se o mesmo ritmo, quase sem oscilações. 
A britânica Hilary Mantel propõe ao leitor que acompanhe Thomas Cromwell durante  1971 páginas divididas em 3 volumes: 
Wolf Hall” (Civilização, 658 páginas), “O Livro Negro” (Civilização, 438 páginas) e “O Espelho e a Luz” (Editorial Presença, 875 páginas). 

A trilogia começa com a incessante obsessão de Henry VIII por um herdeiro masculino. A fraqueza e volatilidade do sexo feminino – segundo o rei- não permite que uma mulher ocupe o trono depois da sua morte. Nessa demanda por um filho e por alianças políticas, Henry VIII viria a casar seis vezes.
Em “Wolf Hall” acompanhamos os tempos áureos do cardeal Wolsey, como conselheiro do rei. O falhanço em cumprir a tarefa de conseguir o divórcio para o rei viria a provocar a sua queda. Cromwell é apresentado como secretário de Wolsey e a sua ambição denota-se na habilidade para manipular pessoas e aproveitar ocasiões. Estamos em 1520.
Em “O Livro Negro”, assistimos à ascensão de Cromwell e à descida de Anne Boleyn até ao seu violento destino. Estamos na década 30 do século XVI. O destino dos dois são antagónicos, embora andem a par. Anne Boleyn é decapitada por pretenso adultério após o rei se apaixonar por Jane Seymour. E é logo após o momento de decapitação que começa o último capítulo da trilogia.
O segundo volume da trilogia já havia deixado pistas para o último. Mantel afirma na última página de “O Livro Negro”:

“Não há fins. Quem pensar que há está iludido quanto à sua natureza. São tudo começos. Aqui está um”.

“O Espelho e a Luz” estende-se entre Maio de 1536 até Julho de 1540.
Mais 875 páginas a acompanhar a vida de Thomas Cromwell, um “faz-tudo” que vai subindo na vida até ser um dos homens mais temidos na época de Henry VIII, da dinastia Tudor: 

“Apesar de ainda ser um plebeu, a maioria das pessoas concordaria que ele é o segundo homem mais importante da Inglaterra. É o representante do rei para as questões da Igreja. Tem licença para investigar em qualquer departamento do governo ou da casa real. Carrega na sua mente os estatutos da Inglaterra, os salmos e as palavras dos Profetas, as colunas dos livros contabilísticos do rei e a linhagem, a quantidade de hectares e os rendimentos de todas as pessoas importantes de Inglaterra. É famoso pela sua memória (…) As únicas coisas de que ele não se consegue lembrar são aquelas de que nunca teve conhecimento.”






 

As obsessões e violentas diatribes de Henry VIII, a rivalidade da família Tudor com a Casa de York, a morte de Catarina de Aragão e de Anne Boleyn, o confronto com Roma e o seu bispo são acompanhados, primeiro, e geridos, depois, pela mestria maquiavélica de Cromwell. Tal como Maquiavel, seu contemporâneo, Cromwell geria a corte como ela era e não como uma imagem idealizada pela plebe. Tal como Maquiavel, Cromwell não mentia; fazia política. Sabia movimentar-se pelos bastidores do poder e entre a súcia que ocupava os corredores palacianos graças a um conhecimento empírico dado por uma vida atribulada e até trágica. A sua vida é obscura, mas sabe-se que a ascensão começou ao serviço do Cardeal Wolsey e prosseguiu ao ponto de ser nomeado de Lorde e ganhar fama entre a plebe: 

 “Como é que alguns poemas contra Cromwell, cantados numa rua em Falmouth, são replicados no dia seguinte em Chester? Quanto mais se distancia de Londres, mais estranho se torna Cromwell. Em Essex é um trapaceiro intriguista, um blasfemo e um judeu renegado. Espalhem-no um pouco mais para leste, para Lincoln, e ele é conhecido por saber tudo sobre venenos. Nos vales de Yorkshire, ele é um mago, com as estrelas e a lua no seu casaco, enquanto em Carlisle, ele é um vampiro que rapta crianças e devora os seus corações.” 
O caminho foi longo e Mantel foi meticulosa a percorrê-lo.
Cromwell nasceu pobre num lugarejo chamado 
Putney. Na década 20/30 do século XVI, entra no parlamento e demora pouco até ser agraciado pela atenção do rei e entrar no seu círculo mais íntimo. Antes disso, perdeu a sua mulher e as suas duas filhas para a “doença da febre”.
Cromwell, como principal conselheiro de Henry VIII, foi “corner stone” da Reforma, fundamental na implementação do Protestantismo no Reino Unido. 
A contenda com o bispo de Roma foi sendo cada vez mais incisiva até as ideias de Martin Luther e John Calvin se emanciparem do catolicismo e fundarem um dos três principais ramos do cristianismo.
A inconstância emocional do Rei provocaria o génesis de uma nova igreja em Inglaterra. O Papa negaria a pretensão do rei em se divorciar de Catherine, o que o levou a afastar-se do bispo de Roma. A excomunhão do Rei causaria o surgimento da Igreja Anglicana. Já longe ia o ano (1521) em que Henry VIII fora considerado defensor da fé pelo Papa. Estes factos históricos são âncora para a imaginação da autora.





Se um livro nos leva para uma época histórica, se nos leva para tão longe do nosso tempo, o que nos leva a ler ficção em vez dos descritivos e mais objectivos livros de história? 
A liberdade ficcional permite explorar a psique de cada um dos personagens. O que a história não demonstra, a ficção desenvolve. Não é por mera inocência que Hilary Mantel estrutura “O Espelho e a Luz” em diálogos entre personagens, intercalados com poucos solilóquios do narrador. 
A autora cria a ilusão de estar a escrever por dentro da acção, de estar sentada a ouvir os diálogos para os registar, sempre sob o prisma moral de Cromwell. Para isto muito contribui o trabalho sobre a linguagem, cujas características envolvem a imaginação do leitor no século XVIII.

Mantel abandona a metáfora e provavelmente os jogos fonéticos para alcançar a eufonia. Acreditamos, pois estamos perante uma tradução (trad. Beatriz Sequeira). A linguagem não é de tom poético. A autora concentra-se em colar a palavra à pele, ao seu sentido primário. Os matizes do discurso estão no confronto entre discurso público e privado, entre hipocrisia e honestidade. E aqui Mantel encosta-se à excelência. No entanto, mesmo abandonando a metáfora, a palavra é infiel a este princípio quando é utilizada com ironia. 
A linguagem e a cenografia transportam o leitor para a época. A tradução respeita a segunda pessoa do plural, credibilizando o discurso. Mas até aqui o texto parece provocar algum cansaço. Numa tradução, até então, sem grandes sobressaltos, somos confrontados com erros imprevistos:
Está uma noite calma, não se houve qualquer som vindo do rio...”
 Há redundâncias na narrativa que poderiam ser evitadas segundo o princípio da economia. A descrição da abundância de produtos de determinada região serve para contextualizar o leitor e- mais uma vez- credibilizar a 
acção. Resulta, mas é escusado repetir a mesma estratégia narrativa quando volta a descrever a mesma região.  

Um texto longe de ser lépido ganharia que se lhe encurtasse a vida, como Henry VIII fez a Cromwell, em cerca de 300 páginas. Ganharia em pungência, ficaria livre de excessos e nada perderia o leitor na evolução histórica da época nem sobre as metamorfoses emocionais dos personagens. 
Um ritmo demasiado lento, um tempo demasiado longo. Talvez seja diferente para quem nutre indefectível interesse pelos romances históricos, especialmente se forem sobre acontecimentos na época dos Tudor.
No entanto, não deixa de haver universalidade na mensagem. O poder mantém as suas características, seja em que época for.
Não há reino nem república sem o seu Cromwell, sem as suas peças embriagadas pelo poder.
 “Algures - ou talvez nenhures – existe uma sociedade governada por filósofos. Eles têm as mãos limpas e os corações puros. Mas, mesmo na metrópole da luz, existem pilhas de estrume e esterqueiras, pejadas de moscas. Mesmo na república da virtude, é necessário um homem para limpar os dejetos com uma pá, e algures está escrito que o nome dele é Cromwell.”
O menino de Putney, formado com constantes tareias pelo pai, ascendeu do nada até ser ouvido pelo rei, considerado por Cromwell como o espelho e a luz de outros reis. Tal como Tom Verdade vaticinou, o rei iria odiá-lo tanto pelos seus êxitos como pelos seus fracassos.
Na trilogia de Hilary Mantel a ficção está ao serviço da verdade. Graças a isso, o leitor conhece ao pormenor Thomas Cromwell.
Um livro ambicioso, com mais qualidades do que defeitos.



https://observador.pt/2020/10/31/o-espelho-e-a-luz-e-a-exigente-ambicao-de-hilary-mantel/

sábado, 9 de janeiro de 2021

"O Silêncio", por Mário Rufino na LER Nº 153.

 

"Jornais como “Observador”, “Expresso” e “Público” têm um “feed” de actualização constante sobre a Covid-19. Não é Patrício quem alimenta as notícias. São os países encerrados, sem gente na rua, com os estádios vazios, que alimentam uma máquina voraz, ubíqua, sempre pedindo mais e mais informação. Do outro lado do ecrã, seja do “tablet”, computador ou telemóvel, está o consumidor, sem dar descanso ao cérebro. É engolido pela atroada do mundo. Sem dar conta, torna-se “hikikomori”, a quem entregam os mantimentos à porta de casa para que se possa manter isolado entre paredes, mas ligado ao mundo através de um ecrã. Isolado, mas não em sossego. É eremita contrariado com medo de si, sem saber lidar com o tédio, nem instrumentalizar o silêncio. Se não tem estímulos, o ser humano vira-se para o seu interior. E pode não gostar do que vê. A necessidade de mutismo é necessidade de conhecimento."

Ler Nº 153
















sexta-feira, 8 de janeiro de 2021

“Rapariga, Mulher, Outra”, de Bernardine Evaristo

 






A Humanidade em várias vozes. 

 

Vejamos uma mancha. Não no sentido pejorativo, mas um conjunto de pontos que a visão não consegue distinguir a certa distância. É uma mancha. Tem uma determinada cor e forma. Não sabemos de onde veio nem qual o seu objectivo. Ou intuímos, caso seja uma mancha orgânica, uma estrutura social, digamos. Aproximemo-nos. Mais um pouco. Começamos a prestar menos atenção à forma global e detemo-nos sobre as particularidades do que estamos a ver. Continuemos a aproximação. Há pontos regulares e irregulares; há uns maiores e outros mais pequenos; uns assonantes outros dissonantes.  
Uma sociedade é uma mancha orgânica, volátil, e composta por individualidades. 
Se a sociologia trata do conjunto, a psicologia trata do individual, mas nenhuma das duas disciplinas é capaz de usar a verdade tecida com a ficção para mostrar, em simultâneo, o geral e o particular. 
Bernardine Evaristo (n.1959) aproximou o seu olhar, observou as dissonâncias e contou-as com singularidade. O resultado foi uma constelação de personagens marginais e memoráveis. 
A autora nascida no sudeste de Londres eleva a linguagem tantas vezes informal, tão próxima da oralidade e das frases agramaticais, a literatura de elevado grau.  
“Rapariga, Mulher, Outra” (Elsinore) não é manso nem domesticado. Os avatares afastam a dormência do leitor. São inquietantes e espelham as idiossincrasias sociais numa narrativa em mosaico sem pretensão de espartilhar as diferenças. A narrativa organiza-se de acordo com o tema essencial: respeito e interesse pelo individual declinados em diferentes perspectivas. 
Há uma intrínseca defesa das minorias na prosa de Evaristo. E isso pode-se constatar logo na dedicatória: 
“Para as manas & as babes & as sistahs & as mulheres & as divas & as deusas & as damas & os malandros & os manos & os damos & os cavalheiros &os homens & os brothas & a irmandade LGBTQI+.” 
A ligação entre histórias depende mais da temática do que da interacção entre as 12 personagens (embora essa interacção seja importante no epílogo). Amma, Shirley, Carole, Bummi, Yazz, Dominique, LaTisha, Penelope, Megan/Morgan, Hattie e Grace desajustam o eixo do pensamento normativo. O mundo não é uma projecção adequada ao conforto de cada um. O mundo é composto por diferentes tipos de pessoas, com seus credos, cores, escolhas sexuais, de género, de vivência e núcleos familiares. É uma mancha policromática, formada por “pixels” diferenciados. Nas suas histórias existem família, maridos, mulheres, amigos e amantes a viver numa sociedade multicultural. Se doze personagens centrais já seriam matéria-prima mais do que suficiente para Bernardine Evaristo desenvolver diferentes personalidades, ainda mais rico ficou “Rapariga, Mulher, Outra” com personagens secundárias (mas não planas) como Nzinga. 
Num dos momentos mais bem conseguidos no romance, é uma fugira secundária- mas impactante- a demonstrar a possível utilização de “bandeiras” para a concretização de objectivos pessoais. Nzinga é manipuladora, ciumenta, agressiva e seca tudo à sua volta. Os seus ideais de veganismo e feminismo são, acima de tudo, uma arma para conseguir os seus intentos. Alimenta-se dessas ideias; não tem a defesa das mesmas como primordial. Quantas vezes assistimos a isto na imprensa, televisão ou rádio? 



 


 

Evaristo está muito longe de uma ficção assente em teorias sociais. A sua prosa respira entre a comunidade, caminha nas ruas dos subúrbios, vincula-se às pessoas e às respectivas realidades. Mais do que um romance assente em teorias, “Rapariga, Mulher, Outra” está vinculado à vida, está vinculado a quem se sente marginalizado. 
A ligação entre psicologia e sociologia, entre a pessoa e as suas circunstâncias, como disse Ortega Y Gasset, é o “leitmotiv” de Bernardine Evaristo.  
“Me Too” e “Black Lives Matter” não são debatidos numa perspectiva académica. São demonstrados nas vivências das personagens recriadas – ou mesmo transferidas- para o romance vencedor do Man Booker Prize 2019. 
Por vezes, o leitor tem a felicidade de ser surpreendido por vozes diferentes com capacidade de o motivar a ouvir. Bernardine Evaristo é uma dessas vozes. 


quinta-feira, 7 de janeiro de 2021

Shot #26: "Tropel", de Manuel Jorge Marmelo

 



Tropel, título e vocábulo repetido na prosa deste romance, adequa-se ao propósito do tema, mas não à qualidade da escrita de Manuel Jorge Marmelo. Existe um cuidado com a linguagem própria de quem acarinha o ritmo das frases e presta atenção ao uso de cada palavra. A toada é fluída, plena de sensibilidade, o que acentua o ruído e confusão ideológica das personagens que habitam o romance. 

Manuel Jorge Marmelo já provou nas suas crónicas, romances e contos a qualidade da sua escrita, já se fez notar como um dos romancistas contemporâneos portugueses a ter em conta. Dentro dessa constância, Tropel é distinto, pois afirma-se com um dos melhores trabalhos do autor nascido no Porto. 

Atanas Viktor aprende a caçar com o seu pai que, por sua vez, passa os ensinamentos aprendidos com o avô de Atanaz. Procuram caça grossa e procuram matar imigrantes que entram no país. Pertencem ao Clube dos Caçadores de Székely, um exponenciado grupo “Proud Boys” em busca da purificação do território. Mas a violência não é só da porta para fora. É constante, familiar e subversiva. É um tropel de acontecimentos ostensivos e subliminares de violação física e emocional. 

Passa-se longe do Porto e de Lisboa, mas é uma acção cada vez mais próxima. 

A ficção tem esta capacidade: aproxima-se o mais possível do realismo para, com um ligeiro desvio, mostrar a essência do que nos rodeia. 

Quando um bom artífice explora esta possibilidade através do trabalho de linguagem, o leitor usufrui de livros como “Tropel” e das capacidades narrativas de autores como Manuel Jorge Marmelo. 


ISBN: 978-972-0-03181-5Edição: 09-2020Editor: Porto EditoraIdioma: PortuguêsDimensões: 152 x 235 x 15 mmEncadernação: Capa molePáginas: 152












quarta-feira, 9 de dezembro de 2020

"Manual de sobrevivência de um escritor" (Companhia das Letras), de João Tordo

 


    





Tantas são as vezes em que lemos a biografia de um escritor e vemos a pobreza ou os desequilíbrios emocionais filtrados pelo romantismo. É uma panaceia para quem deseja enveredar pelo mesmo caminho. A decrepitude é genial, pois provém da divina bênção dada a quem tem pouco trabalho, muita indolência e toque de midas. Tudo parece natural, mas quando alguém demonstra as dores de crescimento, as dores inerentes ao processo de criação, o leitor tem um vislumbre da realidade por vezes suja de como tem de viver o demiurgo. É o verdadeiro curriculum vitae de, digamos, um escritor.  
Drogas, álcool, problemas económicos, insegurança são cicatrizes raramente expostas por um escritor num festival literário, numa sessão de autógrafos, ou numa entrevista televisiva.  
O resultado é o mais importante; o resultado deve estar acima de todas as dores. No entanto, é possível encontrar intermitentes assomos de coragem. Vemos isso em “Escrever - memórias de um ofício”, de Stephen King. O livro do autor de “Shining” saiu quase em simultâneo, em Portugal, com o “Manual de sobrevivência de um escritor”, de João Tordo. O autor português afirma ter o livro de Stephen King como influência e apoio, juntamente com “Poética”, de Aristóteles, “Cartas a um jovem poeta”, de Rainer Maria Rilke, “Cartas a um jovem escritor”, de Colum McCann, “Quem disser o contrário é porque tem razão”, de Mário de Carvalho, entre outros de Annie Dillard, Joyce Carol Oates e Marie Anna. 



Por vicissitude de terem sido editados e lidos em simultâneo, a comparação entre o livro de Tordo e King é inevitável. Embora o do escritor norte-americano seja revelador, não atinge a capacidade comunicativa e claridade do livro de João Tordo.  
O vencedor do Prémio José Saramago, em 2009, aponta as feridas para o leitor descrer na falácia da ideia de criação como resultado de uma prenda divina. 
Um escritor faz-se muito novo, afirma, mesmo que comece a escrever tarde na vida. A vida é matéria primordial e, para isso, é preciso tê-la vivido, é preciso ter as cicatrizes de quem tem muitos dias às costas. 

“É quase cruel dizer isto, mas, embora não seja condição sine qua non, ajuda bastante ter uma infância difícil, ou emocionalmente conturbada. Procurem, nas origens dos vossos autores favoritos, por sinais do desastre iminente, pela ferida mais profunda. E o mais certo é que os encontrem.”  

Seja como for, a escrita não se resume à autoficção. Não é por a origem das suas personagens, ou, pelo menos, as características das mesmas fundarem-se em feridas de infância, que tudo é sobre acontecimentos vividos por quem escreve. As palavras de um escritor não tratam do real; incidem sobre o verdadeiro. São distintos e podem estar muito afastados um do outro. É nessa procura da veracidade que o autor se vai revelando, ou como diz João Tordo quando lhe perguntam sobre o que tratam os seus livros: É sobre ti, o escritor. 
Livro após livro, o autor tenta descobrir-se. É um caminho doloroso, com vitórias e derrotas, avanços e recuos, insegurança e realização. 
 
“Já dei por mim a dar pulos de satisfação por causa de um dia em que a Musa esteve comigo, e a duvidar de tudo, insone e deprimido, porque me vi bloqueado em determinado momento do processo. 
Acredita em mim: faz tudo parte do ofício” 
 
"Manual de sobrevivência de um escritor” é um livro que explica como se utiliza um “martelo”, uma ferramenta. Não é um livro de teoria da literatura, um livro em que se explica como se faz o metafórico martelo. Desde a pergunta “O que é um escritor?” passando pelo enredo, tema, técnica, edição, o dinheiro, os contractos, a crítica e a inveja, o leitor viaja pela realidade nada ficcionada de um autor que vive da sua escrita. E, acredite, sai mais lúcido quando finda a última página. 
Sublinhe-se a honestidade e abertura de João Tordo. Em “Possíveis Interacções”, último capítulo, é mencionada a influência do álcool e das drogas na produção escrita e na vida pessoal. 
Já em “O lado negro da força”, é confidenciada a principal preocupação deste escritor que vos aconselha. Não é a técnica, o enredo, ou a crítica. É a sobrevivência. 

 
“A menos que tenhas a sorte de escrever um bestseller à primeira, e vender centenas de milhares de exemplares (o que, habitualmente, significa que escreveste um livro mauzito), a tua carreira de escritor será marcada pela luta constante e pela ameaça de penúria sempre a dourar o horizonte com a sua promessa de despejo. 
Não importa quanto te esforces” 

 Mas é quando aborda o alcoolismo que mais se expõe (João Tordo publicou também um pequeno ensaio na Fundação Francisco Manuel dos Santos. Em “Que nós estamos aqui – 12 passos para a recuperação”). 
No último capítulo do livro são dados exemplos de dependência sofrida por Carver, Hemingway, Bukowski, Poe, Cheever, Faulkner, Dylan Thomas, Fitzgerald, Joyce. E Tordo. Eis, possivelmente, o melhor conselho escrito em “Manual de sobrevivência de um escritor”: 

“Seja o que for que aconteça na tua vida de escritor, não bebas em excesso. O mesmo para as drogas. Se o fizeres, fá-lo-ás por tua conta e risco, sem ilusão de que isso te aumentará a criatividade ou a patine de mistério. E digo-te, por experiência própria, que o teu trabalho piorará.” 
 
Se o candidato procura uma luz a guiá-lo pelo labirinto que o levará a ser escritor, não ficará desiludido com “Manual de sobrevivência de um escritor”. É um guia claro, pedagógico e honesto. João Tordo não desvia o olhar de quem o lê. Sabe que tem um receptor de uma mensagem; sabe que deve explicar, como numa das suas aulas práticas sobre literatura, a informação de forma pragmática, próxima das expectativas de quem lê. E não desilude. 
Há um mantra neste ensaio: 

“Portanto, tu queres ser escritor”. 

Então este livro é uma preciosa ajuda.  
Um dos melhores ensaios sobre o processo de escrita e publicação que me foi dado a ler.





 

quinta-feira, 3 de dezembro de 2020

Shot #25: "1984", de George Orwell e Fido Nesti

 



Os clássicos são sempre bem-vindos. Neste tempo pandémico, em que as liberdades individuais são cerceadas, a realidade está prenhe de distopia. 
Não há uma guerra contra a Eurásia, não há bombardeamentos, nem nos foi retirada a possibilidade de exprimir opinião. No entanto, estamos encostados às cordas por um vírus, governos empurram as pessoas para confinamento e a liberdade de expressão perde-se num ruído sem ponta por onde se puxar. A possibilidade de andar na rua submete-nos à escravidão de uma cama de hospital, agarrados a ventiladores. Damos os nossos dados a empresas abstractas e vigiamo-nos, como membros de um pelotão da polícia do pensamento. Estamos prontos a castigar a diferença em prol de um pensamento unificado por ideologias bem aceites. No meio do ruído, corporações de media e homens nas mais poderosas nações do planeta tentam reescrever a História através da manipulação de imagens, opiniões formadas por essas manipulações, “tweets”, declarações e comícios. 
Para termos paz, é necessária guerra ao vírus. Para termos liberdade, precisamos de nos aprisionar em casa, ou limitarmos os contactos sociais. No meio de tanta desinformação, a ignorância mantém o equilíbrio e a força mental.  
2020 bem podia ser “1984”. 
Procuramos entender recorrendo às palavras dos mais antigos. O livro de George Orwell apresenta similitudes com este ano disruptivo. Daí não ser uma surpresa ver “1984” como um dos livros mais vendidos na quarentena. Seja pela temática ou pelo “hype”, a publicação da novela gráfica baseada na distopia de Orwell é bem-vinda. A história escrita em 1949 mantém-se actual. 

Fido Nesti (São Paulo, 1971) carrega o ambiente de tons escuros e a pele das personagens de macilência. Winston Smith é um homem doente. Olhamos para as vinhetas de Nesti e percebemos o quanto ele espelha o ambiente opressivo. 
É a primeira adaptação de “1984” e afirma-se como capaz de manter a substância do texto original nesta transmudação de género. 
Esta novela gráfica não é bela; suja os dedos do leitor com a fuligem da desgraça disruptiva de uma sociedade caída e dividida em castas. 
Soa-nos a aviso. Olhemos para as vinhetas de Fido Nesti. Estaremos a espreitar um futuro possível. Leiamos a inquietação de Winston. Será assim tão diferente da nossa? 
Big Brother is watching you. O Big Brother somos nós. 
 

 








ISBN: 9789897840418Edição: 10-2020Editor: Alfaguara PortugalIdioma: PortuguêsDimensões: 175 x 245 x 22 mmEncadernação: Capa duraPáginas: 224





quinta-feira, 12 de novembro de 2020

Shot #24: "Soldados de Salamina", de Javier Cercas e José Pablo García

 





Quando é bom, queremos repetir. Seja da mesma forma, ou reinventado. É o que se passa com um livro. Depois do texto, vem uma série, um filme ou mesmo uma novela gráfica. A interrogação surge de seguida: 

Será que respeita o original? 

José Pablo García ilustrou as palavras de Javier Cercas escritas em “Soldados de Salamina”. Mais do que respeitar, o trabalho de García é uma homenagem à qualidade do romance publicado em 2001. 

Revivemos a prosa de Cercas nas ilustrações desta novela gráfica. O ilustrador não arrisca. Mantém-se fiel ao original e consegue com excelência ilustrar a imaginação do leitor. Reconhecemos Cercas no livro e conhecemos as personagens que têm morado nas páginas do autor nascido em Ibahernando, decorria o ano de 1962. 

Mazas, o poeta, tem agora um corpo. O fundador da Falange e posterior ministro de Franco conseguiu fugir a um fuzilamento perto da fronteira franco-espanhola e refugiar-se no bosque. A ajuda de um soldado republicano foi essencial para a sobrevivência. Sessenta anos mais tarde, Cercas resgata a história do esquecimento e escreve o seu livro com mais vendas até ao momento: mais de um milhão de exemplares. 

José Pablo García tinha 19 anos quando “Soldados de Salamina” foi disponibilizado aos leitores. E é 19 anos depois de o livro ter saído que publica a sua interpretação. 

A importância de uma obra é potenciada pela contínua aceitação dos leitores, pelo estudo académico e pela constante reinvenção do formato. É o que tem acontecido com “Soldados de Salamina”.  

O encontro de dois talentos de diferentes gerações resultou neste livro editado pela Porto Editora.  

Em epígrafe podemos ler: 

“Os deuses ocultam o que faz viver os homens” (Hesíodo, “Os Trabalhos e os Dias”) 

José Pablo García e Javier Cercas revelam o que está oculto nesse “ponto cego”. 

É uma obra que os admiradores de Cercas não irão querer perder, ou uma via para quem ainda não conhece a escrita de Cercas. Em ambos os casos, uma excelente aposta de leitura. 


Soldados de Salamina - Novela Gráfica

ISBN: 978-972-0-03293-5Edição: 10-2020Editor: Porto EditoraIdioma: PortuguêsDimensões: 176 x 248 x 16 mmEncadernação: Capa duraPáginas: 152









quinta-feira, 1 de outubro de 2020

Shot #23: "Nada a Temer", de Julian Barnes

 



Sorte a do leitor quando encontra em cada página um escritor que assina a sua prosa com uma verve distinguível. 

Julian Barnes discorre ao longo de “Nada a Temer” vivências e ideias sobre aspectos quintessenciais, destilados ao longo de várias gerações familiares.  

Na banalidade quotidiana de uma família ou de um indivíduo existem pilares mestres da humanidade. Pode não ser distinguível pelo comum dos observadores, mas Barnes não é um mero e distraído observador. Dessa matéria regularmente visível vai ao âmago do principal, depura as ideias e apresenta-as como elevada literatura. As situações comezinhas emprestam o colorido ao desenho, ou exemplificam o cerne das interrogações. E são muitas. A religião e a morte entrelaçam-se na memória de Julian Barnes. “Nada a Temer” é sobre ele próprio, é sobre a família e é, principalmente, sobre as dúvidas que nos assaltam desde os primórdios. No particular está o universal. A família Barnes, através da voz autoral de Julian, medita sobre o seu desaparecimento, a relação com Deus, a divindade da Arte. 

“As pessoas dizem sobre a morte: «Não há nada a temer.» Dizem-no depressa, em tom casual. Ora vamos lá dizê-lo outra vez, lentamente e com ênfase: «Não há NADA a temer.»” 

Um belo livro, que intercala melancolia com humor, pessimismo com alegria, qualidade com ainda mais qualidade. 

A reedição de “Nada a Temer” pela Quetzal vem em boa hora. 





ISBN: 9789897226724
Edição: 06-2020
Editor: Quetzal Editores
Idioma: Português
Dimensões: 149 x 233 x 19 mm
Encadernação: Capa mole
Páginas: 288
Tipo de Produto: Livro
Coleção: Serpente Emplumada











quinta-feira, 24 de setembro de 2020

“Aproximadamente do Tamanho do Universo”, de Jón Kalman Stefánsson

 





Um universo demasiado pequeno


Depois de uma excelente trilogia, um díptico menos conseguido. Jón Kalman Stefánsson envolve as personagens numa densa neblina, exigindo total concentração ao leitor. Valerá a pena o esforço?


O jornal norueguês Dagbladet compara Stefánsson a Melville enquanto o The Independent o faz em relação a Cormac McCarthy. Se resulta em termos comerciais, também desnuda as diferenças entre “Aproximadamente do Tamanho do Universo” e obras como “Moby Dick” ou “A Estrada”. Enquanto o livro de McCarthy e principalmente o de Melville conseguem desenvolver as vertentes sociológicas e psicológicas- Moby Dick é também documental- o de Stefánsson fica aquém.  O autor nascido em Reiquiavique não consegue delinear, com igual interesse, a inóspita Islândia, a sociedade em transformação e a psicologia das personagens que nela se movem. Mesmo que evitemos a comparação proposta pelo TLS, The Independent e Dagbladet é inevitável compararmos com obras anteriores do mesmo autor. Esta obra díptica terminada com este livro não chega ao patamar da anterior trilogia. 

“Aproximadamente do Tamanho do Universo” continua a partir do fim de “Os Peixes Não Têm Pés”.

A história de três gerações estabelecidas neste inclemente lugar do planeta começa, em “Os Peixes Não Têm Pés”, com uma informação em jeito de aviso para quem entra nas 660 páginas deste díptico sobre Ari e a sua família:

“Em Keflavík há três pontos cardeais:

o vento, o mar e a eternidade.”

Em “Os Peixes Não Têm Pés”, Ari regressa a Keflavik, sua terra natal. Após a leitura de uma carta, ele suspeita que o seu pai tem pouco tempo de vida. Nesta pequena localidade islandesa, “cercada por campos de lava”, Ari recorda os anos 70 e 80. Nessas décadas, ouvia Pink Floyd e Beatles, assaltava camiões de abastecimento que saíam da base militar norte-americana e cortejava as raparigas.

De forma intercalada, decorre a história do pai e a história dos seus avós, Oddur e Margret. Os dois anciãos percorreram o inóspito caminho de uma terra com pouco para oferecer. O mar era fonte de alimento, mas também de dor, solidão e medo.

Já em “Aproximadamente do Tamanho do Universo”, o autor dá mais informação sobre Oddur, Margret e Ari. De forma similar ao primeiro livro, trata-se de um regresso. Ari sai de Copenhaga e volta a Keflavik para se encontrar com o pai, em final de vida, apesar de nunca terem tido uma relação próxima.

“Na verdade, não conversaram de todo durante quarenta e cinco anos, as palavras só serviam para pedir leite, o comando, a colher de pedreiro. Jakob nunca disse: Meu filho. O Ari nunca disse: Meu pai.”

Neste livro, Stefánsson estende a sua visão até aos anos 60, dando a conhecer a mãe de Ari. 



São três gerações com histórias a espelhar a evolução do século XX do território. A Islândia continua ligada ao mar, tanto geográfica como emocionalmente, mas a organização social foi mudando desde Oddur e Margret até Ari.

“Os habitantes de Keflavik aborrecem-se amiúde hoje em dia, a quota pesqueira pertence ao passado, o exército americano partiu, Rúnni Júll morreu, pouco sobrou além do desemprego e dos três pontos cardeais – vento, lava, eternidade -, e vender um carro e comprar outro que o substitua é, por conseguinte, uma ideia brilhante, porque pelo menos assim acontece alguma coisa, tanto nas nossas vidas quanto na carreira profissional do vendedor de automóveis, e Keflavík torna-se imediatamente um lugar melhor.” 

A austeridade sob um céu cinzento, que tanto pode oprimir como convidar a poesia e o sonho, é património das diferentes gerações. Tal qual a literatura, mas este bem comum parece estar a rarefazer-se. Ainda feitos de histórias, cada vez menos islandeses as ouvem. Stefánsson insiste em manter vivo o cânone literário enquanto sublinha os rasgos da modernidade (“Landnámabók”- O Livro da Colonização ecoa na sua prosa). A Islândia não é a Islândia dos postais nem das palavras fervorosas de adeptos iludidos. Stéfansson sabe disso e denuncia-o. Assim o fez quando esteve presente no Fólio- Festival Literário Internacional de Óbidos, em 2016, e em consequentes entrevistas em Portugal. Assim o faz em “Aproximadamente do Tamanho do Universo” através da narrativa de um Ishmael sem carisma. Podemos chamar-lhe conforme nossa vontade, pois não nos é dado um nome. Esta voz poderia transformar um todo fragmentado numa narrativa homogénea, mas não o faz. A sua presença aproxima-se de uma voz autoral sem grande impacto no rumo das personagens numa Islândia que – honra seja feita a Stefánsson- foge aos estereótipos.  No entanto, o autor entrega um texto literário com rarefeita luz a incidir sobre as personagens. A profusão de figuras secundárias e planas prejudica o vínculo entre leitor e avatares, provavelmente até entre leitor e a própria obra.

Esta voz dispersa-se com tiradas filosóficas e abstractas, considerações sexuais marcadamente masculinas e repetições dos mesmos assuntos em “loop” com os pormenores mais mundanos. 

Devido a isso e à aparente autocomplacência do narrador, o caminho torna-se fastidioso.

Acompanhamos com interesse o onirismo tão próximo de Laxness ou de Gunnar Gunnarsson, as mudanças tecnológicas num país castigado tanto pelo vento e frio como pelo esquecimento, mas as personagens de “Aproximadamente do Tamanho do Universo” estão muito longe de arrebatar como  Jens, de “O Coração do Homem”, conclusão da trilogia iniciada com “Paraíso e Inferno” e continuada com “A Tristeza dos Anjos”.

Em entrevista ao extinto Diário Digital, em 2016, o autor afirmou que “A história em si é importante, mas está longe de ser a única coisa que importa. O estilo é tão ou mais importante do que a história. O estilo é a forma como contas a história. (…) Escrever um romance é, em parte, técnica de poesia. A poesia é ilógica. O tempo não é em “linha recta”. A nossa mente e o nosso sangue estão cheios de passado, de coisas que nos aconteceram e de palavras que alguém nos disse. Todo o tempo nós estamos parte passado e parte no presente. Nesse sentido, o tempo não existe. O passado e o presente são invenções nossas.”

São ideias fundacionais de “Aproximadamente do Tamanho do Universo”.

Stefánsson tem extremo cuidado com a linguagem. O tom poético transforma o texto em imagens soniais. É o grande mérito da obra, mas é inevitável que esse mérito seja diluído entre línguas tão diferentes. Por muito valioso que seja o trabalho do tradutor, é inevitável a perda da cadência da língua de partida, neste caso do islandês.  

A tradução é de João Reis. O tradutor de “Os Peixes Não Têm Pés”, assim como de “Paraíso e Inferno”, “A Tristeza dos Anjos” e “O Coração do Homem”, é a voz mais adequada para nos recriar a melodia de Stefánsson. A escolha do mesmo tradutor dá coerência aos livros editados em português. Torna-se interessante perceber o esforço do tradutor em transferir o mais possível de uma realidade tão soturna para a soalheira língua portuguesa. O precioso labor de João Reis deve ser mencionado, pois, por vezes, é mais interessante assistir ao seu trabalho sobre a linguagem poética do que tentar encontrar o caminho de volta para o cerne de “Aproximadamente do Tamanho do Universo”.

“A vida não é linear. A vida não é ir numa direcção; é ir sempre em todas as direcções. Eu quero pôr isso nos meus textos”, afirmou o autor na mesma entrevista. Cumpriu com essa premissa.


Não nos deixemos enganar por uma obra menos conseguida. Jón Kálman Stefánsson é um dos nomes mais relevantes da literatura escandinava contemporânea. E já o comprovou em “O Coração do Homem”, “Paraíso e Inferno” e “A Tristeza dos Anjos”. Merece ser acompanhado pelos leitores.

Embora possam ser lidos isoladamente, há muito a ganhar quando “Aproximadamente do Tamanho do Universo” é lido depois de “Os Peixes Não Têm Pés”. Mas depois de termos conhecido a excelência da sua escrita na trilogia anterior, chegamos ao fim da obra díptica com uma pergunta:

Será que valeu a pena?


*** 3 Estrelas

Publicado em https://observador.pt/2020/06/30/um-universo-demasiado-pequeno/



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