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quarta-feira, 29 de setembro de 2021

Shot #32 "A Madrugada em Birkenau", de Simone Veil

 



Memória em carne viva. 

 

No documentário “O Museu de Auschwitz” exibido há uns anos na RTP3, um neto disse à avó: 
"Contaremos a tua história".  
Na visita ao museu, a avó conta o que lhe aconteceu no campo de concentração. Era criança.  
"Trago aqui os meus netos [dois pares de gémeos] para eles saberem o que aconteceu. Eles quiseram vir.   
Vocês sabem o que aqui faziam aos gémeos, não sabem?"  
Ao olhar para as fotos das crianças mortas no campo, disse-lhes de dedo em riste, "Vocês têm que continuar [a viver]. " 
O neto mais novo abraçou-se a ela, 
"Contaremos a tua história." 

Na memória resistem os anticorpos à reinfecção. A responsabilidade de quem conta é igualada pela responsabilidade de quem ouve e não deve esquecer. Caso contrário, a distância temporal é alargada por quem desiste de contar e por quem desiste de ouvir. E tudo pode voltar a acontecer. 
Neste exercício de memória, sempre em carne viva para quem sobreviveu aos campos, existem livros-documento como “A Madrugada em Birkenau” (Quetzal). Os testemunhos reunidos por David Teboul neste livro guardam a voz de Simone Veil (Nice; 1927), resistente de Auschwitz. 
O livro organizado por Teboul não é mais um dos livros que comercializam a infâmia e se alimentam da curiosidade mórbida pelos mecanismos nazis de extermínio. Auschwitz vende. 
Aqui, a memória é quase tudo. E é na sua manutenção que “A Madrugada em Birkenau” fundamenta a sua importância. Ainda que, nas palavras de Veil, a história fique muito aquém da experiência: 
“Aquilo que hoje se vê não se assemelha ao campo [Auschwitz]. De maneira nenhuma. De qualquer modo, esses locais não traduzem as sensações físicas. O campo era o cheiro dos corpos que ardiam. Uma chaminé cujo fumo escurecia o céu. Lama por todo o lado. Galochas nos pés, nós nessa lama.” 

Solilóquios, diálogos e fotografias compõem o mosaico a que o tema e a sua interveniente dão unidade. Coube a Teboul organizar os documentos de forma a dar-lhe uma narrativa coerente, numa visão de autor pouco ou nada denunciada. Ele existe na arrumação, na perspectiva. 
Veil fala da sua infância, dos amigos e da família. As suas recordações vão desde as perseguições, passam pelo aprisionamento e vão até à libertação, ou melhor, até ao aprender a viver depois da libertação. 
Cada um com a sua forma de ultrapassar o horror, cada um com estratégias de fuga ou confronto. Conta-nos Veil que havia uma fronteira a separar quem regressara dos campos e os outros. A um primeiro olhar, todos pareciam iguais, mas as reacções íntimas tornavam-nos diferentes. Uns tinham passado para o outro lado, o lado animalesco. Conta-nos também a vida nos campos de Draney, Auschwitz-BirkenauBobrek e Bergen-Belsen e o impacto que teve mesmo depois de já ter saído: 
 
“Ao voltar do campo, senti-me profundamente diferente. Antes, era alegre, vaidosa, muitas vezes fútil. Pensava constantemente em pequenas coisas. Ao voltar, pus-me a marcar uma distância entre o essencial e o que não era. Pensava a cada passo: «Para quê?». 
Tornei-me mais severa para com os outros, pois testava-os segundo esses novos critérios.” 

“A Madrugada em Birkenau” reúne testemunhos corajosos, principalmente de uma mulher que adicionou muito do que o nazismo quis subtrair: 
Foi magistrada, ministra da saúde, a primeira mulher presidente do Parlamento Europeu. 
Como ministra, concretizou a “Lei Veil”, que despenalizou a interrupção voluntária da gravidez, em França. 

Simone Veil morreu com 90 anos.  




A MADRUGADA EM BIRKENAU
de Simone Veil
ISBN: 9789897226878
Edição/reimpressão: 05-2021
Editor: Quetzal Editores
Idioma: Português
Dimensões: 148 x 234 x 19 mm
Encadernação: Capa mole

Páginas: 280








terça-feira, 21 de setembro de 2021

Shot #31: "Juntos", de Luke Adam Hawker

 


Cartografia da solidão e da amizade.


A pandemia tem sido substrato para a criação artística. Há necessidade de contrair o tempo vazio e a solidão.  Umas vezes, usufruímos dessa criação, em outras suplicamos para que se pare. 

A pandemia democratizou o isolamento. De repente, um vírus aumentou a distância entre pessoas. E mais do que nunca, o ser humano percebeu que a solidão só é boa quando existe por livre escolha. De outra forma, arranca-nos as raízes e torna-nos ilhas em erosão. 

Luke Adam Hawker (ilustração) e Marianne Laidlaw (texto) olharam para distância entre cada um de nós e criaram “Juntos” (Porto Editora; trad. Valter Hugo Mãe), uma pérola formada dentro da rugosa dureza dos novos tempos. 

Em cada ilustração de Hawker espreita a esperança na capacidade do ser humano em contrariar a corrente, se levantar e, principalmente, de chegar ao outro e tocar-lhe. 




São páginas preenchidas com ruído e silêncio, com multidões e um só homem, com edifícios e ruas vazias. 

A estreita ligação afectiva entre um homem e um cão sente-se em cada traço; são a companhia um do outro na tempestade que apartou multidões. São eles a guiar-nos no ruído e no silêncio, no afastamento e na aproximação. Este homem é o seu avô, ou é baseado no seu avô, por quem o autor nutria grande afecto, e o cão é a sua cadela, vivaça e de indomável energia. 

Tanto no livro como na realidade, muitas pessoas só viram companhia nos seus animais de estimação. Cães ou gatos ajudaram a colmatar o vazio que ficou quando tudo o que era dado como adquirido desapareceu. 

Em nenhum momento, a pandemia é nomeada. Percebemos a que os autores se referem, mas não é importante dar-lhe um nome.  O essencial é observar o que nos une e nos separa; o essencial é observar a imperativa necessidade de estarmos juntos.  

"Juntos" mostra-nos o belo a emergir do escuro.




JUNTOS
ISBN: 978-972-0-03418-2
Edição/reimpressão: 09-2021
Editor: Porto Editora

Idioma: Português
Dimensões: 197 x 252 x 16 mm
Encadernação: Capa dura
Páginas: 64






terça-feira, 24 de agosto de 2021

Shot #30: "O País dos Outros", de Leila Slimani

 



Leila Slimani aumentou a parada.
“O País dos Outros” (Alfaguara; trad. Tânia Ganho) é o projecto mais ambicioso entre os livros já publicados em Portugal.
“Canção Doce” e “O Jardim do Ogre” mostraram a capacidade da autora nascida em Rabat, Marrocos. Este seu mais recente livro confirma-a.

Mathilde, casada com o marroquino Amine, muda-se para Meknés, em Marrocos. A versão idílica do marido depressa é contrariada pela realidade. A quinta deixada em herança pelo pai de Amine precisa de ser recuperada e a terra dessa quinta é quase estéril. Mas pior do que isso: Mathilde sente o afogo de costumes a cercar a liberdade. Marrocos na segunda metade do século passado- em transformação antes e depois da independência- não é um lugar igualitário. E é ali que terá de educar a sua família.
Naquele lugar, com aquela gente e com aquelas ideias, Mathilde não passará de uma estrangeira. 

“Os filhos eram as suas raízes e ela estava involuntariamente apegada àquela terra. Sem dinheiro, não tinha para onde ir e essa dependência, essa submissão, matava-a. Os anos bem podiam passar, que Mathilde não se conformava e continuava tomada pela náusea, era uma espécie de dobra dentro dela, um esmagamento que a fazia ter nojo de si própria.”




Toda esta tensão entre Marrocos e França, entre hábitos arcaicos e liberdade individual, entre colonizado e colonizador não permite que as raízes se aprofundem no solo. São ideias beligerantes em constante confronto.  Mathilde, alsaciana de gema, ouve o seguinte de um velho empregado: 

"Se um dia, sobretudo à noite, eu vier ver-te, não abras. Mesmo que seja eu, mesmo que diga que é urgente, que há alguém doente ou a precisar de ajuda, não abras a porta nunca. Avisa os teus filhos, diz à criada. Seu eu vier, será para te matar"

Os inimigos, como diz Amine, são as pessoas com quem vivem há muito tempo. Algumas são amigas, vizinhos, até família. 

Leila Slimani mete gente dentro dos livros. As personagens não existem como postais decorativos a abrilhantar uma ideia. Elas são a ideia, ou parte essencial da mensagem que a autora quer passar. Conhecemo-las primeiro, afeiçoamo-nos a elas depois.
Slimani não abdica da sua condição feminina, de ideias como a liberdade, seja qual for a condição que a ameace. Sem cair na escrita panfletária.
A narração por uma visão exterior permitiu contruir um livro bem calibrado, com vozes dissonantes a quebrar uma estrutura que, de outra forma, seria demasiado rígida.
“O País dos Outros” tem gente e contexto, tem História e estórias. E muita qualidade.


O País dos Outros
de Leïla Slimani 
ISBN: 9789897840043
Edição/Reimpressão: 05-2021
Editor: Alfaguara Portugal
Idioma: Português 
Dimensões: 149 x 234 x 22 mm 
Encadernação: Capa mole 
Páginas: 344









sexta-feira, 23 de julho de 2021

“Suspense ou a Arte da Ficção”, de Patricia Highsmith

 



A escrita é uma actividade solitária, uma actividade de quem prefere chegar ao mais intrínseco do ser humano sem o fumo das convenções sociais. É praticada por indivíduos recolhidos em si próprios, enrolados para dentro, e exógenos à realidade mundana que os cerca. Para lá das interrogações sobre a execução física da escrita -de pé, sentado, ao computador, com um caderno – subsistem dúvidas: Quais as ansiedades dos escritores? Que problemas têm de ultrapassar? 

“Suspense ou a Arte da Ficção” (Cavalo de Ferro) é a resposta de Patricia Highsmith. 

 


 

Existem algumas respostas no mercado: Stephen King (Escrever- memórias de um ofício), Joyce Carol Oates (A Fé de um Escritor) e, em Portugal, Mário de Carvalho (Quem Disser o Contrário É porque Tem Razão) e João Tordo (Manual de Sobrevivência de um Escritor), entre muitos outros, iluminaram as dúvidas dos leitores e dos escritores, consagrados ou em início de carreira, com possibilidades. 

Em “Suspense ou a Arte da Ficção”, a autora texana confessa logo de início a impossibilidade de se explicar como se escreve um livro bem-sucedido. Afasta a ideia de se ver esta obra como um livro de instruções. As suas reflexões, fundamentadas com os desafios que “O talentoso Mr. Ripley”, “O Desconhecido do Norte Expresso” ou “A Cela de Vidro” apresentaram, destinam-se “a escritores jovens e principiantes”. 

A autora parte das fontes de inspiração e percorre o trajecto até às preocupações comerciais e ligadas ao vil metal, sem relegar a importância de “captar a atenção do leitor contando-lhe algo divertido ou que valha a pena dedicar uns minutos ou umas horas.” 






Patricia Highsmith promete e cumpre. Este breve ensaio é uma visita guiada à “casa das máquinas” de quem sabe do ofício, como poucos escritores, na área do suspense. O percurso é aprazível muito devido ao princípio tão norte-americano de não perder o leitor de vista, de comunicar com ele. Para que escritor e leitor comuniquem a linguagem é informativa, simples e até lúdica: 


“Uma coisa é certa: o público, os leitores, os espectadores televisivos querem entretenimento, ficar presos a uma história. Querem algo invulgar, que fique gravado na sua memória, que os faça estremecer, rir, que seja tema de conversa e possa ser recomendado aos amigos. Entre a semente de uma ideia e um público vasto e elogioso vai um longo caminho.” 


A autora entrega-nos histórias sobre os seus livros desde a concepção, passando pelo parto até à emancipação. 

Tudo é material de escrita, tudo está em potência antes da filtragem pelo tempo. As experiências pessoais eram fonte primordial dos seus contos. Mas também as palavras dos outros e os acontecimentos que arrebanhava em segunda mão. Histórias miscigenavam-se com outras histórias na criação de um corpo a ser desenhado pela escritora. 

Highsmith descreve- tanto quanto possível num livro de 143 páginas – o princípio, o desenvolvimento do enredo e a sua conclusão, após várias versões. Não deixa de apontar obstáculos nem de sublinhar angústias inerentes a cada revisão.

 

“Não é avisado contra-argumentar, pois o editor, provavelmente, sabe mais do que nós e tem a vantagem de discutir a questão com muitas outras pessoas na editora. É surpreendente a quantidade de escritores principiantes que se enfurecem com pedidos corriqueiros como estes, ou quando solicitam que eliminem uma personagem de um livro. Por vezes, agastados, cortam relações com os seus agentes literários ou retiram o manuscrito à editora.” 


Uma das características mais interessantes é a ausência de pudor (tão presente em Portugal) quando aponta para a comercialização das obras. A autora chega a sugerir a adequação do texto às características do mercado. Na expectativa de sustento, a literatura vai além da necessidade de organizar a vida numa narrativa escrita. 


“Caso tenha em mente um determinado mercado, o melhor é a obra ter a extensão adequada logo de início.” 


É uma perspectiva global desde a génese ao consumo. Sem prurido. 

“Suspense ou a Arte da Ficção”, publicado ela primeira vez em 1966, é uma janela para os bastidores do livro, este e outros; é uma espreitadela para o local de trabalho do escritor, por convite do mesmo.
O leitor deixa o texto para observar a mão que o escreve. 

 


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