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segunda-feira, 17 de junho de 2019

Roberto Osa: CELA| Connecting Emerging Literary Artists










 CELAConnecting Emerging Literary Artists




O Projecto:

O projeto CELA (Connecting Emerging Literary Artists) abre o palco europeu a uma nova geração de criadores literários. Permite uma cooperação transnacional intensiva entre talentosos escritores, tradutores e profissionais literários europeus em início de carreira. No decurso do projeto, os participantes enfrentam algumas das mais exigentes realidades da nossa era — de fraturas cada vez mais acentuadas na Europa a um setor editorial em mudança — e põem-nas em perspetiva, partilham o seu trabalho e colmatam o fosso que os separa do setor editorial e do público europeu.
As organizações literárias de seis países europeus uniram forças para fundar o projeto de incubação de talentos cela — Connecting Emerging Literary Artists. Partilhamos a necessidade de estabelecer uma infraestrutura sustentável de incubação de talentos para preservar a diversidade da literatura europeia e dar maiores oportunidades a línguas minoritárias. 
O projeto proporciona um percurso de dois anos com formação, instrumentos e uma rede que visam tornar possível uma carreira internacional e estabelecer uma prática profissional integrada. Com uma atenção em competências e mobilidade transnacional, incluímos especialmente as oportunidades digitais na literatura, novas formas de os participantes conseguirem emprego e rendimento.
Cada edição do projeto cela decorre durante dois anos. No primeiro ano, as organizações literárias orientam os escritores, tradutores e profissionais literários e proporcionam-lhes um programa multinacional de residências, formação e master classes para os preparar para trabalhar no mercado europeu e para um público internacional. No segundo ano, os participantes são inseridos por via de marketing internacional e campanhas publicitárias, uma digressão por festivais
europeus e apresentações ao público e a profissionais europeus por escritores e tradutores de renome (os nossos embaixadores cela) e organizações literárias. 

Os autores e tradutores participam em campanhas internacionais, festivais literários em diferentes países e numa rede de trabalho que proporcionará contacto entre todos os participantes.
Kick-Off: Hay Festival Segovia (Espanha)Tinto-no-Branco- Festival Literário de Viseu (Portugal), Book Fest (Roménia), Pisa Book Festival (Itália), Lev-Literatura em Viagem (Portugal), Passa Porta Festival (Belgium), Wintertuinfestival (Holanda) recebem os autores e tradutores do projecto CELA.


Parceiros:
Booktailors
Escuela de Escritores
Flemish-Dutch House deBuren
Passa Porta
Pisa Book Festival
Wintertuin


Biografia

ROBERTO OSA



Ano de nascimento 1981
Nascido Espanha
Vive e trabalha em Madrid
– Cresceu numa aldeia em La Mancha, terra de Dom Quixote e Sancho Pança
– Estudou Comunicação Audiovisual na Universidade Complutense, realização televisiva na Escuela CEV e guionismo na Escuela de Escritores
– Escritor e realizador de televisão, colabora com vários meios de comunicação, combinando texto escrito com audiovisual
– O seu primeiro romance, Morderás el polvo (Morderás o Pó), foi premiado com o Prémio Felipe Trigo de Romance (2016) e finalista do Prémio Nadal de Romance (2017), o mais antigo prémio literário de Espanha


Sobre ROBERTO OSA

«Tenho um emprego muito barulhento. Trabalhar em televisão é, na
verdade, sempre barulhento. E em casa o ambiente também não é
propriamente tranquilo: os filhos, o cão, os telemóveis. Só à noite é que os
estímulos diminuem. Quando as coisas acalmam em casa, é aí que a escrita
corre melhor.»
Para além de trabalhar como produtor, realizador e colunista,
Roberto Osa escreve guiões para cinema e televisão, mas mais
recentemente começou também a escrever livros. Fala sobre o assunto com
uma calma que parece ter trazido do seu escritório. «Gosto de escrever,
mas também gosto de ruminar sobre as coisas.» Tem uma voz suave, uns
olhos escuros e pequenos. «O romance é uma forma textual reflexiva, um
processo contemplativo de escrita. É bonito poder combinar isso com a
escrita para a televisão, que é um meio muito mais acelerado. Isso dá-me
versatilidade, gosto bastante disso: escrever para meios de comunicação
diferentes, penso que isso também é uma exigência para um escritor do
século XXI.»
Enquanto realizador de cinema, Osa desenvolveu uma sensibilidade
para com as imagens. Ele pensa que é possível reencontrar essa influência
na sua escrita. «Dizem-me muitas vezes que escrevo de forma
cinematográfica. Considero-o um elogio: tento que o meu trabalho seja
visual, dedico atenção ao decorativo, ao exterior, mas também ao ambiente.
Penso que também se notam essas influências ao nível da estrutura. Talvez
eu escreva, mais do que outros, com um guião em mente. É uma maneira
muito funcional de criar estrutura.»
Osa inclina-se para trás. Parece um pensador. Talvez tenha a ver com
a postura cerrada dele, as sobrancelhas um pouco afastadas uma da outra,
ou talvez seja da barba aparada. Não surpreende que goste de pôr de lado os
textos que escreve. «É uma parte importante do meu processo de escrita. Já
o havia feito com a minha primeira novela: meti o texto numa gaveta da
secretária e não olhei para ele durante três semanas. Só aí é que consegues
reler os teus próprios textos.»
Como é que se relacionam as crónicas, os textos para teatro e a prosa
que Osa escreve? O autor dá uma resposta formal: «É tudo ficção. Só as
crónicas é que não, e no ano passado fiz por exemplo um documentário
sobre um ilusionista espanhol. Mas os meus projetos pessoais são sempre
ficção. Ou queres dizer uma ligação temática? A verdade é que não penso
sobre isso. É algo que vou descobrindo com o tempo.»
«Gosto de escrever sobre famílias, talvez sobre rejeição e solidão,
mas durante a escrita nunca faço essa análise. Mas digo a mim mesmo
constantemente: não penses nisso, não penses nisso. Preciso de ritmo»,
explica Osa. Ele ri-se um pouco: o sorriso dele é largo, incha-lhe as 
bochechas. «Talvez isso também seja uma herança do meu trabalho televisivo. Há tempos fui abordado por um leitor que me queria dar um
elogio. Ler o meu livro era como andar a cavalo, disse ele. É prosa que
nunca para, é veloz e quando galopa, não volta a perder o compasso. Fiquei
muito grato com o que ele disse. Isso atrai-me, a mistura entre a velocidade
da televisão e a lentidão e profundidade do romance.»



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Conto de Roberto Osa


Luz estava há mais de meia hora à espera ao sol. De vez em quando,
percorria o passeio de um extremo a outro para desentorpecer as pernas e
aliviar o peso da barriga. Os seus olhos moviam-se com rapidez entre os
carros que circulavam pela avenida, especialmente quando se ouvia uma
aceleradela. Mas nada.
Decidiu refugiar-se do calor debaixo do beiral do edifício. Foi
então quando, de trás de um autocarro, apareceu ziguezagueando o
pequeno carro vermelho. Luz viu como Jaime travava bruscamente e se
punha a tocar a buzina repetidas vezes, como se estivesse há muito tempo
à sua espera. Ela aguentou um pouco mais à sombra.
A buzina continuava a ouvir-se, por isso Luz atravessou o passeio e
entrou para o carro antes que o chefe assomasse à janela perguntando
quem era o idiota que tocava a buzina sem parar.
— Feliz aniversário — disse Jaime.
— Arranca, estamos em segunda fila.
As costas de Luz bateram contra o assento quando Jaime levantou
o pé da embraiagem e acelerou.
O carro atravessava uma rotunda atrás de outra enquanto eles se
mantinham em silêncio.
Já nos arredores, Luz disse:
— Não vamos a casa?
Jaime esboçou uma expressão triunfal.
— Espreita debaixo do teu banco.
Com muito esforço, Luz dobrou-se sobre a barriga para alcançar a
embalagem que Jaime tinha deixado ali. Era uma caixa do tamanho de um
livro, embrulhada em papel de presente verde.
Ao retirar o selo, Luz leu em voz alta:
— «Vive a experiência».
— E isso é o que vamos fazer.
— Agora?
— Claro. O aniversário é hoje, e então… Queria compensar-te de
alguma maneira.
— Compensar-me.
— Sim. — Jaime tentava dar algum tempo ao seu cérebro. — Bom.
Pelo que se passou estes dias.
— Estou a ver.
Tinham saído da cidade e minutos depois tomaram uma estrada
secundária ladeada por oliveiras. Luz ligou o rádio, que preencheu o
silêncio durante mais uns poucos quilómetros.
Passado um bocado, Luz voltou a falar:
— E onde vamos viver a experiência, pode saber-se?

— Tu gostas de animais.
— Adoro.
— Bem, então vai ser um sucesso, já vais ver.
— São três da tarde e não comi.
Jaime esticou o braço para trás do seu banco e apanhou um saco de
plástico que pôs sobre as pernas de Luz. Ela olhou para o interior: uma
garrafa de água, uma sandes vegetariana, várias barras de chocolate, um
pacote de bolachas e dois refrigerantes.
— Agora sim, estou impressionada. Tirou o plástico da sandes e
começou a comê-la.
Luz terminava a sandes quando o carro parou em frente a um
grande arco onde dizia: «Safari: a vida selvagem muito perto de sua casa.»
Na entrada, um tipo vestido de explorador deu-lhes uns folhetos e
esteve a explicar-lhes as regras do parque: podem fazer o percurso com o
vosso próprio carro, mas nada de saírem, é absolutamente proibido sair do
carro; pode-se tirar fotos mas sem baixar o vidro; não se pode tocar a buzina
e deve-se respeitar a prioridade dos animais, que andam à solta pela
propriedade. É totalmente proibido dar-lhes comida: «Sobretudo os
macacos ficam muito chatos e podem tornar-se violentos», disse enquanto
indicava o caminho de pó onde começava o percurso.
O carro movia-se devagar. Jaime ia agarrado ao volante, como se
temesse que a qualquer momento um rinoceronte os abalroasse.
Entretanto, Luz dava pequenos goles no refresco e percorria o deserto com
a vista.
Durante alguns minutos o carro avançou entre o pó sem que
pudessem ver um único animal.
— Olha! — disse Jaime travando o veículo bruscamente.
Duas girafas passaram a trote diante deles, a terra tremeu debaixo
dos bancos do carro.
— São maiores do que parecem na televisão.
— Eu já tinha visto girafas — respondeu Luz.
— Quando?
— No jardim zoológico. Em pequena.
Jaime esperou uns segundos. Depois, meteu a primeira e o carro
voltou a andar.
Dentro de uma vedação havia um rinoceronte e, junto à cerca, uma
placa: «Kenny, rinoceronte branco. República do Congo».
— Mas ele é cinzento — disse Jaime.
— Branco é por causa da raça. Acho.
Continuaram a avançar pelo caminho.
Debaixo de um freixo, o leão dormitava alheio aos mirones.
— Aquele é o mais rápido — disse Jaime.
— A que é que te referes?
— Bom, já sabes, a história de ser o rei da selva e assim.
— Não. Não sei.
— Pois, é isso. A leoa vai caçar e tal e o leão deita-se à espera de que
lhe tragam a comida.
— Estás a brincar?
— Sempre foi assim.
— Não posso acreditar no que estou a ouvir.
— A sério, os documentários e as enciclopédias dizem-no sempre,
não é uma coisa minha.
— Estás a superar-te.
Jaime decidiu calar-se. Conduziu um bom bocado em silêncio.
Passaram perto de um pequeno lago junto ao qual pastavam três
zebras. Luz inclinou-se e pôs a cara muito perto da janela.
— Para. — Jaime travou devagar. O veículo ficou à sombra de umas
árvores enormes que ladeavam o caminho. Através dos troncos, Luz
continuava a admirar as zebras.
— São muito bonitas.
— Pois a macaca é feia como o caraças.
— Que macaca?
— Aquela. Está na árvore da direita, vês?
Luz olhou para cima. Na árvore havia um macaco enorme de pelo
grisalho.
— Como é que sabes que é macaca e não macaco?
— Repara no volume que tem colado à barriga. É a cria.
— Sim. Pode ser.
— Mas que raio, são mesmo feios os babuínos.
— Nem sequer sabes se são babuínos ou macacos ou sei lá o quê.
— Claro que sei. É pelo pelo.
A macaca fazia um gesto de tirar algo que a cria tinha entre as
orelhas.
— Na savana abundam os babuínos.
— Mas não estamos na savana. Além disso, já te viste ao espelho?
— Vais-me comparar a mim com um babuíno?
— A pobre macaca não tem culpa.
— Por favor, Luz, não estragues tudo.
— Eu não estrago nada.
— Estava tudo a correr bem até teres começado…
— Já viste isto? — Luz agarrava o ventre com as duas mãos, como se
lho mostrasse a ele pela primeira vez.
Jaime desviou o olhar para fora do carro.
— Não comeces — falou em voz baixa, quase a fugir à resposta.
— Isto é teu também, para de evitar o tema.
— Não o estou a evitar. Só que…
— O quê?
— Bem. Sei lá.
— És um cobarde.
— Muito bem.
— Quero um pouco de compromisso da tua parte, vê lá se abres os
olhos em relação àquilo que nos espera dentro de três meses.
— Que chata — disse para si, mas o suficientemente alto para
também ela o ter ouvido.
As zebras tinham desaparecido enquanto um grupo de macacos
começou a agrupar-se em redor do carro; subiam pelos troncos das árvores,
alguns farejavam perto das rodas.
Luz e Jaime ficaram a olhar para os babuínos, ouviam o afã das
unhas a arranhar a terra do chão. A macaca que tinha uma cria começou a
subir aos ramos mais altos, até que finalmente a perderam de vista. Jaime
olhou além do lago. Ouvia-se o coaxar das rãs.
— Eu nunca disse que sim.
Não podia encará-la, mas ao dizer aquelas palavras sentiu que o seu
sangue circulava com mais força.
— Não se pode viver assim, Jaime.
— Nunca. Nunca te disse que sim, que queria.
— Julgavas que isto era como uma constipação?
Jaime pôs as mãos no volante. O seu olhar estava agora no fundo do
caminho, perdido entre as árvores que pareciam juntar-se ao longe.
— Não tens tomates.
— Estás sempre com essa dos tomates.
— Cobarde. Seu cobarde de merda.
Antes de Luz conseguir continuar, ouviu-se o estalar de um ramo, e
logo a seguir um macaco caiu sobre o capô. O corpo tinha batido na chapa
do veículo com tanta força que a parte central ficou afundada. Luz gritou.
E não tinha acabado de gritar quando o macaco se sentou sobre as patas
traseiras. Tinha um sorriso trocista, não parava de lhes mostrar os dentes.
Os babuínos que estavam em redor começaram a dispersar-se. Mas o
do capô continuava lá.
— Porra do macaco. Quase tive um ataque cardíaco — disse Jaime
quando se recuperou do susto. — Espero que tenham seguro. Alguém tem
de pagar isto.
Luz apertava o saco da comida contra o ventre. Tirou uma barrinha
de chocolate e começou a comê-la com pequenas dentadas. O babuíno
olhava-a muito atento.
— Acho que tem fome. — Começou a procurar algo dentro do
saco.
— Vá lá, Luz, deixa-te de disparates.
— Estava aqui, ia jurar que já tinha visto uma…
Jaime agitava os braços na direção do para-brisas do carro, tentando
assustar o macaco.
— Aqui está.
Luz tirou um invólucro vermelho e alongado do saco. Aproximou-o
do nariz, como se pudesse cheirar o chocolate sem o desembrulhar, e
depois aproximou-o do para-brisas. O macaco dava pequenas pancadas
com o dedo sobre o para-brisas.
— Um Twix? — perguntou Jaime. A cara do babuíno estava cada
vez mais perto do vidro. — Vais dar um Twix ao macaco?
Jaime rodava a chave da ignição, mas a porta do passageiro tinha
começado a abrir-se um momento antes e Luz já estava fora do veículo.
— Luz!
Ela ignorou-o, só tinha olhos para o macaco, que tinha caminhado
sobre o capô e já estava muito perto de Luz, esticando o focinho para o
chocolate.
— Entra imediatamente. Juro-te que me vou embora e deixo-te
aqui.
O ruído do motor obrigava-o a falar mais alto.
— Luz!
Ela estendeu o braço. Quase não teve tempo de esticá-lo totalmente,
quando o macaco já lhe tinha tirado o chocolate; de um salto pôs-se
novamente sobre a amolgadela e começou a rasgar o invólucro com os
dentes. Luz não ficou surpreendida com a destreza da criatura, que comia o
Twix, segurando o chocolate pela parte inferior, como se temesse sujar os
dedos. Mastigava tranquilo, olhando de vez em quando para Luz com os
seus olhinhos brilhantes, mas sem reparar demasiado nela, como se de
repente a mulher fizesse parte da paisagem.
Jaime parou o motor e deslizou do seu banco para a porta do
passageiro para suplicar em voz muito baixa:
— Entra no carro. Por favor.
O macaco tinha os dentes castanhos, lambia o invólucro, chupava os
dedos entre mordidelas. Parecia uma criança. Uma criança peluda que
saboreava o seu prémio por bom comportamento.
Sobre as árvores além do lago, o céu começava a adquirir a cor
alaranjada do entardecer, e ouvia-se as rãs a coaxarem, cada vez mais perto,
enquanto o babuíno mastigava.
Luz juntou as mãos sobre o ventre, sem desviar os olhos do animal.
— Não — disse ela. — Ainda não. — Mas o chocolate já quase tinha
terminado.

Tradutor

MATIAS GOMES

Ano de nascimento 1972
Nascido Portugal
Vive e trabalha em Lisboa
– Tradutor de espanhol > português, inglês/francês > português e português > inglês
– Professor de Português (ensino secundário)
– Mestrado em Literatura Medieval Portuguesa (publicação de várias comunicações feitas em Congressos da Associação Hispânica de Literatura
Medieval — AHLM)
– Dinamizador da comunidade de leitura «Conversas Para Lê-las» (só literatura de mulheres escritoras) durante cinco anos
– Organizador e dinamizador de workshops «Drag King» (p. ex., «Here Comes Your Man»), enquanto ativista de género.



“A Vida no Campo”: conquistar o paraíso






segunda-feira, 10 de junho de 2019

Rebekka de Wit: CELA| Connecting Emerging Literary Artists










 CELAConnecting Emerging Literary Artists




O Projecto:

O projeto CELA (Connecting Emerging Literary Artists) abre o palco europeu a uma nova geração de criadores literários. Permite uma cooperação transnacional intensiva entre talentosos escritores, tradutores e profissionais literários europeus em início de carreira. No decurso do projeto, os participantes enfrentam algumas das mais exigentes realidades da nossa era — de fraturas cada vez mais acentuadas na Europa a um setor editorial em mudança — e põem-nas em perspetiva, partilham o seu trabalho e colmatam o fosso que os separa do setor editorial e do público europeu.
As organizações literárias de seis países europeus uniram forças para fundar o projeto de incubação de talentos cela — Connecting Emerging Literary Artists. Partilhamos a necessidade de estabelecer uma infraestrutura sustentável de incubação de talentos para preservar a diversidade da literatura europeia e dar maiores oportunidades a línguas minoritárias. 
O projeto proporciona um percurso de dois anos com formação, instrumentos e uma rede que visam tornar possível uma carreira internacional e estabelecer uma prática profissional integrada. Com uma atenção em competências e mobilidade transnacional, incluímos especialmente as oportunidades digitais na literatura, novas formas de os participantes conseguirem emprego e rendimento.
Cada edição do projeto cela decorre durante dois anos. No primeiro ano, as organizações literárias orientam os escritores, tradutores e profissionais literários e proporcionam-lhes um programa multinacional de residências, formação e master classes para os preparar para trabalhar no mercado europeu e para um público internacional. No segundo ano, os participantes são inseridos por via de marketing internacional e campanhas publicitárias, uma digressão por festivais
europeus e apresentações ao público e a profissionais europeus por escritores e tradutores de renome (os nossos embaixadores cela) e organizações literárias. 

Os autores e tradutores participam em campanhas internacionais, festivais literários em diferentes países e numa rede de trabalho que proporcionará contacto entre todos os participantes.
Kick-Off: Hay Festival Segovia (Espanha)Tinto-no-Branco- Festival Literário de Viseu (Portugal), Book Fest (Roménia), Pisa Book Festival (Itália), Lev-Literatura em Viagem (Portugal), Passa Porta Festival (Belgium), Wintertuinfestival (Holanda) recebem os autores e tradutores do projecto CELA.


Parceiros:
Booktailors
Escuela de Escritores
Flemish-Dutch House deBuren
Passa Porta
Pisa Book Festival
Wintertuin


Biografia

Rebekka de Wit


Ano de nascimento 1985 Nascida Santiago de Chile Vive e trabalha em Antuérpia – Publicações: romance We komen nog één wonder tekort (Falta-nos Um Milagre, AtlasContact, 2015) e drama Hoe dit het verhaal werd (Como Isto Se Tornou a História, Bebuquin, 2011), We take it from here (Nieuwe Toneelbibliotheek, 2016), Veel langer dan je je kunt voorstellen (Mais Tempo Que Imaginas, Nieuwe Toneelbibliotheek, 2016), Tenzij je een beter plan hebt (A não Ser Que Tenhas Melhor Plano, Nieuwe Toneelbibliotheek, 2017), ForsterHuberHeyne (Nieuwe Toneelbibliotheek 2017), INFINI (Nieuwe Toneelbibliotheek 2017). Autora de vários ensaios, o mais conhecido dos quais De Afhankelijkheidsverklaring (A Declaração de Dependência) – Traduções: conto «Zoals Venetië nu» («Como Veneza É hoje», 2014) disponível como citybook em neerlandês, italiano, polaco, francês e inglês e como podcast (www.citybooks.eu), conto «Tot het verschil over sterrenstelsels gaat» (Até Que a Diferença Seja entre Galáxias, 2016) disponível como citybook em neerlandês, francês e inglês e como podcast (www.citybooks.eu); peça ForsterHuberHeyne disponível em alemão com o mesmo título – Prémios: performance Stel je voor, ik zoek een staat (Imaginem só, Ando à Procura de Um Estado, 2011) vencedora do SABAM, We komen nog één wonder tekort vencedora do prémio deAuteurs (2016)

Sobre Rebekka de Wit

«Em japonês existe uma palavra para um tipo especial de tristeza: a tristeza que se encontra contida em todas as coisas. Não falo japonês mas, ainda assim, conheço esse sentimento, apesar de não termos em neerlandês uma palavra para o expressar. Este elemento encaixa-se na minha escrita, julgo. Procuro, constantemente, encontrar palavras para coisas que não se descrevem com facilidade.» 
   A escritora e dramaturga, Rebekka de Wit, dá outro exemplo: «O russo tem uma palavra para descrever alguém que se revê e que já se amou.» De Wit sorri por breves instantes. 
   Com uma transição um pouco descuidada, começa a falar acerca da sua escrita e do seu romance de estreia. Porém, o seu sorriso não desaparece do rosto. «Não escrevo de forma muito narrativa», diz a escritora. «O meu trabalho nunca tem um enredo muito sólido. Preocupo-me mais com a questão: O que quero transmitir? Isto terá de ser tão claro quanto possível. A escrita é um processo de cristalização. Talvez seja esta a razão pela qual não escrevo muitas histórias. Não estou muito interessada em criar algo novo.» 
   De Wit olha de forma quase continua para a rua. Não estabelece muito contacto visual. Os seus olhos encontram-se meio fechados e o olhar voltado para a rua. Parece que tem os olhos fixos em alguma coisa. Também naquilo que diz parece alcançar e agarrar algo que acabou de deixar de estar à vista. «Quão importante é o leitor? Eu diria, não muito importante. Quando escrevo para o papel, eu própria sou o primeiro leitor. Escrevo aquilo que gostaria de ler», e começa a acenar com a cabeça em jeito de concordância. «Paralelamente, penso muitas vezes: este texto é capaz de comunicar? Isto é algo importante para mim: que um texto seja capaz de despertar algo no leitor. Por vezes, acho que não escreveria numa ilha desabitada, pelo facto de não haver leitores», e, rapidamente, De Wit acrescenta: «Se calhar, apesar de tudo, sim. Eu própria seria uma leitora.» Um sorriso surge no seu rosto. 
   De Wit escreve bastante para teatro. Frequentou o curso de Arte da Palavra em Antuérpia e formou-se com a apresentação teatral Como isto se tornou uma história. Acerca da diferença entre textos em prosa e textos para teatro, é obrigada a pensar por alguns instantes. «Estas duas formas não diferem muito uma da outra, quanto a mim. Talvez um texto de teatro finalizado esteja sempre menos acabado do que um texto em prosa. Um texto escrito é mais definitivo do que uma apresentação. Isto faz com que a escrita para o papel seja mais pura, julgo. Não se pode adulterar. Não é possível ajustar um texto consoante o público», diz De Wit enquanto estica o cabelo. Ela refaz o rabo-de-cavalo, caindo algumas madeixas sobre a sua face.
  «Fico feliz por não precisar de estar presente quando alguém lê o meu livro. Quando fiz a minha estreia, parecia que fotos de mim nua estavam a ser colocadas na Internet. Uma pessoa dá de caras com um amigo e questiona-se sempre: será que ele já as viu? Como é que me devo comportar?» De Wit sorri, novamente. O seu olhar desprende-se da janela e desliza sobre a mesa. Pela primeira vez estabelece contacto visual prolongado. Os seus olhos parecem maiores. «Tem piada, não tem?», diz com um sorriso de escárnio. «Isto também tem a ver com comunicação.» E, de seguida, mais suavemente: «A escrita é a minha reação a andar à deriva. Algo acontece, alguém diz alguma coisa, o que me separa por um breve momento de um grupo, de uma situação. E a escrita serve como forma de me voltar a conectar.»  




Vídeo


Conto de Rebekka de Wit

Mesmo que apenas uma só gota possa ser vista

The white cracker who wrote the national anthem knew what he was doing.
He set the world “free” to a note so high nobody can reach it. That was deliberate. Angels in America,Tony Kushner



O meu pai e eu íamos a caminho do aeroporto. Eu ia passar um mês aos Estados Unidos e ele fazia questão de se despedir de mim lá.
Ia a Charleston, uma pequena cidade no litoral da Carolina do Sul.
O meu pai perguntou-me como é que a cidade era, e eu apercebi-me, nessa altura, de que não tinha ido à procura de quaisquer imagens no Google. A única coisa que sabia é que tinha havido um tiroteio na cave de uma igreja branca. Isto é, o edifício era branco, mas a comunidade era negra.
Um tiroteio não é, na realidade, a melhor palavra, pelo facto de sugerir uma troca de tiros entre várias pessoas. Porém, não foi este o caso.
Havia apenas um rapaz, abaixo dos vinte, caucasiano e com acne, que tinha cortado o cabelo antes de entrar na cave. Com o cabelo acabado de cortar à tigela e com uma t-shirt às riscas azuis, foi à cave, participou dos estudos bíblicos e, uma hora depois, sacou de uma pistola da sua bolsa de cintura e baleou toda a gente que se encontrava naquele espaço.
Poucas semanas após o tiroteio, os sobreviventes já tinham perdoado o rapaz com o penteado à tigela, algo que ocorreu por acaso.
Isto é, não se tratou de uma decisão tomada coletivamente e de forma consciente. Não tinha havido qualquer reunião prévia entre eles. Numa primeira inquirição de testemunhas pelo tribunal, o juiz perguntou se os sobreviventes tinham algo a acrescentar. Uma rapariga ergueu-se e disse que sentia dor no corpo inteiro, mas que ia perdoá-lo, acabando os restantes sobreviventes por se deslocar ao microfone e dizer mais ou menos a mesma coisa.
O meu pai disse que não era possível perdoar no espaço de poucas semanas. Algo como isto, pelo menos.
«Aquilo que quero dizer é que não deves ter grandes expectativas acerca do perdão. Para muita gente, perdoar não é mais do que aceitar que o passado não pode ser alterado.»
«Isso é da Oprah?»
«O quê?»
«Essa citação.»
«Não.»
«A Oprah disse sensivelmente o mesmo do perdão.»
A igreja estava fechada quando cheguei. Na porta estavam flores penduradas que já se encontravam mortas há alguns meses.
Quando, no dia seguinte, voltei a bater à porta da igreja, à volta de vinte pessoas estavam prontas a iniciar a hora semanal de estudos bíblicos, e eu fui convidada a participar. Junto à porta, havia vigilância policial e ambos os agentes tinham uma Bíblia ao colo. Eu trazia comigo um caderno em branco, o qual pus na mesa à minha frente. Tinha-o comprado antes da minha viagem. No topo da primeira página, tinha escrito «perdão», como se estivesse a pensar que ia fazer um curso.
A palavra «Jesus» foi de tal forma repetida durante os estudos bíblicos, que me questionei se algo mais seria dito no caso de a palavra «Jesus» ser uma palavra proibida.
Acho que o meu pai me tinha alertado que as comunidades de lá eram «bastante evangélicas». Não sei exatamente qual era o significado disto. Pelo menos, sabia que não podia perguntar se era possível «deixar Jesus, por breves momentos, de fora», algo que me controlava para não dizer. Aqui, Jesus jamais é deixado de fora.
Havia outra mulher branca nos estudos bíblicos. Trazia consigo um documento plastificado em formato A4 junto ao peito, onde se podia ver os rostos das nove pessoas abatidas a tiro. Tinham um aspeto esverdeado.
Ela explicou que a folha tinha ficado pendurada na porta do frigorífico desde o tiroteio — seis meses atrás — e que, por entrar tanta luz natural na cozinha, tudo lá, pouco a pouco, se vai descolorando.
«E agora temos uma boa surpresa», disse o pastor, olhando para a senhora,
após os estudos bíblicos.
Ela acenou com a cabeça, levantou-se e caminhou em direção a uma mesa pequena, onde estava uma maqueta gigantesca da igreja onde nos encontrávamos. Eu, pelo menos, pensei que se tratava de uma maqueta.
«Passei três semanas de volta deste bolo», disse. O lábio inferior começou a tremer. «Os atentados de junho mexeram bastante comigo.
Bastante mais do que aquilo que vocês, provavelmente, poderão imaginar, e esta folha já se encontra, há seis meses, pendurada na porta do meu frigorífico.» Ela parou de falar para chorar. Era o maior bolo que já tinha visto em toda a minha vida.
«Peço desculpa», disse. «Refleti imenso tempo naquilo que podia fazer para vos mostrar o quanto esta situação me afetou.»
árvores de Natal feitas de maçapão, uma para cada vítima. Nas árvores encontravam-se pombas brancas de maçapão: uma para cada vítima. Uma lágrima caiu sobre uma das pombas. As suas lágrimas eram negras da maquilhagem que trazia. «Peço desculpa», disse. Uma outra pessoa começou a chorar.

«Peço imensa desculpa.»
O pedido de desculpas dizia respeito às pombas, as quais pareciam estar debaixo de lama. Porém, por breves momentos, pensei que ela se referisse ao todo. O todo que faz partir o coração, mesmo que apenas uma só gota possa ser vista.
«As luzes das árvores de Natal não são comestíveis», disse.
À minha esquerda, outra pessoa começou a soluçar. Tratava-se do porteiro, que tinha encontrado todos os mortos. Disse que estavam empilhados quando os encontrou, pelo que ficou a pensar que estariam a cantar uma canção de harmonia quando foram baleados.
Fiquei a pensar naquilo que alguém tinha dito, que um negro na América tem de fazer do rosto um punho, e comecei a questionar-me se o perdão teria alguma coisa que ver com isto: com a recusa em fazer do rosto um punho.
Também a senhora continuava a chorar.
Ia secando as lágrimas com o agitar da folha com os rostos descolorados das vítimas do tiroteio. Não se ouvia nenhum ruído.
Durante este momento de silêncio, meti o meu caderno no meu saco. Tinha-me deslocado ao local para compreender aquilo que tinha sucedido e que, por via do perdão, não voltaria a suceder. Por outras palavras, tentar saber se o perdão tem o poder de impedir algo, de impedir futuros desastres. Só aquilo que aconteceu é que ainda estava presente.
O pastor convidou-me a comparecer na igreja na semana seguinte.
Teria lugar um memorial especial.
Combinei com a senhora do bolo irmos juntas e passei o resto da semana praticamente a viajar de autocarro, de lugar para lugar, de entrevista para entrevista. No autocarro, era sempre a única branca e o condutor sempre a mesma pessoa. Desta forma, descobri que se chamava Tom e que nunca tinha causado nenhum acidente de autocarro.
Descobri que a comunidade religiosa tinha ficado bastante dividida por causa da ação de perdão.
Famílias deixaram de se falar, pelo facto de uma irmã ter perdoado, mas a outra ainda não se encontrar preparada para tal. Uma das irmãs surgiu na primeira página da Time Magazine e foi ao programa da Oprah, enquanto a outra não foi convidada para nada, e desde então as irmãs não se falam. A segunda irmã não perdoou a primeira por esta ter perdoado.



«Não acredito que se trate de um verdadeiro perdão.»
Fizemos o check-in da minha mala e, de seguida, bebemos um batido. Não fiques a matutar nisto, OK?» prosseguiu.
Soltou um sorriso, disse que a Oprah não parava de o citar e deu-me alguns lápis ainda por afiar.
À volta da igreja, tinha criado um jardim de maçapão, com nove
A igreja estava a abarrotar durante o memorial. Uma pessoa dos estudos bíblicos contou-me que todos os membros da igreja continuavam a ir à missa, apesar de já não se falarem. 
Reparei que o bolo estava no altar. O pastor esperou que se fizesse silêncio e disse: 
«Encontro-me em solo sagrado. Esta igreja foi construída por escravos e filhos de escravos que foram queimados neste pedaço da terra. Nas suas cinzas, esta igreja foi novamente erguida. Os seus filhos cantaram neste pedaço da terra. Locais de tragédias profundas e excruciantes têm o potencial de se tornarem sagrados. Não estou a dizer que esta igreja seja sagrada, mas encontramo-nos num cemitério. Sagrado este pedaço da terra, quero eu dizer. Sagrada a forma como alguém abriu o portão da cave e, com um balde e algum material de limpeza, começou a limpá-la. Sagrado o balde com sangue, lixívia e lágrimas.» 
O pastor deu uns passos em direção ao bolo e disse: «E sagrado este bolo.» 
«Há algo que fez este bolo, e é a mesma coisa que reconstruiu esta igreja. E é precisamente esta coisa que nos pode fazer nascer, vez após vez. Iremos comer deste bolo após a cerimónia, porque amanhã já não estará bom. E eu acredito que isto se aplica a tudo aquilo sagrado que fica na forma por demasiado tempo. E eu não sei o que irá acontecer depois disto. Quantos de nós irão morrer ou ter de morrer até termos encontrado uma tragédia suficientemente grande para nos servir a todos. Amém.»
 O pastor gesticulou para nos levantarmos e cantarmos. Eu estava ao pé de uma senhora. Não sei que idade teria, mas dava ares de ser bastante mais velha do que o movimento pelos direitos civis. Tinha um sinal no pescoço de onde brotavam pelos crespos e grisalhos. Fazia lembrar uma pequena escova de arame. 
Cantámos a «Noite Feliz», e eu desafinadamente. Não conseguia encontrar o tom. Algures perto da parte «Ó senhor», ouvi uma segunda voz. A senhora ao meu lado estava a cantar a minha segunda voz desafinada. Era bonita a forma como cantava, pelo que parecia que também eu conseguia cantar bem. 
«Ouviu isto?», perguntou posteriormente. 
«Duas pessoas fora de tom em perfeita harmonia.» 
Julgo que, se fosse possível fazer do perdão uma melodia, tal soaria como nós as duas agora. 
No fim da cerimónia, o pastor partiu a torre do bolo de maçapão em pequenos pedaços. Surgiram tabuleiros com café e toda a gente se levantou para comer um pedaço de bolo e beber café. 
Fui à rua. 
Estava ao sol, encostada à porta. Sentia-me envergonhada pelo pouco que tinha levado para o serviço religioso, para os estudos bíblicos, para a América.
Tinha um caderno em branco, uma mochila cheia de desconfiança e um livro com o título Cheap Grace, que tinha recebido do meu pai. O termo utilizado no título do livro foi concebido pelo membro da resistência e teólogo Dietrich Bonhoeffer, através do qual ele pretende transmitir que não pode haver perdão sem arrependimento.
«E se o arrependimento nunca surgir?», perguntou o porteiro, e eu não sabia o que dizer. O arrependimento, muito provavelmente, nunca viria a surgir. 
Já nem sei se tinha sido a minha própria desconfiança que tinha trazido comigo ou algo que me tinha sido incutido, tal como as mães põem uma maçã a mais no saco de uma criança que está de partida. Desconfiança como mecanismo de segurança. Como uma forma de sempre conseguir sobreviver. Julgo que tinha boas intenções quando me propus a lançar luz sobre o perdão de Charleston. 
Porém, não só me juntei a uma lista de muitos que o tinham tentado fazer como também me apercebi de que, ao lançar luz sobre os acontecimentos, estes acabam por, gradualmente, mudar de cor. Lançar luz não significa apenas tentar compreender, mas também querer ser capaz de explicar a um público — o público da Time Magazine, por exemplo — que se mostra desconfortável, descrente ou mesmo desconfiado em relação ao perdão. Assim, com as minhas questões — ou, por extensão, todas as questões que de uma forma ou de outra têm que ver com a questão de saber se tudo isto é mesmo real —, acordo algo adormecido, mudo uma trajetória, enfraqueço uma conexão. 
E se as questões tiverem reproduzido desconfiança, é possível, num estado como este, proceder a uma anatomia do perdão? Será desejável fazer isto? Será desejável submeter tudo aquilo que acontece a uma lupa gigante, correndo-se o risco de que tudo aquilo que se encontre por baixo — e que ainda é um pouco real — venha a queimar-se através da mesma? 
Apanhei o autocarro em direção à casa onde me encontrava hospedada, cumprimentei o condutor e fiquei em pé na dianteira. Tinha havido um acidente e estávamos parados junto a um painel publicitário em que um homem de raça branca, vestido de robe, observa os contornos dos telhados no céu de uma cidade com um maço de cigarros eletrónicos na mão. No painel estava escrito: «Recupera a tua liberdade.» Perguntei ao condutor se ele sabia o significado de perdão. Ele riu-se e respondeu: «Com certeza que sim!»
Perguntei-lhe se ele alguma vez tinha tido de perdoar, a que ele respondeu, com um tom de voz como se estivesse a cantar uma canção de blues ritmada: «Minha querida! Oh minha querida, eu tenho de perdoar todo o santo dia!», e quem me dera conhecer a canção, para saber em que momento podia entrar.




Tradutor

PEDRO VIEGAS


Ano de nascimento: 1981
Nascido: Portugal
Vive e trabalha em Nimega, Holanda.
– Tradutor de holandês e inglês para português
– Estudou Gestão na Faculdade de Economia de Coimbra e Marketing
Research, na Universidade de Groninga
– Certificate of Proficiency de Inglês (CPE) / Certificado de Holandês
como segunda língua (NT2)
– Tradutor de holandês/flamengo para português
– Especialização em tradução técnica, no que concerne a processos de
adoção
– Fã de livros e filmes holandeses/flamengo


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