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sábado, 7 de dezembro de 2019

No Folio, em Óbidos, foi tempo para Ralph Rothmann enfrentar o medo 



As estreitas e sinuosas ruas de Óbidos parecem veias e artérias de um corpo por onde vagueiam milhares de turistas. A Livraria de Santiago, lá bem no alto, parece bombear vida pelos caminhos descendentes e delimitados por lojas, cafés, a Casa José Saramago, a Casa do Pelourinho, o Museu Municipal, a Galeria Nova Ogiva, a Livraria do Mercado até chegar à Casa da Música, onde decorreram grande parte das conversas programadas pelo Folio- Festival Literário de Óbidos.
Dentro dessa corrente, vários autores estrangeiros caminharam incógnitos, comprando aqui e ali algumas lembranças, bebendo, por vezes, ginja em copo de chocolate. O mesmo não se pode dizer do Primeiro-Ministro António Costa, que passeou informalmente por Óbidos, ou do Presidente Marcelo Rebelo de Sousa, presença assídua nas edições deste festival. Foram imediatamente identificados pelos poucos portugueses existentes nas ruas da vila.


O primeiro fim-de-semana do festival, entre 11 e 13 de Outubro, foi data marcada para ouvir Elena Varvello (Itália), Mathias Énard (França), Tati Bernardi (Brasil), John Freeman (EUA), Paulo Werneck (Brasil), Donald Ray Pollock (Estados Unidos) e, entre estes e outros autores, Ralph Rothmann, o único autor alemão presente no programa do festival.
A 5.ª Edição do Folio recebeu o autor de “Morrer na Primavera” (Sextante), para o ouvir sobre o inesgotável tema da II Guerra Mundial em conversa com Gabriela Fragoso, da Universidade Nova de Lisboa. Os últimos três livros do autor tratam da temática referente à "mesa": ”A II Guerra, Tema Inesgotável”.

Na altura da Segunda Guerra Mundial, a mãe foi violada quando fugia e o pai foi recrutado. Por isso, em “Morrer na Primavera” o ambiente é de agressividade. O conhecimento dessa situação fez-lhe ver a mãe, que era agressiva e lhes batia, de outra maneira. No entanto, o autor nascido em Schleswig não sabe até que ponto a sua vida entra na produção literária. Mas sabe que não é um autor clássico; não se tornou um escritor após uma graduação académica. Rothman começou a trabalhar aos 14 anos, foi cozinheiro, enfermeiro, entre outras profissões. Foram essas experiências que lhe deram a linguagem para os seus livros.
Ao abordar a guerra, tentou conhecer o pai que adorava. Tentou entender aquela melancolia, quase depressão.

“A guerra estava sempre sentado à nossa mesa"
Como o seu pai não falava sobre a guerra, o escritor criou personagens e situações para colmatar esse vazio, para o conhecer melhor.



A reacção dos leitores foi muito curiosa. Muitos disseram que depois de ler o livro perceberam melhor o próprio pai. Aquele silêncio era comum a muitos pais alistados no exército nazi. Depois daquele drama bélico, o vazio. Não havia catarse. A geração de 68 viria a denunciar o esquecimento que os ascendentes tentavam impor.
O movimento estudantil de 68 foi subscrito mais tarde pelo autor, pois naquela altura tinha apenas 15 anos. O movimento apontava o dedo às principais figuras do país que tinham sido nazis. Ele não fez isso com o pai, pois amava o pai. Em vez de lhe apontar o dedo, ele tentou compreendê-lo.

A cena da execução do amigo, em "Morrer na Primavera", só foi conseguida depois de ele e a sua mulher terem sido alvos de assalto à mão armada. Esteve meses de volta daquela cena, sem sucesso, chegando ao ponto de dizer que queria desistir do livro.

Em conversa com alunos, numa escola alemã em Portugal, perguntaram-lhe o que faria se tivesse que executar o melhor amigo. Não deu uma resposta clara. As acções individuais tem de ser entendidas num contexto.
Nas escolas trata-se o tema da guerra e do nazismo, para depois se tentar um ponto final e parágrafo. O tema é “torpedeado”. Mas esta não é a tarefa da literatura. A literatura tem de manter viva a memoria. A guerra nunca acaba. Tem sempre consequências para as gerações futuras.

A 5.ª edição do Folio continua a analisar o tempo e o medo até ao dia 20 de Outubro, em Óbidos.

sexta-feira, 6 de dezembro de 2019

Ígor Sukhikh dá ao leitor uma potente enciclopédia sobre Tchékhov





O que fazer com um autor que dizia sofrer de “autobiografofobia”?


A montagem biográfica orientada por Ígor Sukhikh parece ser a resposta mais correcta a tal interrogação. Em “Tchékhov na vida: argumentos para um pequeno romance” (Relógio d'Água), o biógrafo deixa os documentos “falarem” sobre o proeminente escritor nascido em Taganrog, a 17 de Janeiro de 1860. A sua voz raramente se dá a conhecer. São as visões de quem conheceu Tchékhov, de quem o estudou e dos seus amigos que delimitam a personalidade do biografado. Cartas, fragmentos de ficções, perspectivas de outros autores (Gorki, Tolstoi, Bunin) justificam as 358 páginas, organizadas em 51 pontos, sobre esta proeminente figura da literatura universal.
O biógrafo dá-se a conhecer, essencialmente, através da selecção e ordenação do material. A sua voz- tal qual acontece nos livros de Svetlana Alexievich – não existe. Destaca-se a sua perspectiva, denunciada no desenvolvimento da narrativa proporcionada por tantos e diversos documentos.

Através da organização de Sukhikh, conhecemos o quotidiano de Tchékhov, o erotismo, o amor, o dinheiro, a religião e a doença.
Segundo, Sukhikh, a montagem de documentos, o confronto de pontos de vista diferentes, sempre retificado por palavras do próprio Tchékhov, cria um efeito de fidedignidade, difícil de alcançar numa biografia narrativa construída mediante a eliminação de aspas e a interpretação desses mesmos documentos

 

É uma opção autoral para clarificar a vida e obra do autor. A própria concepção do livro interroga o papel do biógrafo. Sem deixar de ser o curador, o biógrafo demite-se de dar grandes considerações pessoais. Que falem os outros, que digam o que têm a dizer aqueles que conviveram com o autor, que o estudaram, que foram conterrâneos ou contemporâneos. Os amores e desamores, a condição precária de saúde, os ditames da época presentes nas suas obras, o carácter, a família, as fobias, a visão do mundo e ademais são mostrados ao leitor numa estrutura cubista, poliédrica. É daqui – e não de uma interpretação com respectivo discurso indirecto do biógrafo – que o leitor tem de chegar às suas conclusões.
Existem várias versões sobre Tchékhov; alguns escritores comparam-no com o Salvador, mas há também o aponte de misógino, erotómano ou tísico.
“Tchékhov na Vida: argumentos para um pequeno romance” clarifica, mas não conclui. Nem parece possível que seja de outra forma. A pluralidade fomenta visões antagónicas. A ausência da tal voz autoral, a voz do biógrafo, propicia a existência de incoerências benéficas para a compreensão. O texto não é “pasteurizado” nem homogeneizado.
Gruzínski dá conta disso mesmo num dos seus testemunhos, ao contrapor as memórias de Potápenko com as de K. S. Barantsévtich, que chegou a viver em casa de Tchékhov.
Para Potápenko, o autor de “O Ginjal” nunca escrevia na presença de alguém.  Barantsévtich defendia o contrário, afirmando que um popular local perambulava pela casa de campo do autor tendo a possibilidade de ler os rascunhos. Gruzinski deu razão a Barantsévtich, pois Tchékhov nunca fazia do seu trabalho um mistério nem uma cerimónia sagrada, o seu trabalho nunca exigia um isolamento no gabinete, com as cortinas corridas, as portas fechadas.

Mais transtorno e isolamento lhe causava a doença intestinal que lhe provocava diarreias e desidratação. Em Moscovo, por exemplo, Tchékhov sofreu com o clima. O frio e a neve fizeram com que ele se constipasse, tivesse dores nos braços e nas pernas. Não dormiu de noite, emagreceu muito ao ponto de se injetar com morfina, com heroína, e de tomar “milhares de medicamentos de todo o género”. A saúde de Tchékhov sempre foi ténue, muito frágil e limitava-o no exercício do que mais gostava de fazer: praticar medicina, escrever literatura.
“A medicina é a minha legítima mulher, a literatura é a minha amante. Quando fico farto de uma, durmo com a outra. Pode ser uma confusão mas, em compensação, é menos enfadonho e, além disso, a minha perfídia não priva de nada uma nem outra. Se não fosse a medicina, era pouco provável que dedicasse à literatura o meu lazer e o excesso de ideias. Não tenho disciplina.”

Tchékhov cuida do corpo e desenha a alma. “A nossa alma é um deserto”, chegou a afirmar, mas conseguiu descobrir muita vida, protuberâncias, arestas e incoerências na do ser humano. Pouco escritores captam o humanismo como o autor de “O Tio Vânia”. Amfiteátrov chamou-lhe “o mais profundo dos observadores objectivistas”. O mesmo se poderia dizer de Sukhikh devido a este trabalho de filigrana. O professor de História da Literatura Russa, na Universidade Estatal de São Petersburgo, dá ao leitor uma potente lanterna. Que seja o leitor a alumiar a pessoa de Tchékhov para melhor conhecer a sua obra.

quarta-feira, 4 de dezembro de 2019

“Para que serve a filosofia? – um manifesto”, de Mary Midgley: uma manta de retalhos sob um título auspicioso




Prometer e não cumprir resulta em frustração. Foi o que aconteceu com “Para que serve a filosofia? – um manifesto” (Temas e Debates). A explanação esperada com intuito de responder à pergunta não passou de um aglomerado de textos mal colados por uma introdução e uma conclusão. É uma obra pertencente a beletrística, sem cunho, nem capacidade argumentativa ao nível da ambição. Mas nem tudo é negativo.

Mary Midgley (Londres, n. 1919-2018) é muito clara nas suas explicações. O livro inicia o leitor no universo em expansão que tem sido a filosofia. Não é extenso nem denso; não tenta explicar tudo ao pormenor, nem se perde numa nebulosidade metalinguística. São características favoráveis a um leitor menos avisado. No entanto, o livro falha. Mary Midgley fica muito aquém do que se propôs. O problema talvez nem comece na resposta. A pergunta é que se demonstra inalcançável. São 250 páginas de uma brisa superficial pela face do problema.
A autora diverge por não conseguir aprofundar a ténue resposta dada no início. Para que serve a filosofia? [“What is Philosophy for?”], pergunta neste manifesto.

Para muito pouco, se nos resumirmos às palavras de Mary Midgley. A resposta não é inexistente; é escassa. Mas até a pergunta é perniciosa. A interrogação levantada parte do princípio de que a filosofia tem de ter uma utilidade. A resposta não é “para nada”. É mais do que evidente, logo nas primeiras páginas, que é lhe conferida uma utilidade.



“À Procura de Referências” termina com uma “Conclusão” em que, no miolo, divaga até ser óbice da pergunta inicial. Começa por apontar direcções, promete uma clarificação, perde-se, entretanto, em assuntos que pouco acrescentam e termina voltando ao tema. Dois capítulos- primeiro e último- que balizam uma mão com pouca coisa.

Entre essa pouca coisa, algumas frases simples, claras e promissoras. Segundo a autora, “filosofar, de facto, não é uma questão de resolver um conjunto fixo de enigmas. Pelo contrário, envolve descobrir as muitas formas particulares de pensar que serão mais úteis à medida que tentamos explorar este mundo em constante mudança. (…) [os pensamentos filosóficos] Não competem com as ciências, que presentemente fornecem a maioria das nossas visões dominantes da realidade. Em vez disso, a filosofia tenta descobrir as formas de pensar que melhor ligarão estas várias visões - incluindo as científicas - umas às outras e ao resto da vida”

O livro abre com esta grande promessa de esclarecimento. O leitor espera que a declinação exista nos capítulos seguintes. Só que a autora não consegue ligar os capítulos ao objectivo do livro. Midgley palestra sobre alguns métodos filosóficos, a matéria, pesquisas quânticas, o progresso, Rousseau, tipos de liberdade, a força das imagens, etc. afastando-se cada vez mais do foco e manifesto. Retoma já na conclusão, onde afirma que “Precisaremos de pensar na forma de melhor pensar acerca destes novos e difíceis tópicos - como imaginá-los, como visualizá-los, como inseri-los numa imagem do mundo convincente. E, se não formos nós próprios a fazê-lo, é difícil ver quem o poderá fazer por nós”

Mais do que para demonstrar um objectivo, o título parecer ter sido escolhido como forma de reunir, com boa aceitação comercial, um grupo de textos filosóficos. Desta forma, não passa de uma obra aceitável. Se a lermos com boa vontade.

terça-feira, 3 de dezembro de 2019

"Factfulness": o mundo não está assim tão mal, diz Hans Rosling





Corremos sob um omnipresente mal-estar nas nossas vidas. Estamos envolvidos – assim pensamos – por uma crescente deterioração das condições sociais. A segurança é menor, as doenças são cada vez mais e piores, há miséria em muitas partes do mundo, as democracias caem carunchosas, destruímos o planeta e as drogas abundam entre os frutos da geração do século XX. Estamos no mau caminho. Ligamos a televisão e as nossas ideias encontram reforço nas notícias: atentados, incêndios, aquecimento global, etc. Tudo o que é informação, ou seja, tudo o que forma a nossa percepção da realidade alimenta o mal-estar. As redes sociais formam bolhas onde o consumidor encontra eco das suas inquietações. Devido a isto, quando chega um autor como Hans Rosling (Uppsala, 1948 –2017), a pergunta é imediata:
Como é que ele se atreve a ser tão positivo?
Rosling, em colaboração com Ola Rosling e Anna Rosling Ronnlund, contraria o pensamento embutido, já assimilado e a que já nos conformámos. Tanto optimismo chega a ser irritante. “Factfulness” (Temas e Debates) é um desmantelamento em dez passos da nossa errada percepção do mundo. Para a família Rosling, as coisas estão melhor do que pensamos.
Argumentando como se estivesse numa Ted Talk ou numa palestra para empresas, o autor vai desmantelando o nosso mau humor e instalando uma nova e mais suave realidade. Mas, afinal, andei maldisposto porquê?, haveremos de perguntar.



Não há grande necessidade disso, parece afirmar Hans Rosling. Temos, “simplesmente”, de contrariar os nossos instintos. Dez, para ser mais exacto: o instinto de fosso, o de negatividade, o de linha de reta, de medo, de tamanho, de generalização, de destino, de perspetiva única, de culpa, e o instinto de urgência. Seremos mais conscientes da realidade e, em consequência, mais optimistas.
“Factfulness” partilha as conclusões a que o autor chegou depois de anos e anos a tentar ensinar uma visão do mundo baseada em factos e a ouvir quem estava nas suas conferências. O resultado é uma nova forma de apreender o mundo. E não foi fácil. O próprio cérebro do ser humano está formatado para dramatizar a realidade. São milhões de anos de evolução.
Tudo começa com a informação. Temos muita informação, mas temo-la parcial ou errada. Tomamos posições com base na subjectividade e na oposição entre elementos. E sabemos como o ser humano gosta de dicotomizar. Há ricos e pobres, bons e maus, heróis e vilões. Os jornalistas também sabem isto, obviamente. Em consequência, “estabelecem as suas narrativas como conflitos entre duas pessoas, opiniões ou grupos opostos. Preferem histórias de extrema pobreza e bilionários a histórias sobre a grande maioria das pessoas que se arrastam lentamente em direcção a vidas melhores. Os jornalistas são contadores de histórias.”
Nós, consumidores, selecionamos entre o que já foi selecionado. Provavelmente memorizamos o mais dramático entre as informações que nos foram apresentadas. Formar a nossa visão do mundo baseando-nos somente na comunicação social seria, para o autor, como formar uma opinião a seu respeito olhando somente para o pé.
“Claro que o meu pé faz parte de mim, mas é uma parte bastante feia. Tenho partes melhores”.
Há uma via para clarificar a nebulosidade imposta pelo pessimismo. É a via dos factos. Só assim se pode perseguir, capturar e substituir as concepções erradas.
Temos de demonstrar a realidade por trás deles, afirma Rosling.
É esse o objectivo do seu trabalho. Para o atingir, o autor divide o nível de rendimento em quatro.
São estes quatro níveis que reúnem “todos os tipos de coisas, desde o terrorismo à educação sexual.” Funciona como um jogo de computador. O objectivo é passar do nível 1 para o 2 até chegar ao 4. De nível em nível, de século em século, podemos ver melhorias substanciais em aspectos que damos como os piores. Há menos mortes em quedas de aviões, há menos mortes em desastres, menos armas nucleares, menos destruição de ozono, menos fome, menos mortes de crianças, menos partículas de fumo; mais colheitas, mais pessoas com água, maior imunização, mais democracia.
Há melhores dados para conseguirmos combater os nossos instintos de medo e negatividade. E quando temos medo, não vemos com clareza.
Hans Rosling comporta-se como se estivesse a instruir o leitor. E está. A estrutura de uma Ted Talk ou de uma conferência como as que deu no IKEA ou na Coca-Cola é transposta para formato livro.
Explicações claras e muitos gráficos registam o factual optimismo do autor.
É “um guia indispensável para pensar claramente acerca do mundo”, afirmou Bill Gates. Seja como for, o leitor sai de bem com o mundo e consigo. Afinal, nem tudo está mal. Para manter essa atitude positiva, basta não ver televisão, não ler jornais, não ouvir rádio, nem ouvir as conversas de café ou de transportes públicos. Deixe o Facebook e o Twitter. Se conseguir fazer isso, vai tudo correr bem.
Ou não.

segunda-feira, 2 de dezembro de 2019

"Milkman", de Anna Burns: #Metoo em tempos bombistas 





Liberdade individual cerceada pelas bombas, cultura tribal e boatos. Eis “Milkman” (Porto Editora), prosa em toada hipnotizante escrita por Anna Burns (Belfast, 1962), vencedora do Man Booker Prize com este romance.

Anna Burns nunca nomeia territórios, acontecimentos históricos e muito menos partidos políticos. Nomear seria dotar de liberdade, de individualidade, e diminuir o universalismo da mensagem. Mas as suas palavras têm sombra; elas arrastam a história dos beligerantes acontecimentos nas Irlandas. Burns não nomeia, não assume, mas os ecos são constantes.
De um lado os protestantes britânicos defendiam a permanência como parte do Reino Unido; do outro, a facção católica queria a reunificação com a República da Irlanda.




O embate foi sangrento: Atentados como os acontecidos entre 72 e 98, em Guildford, Woolwich, Birmingham, executados pelo IRA; ou a morte de Louis Mountbatten, primo da rainha Elisabeth II; ou ainda o atentado de 1979, em que morrem 18 soldados britânicos. Antes disso, a manifestação de 30 de Janeiro de 1972, em Londonderry, conhecida como “Bloody Sunday”. Morreram 14 manifestantes católicos, com tiros provenientes de soldados ingleses. Um dos atentados mais graves aconteceria em 10 de Abril de 1998. Um grupo dissidente do IRA, chamado IRA Autêntico, fez explodir uma bomba vitimando 29 pessoas.
Trinta anos de conflitualidade entre protestantes-unionistas e católicos-republicanos modelaram a vivência social tão bem retratada por Anna Burns, em “Milkman”. Foram três décadas em que morreram entre três e quatro mil pessoas. No dia 10 de Abril de 2008 foi assinado o acordo de Sexta-Feira Santa que terminou com “The Troubles”, nome pelo qual ficou conhecido o conflito.
As gerações posteriores viriam a assimilar costumes e ideias alimentadas por estes acontecimentos. Mesmo sem terem assistido, filhos e netos foram educados de acordo com o ambiente vivido.


Quanto à atmosfera psicopolítica, com todas as suas regras de lealdade, de identificação tribal. Do que era ou não permitido, a coisa não se ficava pelos «nomes deles» e pelos «nossos nomes», pelo «nós» e «eles», pela «nossa comunidade» e a «comunidade deles, pela «ponta de lá da estrada» e pelo «outro lado do canal» e pelo «para lá da fronteira».
O medo e a aculturação da geração de uma menina de 18 anos, nossa narradora, são formados pelo sangue, pelo discurso de ódio, pelas explosões.

O que nos diz Anna Burns? Que depois de tudo, há esperança. Mesmo que reduzida, mesmo que imperceptível sob o sexismo dominante, violência religiosa e política, ou ostracismo social, há sempre uma saída. É isso que nos dá conta a voz desta “Irmão do Meio”, que nada quer ter a ver com questões políticas, não gosta do século XX, e prefere andar pelas ruas a ler romances do século XIX. É a assimilação da mensagem passada pela professora de francês. Todos os dias há pores-do-sol, há sempre um novo capítulo. As ideias do passado devem ser abandonadas e estar-se receptivo a novas interpretações. Nunca se sabe quando virá o momento de charneira, a reviravolta, o instante em que tudo mudará e o significado de tudo isto se revelará. concluiu a professora de francês. Mas até isso suceder o caminho é árduo e pedregoso. O ambiente social limita a individualidade, as vontades. Além disso, há algo que vai coarctar ainda mais o espaço da narradora. É a própria sociedade que a limita, mesmo ela não tendo visto nascer o conflito, mesmo ela não tendo sido agente activa no persistente boato, como todos pensam. Além de toda a vigilância e espionagem – A máquina fotográfica escondida disparou, um disparo que soou a forças de segurança governamentais, tal como um outro arbusto posicionado algures naquela mesma represa fizera uma semana antes.”– a “Irmã do Meio” é sujeita ao assédio de um homem com cerca de 40 anos a quem chamam de Leiteiro. Não o verdadeiro, que acaba por sofrer na pele os atritos sociais, mas um homem que, por vias do deflagrado boato, se vê nomeado como tal.
Anna Burns não dá tréguas e reduz as personagens a questões físicas, familiares ou psicológicas. Além de todas as questões já mencionadas, a “Irmã do Meio” é ostracizada devido aos boatos que a envolvem com o misterioso Leiteiro.

“Por causa do leiteiro, eu ganhara o hábito de, ao chegar a casa ao fim do dia, ver debaixo da cama, atrás da porta, no roupeiro e por aí fora, porque ele podia estar ali dentro, debaixo de alguma coisa ou escondido atrás de alguma coisa; e também verificava as cortinas, confirmava que estavam bem fechadas e que ele não estava escondido fosse do lado de dentro da janela, fosse do lado de fora. E então percebi que as coisas tinham chegado a um ponto em que, ao fazer aquelas verificações, eu agora achava que a própria comunidade poderia andas a esconder-se no meu quarto.”
O boato destrói, insidioso, as relações da narradora. De um mal-estar geral, vai apodrecendo as relações mais próximas.  O “Namorado Mais ou Menos”, a melhor amiga e a família vão se afastando da assediada. Eles ampliam o poder do leiteiro. É o #Metoo em tempos bombistas.
Percebe-se a atribuição do “Man Booker Prize 2018” a “Milkman”. A voz de Anna Burns tem uma toada diferenciadora, viciante, até quase hipnótica. A tensão é constante; o leitor não sabe quem é o leiteiro, não sabe o que vai acontecer à “Irmã do Meio” e muito menos sabe sobre o fim das hostilidades militares nesta cidade não nomeada. Mas sabe que Anna Burns consegue construir uma personagem marcante num ambiente opressivo e sempre verosímil.

Publicado em https://www.comunidadeculturaearte.com/milkman-de-anna-burns-metoo-em-tempos-bombistas/

Comic Con. Começou bem mas acabou mal




Da alegria contagiante ao caos final. A Comic Con foi do céu ao inferno entre 12 e 15 de Setembro.
Com crescimento cada vez maior, o evento teve prova de fogo com a presença de Millie Bobby Brown. Se o esforço para ter a actriz em Portugal foi meritório, o que veio a seguir chamuscou.

A ficção emprestou as suas personagens para a Comic Con e misturou-se de tal forma com a realidade que esta se tornou um universo paralelo, próprio de “Stranger Things”.
Saíram aos magotes dos automóveis espalhados anarquicamente nas redondezas, percorreram a avenida e entraram pela porta principal do festival. Foi assim nos 4 dias do evento. A primeira imagem do recinto foi desafogada. A última seria caótica.

Porta para dentro, o registo no cartão de cidadão era irrelevante. As idades eram esbatidas. Pais e filhos iam de mão dada, tantas vezes com o filho “à civil” e o pai e a mãe vestidos de heróis Marvel.
Os cosplayers tinham espaço próprio dentro do recinto, onde vendiam merchandising e davam workshops. Mas, sobretudo, tinham o passeio marítimo de Algés como local de diversão. São parte do espectáculo em todas as edições.

Perto da Gaming Area, uma iguana com asas postiças fazia de Dracarys deitado no Iron Throne enquanto uma Ariel e uma Harley Quinn caminhavam amigavelmente para The One Theatre. Uma Maléfica deixava-se fotografar com festivaleiros enquanto esperava na fila para comer um gelado preto inspirado na série “Stranger Things”. Os menos distraídos puderam ver o actor Benedict Wong, os escritores Simon Scarrow e Kass Morgan a passear entre as tendas com Comics, Anime, Manga e Música, apesar do intenso calor e do muito tempo passado a dar autógrafos e a tirar fotografias. Mas por muito bem feito que fosse o cosplay, os intérpretes embateriam na realidade assim que chegassem à zona de restauração. E bem podiam sonhar com poderes especiais, ou com a destreza dos ladrões de “Casa de Papel”. Filas compactas e longas para a comida, depois outras filas para ir comprar bebida e se se esquecessem de pedir um café, azar dos azares, teriam de ir novamente para a fila onde se vendia cerveja, água e refrigerantes para tirar uma senha de forma a, posteriormente, ir para outra fila- esta bem menor- para beber café. E as escolhas não eram muitas. Poucas bancadas para muitos festivaleiros. Só a paciência do Professor Charles Xavier, dos “X-Men”, poderia aguentar o tempo perdido sem soltar vários palavrões. Mas não era nada que não se resolvesse com uma passagem pela área mais “Geek ” e absorver a filosofia zen do Mestres Jedis Obi-Wan Kenobi e Luke Skywalker. Bem guardados por um guarda imperial e por Kylo Ren, pousavam impávidos com os padwan que os solicitavam. Se a Força não era suficiente, podia-se passar para algo mais sangrento. “Counter Strike” reunia miúdos e graúdos em combates pela vida virtual.

Alheio à fome, um homem-aranha fazia bungee jumping simulando nas alturas atirar teias e gritando mais alto do que os concorrentes do concurso de gritos do Arroz Banzai. Todas as falhas eram mais do que compensadas pelo visível divertimento. Até ao último dia. O princípio desse domingo foi atípico. Apesar de haver muita gente nos 3 dias anteriores, o último prometia ainda mais gente. Logo na abertura de portas, havia filas com centenas de metros para a loja oficial da Comic Con. As primeiras pessoas chegaram por volta das 04 da manhã para, assim que abriram as portas, correrem o mais rapidamente possível para assegurar, a troco de 20 euros, um autógrafo ou, a troco de 30, uma fotografia com a cabeça de cartaz daquele dia.

As muitas t-shirts, o falso sangue no nariz, os suspensórios e o soundbyte “I dump your ass” não enganavam. Era o dia de Millie Bobby Brown, a El de “Stranger Things”. Tudo nesse dia parecia o preâmbulo para esse grande evento no Golden Theatre. As extensas filas para ganhar recordações prenunciavam uma enchente. Suspeitava-se que talvez o teatro, com cerca de 2000 lugares, não fosse suficiente para acolher tanta criança acompanhada da família. Os eventos anteriores no mesmo teatro esgotaram com pessoas a guardarem lugar para ver e ouvir, horas depois, Millie Bobby Brown. As ruas eram afluentes da praça junto ao “Golden Theatre”. As pessoas aglomeraram-se e esperaram para entrar. A falta de informação e o calor potenciaram o descontentamento. O rumor de desagrado foi crescendo e passou de surdina para vociferado. Famílias com adolescentes e crianças tinham comprado o bilhete diário com o propósito de verem a El. Sob um sol tórrido, centenas, ou talvez milhares, ficaram de fora da tenda a olhar para o ecrã gigante, só com a imagem, por a actriz não autorizar a captação de som. (A organização garantiu, em comunicado, que todas as pessoas que pagaram por um autógrafo ou fotografia estiveram com a actriz). A frustração surgiu em vaias, protestos e até lágrimas. Não conseguiram ver uma Millie Bobby Brown empática, divertida e capaz de corresponder às elevadas ilusões dos milhares de fãs dentro da tenda.

Os relatos do que aconteceu depressa se espalharam pelas redes sociais. No facebook, foi criado ”Os lesados da Comic Con”, a página do festival recebeu muitos comentários de desagrado e ameaças de processos.

De todas as provas que a organização passou, esta e a da restauração foram as que apresentaram mais dificuldades. Foram de fogo e chamuscaram muito do positivo que fizeram ao longo do evento.
Quem foi quinta, sexta ou sábado é bem provável que esteja na edição de 2020. Convidados como Avi Nash (“The Walking Dead”), Joaquim de Almeida, Alexander Ludwig (“Vikings”), Kevin McNally ("Piratas das Caraíbas”) foram os nomes mais sonantes. Quem foi no domingo para ver Millie Bobby Brown ( e não viu) é possível que jure não mais voltar.

Publicado em https://www.comunidadeculturaearte.com/comic-con-comecou-bem-mas-acabou-mal/

terça-feira, 19 de novembro de 2019

"A Travessia de Benjamin", de Jay Parini





As teorias de Walter Benjamin são substratas da história em “A Travessia de Benjamin” (Elsinore). Jay Parini, autor de “A Última Estação”, calibrou o mecanismo literário quase na perfeição.

Entre diferentes pontos de vista e palavras do próprio Walter Benjamin, a prosa ficcional apresenta-se próxima do homem e da sua obra sem cair em opacidade teórica. Não estamos a falar de um ensaio biográfico escrito pelo autor de biografias de Steinbeck, Frost ou Faulkner. Parini ficciona. O livro não é uma biografia de Walter Benjamin nem tem o objectivo de encerrar o tema. A ficção abre outras portas, liberta-se do factual e movimenta-se por zonas menos frequentadas pelos ensaístas. Uma mentira em forma literária? É antes uma verdade falsificada capaz de aproximar o leitor do personagem real que foi ficcionado.



O romancista seguiu os acontecimentos verídicos que moldaram a vivência, o corpo e as ideias de Walter Benjamin. Os nomes, as datas e as localidades quiseram-se exactos e representantes desses acontecimentos.
A investigação para a construção deste romance incluiu entrevista a Lisa Fittko, uma das vozes deste mosaico narrativo, entrevistas a amigos e antigos alunos de Scholem, companhia do leitor na visita ao túmulo de Benjamin, além do próprio interesse no corpus teórico do filósofo. Outras fontes foram também importantes para a feitura do romance.  As cartas do próprio Benjamin- com edição de Adorno e Scholem-, e as críticas de Susan Sontag, Hannah Arendt entre diversos autores são a corrente interna do fluxo que nos leva até à saudade de Scholem, quando visita a campa do amigo que se suicidou com comprimidos. As memórias de Asja Lacis, uma obsessão de Walter Benjamin, seriam fonte importante. Em “Rua de Sentido Único” [Gesammelte Shriften”] está escrito:

“Esta rua chama-se/ Rua Asja Lacis/ em homenagem àquela que/ como um engenheiro/ a abriu no corpo/ do autor deste livro.

Mas foi, principalmente, o próprio autor nascido em Berlim a suscitar o interesse do romancista norte-americano. “Iluminations” foi o ponto de partida. A voz destes ensaios “inimaginavelmente comprimidos, enigmáticos, sugestivos” acompanhou Parini durante anos. As memórias de Gershom Scholem, “Walter Benjamin: The Story of a Friendship”, e as memórias de Lisa Fittko, com narração das experiências na França em plena Guerra Mundial e a viagem com Benjamin e os Gurlands pelos caminhos agrestes dos Pirenéus, são essenciais na descodificação do Benjamin mundano e pensador.

Filho de um comerciante, o berlinense Walter Benjamin, nascido a 15 de Julho de 1892, viria a estudar Filosofia, Literatura Alemã e Psicologia na Universidade de Berlim e na de Berna. A primeira obra destinada a publicação, “Tableaux Parisiens de Baudelaire” incluía um prefácio sobre “A Tarefa do Tradutor”, que demonstra interesse pela filosofia da linguagem e pela teoria da arte. Os ensaios sobre literatura, escritos entre 1914 e 1936, compreendem Kafka, o surrealismo, Proust, o teatro épico de Brecht, a poesia de Holderlin e “As Afinidades Electivas”, romance de Goethe, entre outros temas.

Caminhar com o personagem não implica miopia, mesmo que ele tenha precisado de grossas lentes para contrariar a pouca capacidade dos seus olhos. A mente alcançava o que as muitas dioptrias impediam de ver. Caminhar com Benjamin é acrescentar conhecimento sobre os temas mencionados, é testemunhar sociedades em ebulição, invadidas ou prestes a ser pelas tropas alemãs. Hitler assombrava os europeus com especial obsessão pelos judeus, como Walter Benjamin.

Ele e a sua irmã fugiram de uma Paris cercada pelos alemães em direcção a um território que lhes garantisse liberdade. Espanha, Portugal, Cuba e até Marrocos eram opções.
Na história de Parini, Benjamin nunca larga uma mala preta com vários inéditos e algumas páginas de uma obra sobre as arcadas, que ele vê como sua obra-prima. A penúria faz sombra sobre a sua existência, a indisciplina e a fraca saúde impedem um ritmo de trabalho que lhe proporcione mais conforto. Esta conjugação negativa desenharia o seu destino.

“Benjamin fora morto por Hitler, e por Karl Marx. Fora morto por Asja Lacis, que nunca o amara realmente, e, sim, por Dora, a sua mulher, que nunca aprendera a amá-lo convenientemente. Fora morto, sem dúvida nenhuma, pelo Anjo da História, que nunca conseguiu satisfazer. De um modo ainda mais óbvio, foi morto pelo Tempo, que muitas vezes aguarda, provocador, nos bastidores, mas que surge sempre em palco (…)” 

Benjamin é um pensador com afinidades com Adorno, que o ajuda pessoalmente, enamorado por Baudelaire, atraído por Goethe, e próximo de Brecht. O confronto de ideias entre os vários autores e diferentes correntes ideológicas é bem doseado por Parini. Algo mais profundo e ostensivo tornaria o romance fastidioso e pouco fluido. “A Travessia de Benjamin” é também a travessia do leitor pelas danações físicas e obsessões individuais de um homem, como o entusiasmo pelo sexo. Para Benjamin, era impossível viver uma vida sem Eros. A sua obsessão por Asja- obsessão nunca satisfeita- levava-o a procurar noutras mulheres a sua imagem. O  aspecto desleixado não era sintoma de pouca libido.

“Tinha pago pelos serviços de dúzias de prostitutas, apertando os olhos com força no momento do orgasmo, inventando Asja uma e outra vez. Sentira tanto a sua falta. A sua vida, sem ela, era vazia.”

Adorno viria a afirmar que nenhum pensamento deste homem inesgotável se assemelhava a algo sem mistura. Tudo na vida influenciou o seu pensamento.  Neste entrelaçar de características de diversas índoles, Parini consegue não afastar o leitor já por si isolado. De acordo com o filósofo aqui ficcionado, “Uma pessoa que escuta uma história está na companhia de um contador de histórias; mesmo alguém que leia uma história em voz alta partilha este companheirismo. O leitor de um romance, contudo, está isolado, mais do que qualquer outro leitor. Na sua solidão, os leitores de romances apoderam-se do material mais zelosamente do que lhes é apresentado como um fogo que devora os troncos numa lareira”.

A vida de Walter Benjamin foi esmiuçada e romanceada para usufruto do leitor. É um caminho aprazível e muito bem desenhado pela mão segura de Parini.

Publicado em: 
https://www.comunidadeculturaearte.com/a-travessia-de-benjamin-o-equilibrio-quase-perfeito-de-jay-parini/

segunda-feira, 18 de novembro de 2019

Shot #15: O Jornalista Desportivo, de Richard Ford





Há na escrita denotativa de Richard Ford uma zona de conforto, apaziguadora, devido a uma espécie de reconhecimento do discurso quotidiano da imprensa. O autor norte-americano, com o seu nome associado ao Nobel da Literatura, vai delineando a solidão de um homem divorciado- apesar da neo-relação amorosa com Vicky Arcenault e de partilhar a casa com um hóspede- e pai de um filho falecido na infância. O jornalista desportivo, Frank Bascombe de seu nome, está adaptado a esta solidão. Frequenta um clube de divorciados, bebe as suas cervejas nos bares mais sugestivos de Hadam, subúrbio de New Jersey, e aproveita os bons momentos porque conhece a possibilidade do caos. Tem 38 anos e afirma que “para a vida valer a pena, temos de enfrentar mais cedo ou mais tarde a possibilidade de um terrível e doloroso arrependimento. Devemos, porém, tentar evitá-lo, caso contrário ficaremos com a vida arruinada. 
Acredito ter feito estas duas coisas. Dominei o arrependimento. Evitei a ruína. E ainda aqui estou para falar disso.” 
E o que Bascombe conta é mais sobre a passividade de um indivíduo perante tudo o que o rodeia do que sobre desporto. O tom melancólico da prosa parece ser o tom passivo de quem enfrenta o quotidiano sem pressa nem expectativas. Aliás, Richard Ford dá-nos mais de 400 páginas de “não acontecimentos” (exceptuando um suicídio). Ford não explora o drama da morte do filho nem a ruptura do casamento. A sua visão incide sobre o “day after”, o momento em que o indivíduo já (quase) se pacificou com o que lhe aconteceu. 
“O Jornalista Desportivo”, publicado em 1984, iniciou a “trilogia Bascombe”, composta também por “O Dia da Independência” (Prémio Pulitzer e PEN/Faulkner) e “A Pele da Terra”. 
Fazer do quotidiano literatura, utilizando a linguagem denotativa, mais jornalística, enquanto incide sobre a dormência não é o caminho mais fácil para um escritor. Não é o mais fácil nem é para todos, mas é para Richard Ford. 


O Jornalista Desportivo
de Richard Ford 
ISBN: 978-972-0-03105-1
Edição ou reimpressão: 09-2019
Editor: Porto Editora
Idioma: Português
Dimensões: 152 x 235 x 28 mm
Encadernação: Capa mole
Páginas: 424
Tipo de Produto: Livro











segunda-feira, 12 de agosto de 2019

"A Justiça de Yerney", de Ivan Cankar





Caminhar descalço sobre pedras de arestas vivas. Eis o caminho de Yerney, peregrino solitário com destino inalcançável. A interrogação de Yerney é a força motriz para Ivan Cankar escrever esta novela: “Trabalhei durante quarenta anos; construí uma casa; o meu suor adubou os campos e as pastagens. A quem pertence tudo isto?” 
 O esloveno Ivan Cankar (1892-1927) escreveu em “A Justiça de Yerney” (Cavalo de Ferro) a via sacra de um homem triste em busca de justiça.  Cankar, um dos principais escritores eslovenos, foi ativista político com importantes ligações ao expressionismo católico e ao realismo socialista. Nasceu em Vrhnika e foi influenciado pelo naturalismo, realismo, decadentismo e simbolismo. É visto como o principal impulsionador do modernismo e do romance psicológico na Eslovénia. Características muito bem conjugadas neste livro, que viria a ser reverenciado por gerações posteriores. Yerney dedicou a sua vida ao trabalho e a Deus. Depois do seu patrão morrer, pensava que iria ter o merecido repouso. O corpo já velho e mastigado pelo labor continuo dava como certo um lugar à lareira sob o fumo do cachimbo. Mas tal não viria a acontecer. O filho de Sitar, seu falecido patrão, assumiu o lugar para revolta do operário. Começou a demanda por justiça. Na sua viagem entre Viena e Ljubljana, falará com padres, sábios e juízes; perguntará a camponeses e a “infiéis” onde mora a justiça; palmilhará caminhos agrestes para encontrar o que procura. Sempre sem sucesso. Todos o escarnecem e o desprezam. Segundo Yerney, quem toma conta de uma quinta não é pedinte nem vagabundo; quem semeia a terra e a aduba com o suor tem o direito de colher o produto, pois a labuta é de quem trabalha. Mas agora vinha o filho do patrão, assentando os seus direitos no sangue, colher o que ele havia trabalhado ao longo de décadas. O escritor consegue pôr em contraste o consolo celestial com a imperturbável frieza do ser humano. O personagem encontra nos céus o que a terra lhe nega. “Passou por muitos funcionários e juízes que o olhavam severamente; falaram-lhe asperamente; expulsaram-no; empurraram-no de porta em porta. Não protestou, não ameaçou, pois o seu coração era demasiado puro, a sua fé inabalável; não se revoltou quando o trataram como uma criatura tola ou uma criança. Por causa da justiça suportou o escárnio e o desprezo; não objectou, não se queixou quando lhe disseram que era um imbecil e parecido com uma criança. «Deus iluminá-los-á e perdoar-lhes-á, pensou Yerney Cankar optou por uma estrutura muito simples, numa novela sucinta, onde a angústia do personagem é posta em evidência através da dialéctica. As ideias do indivíduo são contrariadas pelas ideias de uma maioria. Tanto na estrutura narrativa como na ideologia, a dialéctica põe em contraste os direitos detidos pelo capital com o proclamado e exigido direito de quem produz. Por muito que pesem as pernas a este sexagenário, a procura pela justiça empurra-o pelo caminho de pedras. E ele continua, como Cristo no calvário. É por demais evidente a presença de ideias adjacentes ao cristianismo na prosa de Cankar. O personagem não desiste e remete para Deus a derradeira justiça. Por mais que se sinta defraudado, por mais que o vilipendiem, agridam e escarneçam, Yerney mantém fé inabalável no aparecimento da luz que o irá alumiar. “Luta, apóstolo, luta!”, afirma para depois decidir não mais ser vítima. Como o Cristo, ele trouxe a discórdia. E Cristo acabou como mártir. Curto, incisivo e desafiador, “A Justiça de Yerney” tem tudo o que é preciso numa novela deste género. Seja o leitor de esquerda ou de direita, apologista do capital ou aguerrido combatente dos operários, este é um livro para ler sem contra-indicações.


Autor : Ivan Cankar
Editor : Cavalo de Ferro
Data de lançamento :24/06/2019
EAN : 978-9898864697
ISBN : 9789898864697
Nº Páginas : 96

 






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