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quinta-feira, 29 de abril de 2021

"Marrom e Amarelo", de Paulo Scott: tantas cores tem o Brasil

 



 


 

Separados por cores, unidos por uma história moldada pela força. O Brasil, para quem vive na Europa, é um território de promessas. O idílio encontrado há séculos mantém o fascínio de quem olha de fora, do estrangeiro, de quem procura a beleza do turismo asséptico. Do outro lado, do lado de quem percorre as avenidas, ruas e favelas já não há o fascínio do índio pelo branco colonizador ou pelo negro escravizado. É demasiado intrínseco para causar estranheza. O olhar estrangeiro é o de quem procura conhecer sem ser incomodado. Quer ver o Cristo Redentor olhando por cima das cabeças de quem fez do Brasil o seu dia-a-dia. Se tiver o interesse em baixar o olhar e ver mais de perto observará múltiplas tonalidades na tez do povo brasileiro. Se procurar além do samba na fala, então olhe um pouco mais para baixo, olhe para as prateleiras das livrarias, selecione o trabalho de quem espelha a vida nas palavras. Livros como “Marrom e Amarelo” (Tinta-da-China) são o oposto dos postais ilustrados. Autores como Paulo Scott (n. 1966) não se prestam ao serviço de guias turísticos a pastorear turistas. O Brasil de Paulo Scott é o Brasil de quem conhece o cheiro das favelas, o Brasil de quem sabe como os séculos os empurraram até este momento.  


“Nenhuma boa história é leve, Federico, Nenhuma boa história deixa de fora o que é denso, o que é pesado, observa.”  


A consciência social do autor nascido em Porto Alegre já havia ficado bem vincada em “Habitante Irreal” (Tinta-da-China). Nesta obra, galardoada com o Prémio Machado Assis em 2012, é pensada a questão indígena e o autoconhecimento do indivíduo, necessariamente contextualizados pela vertente sociológica. Scott procura compreender o outro e denunciar as injustiças endémicas da sociedade brasileira. “Marrom e Amarelo” mantém essa substância. Agora não são os indígenas, mas esse racismo endógeno à psique do povo brasileiro. A miscigenação é em tal grau que a divisão cromática é inverosímil.  Tudo fica mais complexo quando a existência de racismo não é declarada inimigo público. Mais, nem é reconhecido como problema. Neste mês de Novembro de 2020, aconteceu mais um exemplo. Um homem foi espancado até à morte numa loja Carrefour. Chamava-se João Alberto Silveira Freitas, 42 anos, e a sua pele tinha a cor “errada”. É um daqueles casos em que arte e realidade se cruzam. João Alberto Silveira de Freitas foi morto na cidade do autor, foi morto na idade dos personagens Federico e Lourenço.

 Hamilton Mourão, vice-presidente da República afirmou, em declarações à comunicação social, que “No Brasil não existe racismo. Isso é uma coisa que querem importar aqui para o Brasil. Isso não existe aqui.”  Esta opinião é secundada por Sérgio Camargo, presidente da Fundação Cultural Palmares, quando afirmou que não existe racismo estrutural no Brasil. Para Sérgio Camargo, é algo circunstancial. 

Não é o que história nos ensina.

Entre o princípio do século XVI e o fim do século XIX, mais de 12 milhões de africanos foram raptados, vendidos e transportados para o continente americano. Cerca de 5 milhões foram para o Brasil. A miscigenação entre indígenas, europeus e africanos foi consequência previsível. A formação da identidade nacional fundou-se na mestiçagem como local de convergência entre negros, indígenas (também escravizados), portugueses e outras nacionalidades europeias. 

O Brasil é um dos países com maior população negra fora de África. No entanto, a representação negra no poder de decisão na sociedade brasileira é reduzida. Mesmo que haja instrumentos legais que impeçam descriminação, o racismo manifesta-se informalmente. Essa informalidade espelha-se no poder, mas tem raízes emaranhadas no substrato do pensamento do povo brasileiro. No pensamento, mas não no diálogo. É algo latente, mas afastado do debate. 

Em “Marrom e Amarelo” existem dois irmãos com peles e pensamento distintos. Federico é de poucas falas, mas de muito activismo. Tem a pele clara, ao contrário do seu irmão, Lourenço. 

Os dois vivem nos subúrbios de Porto Alegre, onde cresceram, e sentem a mal-escondida tensão racial. Federico, em conversa com a mãe, atreve-se a destapar esse mal-estar: 


“Eu olho pra maneira como vocês me criaram, pra criação que tu e o pai deram pra mim e pro Lourenço, e não vejo quase nada de negritude, do mundo negro, quase nada da cultura negra, falo dum modo dramático, que, por ser a minha mãe a interlocutora, não consigo evitar, Nós somos uma família negra, porque tu sempre disse que a gente era negro, Tudo bem, Mas onde tá a nossa negritude, Nós parecemos uma família branca, só nos relacionamos com gente branca, teus colegas e amigos, com exceção dos Moreira e dos Arantes, são gente branca, os colegas e amigos do pai são brancos, A gente se blindou, Porque acho que, no fundo, esse era o jeito do pai de se afirmar, De se blindar e não enxergar nada que envolvesse essa história de raça, de ignorar os brancos, de ignorar os brancos que não gostam de gente escura, Mas também de ignorar todo o resto, Os negros, A cultura negra, O racismo, digo. Tu tá falando do quê, Federico, diz. Estou falando dessa palavra que, até pra nós, é um tabu, Racismo.”  

 



 

Paulo Scott não cala a denuncia. Em cada palavra há um assomo de raiva, de ferocidade, perante as assimetrias sociais no Brasil. A torrente de frases intercaladas, qual estilística saramaguiana, levam o leitor ao ritmo dessa ânsia de justiça brandida por Paulo Scott.

A narração não cabe a um “eu” narrativo, mas dificilmente poderia ser mais pessoal. A corrente interna da prosa de “Marrom e Amarelo” é o ponto de vista do autor sobre o país onde vive. Talvez devesse ser denominado como países, ou como Brasil –Reino policromático e desunido pelas diversas cores dos seus constituintes. E são tantas e esbatidas pela miscigenação racial até ao ponto de ser caricato dividir a sociedade conforme a cor da pele. No entanto, essa divisão existe: 


“Tu é metidão, Federico, sempre foi, Olha tua cor, olha o teu cabelo, o jeito que tu usa esse teu cabelo lambido, Tu tem essa tua casca de branco, essa pele passe-livre do caralho, Tu nunca vai entender o que é ser preto, ser um fodido perseguido vinte e quatro horas na tua rua, no teu bairro, na tua cidade, Tu não sabe, Tu é metidão (…)” 


Parece haver uma separação insanável marcada pelos efeitos sociais provocados pela cor da pele, ou melhor, as divisões sociais que aproveitam a cor da pele para separar e escarnecer. O que poderia ser riqueza e orgulho é transformado em pobreza e violência. A pluralidade racial está na raiz do Brasil. Como diz um personagem,  


“Não tem como criar uma régua de cor, um negrômetro, uma régua racial para inserir num programa de computador (…)” 


A tentativa de fixar quotas no Ensino Público Federal, com base nas nuances cromáticas, mostra o absurdo de uma sociedade mais burocrata que libertária:

 


“Da parte dos negros, primeiro foram alguns alunos pretos contra alunos pardos que, nos critérios daqueles alunos pretos, não eram suficientemente pardos (…) E também os alunos pretos e alunos pardos contra os alunos que se diziam pardos claros, mas nem pardos claros eram porque eram brancos na avaliação dos núcleos de militância negra, brancos safados que, aproveitando a exclusividade do critério da autodeclaração racial, pegando umas sessões em câmara de bronzeamento, aplicando autobronzeador spray na pele, pintando a pele, fazendo permanente no cabelo, preenchimento labial com botox, alegavam ser negros ou, sem recorrer a qualquer artifício, deixando que a pele clara continuasse clara, juravam ser de comunidade negra, netos de negros, bisnetos de negros (…)” 


Identidade é a palavra chave das ideias de Paulo Scott. Mais do que protesto- e também “Marrom e Amarelo” tem essa vertente- o livro agora semifinalista do Prémio Oceanos é uma honesta procura da identidade brasileira. Nessa procura, cabe a denúncia, as dúvidas, a raiva e a frustração. 

“Marrom e Amarelo” não é um panfleto; é uma ferida destapada por Paulo Scott. 

Fica confirmado, em Portugal, o que “Habitante Irreal” apresentou: uma voz autoral distinta, denunciadora e apaixonada pelas causas que a substanciam.

 


Publicado em: https://www.comunidadeculturaearte.com/as-cores-do-brasil-em-marrom-e-amarelo-de-paulo-scott/

terça-feira, 23 de fevereiro de 2021

Shot #29 "O quarto de Giovanni", de James Baldwin

 




Uma história de amor entre dois seres do mesmo sexo é tentação para quem escreve. Depressa e facilmente, cai no mais carnal. O voyeurismo prefere a consumação do proibido. Desenhar a envolvência física sem cair no previsível, sem abdicar da forma, é um desafio ao alcance de poucos escritores. No entanto, James Baldwin (1924-1987) não é um escritor de recursos limitados, como o leitor pode constatar em “Se Esta Rua Falasse” e “Se o Disseres na Montanha”, ambos da editora Alfaguara. 

Em “O Quarto de Giovanni” (Alfaguara; trad. Valério Romão), a curiosidade pode até incidir sobre a carne, mas isso acontece para que o escritor observe a sombra. 

Esta história simples dá o contexto a personagens principais e secundárias (nunca planas) para se movimentarem e se revelarem ao leitor e a eles próprios. 

O nova-iorquino David está em Paris, enquanto a sua noiva Hella está em viagem para Espanha, onde ficará a desenrolar o conflito interior, a dúvida sobre se casa ou não com David. 
Numa noite mais solta, ele conhece um barman italiano chamado Giovanni. Apesar de Baldwin descrever algumas conversas entre os dois enquanto caminham por ruas de Paris (o autor partiu para Paris aos 24 anos), é sobretudo no quarto de Giovanni que a relação se desenvolve. É um quarto sujo, pequeno, somente iluminado pela presença sedutora do jovem italiano. É uma metáfora de como David se sente: enclausurado e sem ar.  

A homossexualidade até então para si desconhecida junta-se à traição. David balança entre a aventura e um futuro plácido e previsível. Um é o contrário do outro, assim como Giovanni é a antítese de Hella. 

Entre bares e figuras sinistras e sedutoras, David tenta um equilíbrio impossível de manter. É um inadaptado à procura de si mesmo. As suas hesitações apresentarão um preço muito caro.  

Baldwin desvela estas nuances com delicadeza, sem cortes abruptos e inverosímeis. Movimenta-se sem dar um passo em falso, sem se perder no acessório. Movimenta-se pelas suas próprias angústias e descobertas sem abdicar da tentativa, bem sucedida, de envolver o leitor. 
Mashaun D. Simon, em James Baldwin's Sexuality: Complex and Influential, diz o seguinte do autor norte-americano: 

 

“Being Black in America. Being Black and gay in America. Being a Black American in Europe. Being Black and gay in the world. It all gives him outsider status, which allows him the ability to see the world so clearly, because he did not quite fit.” 

 

Acordemos para a realidade dos anos 50. Os direitos da comunidade LGBT+ estavam nos primórdios e o racismo estava em carne viva. Baldwin enfrenta ambos com uma história de cariz homossexual entre dois homens brancos. É dito e repetido nas diversas sinopses que o editor [Henry Carlisle] aconselhou o autor norte-americano a não publicar esta história. O conselho não foi seguido. Ainda bem. 70 Anos depois, cá estamos a usufruir do talento e da coragem de James Baldwin. 



O Quarto de Giovanni
de James Baldwin 

ISBN: 9789896657611Edição: 06-2020Editor: Alfaguara PortugalIdioma: PortuguêsDimensões: 149 x 233 x 12 mmEncadernação: Capa molePáginas: 192



segunda-feira, 1 de fevereiro de 2021

Shot #28: "Quinta dos Animais", de George Orwell

 




Mais citado do que lido, “Quinta dos Animais” (Livros do Brasil), de George Orwell, é daqueles livros indispensáveis para quem tem interesse em diagnosticar os mecanismos de acesso e permanência no poder. O autor nascido na cidade de Motihari (Índia Britânica) destapa a psique do ser humano. Para isso, foi preciso decliná-lo em porcos, cavalos, galinhas, ovelhas e ratos. O resultado foi uma fábula em que todos nos revemos. Daí, a permanência ao longo do tempo como livro sempre actual. 
Eis uma descomplicada, mas com tanto a dizer, história. Nesta simplicidade, podemos ver como o revolucionário se corrompe e se vai transformando no seu carrasco. 
O Sr. Jones, homem preguiçoso, quase sempre bêbado, trata mal os animais da sua Quinta do Solar. O dia em que se esquece dos alimentar depois de uma noite de muito álcool é a ignição de uma revolta. Os suínos Napoleon e Snowball lideram o grupo que haveria de expulsar o dono da quinta. Todos os animais vencem a luta pela liberdade e passam a viver numa alegria paradisíaca na renomeada Quinta dos Animais.  
Juntos tentam fazer da utopia realidade, mas lentamente tudo volta aos trilhos antigos. Com uma grande diferença: A propaganda espalhada pela apurada retórica de Squealer. Alardeando medos do passado, avaliza os desmandos de Napoleon e da sua vara sedenta de luxo. Por esta altura, já Snowball (como Trotsky) havia sido expulso e declarado conspirador-mor. Tudo o que de mal acontecia era da sua laia. 
Os 7 mandamentos iniciais foram sendo adaptados com malícia ao “modus vivendi” da classe dominante, cada vez mais igual ao Sr. Jones, cada vez mais igual ao ser humano. 
Em vez do original “Nenhum animal deverá dormir numa cama” passam a ter “Nenhum animal deverá dormir numa cama com lençóis”, ou a “Nenhum animal deverá matar outro animal” acrescentam “... sem motivo”. E há uma alteração que veio a ser adaptada e repetida mesmo por cidadãos que nunca leram “Quinta dos Animais”: 
De “Todos os animais são iguais” passou-se para “Todos os animais são iguais mas alguns são mais iguais do que outros”. 
“Quinta dos Animais” (também conhecido por “O Triunfo dos Porcos”) é visto como sátira ao Estalinismo e sua traição ao paraíso prometido pela Revolução Russa de 1917. Mas não se resume a determinada época histórica. Olhando para trás, olhando para os efeitos da autoridade, consegue vaticinar o por vir. Estes mecanismos do poder vão do simples meio empresarial até ao complexo sistema político de um país ou continente. 
Há um Napoleon por domar em cada um de nós. O poder revela e transforma o ser humano.  
É esta capacidade de ser transversal e contemporâneo que faz da fábula de Orwell uma das melhores narrativas da literatura mundial. Para ler e se dar a ler.
Uma biblioteca estará incompleta sem “Quinta dos Animais”.  
 



Quinta dos Animais
de George Orwell 
ISBN: 978-989-711-120-4Edição: 01-2021Editor: Livros do BrasilIdioma: PortuguêsDimensões: 152 x 235 x 11 mmEncadernação: Capa molePáginas: 104Tipo de Produto: LivroColeção: Dois Mundos



segunda-feira, 18 de janeiro de 2021

Shot #27: " Desoras", de Julio Cortázar

 



Um livro de narrativas curtas implica, tantas vezes, temática assimétrica dentro de um tom com muitas variações. “Desoras” (Cavalo de Ferro) reúne oito contos muito diferentes entre si, tanto na estrutura como no tom. Cortázar parece divertir-se nos desafios a que se propôs e dos quais sai pela porta da frente, sabendo da mestria empregada na resolução.

Somos levados tantas vezes por ritmos oníricos até finais abertos. Há inquietação (“Fim de Etapa” e “Pesadelos” são soberbos), rasgo do previsível encadear dos acontecimentos (“A Escola à Noite”) ou mesmo uma desconstrução de um conto, como em “Diário Para Um Conto”. Nesta narrativa que fecha o livro, o narrador tem a intenção de contar a história de uma prostituta chamada Anabel, mas acaba por se refletir na “pré-produção” dessa narrativa. Querendo contá-la, acaba por se desnudar.

São oito assoalhadas num confinamento benquisto. Oito momentos escritos a desoras, fora do tempo, fora do previsível, mas inscritos na melhor literatura.

Na Argentina, terra dos melhores jogadores de futebol do mundo, nasceram jogadores que não deveriam envelhecer nem morrer, pois gostaríamos de os eternamente num relvado. O mesmo deveria acontecer com os escritores. Julio Cortázar, falecido em 1984, deveria respirar para sempre, escrever para sempre. E, no entanto, não deixa de continuar entre nós, pois inquieta-nos com as suas histórias e a mestria ao contá-las. 

É o último livro de contos, até agora inédito em Portugal, do escritor argentino. Nunca deveríamos dizer que há um último livro de um escritor como Cortázar.




  • AUTOR 
  • COLEÇÃO 
  • ISBN 9789896686994
  • PVP 15.49 € (IVA incluído)
  • preço livre
  • 1ª EDIÇÃO novembro de 2019
  • EDIÇÃO ATUAL 1.ª
  • PÁGINAS 176
  • APRESENTAÇÃO capa mole
  • DIMENSÕES 150x225x13,2 mm





segunda-feira, 11 de janeiro de 2021

O Espelho e a Luz, de Hilary Mantel

 






O poder alimenta-se de sangue.

 

Sobreviveu às tareias dadas pelo pai, ascendeu aos mais altos cargos do reino, caiu em desgraça.
Eis Cromwell contado por Hilary Mantel. “ O Espelho e a Luz” mostra-nos como o poder é efémero.

 


Quando o leitor entra num texto com a dimensão de “O Espelho e a Luz” tem consciência de ter uma pausa longa na sua realidade. Durante essa viagem por um tempo histórico muito longe do tempo em que o seu corpo interage, o leitor experimenta- teoricamente- curiosidade (por costumes e figuras históricas), êxtase (pela descrição/dramatização de momentos fulcrais da História), mas também tédio e abstracção. Por outras palavras, entedia-se e distrai-se, como se de uma conversa em pano de fundo se tratasse. 
Um livro com 875 páginas leva-nos para uma realidade onde ficamos durante muito tempo. Sendo, como neste caso, pertencente a uma trilogia, implica um compromisso do leitor em viver numa época diferente, entre pessoas desconhecidas e alienado da realidade em que as suas acções implicam um efeito. E tal como na vida real, por vezes o tédio toma conta dele. Se este tédio foi um objectivo de Hilary Mantel, uma estratégia para entrar na vida, por vezes enfadonha, de Thomas Cromwell, então o resultado é de excelência. No entanto, ao fazê-lo empurra muitas vezes o leitor para fora do texto. Há tanto que se perde por causa do tom monocórdico.
O capítulo final da trilogia é uma máquina construída com atenção a cada peça, numa obsessão pelos pormenores e pelo desenvolvimento em passos lentos da personalidade dos seus avatares, principalmente de Thomas Cromwell.
 
O compasso é longo e a sucessão de tempos dentro da narrativa é executada com o vagar de quem procura tanto quanto possível estender o prazer em estar nesta companhia. A marcação do tempo e o andamento transmitem a sensação própria de um voyeur a acompanhar a vida de um vigiado. Em grande parte da narrativa observa-se a banalidade, aqui e ali pontilhada por momentos disruptivos. E é isto que falta na prosa da vencedora do Booker (duas vezes, ora com “Wolf Hall”, ora com “O Livro Negro”). As disrupções na prosa são escassas; mantém-se o mesmo ritmo, quase sem oscilações. 
A britânica Hilary Mantel propõe ao leitor que acompanhe Thomas Cromwell durante  1971 páginas divididas em 3 volumes: 
Wolf Hall” (Civilização, 658 páginas), “O Livro Negro” (Civilização, 438 páginas) e “O Espelho e a Luz” (Editorial Presença, 875 páginas). 

A trilogia começa com a incessante obsessão de Henry VIII por um herdeiro masculino. A fraqueza e volatilidade do sexo feminino – segundo o rei- não permite que uma mulher ocupe o trono depois da sua morte. Nessa demanda por um filho e por alianças políticas, Henry VIII viria a casar seis vezes.
Em “Wolf Hall” acompanhamos os tempos áureos do cardeal Wolsey, como conselheiro do rei. O falhanço em cumprir a tarefa de conseguir o divórcio para o rei viria a provocar a sua queda. Cromwell é apresentado como secretário de Wolsey e a sua ambição denota-se na habilidade para manipular pessoas e aproveitar ocasiões. Estamos em 1520.
Em “O Livro Negro”, assistimos à ascensão de Cromwell e à descida de Anne Boleyn até ao seu violento destino. Estamos na década 30 do século XVI. O destino dos dois são antagónicos, embora andem a par. Anne Boleyn é decapitada por pretenso adultério após o rei se apaixonar por Jane Seymour. E é logo após o momento de decapitação que começa o último capítulo da trilogia.
O segundo volume da trilogia já havia deixado pistas para o último. Mantel afirma na última página de “O Livro Negro”:

“Não há fins. Quem pensar que há está iludido quanto à sua natureza. São tudo começos. Aqui está um”.

“O Espelho e a Luz” estende-se entre Maio de 1536 até Julho de 1540.
Mais 875 páginas a acompanhar a vida de Thomas Cromwell, um “faz-tudo” que vai subindo na vida até ser um dos homens mais temidos na época de Henry VIII, da dinastia Tudor: 

“Apesar de ainda ser um plebeu, a maioria das pessoas concordaria que ele é o segundo homem mais importante da Inglaterra. É o representante do rei para as questões da Igreja. Tem licença para investigar em qualquer departamento do governo ou da casa real. Carrega na sua mente os estatutos da Inglaterra, os salmos e as palavras dos Profetas, as colunas dos livros contabilísticos do rei e a linhagem, a quantidade de hectares e os rendimentos de todas as pessoas importantes de Inglaterra. É famoso pela sua memória (…) As únicas coisas de que ele não se consegue lembrar são aquelas de que nunca teve conhecimento.”






 

As obsessões e violentas diatribes de Henry VIII, a rivalidade da família Tudor com a Casa de York, a morte de Catarina de Aragão e de Anne Boleyn, o confronto com Roma e o seu bispo são acompanhados, primeiro, e geridos, depois, pela mestria maquiavélica de Cromwell. Tal como Maquiavel, seu contemporâneo, Cromwell geria a corte como ela era e não como uma imagem idealizada pela plebe. Tal como Maquiavel, Cromwell não mentia; fazia política. Sabia movimentar-se pelos bastidores do poder e entre a súcia que ocupava os corredores palacianos graças a um conhecimento empírico dado por uma vida atribulada e até trágica. A sua vida é obscura, mas sabe-se que a ascensão começou ao serviço do Cardeal Wolsey e prosseguiu ao ponto de ser nomeado de Lorde e ganhar fama entre a plebe: 

 “Como é que alguns poemas contra Cromwell, cantados numa rua em Falmouth, são replicados no dia seguinte em Chester? Quanto mais se distancia de Londres, mais estranho se torna Cromwell. Em Essex é um trapaceiro intriguista, um blasfemo e um judeu renegado. Espalhem-no um pouco mais para leste, para Lincoln, e ele é conhecido por saber tudo sobre venenos. Nos vales de Yorkshire, ele é um mago, com as estrelas e a lua no seu casaco, enquanto em Carlisle, ele é um vampiro que rapta crianças e devora os seus corações.” 
O caminho foi longo e Mantel foi meticulosa a percorrê-lo.
Cromwell nasceu pobre num lugarejo chamado 
Putney. Na década 20/30 do século XVI, entra no parlamento e demora pouco até ser agraciado pela atenção do rei e entrar no seu círculo mais íntimo. Antes disso, perdeu a sua mulher e as suas duas filhas para a “doença da febre”.
Cromwell, como principal conselheiro de Henry VIII, foi “corner stone” da Reforma, fundamental na implementação do Protestantismo no Reino Unido. 
A contenda com o bispo de Roma foi sendo cada vez mais incisiva até as ideias de Martin Luther e John Calvin se emanciparem do catolicismo e fundarem um dos três principais ramos do cristianismo.
A inconstância emocional do Rei provocaria o génesis de uma nova igreja em Inglaterra. O Papa negaria a pretensão do rei em se divorciar de Catherine, o que o levou a afastar-se do bispo de Roma. A excomunhão do Rei causaria o surgimento da Igreja Anglicana. Já longe ia o ano (1521) em que Henry VIII fora considerado defensor da fé pelo Papa. Estes factos históricos são âncora para a imaginação da autora.





Se um livro nos leva para uma época histórica, se nos leva para tão longe do nosso tempo, o que nos leva a ler ficção em vez dos descritivos e mais objectivos livros de história? 
A liberdade ficcional permite explorar a psique de cada um dos personagens. O que a história não demonstra, a ficção desenvolve. Não é por mera inocência que Hilary Mantel estrutura “O Espelho e a Luz” em diálogos entre personagens, intercalados com poucos solilóquios do narrador. 
A autora cria a ilusão de estar a escrever por dentro da acção, de estar sentada a ouvir os diálogos para os registar, sempre sob o prisma moral de Cromwell. Para isto muito contribui o trabalho sobre a linguagem, cujas características envolvem a imaginação do leitor no século XVIII.

Mantel abandona a metáfora e provavelmente os jogos fonéticos para alcançar a eufonia. Acreditamos, pois estamos perante uma tradução (trad. Beatriz Sequeira). A linguagem não é de tom poético. A autora concentra-se em colar a palavra à pele, ao seu sentido primário. Os matizes do discurso estão no confronto entre discurso público e privado, entre hipocrisia e honestidade. E aqui Mantel encosta-se à excelência. No entanto, mesmo abandonando a metáfora, a palavra é infiel a este princípio quando é utilizada com ironia. 
A linguagem e a cenografia transportam o leitor para a época. A tradução respeita a segunda pessoa do plural, credibilizando o discurso. Mas até aqui o texto parece provocar algum cansaço. Numa tradução, até então, sem grandes sobressaltos, somos confrontados com erros imprevistos:
Está uma noite calma, não se houve qualquer som vindo do rio...”
 Há redundâncias na narrativa que poderiam ser evitadas segundo o princípio da economia. A descrição da abundância de produtos de determinada região serve para contextualizar o leitor e- mais uma vez- credibilizar a 
acção. Resulta, mas é escusado repetir a mesma estratégia narrativa quando volta a descrever a mesma região.  

Um texto longe de ser lépido ganharia que se lhe encurtasse a vida, como Henry VIII fez a Cromwell, em cerca de 300 páginas. Ganharia em pungência, ficaria livre de excessos e nada perderia o leitor na evolução histórica da época nem sobre as metamorfoses emocionais dos personagens. 
Um ritmo demasiado lento, um tempo demasiado longo. Talvez seja diferente para quem nutre indefectível interesse pelos romances históricos, especialmente se forem sobre acontecimentos na época dos Tudor.
No entanto, não deixa de haver universalidade na mensagem. O poder mantém as suas características, seja em que época for.
Não há reino nem república sem o seu Cromwell, sem as suas peças embriagadas pelo poder.
 “Algures - ou talvez nenhures – existe uma sociedade governada por filósofos. Eles têm as mãos limpas e os corações puros. Mas, mesmo na metrópole da luz, existem pilhas de estrume e esterqueiras, pejadas de moscas. Mesmo na república da virtude, é necessário um homem para limpar os dejetos com uma pá, e algures está escrito que o nome dele é Cromwell.”
O menino de Putney, formado com constantes tareias pelo pai, ascendeu do nada até ser ouvido pelo rei, considerado por Cromwell como o espelho e a luz de outros reis. Tal como Tom Verdade vaticinou, o rei iria odiá-lo tanto pelos seus êxitos como pelos seus fracassos.
Na trilogia de Hilary Mantel a ficção está ao serviço da verdade. Graças a isso, o leitor conhece ao pormenor Thomas Cromwell.
Um livro ambicioso, com mais qualidades do que defeitos.



https://observador.pt/2020/10/31/o-espelho-e-a-luz-e-a-exigente-ambicao-de-hilary-mantel/

sábado, 9 de janeiro de 2021

"O Silêncio", por Mário Rufino na LER Nº 153.

 

"Jornais como “Observador”, “Expresso” e “Público” têm um “feed” de actualização constante sobre a Covid-19. Não é Patrício quem alimenta as notícias. São os países encerrados, sem gente na rua, com os estádios vazios, que alimentam uma máquina voraz, ubíqua, sempre pedindo mais e mais informação. Do outro lado do ecrã, seja do “tablet”, computador ou telemóvel, está o consumidor, sem dar descanso ao cérebro. É engolido pela atroada do mundo. Sem dar conta, torna-se “hikikomori”, a quem entregam os mantimentos à porta de casa para que se possa manter isolado entre paredes, mas ligado ao mundo através de um ecrã. Isolado, mas não em sossego. É eremita contrariado com medo de si, sem saber lidar com o tédio, nem instrumentalizar o silêncio. Se não tem estímulos, o ser humano vira-se para o seu interior. E pode não gostar do que vê. A necessidade de mutismo é necessidade de conhecimento."

Ler Nº 153
















sexta-feira, 8 de janeiro de 2021

“Rapariga, Mulher, Outra”, de Bernardine Evaristo

 






A Humanidade em várias vozes. 

 

Vejamos uma mancha. Não no sentido pejorativo, mas um conjunto de pontos que a visão não consegue distinguir a certa distância. É uma mancha. Tem uma determinada cor e forma. Não sabemos de onde veio nem qual o seu objectivo. Ou intuímos, caso seja uma mancha orgânica, uma estrutura social, digamos. Aproximemo-nos. Mais um pouco. Começamos a prestar menos atenção à forma global e detemo-nos sobre as particularidades do que estamos a ver. Continuemos a aproximação. Há pontos regulares e irregulares; há uns maiores e outros mais pequenos; uns assonantes outros dissonantes.  
Uma sociedade é uma mancha orgânica, volátil, e composta por individualidades. 
Se a sociologia trata do conjunto, a psicologia trata do individual, mas nenhuma das duas disciplinas é capaz de usar a verdade tecida com a ficção para mostrar, em simultâneo, o geral e o particular. 
Bernardine Evaristo (n.1959) aproximou o seu olhar, observou as dissonâncias e contou-as com singularidade. O resultado foi uma constelação de personagens marginais e memoráveis. 
A autora nascida no sudeste de Londres eleva a linguagem tantas vezes informal, tão próxima da oralidade e das frases agramaticais, a literatura de elevado grau.  
“Rapariga, Mulher, Outra” (Elsinore) não é manso nem domesticado. Os avatares afastam a dormência do leitor. São inquietantes e espelham as idiossincrasias sociais numa narrativa em mosaico sem pretensão de espartilhar as diferenças. A narrativa organiza-se de acordo com o tema essencial: respeito e interesse pelo individual declinados em diferentes perspectivas. 
Há uma intrínseca defesa das minorias na prosa de Evaristo. E isso pode-se constatar logo na dedicatória: 
“Para as manas & as babes & as sistahs & as mulheres & as divas & as deusas & as damas & os malandros & os manos & os damos & os cavalheiros &os homens & os brothas & a irmandade LGBTQI+.” 
A ligação entre histórias depende mais da temática do que da interacção entre as 12 personagens (embora essa interacção seja importante no epílogo). Amma, Shirley, Carole, Bummi, Yazz, Dominique, LaTisha, Penelope, Megan/Morgan, Hattie e Grace desajustam o eixo do pensamento normativo. O mundo não é uma projecção adequada ao conforto de cada um. O mundo é composto por diferentes tipos de pessoas, com seus credos, cores, escolhas sexuais, de género, de vivência e núcleos familiares. É uma mancha policromática, formada por “pixels” diferenciados. Nas suas histórias existem família, maridos, mulheres, amigos e amantes a viver numa sociedade multicultural. Se doze personagens centrais já seriam matéria-prima mais do que suficiente para Bernardine Evaristo desenvolver diferentes personalidades, ainda mais rico ficou “Rapariga, Mulher, Outra” com personagens secundárias (mas não planas) como Nzinga. 
Num dos momentos mais bem conseguidos no romance, é uma fugira secundária- mas impactante- a demonstrar a possível utilização de “bandeiras” para a concretização de objectivos pessoais. Nzinga é manipuladora, ciumenta, agressiva e seca tudo à sua volta. Os seus ideais de veganismo e feminismo são, acima de tudo, uma arma para conseguir os seus intentos. Alimenta-se dessas ideias; não tem a defesa das mesmas como primordial. Quantas vezes assistimos a isto na imprensa, televisão ou rádio? 



 


 

Evaristo está muito longe de uma ficção assente em teorias sociais. A sua prosa respira entre a comunidade, caminha nas ruas dos subúrbios, vincula-se às pessoas e às respectivas realidades. Mais do que um romance assente em teorias, “Rapariga, Mulher, Outra” está vinculado à vida, está vinculado a quem se sente marginalizado. 
A ligação entre psicologia e sociologia, entre a pessoa e as suas circunstâncias, como disse Ortega Y Gasset, é o “leitmotiv” de Bernardine Evaristo.  
“Me Too” e “Black Lives Matter” não são debatidos numa perspectiva académica. São demonstrados nas vivências das personagens recriadas – ou mesmo transferidas- para o romance vencedor do Man Booker Prize 2019. 
Por vezes, o leitor tem a felicidade de ser surpreendido por vozes diferentes com capacidade de o motivar a ouvir. Bernardine Evaristo é uma dessas vozes. 


quinta-feira, 7 de janeiro de 2021

Shot #26: "Tropel", de Manuel Jorge Marmelo

 



Tropel, título e vocábulo repetido na prosa deste romance, adequa-se ao propósito do tema, mas não à qualidade da escrita de Manuel Jorge Marmelo. Existe um cuidado com a linguagem própria de quem acarinha o ritmo das frases e presta atenção ao uso de cada palavra. A toada é fluída, plena de sensibilidade, o que acentua o ruído e confusão ideológica das personagens que habitam o romance. 

Manuel Jorge Marmelo já provou nas suas crónicas, romances e contos a qualidade da sua escrita, já se fez notar como um dos romancistas contemporâneos portugueses a ter em conta. Dentro dessa constância, Tropel é distinto, pois afirma-se com um dos melhores trabalhos do autor nascido no Porto. 

Atanas Viktor aprende a caçar com o seu pai que, por sua vez, passa os ensinamentos aprendidos com o avô de Atanaz. Procuram caça grossa e procuram matar imigrantes que entram no país. Pertencem ao Clube dos Caçadores de Székely, um exponenciado grupo “Proud Boys” em busca da purificação do território. Mas a violência não é só da porta para fora. É constante, familiar e subversiva. É um tropel de acontecimentos ostensivos e subliminares de violação física e emocional. 

Passa-se longe do Porto e de Lisboa, mas é uma acção cada vez mais próxima. 

A ficção tem esta capacidade: aproxima-se o mais possível do realismo para, com um ligeiro desvio, mostrar a essência do que nos rodeia. 

Quando um bom artífice explora esta possibilidade através do trabalho de linguagem, o leitor usufrui de livros como “Tropel” e das capacidades narrativas de autores como Manuel Jorge Marmelo. 


ISBN: 978-972-0-03181-5Edição: 09-2020Editor: Porto EditoraIdioma: PortuguêsDimensões: 152 x 235 x 15 mmEncadernação: Capa molePáginas: 152












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