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A Porta Estreita, de André Gide

 



Numa primeira leitura, à luz do século XXI, “A Porta Estreita” (Cavalo de Ferro) é uma narrativa, mais uma narrativa, sobre um amor não correspondido. Os dilemas das partes têm traços que nem nas localidades mais recônditas do ocidente já se encontram. Mas num olhar mais atento, reconhece-se a luta entre hábitos herdados e a vontade mais visceral. E isto adivinha-se intemporal. 

André Gide (1869-1951), vencedor do Prémio Nobel, fez literatura dos seus dilemas. Formado por uma educação puritana, Gide casou com uma prima, mas anos mais tarde assumiu a sua homossexualidade. A tensão entre moral e individualidade denota-se em obras como “O Imoralista” (uma das suas principais obras) e “A Porta Estreita”. 
Nesta novela, publicada em 1909, o mundano é subalterno ao divino. Jêrome, cujo pai morreu cedo (tal qual o de Gide), passa férias na Normandia, na casa de um tio. Lá conhece a sua prima Alissa. As suas conversas fogem da superficialidade e aprofundam temas como a religião e a poesia. Apaixonam-se, mas cada um vive a paixão de forma distinta. Jêrome entrega-se, mas as palavras bíblicas norteiam Alissa. Os evangelhos têm mais peso do que as juras de amor do seu primo. 
Alissa não quer passar pela porta mais larga e entregar-se a uma relação terrena. Ela almeja a porta estreita, a porta apontada por Lucas: “Esforçai-vos por entrar pela porta estreita, porque muitos — digo-vos eu — procurarão entrar e conseguirão”, Lucas 13:24.

Virado para dentro, Gide faz do ambiente e das dinâmicas sociais um contexto. O arco narrativo é extenso e Gide, para não demorar a atenção do leitor na análise social, utiliza a elipse como estratégia narrativa. Também a narração se desenvolve em diversos registos, mostrando a distância (com epístolas) e a proximidade entre ambos (com a coabitação na mesma cena). Estas estratégias também potenciam a dinâmica entre opostos e a dicotomia entre amor terrestre e uma abençoada reserva.
Jerôme, eterno apaixonado por Alissa, deseja-a e ama-a como um ser humano é capaz de amar outro. Alissa ama-o também, mas vê esse sentimento como obstáculo entre ela e o sublime. É para Deus que ela se guarda, e com Deus ele não pode competir.  
Alissa prefere ser feliz depois de morta, numa crença inabalável na Palavra de Deus e na moral católica. Dentro dela, há também essa dicotomia: seguir o instinto, acreditar no seu semelhante e não ver no amor terrestre um pecado. Em vez de se entregar aos braços de Jerôme, ela entrega-se ao sacrifício. 
O tempo não foi leve sobre “A Porta Estreita”. Esta obra essencial de André Gide apresenta desgaste. No entanto, continua a ser uma obra importante da literatura universal e um porto seguro para os viciados em literatura. 


Publicado em https://comunidadeculturaearte.com/a-porta-estreita-desditoso-e-o-caminho-para-a-santidade/

“Sinopse de Amor e Guerra”, de Afonso Cruz.

 




A extensa produção literária de Afonso Cruz (Figueira da Foz, 1971) criou um local intangível onde predomina a luz e a possibilidade do bem. Tem sido assim ao longo dos seus livros e isso pode-se verificar em “Sinopse de Amor e Guerra” (Companhia das Letras), segundo episódio da série de romances “Geografias”. 


Afonso Cruz conquistou um lugar próprio na literatura portuguesa contemporânea com a limpidez e o optimismo da sua prosa. É um lugar onde se cruzam filosofias orientais e ocidentais, onde habitam personagens ficcionais e figuras históricas.
Há capacidade em chegar ao leitor através das palavras e disponibilidade para passar esse conhecimento com frequentes idas a escolas e a festivais literários. Não é surpreendente que o autor se tenha instalado no carinho dos leitores e na aceitação da crítica literária. “Sinopse de Amor e Guerra” é mais um sintoma de conforto em que se sente nesse estatuto. Talvez esteja até demasiado confortável.
O sucessor de “Princípio de Karenina”, situado na Cochinchina, mantém os traços característicos da prosa de Afonso Cruz: rápida, com apetência pelo aforismo, filosófica. Desta vez, o autor viajou do sudeste asiático até Berlim e por lá ficou desde os anos imediatamente anteriores ao muro de Berlim até pouco depois da construção da fronteira que viria a dividir território e vidas.
Theobald Thomas e Bluma Janek conhecem-se desde a nascença e as suas histórias de vida influenciam-se. Entre aproximações e afastamentos, percebem que estão destinados um ao outro.
Se no princípio foi referida a possibilidade do bem na escrita de Afonso Cruz, isso não significa a ausência do mal. 
O binómio existe e, tal como em Theobald e Bluma, a sua dinâmica depende da interacção entre as partes, com afastamentos e aproximações, causas e consequências. Afonso Cruz tece assim uma trama com princípios reais, históricos e individuais, para, a partir daí, enovelar com ficção e escrever mais um bom romance.


O seu mais recente livro mantém a luminosidade do autor, como um candeeiro a iluminar o olhar dos leitores, e respiração muito próxima do livro anterior. Há estabilidade no discurso com espaço para diferentes recursos estilísticos e estratégias narrativas. Se a inserção de narrações paralelas, com o autor a assumir o nome próprio e experiências próprias na narrativa, funciona perfeitamente, a tentativa de intercalar diálogos incompletos — uma personagem a interromper outra ou a falar em simultâneo — não é tão bem-sucedida.
Existe uma ideia generalizada entre leitores e críticos literários injusta para o autor. Esta ideia prende-se com uma comparação entre os romances depois de "Para Onde Vão os Guarda-Chuvas" e este romance. Reconhece-se o valor de cada livro de Afonso Cruz e o leitor enleva-se nas ideias luminosas do autor, mas fica-se a pensar que, por muito bom que seja, não chega à excelência de “Para Onde Vãos os Guarda-Chuvas". Este livro continua a ser, para o melhor e para o pior, “o” romance de Afonso Cruz.
Talvez seja um peso que o autor não deva suportar. Acaba por fazer sombra à produção ficcional posterior. É que o leitor percebeu até onde consegue ir o autor — e consegue ir muito longe — e aceite o que não alcança “Para Onde Vão os Guarda-Chuvas" com carinho, satisfação, mas alguma resistência por pensar que ainda não foi desta que lá chegou novamente. 

“Sinopse de Amor e Guerra” é mais um raio de luz a abrir caminho na negrura dos dias. Tem a qualidade “Afonso Cruz” e é bem-vindo às mãos dos leitores. 


publicado em: https://comunidadeculturaearte.com/sinopse-de-amor-e-guerra-a-luz-de-afonso-cruz-na-negrura-dos-dias/

Testemunho: "O meu nome é Oleg"

 


Este testemunho foi registado em 2016 e em nada tem a ver directamente com esta invasão da Ucrânia pela Rússia. É, no entanto, com uma sensação de premonição que o lemos.


O meu nome é Oleg. A minha mulher chama-se Natasha. Eu tenho 46 anos. Ela tem 38.

Nós chegámos há um ano e três meses.

Agora já podemos falar um pouco da nossa saída da Ucrânia. Já não dói tanto.

Nós não queremos voltar para a Ucrânia. Não queremos.

Konstantinovka, a cidade onde morávamos, estava na fronteira entre as repúblicas separatistas e a Ucrânia. Estivemos constantemente a levar dos dois lados. Os tanques andavam nas estradas, pessoas armadas entravam nas lojas. . É o que o português chama de “lei da selva”. Quem é mais forte é que ganha.

Vimos os mísseis a voar sobre nós de um lado para o outro. Também os aviões passavam por cima de nós. Estivemos mesmo no meio da guerra.

Tivemos outro problema: Eu sou russo. Depois de ter terminado a faculdade, fui enviado para a Ucrânia, por razões profissionais. Em território ucraniano tive problemas porque tenho pronúncia russa. Muita gente tem esse problema.

Por que razão tudo começou? É difícil dizer. Sei que começou depois da Revolução de Kiev.

O Exército da Ucrânia era a favor de uma Ucrânia inteira. As outras forças queriam separar parte da Ucrânia. Não sei se era para ficar com a Rússia. É o que se diz, mas é muito confuso. A ideia era criar ali uma república, uma “Rússia Nova”, que incluísse algumas regiões desde parte do leste da Ucrânia até ter acesso ao Mar Negro.

Nós tínhamos boas condições de vida. Tínhamos uma casa moderna, dois carros, uma fábrica que produzia protecção de estores e cortinados. Tínhamos boas condições… Viajávamos para fora do país, duas vezes por ano.

Nós somos duas pessoas alheias à vida política. Nós só queríamos a nossa paz, o nosso trabalho, a nossa casa. Estávamos a trabalhar e a esforçarmo-nos para melhorar as condições de vida. Só nos interessava isso. Quando chegaram os separatistas, aconteceram coisas horríveis. Toda a cidade ficou fechada em casa. Ninguém saía. As tropas passeavam pelas ruas, com armas. Pensamos que libertaram os reclusos e os armaram. Eram pessoas de muito baixo nível. Eles tiraram as grades das lojas e montaram barricadas. A nossa loja estava no centro da cidade. Deixámos de conseguir ir lá. Deixámos de ter trabalho. Nunca mais soubemos nada sobre a loja.

Esperámos que tudo mudasse, mas depois vimos que nada ia mudar. Foi quando decidimos sair.

Esperávamos que, quando chegasse o exército ucraniano e mandasse embora os separatistas, tudo mudasse. A vida antiga ia voltar. Nada mudou. Eles ocuparam escolas e fizeram lá quartéis. As crianças deixaram de poder ir aprender. Nada mudou. Nós saímos.

Os tanques andavam nas ruas. Uma criança morreu esmagada, num carrinho de bebé. Estava tudo destruído. Só víamos pessoas a correr nas ruas, com as crianças, para abrigos subterrâneos.

Antes de chegarmos, estivemos duas vezes em Portugal, como turistas. Estivemos em Lisboa e nos Açores.

A nossa viagem teve alguns problemas.

Eu podia não conseguir apanhar o avião de Kiev para Lisboa. E eu sabia que ia ser recrutado para a guerra. Para não ser recrutado, fugimos de comboio para Budapeste. Pensei que podíamos pedir lá asilo.

O serviço de estrangeiros, em Budapeste, nem queria falar connosco. Não tinham tradutor. Só no Tribunal dos Direitos Humanos, a que recorremos, é que nos disseram que não tínhamos hipótese de ficar em Budapeste e que teríamos de ir para Portugal.

Eles viram que tínhamos um visto de Portugal.

Disseram-nos que, conforme acordo de Dublin, quando temos um visto de um país membro da União Europeia esse país é o responsável por nos dar abrigo. É responsável por nós.

Comprámos o bilhete de Budapeste para Lisboa. Tínhamos uma gata. Não a abandonámos. Andámos a viajar com ela.

No dia 23 de Fevereiro, pelas seis da manhã, chegámos a Portugal. Viemos de avião. Tínhamos o visto de turista com duração de seis meses. Quando chegámos entregámo-nos ao SEF, no aeroporto. Contámos tudo o que nos aconteceu e qual era a razão de estarmos em Portugal.

Eles verificaram os documentos e enviaram-nos para o SEF central, em Lisboa.

Fomos para lá. Viram os nossos documentos, tiraram as impressões digitais e fizeram-nos uma entrevista. Havia uma tradutora no SEF central. Depois disso, fomos enviados para o centro de refugiados que existe na Bobadela.

Na Bobadela, ouve-se os aviões a passar. Nós, no início, tínhamos como primeira reacção escondermo-nos.

Estivemos quatro meses na Bobadela, no Conselho Português para os Refugiados [CPR]. Tivemos aulas de português, levaram-nos em excursões para conhecermos alguns sítios. Deram-nos habitação, comida e apoio financeiro. Passados esses meses fomos para Odemira, no Alentejo. Moramos a cinco quilómetros de Odemira. Fomos para esta localidade porque a Segurança Social mandou. Tem a ver com a política sobre os refugiados. Nós estamos a ser distribuídos pelo país, em zonas menos habitadas. Assim não há grandes concentrações.

Quando chegámos à Segurança Social, foi-nos atribuído número de contribuinte e de segurança social. Pediram-nos para assinar uma carta em que dizia que íamos ser enviados para a zona de Beja. Para haver apoio temos que respeitar a condição de sermos distribuídos pelo país. Não podemos estar todos no mesmo sítio.

Andamos à procura de trabalho. Tem sido muito complicado. Cada vez que vamos ao centro de emprego para nos registarmos dizem que sem conhecimento de língua portuguesa é impossível arranjar trabalho. O problema é que nunca nos chamaram para frequentarmos as aulas de português e depois eventualmente frequentar um curso técnico profissional. Isso nunca aconteceu.

O CPR já não nos ajuda porque ao passarmos para a segurança social, o CPR já não tem nada a ver connosco.

Tivemos apoio financeiro da Segurança Social. Logo que a minha mulher arranjou trabalho, só eu tive acesso ao apoio. É o único apoio que nos é dado.

A Segurança Social em Odemira deu-nos alimentação durante seis meses.

Só a minha mulher é que trabalha.

Temos alguns amigos em Odemira. Há uma comunidade de ucranianos em Odemira. Não são refugiados. Eles estão a trabalhar lá para depois voltar para a Ucrânia. Não temos família em Portugal. Temos mãe e pai na Ucrânia.

 

Nós não queremos voltar. Não queremos. Já não vemos futuro para nós na Ucrânia.



Mário Rufino

"Hamnet", de Maggie O´Farrell

 



Literatura em elevado grau de pureza. 

 

A ficção navega entre os espaços deixados pela falta de informação. No seu esplendor, aproveita-se de um pedaço de verdade e constrói, sobre essa pedra angular, uma realidade possível. 
Quando nessa factualidade existe uma pessoa reconhecível, a atenção inclina-se para o que vai ser dito. Depois, depende da história. Poderá subsistir somente por causa de um nome, ou ser construída em volta desse nome, tornando-o secundário.  
O texto mais bem conseguido consegue emancipar a história e generalizá-la quanto baste para caber na vida de todos os leitores. 
Em Hamnet (Relógio d` Água; trad. Margarida Periquito) Maggie O´Farrell depara-se com essas duas opções. E é claro o caminho escolhido. 

Dizer que Hamnet é sobre o filho de Shakespeare é reduzir de tal forma o tema que quase parece uma falsidade. Hamnet é o ponto de partida para uma história dependente do laço mais íntimo entre pais e filhos. Os gregos chamavam-lhe “Storge”. 
É uma obra de ficção, é certo, mas a semente está na curta vida de um rapaz que morreu em Stratford, no Verão de 1596. 
Agnes (ou Anne) teve três filhos com William Shakespeare: Susanna e os gémeos Judith e Hamnet. 





Em nenhum momento do livro, o nome do pai é mencionado. A visão da autora incide sobretudo na mãe e na sua prole. O pai é definido pelas suas actividades; professor de latim, luveiro, artista. No entanto, está muito longe de ser uma personagem plana. A sua ausência cava mais fundo o desamparo de Agnes. E será crucial para uma das mais belas e impactantes conclusões romanescas. 
A sua viagem de negócios a Londres, impulsionada pela mulher, será crucial para a vida familiar. E muito se debaterá Agnes com essa decisão motivada, mas não tomada por ela. É um exemplo de que na rama o poder é masculino, é o homem que decide, mas o verdadeiro poder, como se vê ao longo do romance, é na essência feminino.  
Maggie O´Farrell mistifica a capacidade curativa de Agnes. O conhecimento demonstrado pela mãe de Hamnet cura várias pessoas que procuram à porta de sua casa auxílio.  
Agnes é o principal pilar a sustentar o romance. As personagens parecem existir de acordo com este eixo, segundo satélites fulcrais para o equilíbrio de um todo. 
Hamnet” é romance de vários acordes: 
A relação de Agnes com os irmãos e com a madrasta; a relação de Judith com o seu irmão gémeo; a do luveiro com o pai e com a sua esposa, Agnes. 
O´Farrell calibrou até à perfeição o envolvimento destas relações intercalando-as na narrativa sem prejuízo da unidade. Estas variações de ritmo e de sub-enredos prendem a atenção do leitor, mas é a capacidade de desenvolver personagens que traz o drama e o impacto. 
Maggie O´Farrell não construiu um livro- tese, ou um romance histórico apostado em descrições minuciosas de ambientes e factos. 
O leitor é envolvido magistralmente pela prosa da escritora irlandesa. Mais uma vez, o equilíbrio sustenta informação e emoção. O leitor está no meio das personagens, liga-se a elas, sofre com elas. Não fica do lado de fora a assistir.  
Quem leu “O Espelho e a Luz”, de Hilary Mantel, perceberá as diferenças que separam estes dois livros. O de Mantel entrega-se a descrições minuciosas; está impregnado de excessiva preocupação em retratar personagens e época. Tanto assim é que as personagens não causam empatia, não caminham entre nós. O leitor observa, de longe. O´Farrell consegue o equilíbrio. As descrições existem para dar complexidades às emoções. Sem abrandar em excesso a narrativa nem cair num dramatismo estéril. 
Mesmo num momento não imprescindível, como é a descrição da viagem da peste que viria a matar Hamnet, é de tal forma envolvente que agradecemos por a autora não a ter cortado. 
O falecimento e o funeral de Hamnet (ou Hamlet, como também era chamado) são dos momentos mais intensos do livro. O leitor poderá pensar que é mais fácil demonstrar emoção através do terror de qualquer pai e mãe. É um tema sempiterno, mas são precisas mãos hábeis para ministrar ritmos, provocar dissonâncias sem abdicar da homogeneidade, provocar os sentimentos do leitor e puxá-lo para dentro do texto. Sobretudo, é necessário ter profunda compreensão da inimaginável dor de se perder um filho. 
Maggie O´Farrell vingou-se da morte de excelsa forma: pegou na literatura, resgatou o nome e deu-lhe vida.  
Hamnet” é um dos melhores livros que lerá em 2021 e ficará na sua memória durante muito tempo. 
 
 


Publicado em https://comunidadeculturaearte.com/hamnet-de-maggie-ofarrell-na-dor-ha-materia-prima/


“Uma História da Leitura” (Tinta-da-China), por Alberto Manguel

 




“Uma História da Leitura” é uma carta de amor ao livro e aos leitores. Não há frase que não denote afecto pelas letras e pelos membros da tribo que as decifram. 


Há cerca de dez anos, o meu filho, então na primeira classe, abriu um livro e, devagar e aos soluços, leu uma frase. Foi a primeira leitura que lhe ouvi. Aí senti uma clivagem entre o momento anterior e o porvir. A sua existência tinha mudado ao transformar letras impressas em sons dotados do mesmo significado. Tinha-se transformado num leitor. 
Ao descodificar sinais no papel alcançaria universos vedados e unia-se a uma tribo com milhares de anos.  
Alberto Manguel, na epígrafe de “Uma História da Leitura” (Tinta-da-China) recorre a um poema de Robert Frost para sublinhar esta clivagem:  

“No dia em que reuniu as nossas cabeças, 

O destino tinha a imaginação ao rubro, 

A minha cabeça, ocupada com o tempo que faz lá fora, 

A tua, com o tempo que faz cá dentro.” 


Na sua cabeça, começaram a caminhar seres numa realidade vedada a quem está no lado de fora, no lado de quem observa o silêncio da leitura. O leitor está de corpo na realidade dos outros seres humanos, mas de mente noutra dimensão, com tempo próprio e regras criada por um demiurgo morto há séculos ou acabado de conhecer num festival literário. 
Um isolamento benigno. Mas nem este silêncio foi a forma habitual de ler, há uns bons séculos, nem o livro foi sempre o suporte de leitura. O acto de ler tem sido actualizado ao longo dos muitos anos em que o ser humano aprendeu a fixar os sons em letras (depois das imagens) e em descodificá-las. 
Quando debatemos a desmaterialização do texto nos novos suportes, como o “tablet”, o computador pessoal ou um “e-reader” e o consequente papel secundário do livro, vemos que este resiste. Porquê? 
São séculos de história de afecto. O livro é indissociável do encontro connosco próprios, como disse Tolentino de Mendonça em “Louvor ao Livro” (discurso na entrega do Prémio Europeu Helena Vaz da Silva, publicado na revista Ler nº 157). 
No mesmo discurso, Tolentino de Mendonça afirma:  

“É verdade que há quem diga que mais do que falar em crepúsculo, deveríamos falar de transformação, pois o que está em ato é simplesmente uma alteração do suporte em que o livro é transmitido e não do livro propriamente dito. A forma actual do livro em papel é uma etapa de uma história mais longa que começou pelos textos gravados em pedras, em tábuas de argila e em rótulos, história que continuará o seu caminho.” 

A história do livro é uma história longa, assim como a nossa. Uma é indissociável da outra. Conhecer a primeira é conhecer a segunda.  
O leitor tem o privilégio de ser levado pela mão a percorrer esta história longa por um proeminente membro da tribo. Alberto Manguel, em “Uma História da Leitura” (Tinta-da-China) — livro que aqui nos traz — conta-nos a evolução da leitura e, em simbiose, a evolução do ser humano. Sem soberba académica. 
Não há frase que abdique da paixão pelo texto, pelo espelho que nos reflecte há tanto tempo. 

“Uma História da Leitura” é uma vasta possibilidade de nos interpretarmos. 


 


O autor argentino trabalhou durante sete anos na sua construção. Ao escrever um ensaio sobre o tema, Manguel percebeu que o mesmo merecia um livro. E assim viajamos desde o capítulo “Última Página”, passando por “Actos de Leitura” até aos “Poderes do Leitor”. São 443 passos para se fazer em silêncio. Deixe-se o leitor guiar por este bibliófilo desde a Pérsia, por onde o grão-vizir carregava a sua biblioteca em camelos, ordenados por ordem alfabética, até ao momento e local em que o leitor transporta milhares de livros desmaterializados num suporte electrónico. 
Não é uma viagem descritiva, factual, em que se pouco ou nada especula. De forma intrínseca, sem ostentação, existem ideias fundamentais da teoria da literatura. 
Sacudidos do pó escolástico, Jauss, Scholes e Eco, por exemplo, estão presentes desde o primeiro passo. 
O leitor mais avisado irá detectar nas ideias de Manguel a filosofia inerente à Obra Aberta (Eco), aos Protocolos de Leitura (Scholes) e à Teoria da Recepção (Jauss).  
A actualidade do texto é revigorada a cada leitura, num constante rejuvenescimento ou ressurreição. A hipótese de totalidade da obra, ou seja, de se tornar completa, remete para o poder do leitor. A este cabe a função de interpretar e completar a obra. O conceito de Obra Aberta intersecciona-se com a Teoria da Recepção, em que a personalidade do leitor, a sua vivência e circunstâncias, interagem com o texto. 
Diz Manguel: 

“E, porém, em todos os casos, é o leitor que lê o sentido; é o leitor que concede ou reconhece a um objecto, lugar ou acontecimento uma possível legibilidade; é ao leitor que cabe atribuir significado a um sistema de signos e, depois, decifrá-lo. Todos nos lemos a nós mesmos e todos lemos o mundo que nos rodeia para vislumbrar o que somos e onde nos encontramos.”  

Manguel não vai tão longe como Jauss, para quem uma obra literária só seria concretizada quando o leitor a concretizasse, “relegando para plano secundário o trabalho do autor e o próprio texto criado” (E-dicionário de termos literários, por Carlos Ceia). 
Na concretização do sentido são levadas informações culturais, sociais, históricas e literárias. O leitor tem o seu constructo e faz-se valer dele ao completar o sentido do texto. E isto inclui todas as leituras anteriores.
Em suma, Manguel foi brilhante na forma como interligou estas ideias.  
Andamos a falar uns com os outros desde a invenção da escrita há cerca de 6000 anos na Mesopotâmia. O autor consegue conciliar a diacronia na vida do livro com a sincronia, ou seja, com a relação do livro, num dado momento, com o seu leitor. 
Identificamo-nos com esta personalização do uso, ou mais do que isso, com o livro como companhia e coabitante. 



Alberto Manguel, em conversa com Eduardo Lourenço no Festival Literário da Madeira 2016, disse o seguinte: 

“Eu quero que suceda uma coisa quando eu morrer: É sabido que, quando morrem os apicultores, alguém tem de dizer às abelhas que o apicultor morreu, que não o esperem mais. Eu quero que alguém faça isso aos meus livros quando eu morrer.” 

A relação do ser humano com o livro é ancestral.  

“Uma História da Leitura”, 20 anos depois de Manguel a terminar, é essencial para quem gosta de livros, mas também para quem não conhece o poder do livro.  É essencial para quem pertence ou quer pertencer a esta tribo. 


Texto publicado em https://comunidadeculturaearte.com/uma-historia-da-leitura-de-alberto-manguel-carta-de-amor-aos-apaixonados-dos-livros/



Shot #32 "A Madrugada em Birkenau", de Simone Veil

 



Memória em carne viva. 

 

No documentário “O Museu de Auschwitz” exibido há uns anos na RTP3, um neto disse à avó: 
"Contaremos a tua história".  
Na visita ao museu, a avó conta o que lhe aconteceu no campo de concentração. Era criança.  
"Trago aqui os meus netos [dois pares de gémeos] para eles saberem o que aconteceu. Eles quiseram vir.   
Vocês sabem o que aqui faziam aos gémeos, não sabem?"  
Ao olhar para as fotos das crianças mortas no campo, disse-lhes de dedo em riste, "Vocês têm que continuar [a viver]. " 
O neto mais novo abraçou-se a ela, 
"Contaremos a tua história." 

Na memória resistem os anticorpos à reinfecção. A responsabilidade de quem conta é igualada pela responsabilidade de quem ouve e não deve esquecer. Caso contrário, a distância temporal é alargada por quem desiste de contar e por quem desiste de ouvir. E tudo pode voltar a acontecer. 
Neste exercício de memória, sempre em carne viva para quem sobreviveu aos campos, existem livros-documento como “A Madrugada em Birkenau” (Quetzal). Os testemunhos reunidos por David Teboul neste livro guardam a voz de Simone Veil (Nice; 1927), resistente de Auschwitz. 
O livro organizado por Teboul não é mais um dos livros que comercializam a infâmia e se alimentam da curiosidade mórbida pelos mecanismos nazis de extermínio. Auschwitz vende. 
Aqui, a memória é quase tudo. E é na sua manutenção que “A Madrugada em Birkenau” fundamenta a sua importância. Ainda que, nas palavras de Veil, a história fique muito aquém da experiência: 
“Aquilo que hoje se vê não se assemelha ao campo [Auschwitz]. De maneira nenhuma. De qualquer modo, esses locais não traduzem as sensações físicas. O campo era o cheiro dos corpos que ardiam. Uma chaminé cujo fumo escurecia o céu. Lama por todo o lado. Galochas nos pés, nós nessa lama.” 

Solilóquios, diálogos e fotografias compõem o mosaico a que o tema e a sua interveniente dão unidade. Coube a Teboul organizar os documentos de forma a dar-lhe uma narrativa coerente, numa visão de autor pouco ou nada denunciada. Ele existe na arrumação, na perspectiva. 
Veil fala da sua infância, dos amigos e da família. As suas recordações vão desde as perseguições, passam pelo aprisionamento e vão até à libertação, ou melhor, até ao aprender a viver depois da libertação. 
Cada um com a sua forma de ultrapassar o horror, cada um com estratégias de fuga ou confronto. Conta-nos Veil que havia uma fronteira a separar quem regressara dos campos e os outros. A um primeiro olhar, todos pareciam iguais, mas as reacções íntimas tornavam-nos diferentes. Uns tinham passado para o outro lado, o lado animalesco. Conta-nos também a vida nos campos de Draney, Auschwitz-BirkenauBobrek e Bergen-Belsen e o impacto que teve mesmo depois de já ter saído: 
 
“Ao voltar do campo, senti-me profundamente diferente. Antes, era alegre, vaidosa, muitas vezes fútil. Pensava constantemente em pequenas coisas. Ao voltar, pus-me a marcar uma distância entre o essencial e o que não era. Pensava a cada passo: «Para quê?». 
Tornei-me mais severa para com os outros, pois testava-os segundo esses novos critérios.” 

“A Madrugada em Birkenau” reúne testemunhos corajosos, principalmente de uma mulher que adicionou muito do que o nazismo quis subtrair: 
Foi magistrada, ministra da saúde, a primeira mulher presidente do Parlamento Europeu. 
Como ministra, concretizou a “Lei Veil”, que despenalizou a interrupção voluntária da gravidez, em França. 

Simone Veil morreu com 90 anos.  




A MADRUGADA EM BIRKENAU
de Simone Veil
ISBN: 9789897226878
Edição/reimpressão: 05-2021
Editor: Quetzal Editores
Idioma: Português
Dimensões: 148 x 234 x 19 mm
Encadernação: Capa mole

Páginas: 280









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