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segunda-feira, 24 de junho de 2019

Anna Kalimar: CELA| Connecting Emerging Literary Artists


Anna Kalimar






 CELAConnecting Emerging Literary Artists




O Projecto:

O projeto CELA (Connecting Emerging Literary Artists) abre o palco europeu a uma nova geração de criadores literários. Permite uma cooperação transnacional intensiva entre talentosos escritores, tradutores e profissionais literários europeus em início de carreira. No decurso do projeto, os participantes enfrentam algumas das mais exigentes realidades da nossa era — de fraturas cada vez mais acentuadas na Europa a um setor editorial em mudança — e põem-nas em perspetiva, partilham o seu trabalho e colmatam o fosso que os separa do setor editorial e do público europeu.
As organizações literárias de seis países europeus uniram forças para fundar o projeto de incubação de talentos cela — Connecting Emerging Literary Artists. Partilhamos a necessidade de estabelecer uma infraestrutura sustentável de incubação de talentos para preservar a diversidade da literatura europeia e dar maiores oportunidades a línguas minoritárias. 
O projeto proporciona um percurso de dois anos com formação, instrumentos e uma rede que visam tornar possível uma carreira internacional e estabelecer uma prática profissional integrada. Com uma atenção em competências e mobilidade transnacional, incluímos especialmente as oportunidades digitais na literatura, novas formas de os participantes conseguirem emprego e rendimento.
Cada edição do projeto cela decorre durante dois anos. No primeiro ano, as organizações literárias orientam os escritores, tradutores e profissionais literários e proporcionam-lhes um programa multinacional de residências, formação e master classes para os preparar para trabalhar no mercado europeu e para um público internacional. No segundo ano, os participantes são inseridos por via de marketing internacional e campanhas publicitárias, uma digressão por festivais
europeus e apresentações ao público e a profissionais europeus por escritores e tradutores de renome (os nossos embaixadores cela) e organizações literárias. 

Os autores e tradutores participam em campanhas internacionais, festivais literários em diferentes países e numa rede de trabalho que proporcionará contacto entre todos os participantes.
Kick-Off: Hay Festival Segovia (Espanha)Tinto-no-Branco- Festival Literário de Viseu (Portugal), Book Fest (Roménia), Pisa Book Festival (Itália), Lev-Literatura em Viagem (Portugal), Passa Porta Festival (Belgium), Wintertuinfestival (Holanda) recebem os autores e tradutores do projecto CELA.

Parceiros:
Booktailors
Escuela de Escritores
Flemish-Dutch House deBuren
Passa Porta
Pisa Book Festival
Wintertuin

Biografia

Anna Kalimar

Ano de nascimento 1991
Nascida Roménia
Vive e trabalha em Bucareste
– Autora do romance The Irradiation of Some World (2008)
– Vencedora de um concurso nacional para escritores iniciantes (2008)
– Na sua obra de estreia, surreal e singular, as histórias têm temas e dimensões variadas, que têm encantado os leitores
–Atrai um público jovem (com base na idade media das personagens e nos temas abordados)
– «Faz-me pensar nos ambientes visionários de Magritte, de algum modo» (Vanni Santoni, autor italiano)



Sobre Anna Kalimar

«Ainda me lembro de fazer nove anos e receber um caderno de apontamentos. Era um caderninho robusto, com folhas brancas, quase tão macias como seda. Tinha uma imagem da Terra na capa. Escrevia pequenos textos nele, frases aleatórias muitas vezes. Palavras cujo som eu achava bonito ou que pensava adequarem-se a um sentimento.» Anna Kalimar fala sobre as suas memórias de forma expressiva. «Era um livro bonito, pergunto-me onde é que andará», termina, sorrindo. Levanta os olhos e acena com a cabeça com a mesma determinação. Um pequeno sinal que indica satisfação, como que estimando a sua própria abertura, mas ao mesmo tempo pondo-lhe um fim.
«Em Bucareste, segui o curso de cinema. Era para ser realizadora, gostava da ideia: o cinema é um meio visual e isso atrai-me.» Ela ri-se um pouco: fá-lo muito e especialmente no final das frases. Não porque tenha dito algo com piada, mas como se quisesse preencher o silêncio. Ela conta que gostou do curso de cinema: achou particularmente «interessante» o trabalho de grupo que a produção de cinema envolvia. Parecem palavras despreocupadas, mas que indiciam também a modéstia de Kalimar.
Aparenta ser o tipo de pessoa que se mantém amavelmente à parte num grupo, ainda que ela própria possa não gostar de interpretações desse género.
«Penso que não deves examinar o teu próprio trabalho com demasiada minúcia. Isso está fora de questão», explica Kalimar. Ela pega na garrafa de água que tem à sua frente em cima da mesa e segura-a a poucos centímetros da cara. «Assim também não consigo ver quase nada», ela fita o rótulo através das lentes dos óculos, quase tocando a garrafa com o nariz. «Foi por isso que pedi a uma amiga que descrevesse o meu trabalho», diz com entusiasmo, e volta a colocar a garrafa em cima da mesa.
Puxa de um bloco de apontamentos do bolso interior do casaco. «A minha amiga diz, e cito, que gosto de escrever sobre o absurdo, sobre a falta de
amor. E interesso-me por pessoas que conseguem escapar às limitações com que cresceram.»
Vê-se, mais uma vez, que ela não quer sobretudo manchar demasiadas palavras ao falar sobre o seu próprio trabalho. «Gosto de escrever», diz, encolhendo os ombros de forma desafiante. «Que mais posso dizer acerca disso?» Com um sorriso aberto, ergue os braços por uns instantes. Não desvia o olhar. «Nunca quis ser escritora. Queria escrever.»
Coaduna-se perfeitamente com o que Kalimar deixa transparecer: 
ela preferia falar sobre o seu trabalho. Parece não se importar que lhe façam um retrato deste género, mas antes queria omitir-se do mesmo. Por último:
terá o seu percurso em cinema influenciado a sua escrita? De novo, não desvia o olhar. Kalimar fica em silêncio por uns segundos. O olhar dela cai sobre o bloco de apontamentos. Enche o peito de ar, e por momentos parece que vai soltar um suspiro, mas depois diz lentamente: «É provável. Penso que sim. Gosto de descrever. Tenho, talvez, uma sensibilidade especial para roupas e decoração. Como se gostasse de pintar, no imaginário do leitor.» Volta-se a notar a sua abertura de espírito. Ela levanta um dos cantos da boca, algo entre um sorriso e um esgar.

Vídeo


Conto de Anna Kalimar

Deveria ter sido simples. Segues pelo corredor, primeira porta à direita, abre-la com um pontapé atirando-a à parede, olhas com satisfação para os seus rostos perplexos, percebes como a perplexidade se transforma em terror quando sacas da pistola e, sorrindo, disparas. E disparas de novo. E uma vez mais, até ninguém ficar de pé, exceto tu. A seguir, pões-te a andar dali e bebes um café. Sem problemas. Sem açúcar. Ninguém sabe que foste tu, porque de facto tu não existes. Estás na posse da tua própria certidão de óbito. Bizarro, olhá-la dessa maneira. Sentes um murro no estômago. O mesmo murro quando levas flores para a tua própria campa. Em vez disso, abres a porta com jeitinho e sorris. Oferecem-te um chá. Preenches um formulário. Até voltares a ti, já casaste com a caixeira e o vosso filho chama-se Hector. Seguramente, mudaste-te para outra cidade, com o nome de um tipo que na realidade já faleceu. Sem dúvida, alguém te ajudou neste propósito em troca de uma mala com dinheiro, à meia-noite, numa estrada no meio do nada. Durante a noite trabalhas num bar e de dia tentas vender próteses. Deseja uma perna? Uma mão? São muito resistentes, não precisa de as tirar para tomar banho. Temos de várias cores. Você e a sua nova mão verde serão a alma de qualquer festa! O teu filho é um dos bandidos de um bando de malfeitores e rouba lojas. Vende erva em espeluncas imundas e uma das vezes em que estava pedrado partiu a cabeça a um puto. A tua mulher detesta-te e acha que tudo aquilo que é mau na vida é culpa tua, mas mesmo que fosse forçada não to diria. Tem um emprego mais bem remunerado que o teu e suspeitas que ela tem um caso com o chefe. Tens consciência da tua própria imaterialidade. Embora do exterior a tua vida pareça normal, tu, de facto, não existes. E, num belo dia, desaparecerás. 
   O homem que não existe veste uma jaqueta de couro castanho e sai de casa. Não leva chaves nem telemóvel. Em vez disso, deixa um bilhete dizendo que não regressará, para que o deem como desaparecido e ponham a polícia na sua mira. Pela primeira vez desde há muito começa a sentir-se real. É um zé-ninguém. E um ninguém pode ser absolutamente qualquer um. Não está ligado a nada. Pode deslocar-se para qualquer lugar. Na sua mente, ainda persiste a imagem daquele corredor. É provável que sinta pena por não ter pressionado o gatilho naquela altura. Mas talvez tivesse dado no mesmo. Existem muitas situações sem saída, a que alguns homens apelidam de «destino». Tal como alguém obcecado por ti e indiferente ao teu comportamento insiste em fazer-te sofrer. Mas, em vez disso, podes sempre sumir. Talvez naquele dia tivesse sido melhor teres tomado café e te teres mantido longe daquele edifício.


Tradutor:

SIMION DORU CRISTEA

Simion Doru Cristea (1965) nasceu em Bistrita, Roménia. É licenciado em Cinema na Faculdade de Filologia de Babes-Bolyai. É pós-graduado em Filologia e História pela mesma universidade.
Publicou várias críticas, participou em publicações colectivas e publicou livros em seu nome:Manifestul elevului de nota 10 (The Manifest of the A mark Student, Dokia Publishing House), Funcția symbolic-mitică în textul religios (Symbolic-mythic function in Religious text, Cluj-Napoca, GEDO Publishing House) e o romance Să trăiți, Domule Președinte (God speed, Mister President, Cluj-Napoca, Dokia Publishing House).







sexta-feira, 21 de junho de 2019

Shot #13: O Chefe da Estação Fallmerayer







O longo caminho para a decência. 

Uma ruptura na banalidade dos dias leva o chefe de uma estação de comboios a mudar radicalmente a sua postura. Adam Fallmerayer era um homem previsível, confiável para a sua “um pouco limitada” mulher e seus dois filhos, até ao dia em que um comboio-expresso embate num comboio de mercadorias. Fallmerayer ocorre em auxílio das vítimas. Nesse fatídico momento, conhece uma condessa russa, também casada, a quem cede o seu quarto e a sua cama para se restabelecer. A partir daí, o perfume feminino irá tomar conta de cada espaço do domicílio e do seu pensamento. “Aquele estranho aroma ficou entranhado na casa e gravado na memória, sim, poder-se-ia dizer até no coração de Fallmerayer muito mais tempo do que a catástrofe” 
Há tanto desalento na prosa de Roth que se torna difícil não a acompanhar. Esta indigna descida em espiral de Fallmerayer não augura esperança para a personagem. Um homem confiável, até banal, numa profissão com características monótonas é modificado por uma presença feminina. Nem a Grande Guerra o levará a desistir de a procurar e de a tomar como sua. Nem a Grande Guerra, nem sua mulher, seus filhos e muito menos o marido da condessa, entretanto desaparecido em combate.
A melancolia da prosa dá lugar a um vórtice imparável que o levará a deixar mulher e filhos na procura daquela paixão. Ninguém conhecedor do chefe de estação previa aquele voluptuoso destino. A distância entre o casal foi sendo cavada pelo marido. Rapidamente, ele percebeu que a solidão ansiada não era mais do que necessidade de distância. Ele queria estar afastado de sua mulher para poder pensar na condessa russa. Até conseguir concretizar a sua volúpia, Fallmerayer, luta na Grande Guerra, é ferido, agraciado, promovido a tenente, internado, não usufrui de licença. Começa a aprender russo para poder galantear a condessa. “Aprendeu expressões de carinho, expressões de descrição, preciosas expressões de carinho russas. Falava com ela. Estava separado dela através de uma grande guerra mundial e ele falava com ela.” Roth resume a luta do personagem na guerra com meia-dúzia de frases para se poder concentrar no desenvolvimento da obsessão. Fallmerayer sai de casa, vence as dificuldades, e viaja até casa da condessa. Joseph Roth, autor da obra-prima “Judeus Errantes”, exercita a economia da prosa para se manter no essencial. ”O Chefe da Estação Fallmerayer” (Assírio e Alvim; com introdução de Álvaro Gonçalves) é mais um exemplo da excelência da sua escrita. Há, felizmente, muito para ler deste autor nascido em Brody (1894). “O Leviatã”, “A Marcha de Radetzky”,  “Confissão de um Assassino”, “Fuga sem Fim”, “A Lenda do Santo Bebedor” e “Jó - romance de um homem simples” estão traduzidos para português. “O Chefe da Estação Fallmerayer” foi publicado em 1933. Seis anos depois, Roth, cuja vida foi marcada pelo alcoolismo, iria falecer devido a pneumonia e insuficiência respiratória. 



O Chefe de Estação Fallmerayer

ISBN: 978-972-37-2075-4
Edição ou reimpressão: 03-2019
Editor: Assírio & Alvim
Idioma: Português
Dimensões: 117 x 185 x 7 mm
Encadernação: Capa mole
Páginas: 80



 

segunda-feira, 17 de junho de 2019

Roberto Osa: CELA| Connecting Emerging Literary Artists










 CELAConnecting Emerging Literary Artists




O Projecto:

O projeto CELA (Connecting Emerging Literary Artists) abre o palco europeu a uma nova geração de criadores literários. Permite uma cooperação transnacional intensiva entre talentosos escritores, tradutores e profissionais literários europeus em início de carreira. No decurso do projeto, os participantes enfrentam algumas das mais exigentes realidades da nossa era — de fraturas cada vez mais acentuadas na Europa a um setor editorial em mudança — e põem-nas em perspetiva, partilham o seu trabalho e colmatam o fosso que os separa do setor editorial e do público europeu.
As organizações literárias de seis países europeus uniram forças para fundar o projeto de incubação de talentos cela — Connecting Emerging Literary Artists. Partilhamos a necessidade de estabelecer uma infraestrutura sustentável de incubação de talentos para preservar a diversidade da literatura europeia e dar maiores oportunidades a línguas minoritárias. 
O projeto proporciona um percurso de dois anos com formação, instrumentos e uma rede que visam tornar possível uma carreira internacional e estabelecer uma prática profissional integrada. Com uma atenção em competências e mobilidade transnacional, incluímos especialmente as oportunidades digitais na literatura, novas formas de os participantes conseguirem emprego e rendimento.
Cada edição do projeto cela decorre durante dois anos. No primeiro ano, as organizações literárias orientam os escritores, tradutores e profissionais literários e proporcionam-lhes um programa multinacional de residências, formação e master classes para os preparar para trabalhar no mercado europeu e para um público internacional. No segundo ano, os participantes são inseridos por via de marketing internacional e campanhas publicitárias, uma digressão por festivais
europeus e apresentações ao público e a profissionais europeus por escritores e tradutores de renome (os nossos embaixadores cela) e organizações literárias. 

Os autores e tradutores participam em campanhas internacionais, festivais literários em diferentes países e numa rede de trabalho que proporcionará contacto entre todos os participantes.
Kick-Off: Hay Festival Segovia (Espanha)Tinto-no-Branco- Festival Literário de Viseu (Portugal), Book Fest (Roménia), Pisa Book Festival (Itália), Lev-Literatura em Viagem (Portugal), Passa Porta Festival (Belgium), Wintertuinfestival (Holanda) recebem os autores e tradutores do projecto CELA.


Parceiros:
Booktailors
Escuela de Escritores
Flemish-Dutch House deBuren
Passa Porta
Pisa Book Festival
Wintertuin


Biografia

ROBERTO OSA



Ano de nascimento 1981
Nascido Espanha
Vive e trabalha em Madrid
– Cresceu numa aldeia em La Mancha, terra de Dom Quixote e Sancho Pança
– Estudou Comunicação Audiovisual na Universidade Complutense, realização televisiva na Escuela CEV e guionismo na Escuela de Escritores
– Escritor e realizador de televisão, colabora com vários meios de comunicação, combinando texto escrito com audiovisual
– O seu primeiro romance, Morderás el polvo (Morderás o Pó), foi premiado com o Prémio Felipe Trigo de Romance (2016) e finalista do Prémio Nadal de Romance (2017), o mais antigo prémio literário de Espanha


Sobre ROBERTO OSA

«Tenho um emprego muito barulhento. Trabalhar em televisão é, na
verdade, sempre barulhento. E em casa o ambiente também não é
propriamente tranquilo: os filhos, o cão, os telemóveis. Só à noite é que os
estímulos diminuem. Quando as coisas acalmam em casa, é aí que a escrita
corre melhor.»
Para além de trabalhar como produtor, realizador e colunista,
Roberto Osa escreve guiões para cinema e televisão, mas mais
recentemente começou também a escrever livros. Fala sobre o assunto com
uma calma que parece ter trazido do seu escritório. «Gosto de escrever,
mas também gosto de ruminar sobre as coisas.» Tem uma voz suave, uns
olhos escuros e pequenos. «O romance é uma forma textual reflexiva, um
processo contemplativo de escrita. É bonito poder combinar isso com a
escrita para a televisão, que é um meio muito mais acelerado. Isso dá-me
versatilidade, gosto bastante disso: escrever para meios de comunicação
diferentes, penso que isso também é uma exigência para um escritor do
século XXI.»
Enquanto realizador de cinema, Osa desenvolveu uma sensibilidade
para com as imagens. Ele pensa que é possível reencontrar essa influência
na sua escrita. «Dizem-me muitas vezes que escrevo de forma
cinematográfica. Considero-o um elogio: tento que o meu trabalho seja
visual, dedico atenção ao decorativo, ao exterior, mas também ao ambiente.
Penso que também se notam essas influências ao nível da estrutura. Talvez
eu escreva, mais do que outros, com um guião em mente. É uma maneira
muito funcional de criar estrutura.»
Osa inclina-se para trás. Parece um pensador. Talvez tenha a ver com
a postura cerrada dele, as sobrancelhas um pouco afastadas uma da outra,
ou talvez seja da barba aparada. Não surpreende que goste de pôr de lado os
textos que escreve. «É uma parte importante do meu processo de escrita. Já
o havia feito com a minha primeira novela: meti o texto numa gaveta da
secretária e não olhei para ele durante três semanas. Só aí é que consegues
reler os teus próprios textos.»
Como é que se relacionam as crónicas, os textos para teatro e a prosa
que Osa escreve? O autor dá uma resposta formal: «É tudo ficção. Só as
crónicas é que não, e no ano passado fiz por exemplo um documentário
sobre um ilusionista espanhol. Mas os meus projetos pessoais são sempre
ficção. Ou queres dizer uma ligação temática? A verdade é que não penso
sobre isso. É algo que vou descobrindo com o tempo.»
«Gosto de escrever sobre famílias, talvez sobre rejeição e solidão,
mas durante a escrita nunca faço essa análise. Mas digo a mim mesmo
constantemente: não penses nisso, não penses nisso. Preciso de ritmo»,
explica Osa. Ele ri-se um pouco: o sorriso dele é largo, incha-lhe as 
bochechas. «Talvez isso também seja uma herança do meu trabalho televisivo. Há tempos fui abordado por um leitor que me queria dar um
elogio. Ler o meu livro era como andar a cavalo, disse ele. É prosa que
nunca para, é veloz e quando galopa, não volta a perder o compasso. Fiquei
muito grato com o que ele disse. Isso atrai-me, a mistura entre a velocidade
da televisão e a lentidão e profundidade do romance.»



                                                      Vídeo





Conto de Roberto Osa


Luz estava há mais de meia hora à espera ao sol. De vez em quando,
percorria o passeio de um extremo a outro para desentorpecer as pernas e
aliviar o peso da barriga. Os seus olhos moviam-se com rapidez entre os
carros que circulavam pela avenida, especialmente quando se ouvia uma
aceleradela. Mas nada.
Decidiu refugiar-se do calor debaixo do beiral do edifício. Foi
então quando, de trás de um autocarro, apareceu ziguezagueando o
pequeno carro vermelho. Luz viu como Jaime travava bruscamente e se
punha a tocar a buzina repetidas vezes, como se estivesse há muito tempo
à sua espera. Ela aguentou um pouco mais à sombra.
A buzina continuava a ouvir-se, por isso Luz atravessou o passeio e
entrou para o carro antes que o chefe assomasse à janela perguntando
quem era o idiota que tocava a buzina sem parar.
— Feliz aniversário — disse Jaime.
— Arranca, estamos em segunda fila.
As costas de Luz bateram contra o assento quando Jaime levantou
o pé da embraiagem e acelerou.
O carro atravessava uma rotunda atrás de outra enquanto eles se
mantinham em silêncio.
Já nos arredores, Luz disse:
— Não vamos a casa?
Jaime esboçou uma expressão triunfal.
— Espreita debaixo do teu banco.
Com muito esforço, Luz dobrou-se sobre a barriga para alcançar a
embalagem que Jaime tinha deixado ali. Era uma caixa do tamanho de um
livro, embrulhada em papel de presente verde.
Ao retirar o selo, Luz leu em voz alta:
— «Vive a experiência».
— E isso é o que vamos fazer.
— Agora?
— Claro. O aniversário é hoje, e então… Queria compensar-te de
alguma maneira.
— Compensar-me.
— Sim. — Jaime tentava dar algum tempo ao seu cérebro. — Bom.
Pelo que se passou estes dias.
— Estou a ver.
Tinham saído da cidade e minutos depois tomaram uma estrada
secundária ladeada por oliveiras. Luz ligou o rádio, que preencheu o
silêncio durante mais uns poucos quilómetros.
Passado um bocado, Luz voltou a falar:
— E onde vamos viver a experiência, pode saber-se?

— Tu gostas de animais.
— Adoro.
— Bem, então vai ser um sucesso, já vais ver.
— São três da tarde e não comi.
Jaime esticou o braço para trás do seu banco e apanhou um saco de
plástico que pôs sobre as pernas de Luz. Ela olhou para o interior: uma
garrafa de água, uma sandes vegetariana, várias barras de chocolate, um
pacote de bolachas e dois refrigerantes.
— Agora sim, estou impressionada. Tirou o plástico da sandes e
começou a comê-la.
Luz terminava a sandes quando o carro parou em frente a um
grande arco onde dizia: «Safari: a vida selvagem muito perto de sua casa.»
Na entrada, um tipo vestido de explorador deu-lhes uns folhetos e
esteve a explicar-lhes as regras do parque: podem fazer o percurso com o
vosso próprio carro, mas nada de saírem, é absolutamente proibido sair do
carro; pode-se tirar fotos mas sem baixar o vidro; não se pode tocar a buzina
e deve-se respeitar a prioridade dos animais, que andam à solta pela
propriedade. É totalmente proibido dar-lhes comida: «Sobretudo os
macacos ficam muito chatos e podem tornar-se violentos», disse enquanto
indicava o caminho de pó onde começava o percurso.
O carro movia-se devagar. Jaime ia agarrado ao volante, como se
temesse que a qualquer momento um rinoceronte os abalroasse.
Entretanto, Luz dava pequenos goles no refresco e percorria o deserto com
a vista.
Durante alguns minutos o carro avançou entre o pó sem que
pudessem ver um único animal.
— Olha! — disse Jaime travando o veículo bruscamente.
Duas girafas passaram a trote diante deles, a terra tremeu debaixo
dos bancos do carro.
— São maiores do que parecem na televisão.
— Eu já tinha visto girafas — respondeu Luz.
— Quando?
— No jardim zoológico. Em pequena.
Jaime esperou uns segundos. Depois, meteu a primeira e o carro
voltou a andar.
Dentro de uma vedação havia um rinoceronte e, junto à cerca, uma
placa: «Kenny, rinoceronte branco. República do Congo».
— Mas ele é cinzento — disse Jaime.
— Branco é por causa da raça. Acho.
Continuaram a avançar pelo caminho.
Debaixo de um freixo, o leão dormitava alheio aos mirones.
— Aquele é o mais rápido — disse Jaime.
— A que é que te referes?
— Bom, já sabes, a história de ser o rei da selva e assim.
— Não. Não sei.
— Pois, é isso. A leoa vai caçar e tal e o leão deita-se à espera de que
lhe tragam a comida.
— Estás a brincar?
— Sempre foi assim.
— Não posso acreditar no que estou a ouvir.
— A sério, os documentários e as enciclopédias dizem-no sempre,
não é uma coisa minha.
— Estás a superar-te.
Jaime decidiu calar-se. Conduziu um bom bocado em silêncio.
Passaram perto de um pequeno lago junto ao qual pastavam três
zebras. Luz inclinou-se e pôs a cara muito perto da janela.
— Para. — Jaime travou devagar. O veículo ficou à sombra de umas
árvores enormes que ladeavam o caminho. Através dos troncos, Luz
continuava a admirar as zebras.
— São muito bonitas.
— Pois a macaca é feia como o caraças.
— Que macaca?
— Aquela. Está na árvore da direita, vês?
Luz olhou para cima. Na árvore havia um macaco enorme de pelo
grisalho.
— Como é que sabes que é macaca e não macaco?
— Repara no volume que tem colado à barriga. É a cria.
— Sim. Pode ser.
— Mas que raio, são mesmo feios os babuínos.
— Nem sequer sabes se são babuínos ou macacos ou sei lá o quê.
— Claro que sei. É pelo pelo.
A macaca fazia um gesto de tirar algo que a cria tinha entre as
orelhas.
— Na savana abundam os babuínos.
— Mas não estamos na savana. Além disso, já te viste ao espelho?
— Vais-me comparar a mim com um babuíno?
— A pobre macaca não tem culpa.
— Por favor, Luz, não estragues tudo.
— Eu não estrago nada.
— Estava tudo a correr bem até teres começado…
— Já viste isto? — Luz agarrava o ventre com as duas mãos, como se
lho mostrasse a ele pela primeira vez.
Jaime desviou o olhar para fora do carro.
— Não comeces — falou em voz baixa, quase a fugir à resposta.
— Isto é teu também, para de evitar o tema.
— Não o estou a evitar. Só que…
— O quê?
— Bem. Sei lá.
— És um cobarde.
— Muito bem.
— Quero um pouco de compromisso da tua parte, vê lá se abres os
olhos em relação àquilo que nos espera dentro de três meses.
— Que chata — disse para si, mas o suficientemente alto para
também ela o ter ouvido.
As zebras tinham desaparecido enquanto um grupo de macacos
começou a agrupar-se em redor do carro; subiam pelos troncos das árvores,
alguns farejavam perto das rodas.
Luz e Jaime ficaram a olhar para os babuínos, ouviam o afã das
unhas a arranhar a terra do chão. A macaca que tinha uma cria começou a
subir aos ramos mais altos, até que finalmente a perderam de vista. Jaime
olhou além do lago. Ouvia-se o coaxar das rãs.
— Eu nunca disse que sim.
Não podia encará-la, mas ao dizer aquelas palavras sentiu que o seu
sangue circulava com mais força.
— Não se pode viver assim, Jaime.
— Nunca. Nunca te disse que sim, que queria.
— Julgavas que isto era como uma constipação?
Jaime pôs as mãos no volante. O seu olhar estava agora no fundo do
caminho, perdido entre as árvores que pareciam juntar-se ao longe.
— Não tens tomates.
— Estás sempre com essa dos tomates.
— Cobarde. Seu cobarde de merda.
Antes de Luz conseguir continuar, ouviu-se o estalar de um ramo, e
logo a seguir um macaco caiu sobre o capô. O corpo tinha batido na chapa
do veículo com tanta força que a parte central ficou afundada. Luz gritou.
E não tinha acabado de gritar quando o macaco se sentou sobre as patas
traseiras. Tinha um sorriso trocista, não parava de lhes mostrar os dentes.
Os babuínos que estavam em redor começaram a dispersar-se. Mas o
do capô continuava lá.
— Porra do macaco. Quase tive um ataque cardíaco — disse Jaime
quando se recuperou do susto. — Espero que tenham seguro. Alguém tem
de pagar isto.
Luz apertava o saco da comida contra o ventre. Tirou uma barrinha
de chocolate e começou a comê-la com pequenas dentadas. O babuíno
olhava-a muito atento.
— Acho que tem fome. — Começou a procurar algo dentro do
saco.
— Vá lá, Luz, deixa-te de disparates.
— Estava aqui, ia jurar que já tinha visto uma…
Jaime agitava os braços na direção do para-brisas do carro, tentando
assustar o macaco.
— Aqui está.
Luz tirou um invólucro vermelho e alongado do saco. Aproximou-o
do nariz, como se pudesse cheirar o chocolate sem o desembrulhar, e
depois aproximou-o do para-brisas. O macaco dava pequenas pancadas
com o dedo sobre o para-brisas.
— Um Twix? — perguntou Jaime. A cara do babuíno estava cada
vez mais perto do vidro. — Vais dar um Twix ao macaco?
Jaime rodava a chave da ignição, mas a porta do passageiro tinha
começado a abrir-se um momento antes e Luz já estava fora do veículo.
— Luz!
Ela ignorou-o, só tinha olhos para o macaco, que tinha caminhado
sobre o capô e já estava muito perto de Luz, esticando o focinho para o
chocolate.
— Entra imediatamente. Juro-te que me vou embora e deixo-te
aqui.
O ruído do motor obrigava-o a falar mais alto.
— Luz!
Ela estendeu o braço. Quase não teve tempo de esticá-lo totalmente,
quando o macaco já lhe tinha tirado o chocolate; de um salto pôs-se
novamente sobre a amolgadela e começou a rasgar o invólucro com os
dentes. Luz não ficou surpreendida com a destreza da criatura, que comia o
Twix, segurando o chocolate pela parte inferior, como se temesse sujar os
dedos. Mastigava tranquilo, olhando de vez em quando para Luz com os
seus olhinhos brilhantes, mas sem reparar demasiado nela, como se de
repente a mulher fizesse parte da paisagem.
Jaime parou o motor e deslizou do seu banco para a porta do
passageiro para suplicar em voz muito baixa:
— Entra no carro. Por favor.
O macaco tinha os dentes castanhos, lambia o invólucro, chupava os
dedos entre mordidelas. Parecia uma criança. Uma criança peluda que
saboreava o seu prémio por bom comportamento.
Sobre as árvores além do lago, o céu começava a adquirir a cor
alaranjada do entardecer, e ouvia-se as rãs a coaxarem, cada vez mais perto,
enquanto o babuíno mastigava.
Luz juntou as mãos sobre o ventre, sem desviar os olhos do animal.
— Não — disse ela. — Ainda não. — Mas o chocolate já quase tinha
terminado.

Tradutor

MATIAS GOMES

Ano de nascimento 1972
Nascido Portugal
Vive e trabalha em Lisboa
– Tradutor de espanhol > português, inglês/francês > português e português > inglês
– Professor de Português (ensino secundário)
– Mestrado em Literatura Medieval Portuguesa (publicação de várias comunicações feitas em Congressos da Associação Hispânica de Literatura
Medieval — AHLM)
– Dinamizador da comunidade de leitura «Conversas Para Lê-las» (só literatura de mulheres escritoras) durante cinco anos
– Organizador e dinamizador de workshops «Drag King» (p. ex., «Here Comes Your Man»), enquanto ativista de género.



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