News

Correntes de Escritas

Escritaria

Festival Literário de Viseu

LeV

Recent Posts

segunda-feira, 6 de abril de 2020

Shot #21: "Viagens", de Olga Tokarczuk







O júri do Prémio Nobel parece ter dado um pontapé na porta para abrir caminho a Olga Tokarczuk (1962, Sulechów), tal foi a surpresa.  
Nome desconhecido-excepto entre os leitores mais avisados- a escritora polaca não fica, no entanto, devedora da qualidade. Já havia sido consagrada com o “Prémio Internacional Man Booker em 2018” e louvada por Svetlana Alexievich, outro nome provocador de enorme surpresa ao ganhar o Nobel. 
“Viagens” (Cavalo de Ferro) é caminho escrito por mão segura e sabedora. O tema da viagem é uma espécie de “holding” agregadora de diferentes deslocações. O tempo, a geografia e a emoção são percorridos por Tokarczuk, intercalando fragmentos e despistando, por vezes, o leitor. 
Não é uma viagem linear; é antes feita de episódios reveladores da essência da verdadeira deslocação, seja física ou mental. Algo muda quando nos movimentamos; o regresso dá-se a algo parecido ao ponto de saída. Tudo é o mesmo, mas nós já mudámos. 
O homem só pode ser descrito quando em movimento, a deslocar-se desde um ponto de partida, mas não necessariamente com destino certo. Há um “eu” fora da sua rede de relações. 
A psicologia da viagem opõe-se à psicologia tradicional, aquela que estuda o homem num contexto de imobilidade e estabilidade. 
Em “Lectio Brevis”. A autora polaca reduz ao âmago a ideia subjacente a todo o livro. Diz a personagem, numa lição breve num aeroporto: 
“Um conceito importante na Psicologia da Viagem é o desejo; é ele que empresta movimento ao ser humano e lhe indica a direcção, despertando nele o impulso de se dirigir rumo a algo. O desejo em si é vazio, quer dizer, apenas aponta para uma direcção, mas não para o objectivo; o objectivo mantém-se sempre fantasmagórico e pouco claro; quanto mais nos aproximamos dele, mais enigmático ele se torna. Não se pode satisfazer o desejo. O conceito que ilustra este processo de aspiração é a preposição «para». Para-algo.” 
E até a própria estrutura da narrativa parece ser justificada nas palavras da palestrante. 
Nas ideias normativas das ciências exactas não existe “qualquer primum filosofico”; isso implica a impossibilidade de construir uma argumentação baseada numa relação causa-efeito, “nem narrativas de acontecimentos casuisticamente sucessivos e resultantes uns dos outros.” 
Em detrimento da sequência linear, é a constelação a demonstrar a verdade do caminho. 
O Comité de decisão do Prémio Nobel de Literatura tem vindo a tentar abrir o cânone literário. Bob Dylan, Svetlana Alexievich e agora Torkaczuk- embora em menor grau do que os anteriores- constroem narrativas afastadas da estrutura mais romanesca.  
"Viagens" é quase inclassificável. Pode um romance ser assim? Pode, porque não há género narrativo mais moldável e permeável do que o romance.  E esta estrutura de “Viagens” é a forma ideal para as ideias de Olga Tokarczuk. 
“A vida humana é constituída por situações. Existe, porém, uma certa inclinação para repetir comportamentos. Mas essa repetição não implica que não se possa atribuir à vida a ilusão de esta ser um todo com a sua própria sequência”


 Autor Olga Tokarczuk
Editor Cavalo de Ferro
Data de lançamento 04/03/2019
EAN 978-9896232702
ISBN 9789896232702
Dimensões 15 x 22,5 cm
Nº Páginas 352
Encadernação Capa mole
Preço 19,99







terça-feira, 24 de março de 2020

"Uma Boa Morte", de Hans Kung






"Os Despojos do Dia", de Kazuo Ishiguro





sábado, 21 de março de 2020

Shot #20: "Chuva Miúda", de Luis Landero





Há algo escondido nas famílias disfuncionais. Principalmente nas famílias disfuncionais. Luis Landero (Badajoz, 1948) aponta para o “punto cego” das relações entre as pessoas com a mesma história, ou parecida, mas interpretada com grandes diferenças. Há pontos de contacto, embora a dinâmica da narrativa dependa da disparidade entre as diversas versões. 
Todos as angústias familiares tinham estado em “banho-maria” até uma ideia provocar uma disrupção. 
Gabriel decide celebrar o octogésimo aniversário da mãe; em consequência, convida as irmãs e respectivo agregado para a festa. É a entrada num mundo de rancores, um abanão que vai espevitar a madorna azeda de histórias antigas. A culpa, essa, mora sempre no outro. A razão está em quem conta. A verdade está quebrada em tantos pedaços quantas conversas existem. Ou, se assim preferirmos, não mora em lado nenhum. E Aurora ouve, ouve, vai enchendo sem um protesto, vai acumulando queixumes e tensão...  Vai ficando ensopada em chuva miúda. Ela é o “ponto de fuga” de todas as personagens; a confidente a quem contam cada pensamento, confronto, dilema, dúvida.
"«(...) Estás a ouvir, Aurora?» e, sim, Aurora continuava a ouvir o incessante fluxo daquelas pequenas histórias familiares que nunca tinham fim, mais não fosse porque era preciso repeti-las para parecerem cada vez mais verdadeiras e adquirirem entretanto maior dramatismo, e porque, na incubadora da memória, até os episódios mais triviais ganham com os anos a significação e a grandeza de um prenúncio ou de um desígnio, até acabarem por encaixar na trama de um destino fatal" 
Luis Landero montou uma estrutura polifónica, fluída, capaz de enlear o leitor e de espelhar famílias que conhecemos. A narração de Landero, consciente e próxima, dá, muitas vezes, a iniciativa às personagens, sem intermediação, que conversam ao telefone com Aurora. O drama está sempre à espreita e quando o leitor não espera que tudo piore... 
Em crescendo, deixando adivinhar uma apoteose, a história não deixa, contudo, de surpreender. 
“Chuva Miúda” (Porto Editora) foi considerado Livro do Ano 2019 pela crítica espanhola. A tradução é de Miguel Filipe Mochila. 




ISBN: 978-972-0-03275-1
Edição/reimpressão: 02-2020
Editor: Porto Editora
Código: 03275
Idioma: Português
Dimensões: 152 x 235 x 19 mm
Encadernação: Capa mole
Páginas: 240
Tipo de Produto: Livro







































































segunda-feira, 9 de março de 2020

Shot #19: "As Mil e Uma Noites", tradução de Hugo Maia




Nós somos Xerazade quando combatemos a morte através das nossas histórias. Adiamo-la através das narrativas contadas geração após geração. As histórias são organismos vivos com capacidade de adaptação à época em que continuam a viver. 
Cada um dos narradores aumenta ou adapta a história contada. Ano após ano, contador após contador, os textos vão sendo alterados e afastam-se da versão primordial.  Ficamos a pensar: como terão sido as primeiras versões? 
A esta pergunta responde Hugo Maia com “As Mil e uma Noites” traduzidas a partir dos mais antigos manuscritos árabes.  O tradutor verteu para português o árabe da Síria e do Egipto. 
Em entrevista à Comunidade Cultura e Arte, o tradutor afirmou: 
“No caso especificamente português, é a primeira tradução directamente do árabe. Todas as traduções têm sido feitas do francês, baseadas na versão do Antoine Galland [1646-1715] e da do Mardrus [1868 –1949]. Há edições que foram feitas cá há várias décadas que combinam as duas, resultando numa outra versão. É preciso ter em conta que a versão do Antoine Galland tem certas particularidades. Por um lado, ele traduziu o mesmo manuscrito que eu traduzi, que é o mais antigo que se conhece das “Mil e Uma Noites”, só que traduziu de uma forma completamente diferente do que está lá no manuscrito. Por exemplo, todas as partes eróticas foram alteradas. No conto das três moças de Bagdade e do carregador, há uma orgia com vinho e comida. Para Galland, é uma espécie de jantar romântico à luz das velas. Antoine Galland inventou uma série de coisas que não enriquecem nada a história e alterou significativamente outras partes.” 



O 2º volume começa com a 102ª noite e termina na 282ª noite, finalizando assim a narração de todas as noites até agora conhecidas. 
A tradução dos três volumes de “As Mil e Uma Noites” deve ser celebrada como foi a tradução de “Odisseia” ou “Ilíada” por Frederico Lourenço. Hugo Maia é pedagógico e esclarecedor tanto no preâmbulo existente no 1º volume como nas muitas notas de rodapé existentes nos dois volumes até agora publicados. Talvez aqui resida também o ponto menos conseguido do 2º volume: a ausência de um prólogo como o existente no primeiro. Ficamos à espera que no 3º e último volume venham as esclarecedoras palavras do tradutor, seja num preâmbulo ou num posfácio. 
As histórias de Xerazade ultrapassaram o desprezo das elites literárias, devido às características da oralidade, e entraram no cânone literário.   
“As Mil e Uma Noites”, publicadas pela E-Primatur, são daqueles livros que devem estar em qualquer biblioteca. Devem ser lidas e arrumadas junto ao “Decameron”, de Boccaccio, ou aos “Contos da Infância e do Lar”, dos Irmãos Grimm. 



Titulo:     As Mil e Uma Noites - Volume II
Autores:  Anónimo, Hugo Maia (Introdução, Tradução e Notas)
Género:  Tradicional
Editora: E-Primatur
Formato: 15,5x23,5cm
N.º Páginas: 456
Data: Janeiro de 2020
ISBN: 978-989-8872-24-1
Preço: 19,81






quinta-feira, 5 de março de 2020

Shot #18 “A História de Uma Serva”, novela gráfica de Renée Nault




“A História de Uma Serva”, de Margaret Atwood, mantém-se actual e adivinha-se a sua importância nas próximas décadas. Tal qual “Fahrenheit 451”, de Bradbury, e “1984”, de Orwell, a distopia observa o avesso do ser humano. A negrura das ideias políticas e sociais são fruto caído e apodrecido da árvore do conhecimento. Orwell, Bradbury e Atwood pegaram no fruto e abriram-no até ao caroço para expor a semente de “ismos” cujo futuro se revela demasiado promissor.  O público alimenta gratuitamente redes sociais atentas ao nosso comportamento, vigilantes e sedentas de moldar as nossas ideias através de mensagens apontadas às nossas vulnerabilidades. Vivemos um ambiente orwelliano. Além disso, há códices proibitivos, organizados por ideias anticolonialistas, feminismos radicais, ou, como no Brasil, fanatismo religioso. O poder, como o de "Fahrenheit 451”, inocula com ideias absolutistas os anticorpos libertários. A denúncia do movimento #Metoo, o escândalo de Robert Ailes na Fox e o de Weinstein, em Hollywood, mostram que a narrativa de Atwood tem inquietantes ligações à realidade, não de agora, mas da realidade que vem de há séculos até ao dia em que o leitor tem na frente este texto.  Eis o primeiro passo para a entrada no cânone: a constante actualidade da mensagem. Outros passos se seguem.   



Olhemos para os textos canónicos e veremos que os mesmos foram registados nos mais diversos registos literários. Alguns por serem canónicos, outros assim se tornaram pela difusão em discursos tão diversos.  “A História de uma Serva” entra no cânone. O livro de Margaret Atwood foi adaptado a série (produzida pela Netflix) e é agora transformada numa novela gráfica por Renée Nault. A qualidade já lá estava, mas o desafio não deixa de ser imenso. Será que defrauda as expectativas de milhares de leitores que imaginaram as personagens e/ou viram as palavras ganharem rostos e os dramas especificarem cores, sons e movimentos? Terá a Netflix secado a possibilidade de novas linguagens para esta distopia? A resposta a ambas as perguntas é não. Há na arte de Nault total comunhão com o texto de Atwood. A melancolia e o silêncio são capturadas pelos desenhos de Nault. Há textura, arrojo e uma palete de cores que mais do que complementares são simbióticas com a prosa de Atwood; são bem utilizadas numa cenografia engenhosa, impactante, que tanto deixa respirar cada cena como se aproxima e regista as nuances das expressões dos protagonistas. Um leitor está perante um objecto precioso, não só pelo conteúdo, como também pelo primor da edição da Bertrand Editora. 


Autor : Margaret Atwood e Renée Nault
Editor: Bertrand Editora

Data de lançamento: 07/02/2020

EAN : 978-9722537858 ISBN : 9789722537858 Dimensões : 16 x 23,5 cmNº Páginas : 240
Encadernação : Cartonado







segunda-feira, 24 de fevereiro de 2020

Correntes d`Escritas: do leitor mais velho ao leitor mais novo, a literatura é inclusiva.








Há tempo para as crianças. A 21º edição das Correntes d`Escritas reservou espaço no seu vasto programa para que autores infantojuvenis dessem voz ao espanto dos mais pequenos. Raquel Patriarca, Valter Hugo Mãe e Adélia Carvalho apresentaram os seus mais recentes livros para os leitores mais imberbes deste festival da Póvoa de Varzim. E eram muitos os que estavam na Sala de Atos do Cine-Teatro Garrett.  

 Valter Hugo Mãe privilegiou a apresentação das duas autoras em detrimento do seu próprio livro.
Sobre Raquel Patriarca e Adélia Carvalho, o autor de “A Desumanização” afirmou que eram 
“as melhores escritoras para crianças que existem no país, agora. Elas sabem perfeitamente o que é um texto para crianças.” “A história de uma história” (Acento Tónico), de Raquel Patriarca e da ilustradora Sara Cunha, e “A menina que queria desenhar o mundo” (Nuvem de Letras), de Adélia Carvalho e do ilustrador Sérgio Condeço, são exemplos da capacidade das autoras para criar textos com limpidez e simplicidade que podem ser apreendidos pelo espírito infantil. Além disso, têm uma vertente lúdica difícil de encontrar, pois há sempre um jogo dentro, um convite à cumplicidade com a criança.  “É claríssimo que elas são duas eruditas da literatura infantojuvenil, são duas estudiosas da literatura para as crianças e, por isso, são dotadas dessa capacidade até académica de entenderem para quem estão a escrever. 



Para Adélia Carvalho, “A menina que queria desenhar o mundo” é uma metáfora do crescimento, das respectivas dificuldades e crescente deslumbramento. Uma menina decide desenhar o mundo e depara-se com a dificuldade em fazer caber esse mundo numa folha de papel. Mas ela não conhece a palavra desistir. Um pequeno traço irá ganhar asas e levá-la a terras distantes. Depois regressa. Ela desenha um mundo, experimenta o ser e o fazer para depois aceitar o conforto de um regresso.  “Era vez uma mãe. Estava sentada numa cadeira de baloiço, num fim de tarde de verão, e embalava no colo o filho, enquanto lhe contava uma história...” Assim começa o livro de Raquel Patriarca e Sara Cunha, agora apresentado nas Correntes d`Escritas. 




Em “A história de uma história”, a narração vai sendo empurrada pelas perguntas do filho. É a curiosidade infantil que faz a contadora de histórias imaginar e adaptar a narração aos anseios do ouvinte. Com muita simplicidade, Raquel Patriarca demonstra os mecanismos da ficção, a “casa das máquinas” de um escritor. Neste caso, lá dentro está a capacidade de ouvir a criança e escrever/narrar para ela. E o espanto. É com o espanto que o ursinho Alecrim e o amigo Giesta vão vivendo as suas aventuras e abrindo as janelas do mundo.  Foi Raquel Patriarca que sublinhou a generosidade de Valter Hugo Mãe, pois o autor preferiu falar sobre os outros livros do que do seu. Em “Serei sempre o teu abrigo” (Porto Editora) está a voz delicada de Valter Hugo Mãe sobre a relação entre avós e netos. Segundo Raquel Patriarca, o livro “conta a história de uma equipa maravilhosa de duas pessoas que têm formas muito diferentes de amar. Na verdade, formam uma equipa perfeita.” 



 Depois de instigado pela autora, Valter Hugo Mãe falou sobre o seu livro: “Este livro é dedicado à minha mãe e ao meu pai. A minha mãe foi operada ao coração, e eu fiquei lixado. Entendo que é necessário, mas sou muito contra abrirem os peitos às mães para mexerem nos corações. Os médicos não param de pôr a arejar os lugares do amor. Eu tinha muito medo que o amor evaporasse ou se soltasse.  As minhas histórias têm alguma dificuldade, ou às vezes têm alguma tristeza, mas pretendem instalar ou conquistar a alegria.” “Serei sempre o teu abrigo”, história de dois avós que amam de forma tão diferente, “é para as pessoas a quem lhes mexem no peito.”  

Três livros dedicados aos mais novos num festival que vai desde a primeira palavra contada até às palavras lidas pelos mais experimentados leitores. Todos têm lugar.

Mário Rufino 

Formulário de Contacto

Nome

Email *

Mensagem *

Arquivo do blogue