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terça-feira, 12 de janeiro de 2016

“Todos os dias são bons para roubar”, de Teju Cole



Todos os dias são bons para roubar

Teju Cole (n.Brooklyn, EUA) cativa o leitor a cada livro que escreve. “Todos os dias são bons para roubar” (Quetzal) é composto por 27 textos sobre a estadia do autor no país onde cresceu: a Nigéria.

Teju Cole volta à cidade onde passou a sua infância e de onde vieram os seus pais. Depois de muitos anos de ausência, o escritor percebe que é uma pessoa diferente daquela que saiu de Lagos. A miscigenação entre cultura africana, norte-americana e europeia formou um homem cosmopolita e pleno de contradições. Os seus pais nasceram na Nigéria, mas Cole nasceu nos EUA. Viajou de imediato para a Nigéria, onde esteve até aos 17 anos. E foi com essa idade que voltou ao país natal para estudar. Depois de desistir do curso de medicina, Teju Cole foi para Inglaterra com o objectivo de estudar História de Arte Africana na “School of Oriental and African Studies”. Voltou aos EUA para se doutorar em História de Arte, na Universidade de Colômbia. Depois de muitos anos sem ir à Nigéria, ele volta para recuperar tanto quanto possível o seu passado. E então percebe que é um homem “desenraizado”:
 “ A palavra «pátria» poisa na minha boca como comida estrangeira. Uma palavra tão simples e ao mesmo tempo tão difícil de definir”
As reminiscências surgem na sua viagem por entre os pontos cardeais de Lagos. O escritor norte-americano divaga pelas ruas desta fervilhante cidade tal qual o fez em Nova Iorque e Bruxelas, quando escreveu “Cidade Aberta” (Quetzal). “Todos os dias são bons para roubar” surge como continuação dessa digressão por entre pessoas e locais de uma grande metrópole.
A sua infância vai surgindo nas sombras das ruelas mais recônditas, nos gestos dos velhos, nos rituais de uma sociedade economicamente assimétrica. No traço está a vontade em dar a conhecer a história do país, entender o pensamento do homem nigeriano, com toda a violência ora latente ora ostensiva, e até a própria arquitectura, como expressão cultural e formadora do olhar.
Teju Cole sente que pertence integralmente a lado nenhum. A viagem não é somente na cartografia de Lagos; é também dentro de si, na procura de se conhecer melhor, de diagnosticar as origens dos seus traços de personalidade.
“Tudo nesta cidade que me é, ao mesmo tempo, estranha e familiar, está pejado de histórias, o que me fez pensar na vida como uma sucessão de histórias.”
A prosa ganha mais força conforme vai sendo mais próxima das questões pessoais. Cole não se inibe de mostrar as suas incoerências ao longo da viagem. Tanto afirma ser-lhe impossível voltar a viver em Lagos, por prezar a tranquilidade em detrimento de captar “um milhão de histórias ainda por contar”, como, de imediato, afirma ser imperioso ter de voltar a viver naquela cidade, que corrompe e é corrompida.

A corrupção está plenamente integrada nos hábitos sociais. Os episódios contados são hilariantes. A corrupção espalha os tentáculos em várias camadas sociais, gerações e profissões; vai desde os jovens que se dedicam a tentar enganar internautas (é possível que o leitor já tenha recebido emails a oferecer empréstimos, ou a solicitar transferência via Western Union para um amigo em dificuldades), passando pelos polícias com territórios delimitados para sacar subornos aos automobilistas, até às cúpulas políticas e religiosas.
A perspectiva do escritor incide tanto no individuo como no colectivo. As suas ideias são formadas pelos gestos, pelas vozes e pela (des) organização dessa pungente Lagos.
Ele vê nas pessoas os pormenores que tanto lhe agradam na literatura de Gabriel Garcia Márquez. Tanto assim é que fica com pena dos escritores americanos que escrevem sobre melancólicos subúrbios, distanciamentos afectivos e rupturas conjugais:
“Tivesse John Updike nascido africano e teria recebido o Prémio Nobel há mais de vinte anos” Sem surpresa, a literatura serve para descodificar a realidade. Autores como Ondaatje, Swift, Gabo são recordados em “Todos os dias são bons para roubar”. É também através da literatura que Cole tenta entender “ um ambiente hostil para a vida do pensamento” devido aos poucos hábitos de leitura da população.
Em Lagos, as cores, os sons e os cheiros são agudos. A tristeza é afastada com o incessante movimento da urbe. O silêncio é uma anomalia. O barulho dos geradores a “diesel”, durante a noite, o calor e o frenesi da cidade não deixaram o autor ler nem escrever. Daquela realidade vem a arte e a impossibilidade de a criar. Para colmatar essa impossibilidade, o autor dedicou-se a uma outra paixão, que o leitor pode constatar neste livro: a fotografia de rua. Os instantâneos tirados complementam a prosa. São, no entanto, dispensáveis. Não por causa da fraca qualidade, mas antes pela riqueza da prosa, capaz de captar o rebuliço desta caótica e ambivalente cidade.
“De cada vez que eu, ao regressar a Lagos, fico com a sensação de ter caído em algo parecido com o inferno, há qualquer coisa que me volta a dar esperança- Alguém que lê um livro, uma orquestra, a amizade de alguns que persistem em remar contra a maré.”

Teju Cole é um extraordinário contador de histórias. A sua capacidade em conciliar os ambientes com a psicologia das personagens adjectiva-o como um hábil narrador.

“Todos os dias são bons para roubar” é um digno sucessor desse grande romance intitulado “Cidade Aberta”.

http://diariodigital.sapo.pt/news.asp?id_news=804099

quarta-feira, 4 de setembro de 2013

"Cidade Aberta", de Teju Cole (Diário Digital)



http://diariodigital.sapo.pt/news.asp?id_news=649997

“Cidade Aberta” (Quetzal), de Teju Cole (n. Brooklyn, EUA), exerce uma das muitas possibilidades abertas pela literatura: ensinar a fazer perguntas.
O autor, de ascendência nigeriana, esboça um mapa da mente humana, enquanto divaga pelas avenidas e ruas  de cidades emblemáticas como Nova Iorque e Bruxelas. A complexidade do relacionamento do ser humano com a sociedade, a que está ou não adaptado, e consigo próprio, numa perspectiva modernista, ou seja plural, inconstante e incoerente, é o leitmotiv de “Cidade Aberta”.
A crescente secundarização da oralidade implica, dentro das grandes cidades, mais isolamento. A voz é imersa pelo ruído. O individuo é motivado a não exprimir o pensamento. O homem fica cada vez fechado em si mesmo. Tal qual o narrador Julius.
A distância em relação ao Outro é enorme, apesar de o Outro estar mesmo ali, junto a Julius.
“Uma mulher morrera ali mesmo, do outro lado da parede à qual eu agora me encostava e eu não tinha sabido de nada. (...) Isto era o pior de tudo. Não reparara na sua ausência como não tinha reparado na alteração – porque deve ter havido uma alteração que se produzira nele [marido].” Pág. 30
A dialéctica entre a Arte (pintura, arquitectura, literatura) e a realidade é constante e essencial.
Escritores como Coetzee, De Man, Walter Benjamin, Tahar Ben Jelloun e Edward Said são citados de forma justificada. “Cidade Aberta” é uma porta para outros livros importantes para o esclarecimento/enriquecimento do leitor. Dentro desta dialéctica, Teju Cole oscila entre o pessimismo e o optimismo.

A capital financeira do Estados Unidos da América  e a capital política e burocrática da União europeia são as bases para um livro que é, essencialmente, um mecanismo literário de reflexão. Teju Cole não construiu uma narrativa assente num enredo complexo; aliás, o autor reduziu a história ao mínimo possível. A divagação emocional e intelectual ficou, desta forma, mais liberta das peripécias que surgiriam de um romance de acção.  Pouco ou nada se passa, excepto na cabeça de Julius, o médico psiquiatra, também de origem nigeriana, que nos vai narrando as suas inquietações.
Entre Nova Iorque e Bruxelas, Julius (ou Teju Cole?) aborda a clivagem entre o islamismo e o cristianismo, entre a figura de Jesus e a de Maomé, a imigração dos países do Médio Oriente e de África para a Europa e  Estados Unidos, A Questão Judaica – essencial, segundo o personagem Farouk, para a compreensão dos problemas de assimilação, adaptação e inserção cultural - a diferença entre etnias, as guerras civis no Haiti e no Uganda. Tudo apresentado num texto coerente, fluido, e de uma invulgar lucidez.
Uma das questões no texto de Teju Cole é a dicotomia entre o pensamento de Martin Luther e King e o de Malcolm X. Se o primeiro defendeu a igualdade entre todos, o segundo reclamou o respeito pela alienável diferença.
A  transversalidade do pensamento do autor nascido nos EUA, mas criado na Nigéria até aos 17 anos, permite a análise de várias vertentes do confronto cultural. Cole não se reduz a uma só parte. O leitor tem a possibilidade de “assistir” a um debate entre a cultura que recebe e a cultura recebida; tem a possibilidade, também, de acompanhar as interrogações do autor sobre as várias “tonalidades” do racismo.
Será que nos aproximamos do Outro para nos conhecermos a nós mesmos?
Seremos nós o nosso o nosso objectivo?
Nos EUA e na Europa, podemos facilmente apontar exemplos de dificuldades ou negação de adaptação pelas 2ªs e 3ªs gerações dos imigrantes, já nascidas no país onde vivem e onde fizeram a sua alfabetização. São gerações que não se revêem no seu país de origem e que adoptam uma visão romântica da cultura dos países dos progenitores.
Ultrapassado o período áureo do multiculturalismo, o cidadão é confrontado com a possível falência do projecto. A capacidade de chegar ao Outro, tanto na compreensão como no respeito, é limitada pela genética incompletude do Ser Humano. Chegamos perto, como indivíduos e sociedade, mas não o suficiente. Tentamos perceber o Outro, mas não conseguimos deixar de o julgar.
Terá o 11 de Setembro sido o epitáfio da tolerância nos EUA? Talvez não.
“Aquele sítio [do WTC] era um palimpsesto, como o era toda a cidade, escrita, apagada, reescrita”. Pág. 70


Mariorufino.textos@gmail.com



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