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segunda-feira, 26 de junho de 2017
"Trás-os-Montes, o Nordeste". Reportagem com J. Rentes de Carvalho
foto de David Rodrigues
José Rentes de Carvalho apresentou «Trás-os-Montes, o Nordeste» (Fundação Francisco Manuel dos Santos), na 30.ª Feira do Livro de Mogadouro. A Biblioteca Municipal Trindade Coelho teve muitos leitores para ouvirem falar de si e da sua terra, no penúltimo dia de Maio.
O dia seguinte foi passado em Estevais, aldeia tão presente na vida e na produção literária do autor.
A Comunidade Cultura e Arte viajou a convite da Fundação Francisco Manuel dos Santos para ouvir J. Rentes de Carvalho e conhecer a aldeia e a sua gente.
«Red Burros dá-te asas»
texto completo em :http://www.comunidadeculturaearte.com/rentes-de-carvalho-e-o-nordeste-transmontano-miseria-desgraca-e-abandono/
sexta-feira, 31 de outubro de 2014
"Montedor", de José Rentes de Carvalho
Em 2012, a propósito de «O Rebate», J. Rentes de Carvalho (n. Vila Nova de Gaia, 1930) falou com o Diário Digital sobre “Montedor”, o seu primeiro romance, agora reeditado pela Quetzal. Nas palavras do autor, este romance «foi escrito numa espécie de revolta contra a situação familiar e social portuguesa».
Rentes de Carvalho demonstra essa «revolta» através de um labirinto circular, construído com frases austeras, dotadas da eficácia encontrada, por exemplo, no Prémio Camões Dalton Trevisan. De igual modo, a cenografia é construída somente com as informações indispensáveis. Nada mais do que isso. “Montedor” contextualiza-se, pela imagética, tema e cenografia, no final da corrente neo-realista, cujos principais protagonistas foram José Gomes Ferreira, Carlos de Oliveira, Manuel da Fonseca, Fernando Namora ou Alves Redol.
A 1ª edição de “Montedor” é de 1968. O Portugal desse tempo era um país atrasado social e materialmente. O Antigo Regime impunha a inexistência de uma classe média. Era uma época em que os ricos eram os donos das soluções. Os pobres lutavam pelo pão e sonhavam com as possibilidades que o dinheiro oferece. O exterior era mistificado; o sentimento de inferioridade e a fome levavam os jovens a querer emigrar.
Este homem que nos narra a sua história é um ser preso neste ambiente claustrofóbico e sem saída visível. Pertence a uma geração perdida em terras subdesenvolvidas, rurais, ofuscada pela riqueza alheia.
A concretização dos seus sonhos de vida melhor são contrariados pelo fado guardado para os pobres. É um jovem sem saída:
“Que roube, faça mal, apanham-me e dão-me um castigo, um destino. Mas assim, quieto, parado à espera do milagre, o Pai a sustentar-me, não conto. Traste sem uso. Do menino que prometia ficou isto, o corpo inerte, a cabeça pesada de desejos que não são para satisfazer, um nojo vago do que está à volta e é vil.”
Ele é um homem preso num tempo e num espaço, económico e social, ocupados por gerações caladas pelo medo, desilusão e pela ausência de auto-estima. Seria um futuro possível para o escritor português, caso não tivesse emigrado.
Nesse meio social, a mulher era alvo de violência doméstica e limitada nos seus direitos individuais. Tudo era aceite, assim mandava a tradição. Em contraste, a educação sexual do homem era liberal.
Saramago, quando “Montedor” foi editado pela editora Prelo, reservou muitos elogios para a estreia literária de Rentes de Carvalho. O nobelizado, ainda longe de pensar em ser o escritor que viria a ser, louvou na “Seara Nova” o aparecimento deste novo escritor.
Através de um percurso peculiar, e devido a uma forte aposta da Quetzal, há muito que o autor deixou de ser desconhecido.
Através de um percurso peculiar, e devido a uma forte aposta da Quetzal, há muito que o autor deixou de ser desconhecido.
Rentes de Carvalho não sabe escrever mal. “Montedor” é a primeira prova de que um novo escritor aparecia na realidade literária portuguesa.
segunda-feira, 26 de novembro de 2012
"Mazagran - Recordações & outras fantasias", de José Rentes de Carvalho (Diário Digital)
«Mazagran - Recordações & outras fantasias» (Quetzal)
http://diariodigital.sapo.pt/news.asp?id_news=602655
J. Rentes de Carvalho não perde uma
oportunidade para contar uma história.
“Mazagran
- Recordações & outras fantasias”, livro composto por crónicas, muitas
delas em formato epistolar, não desilude quem já conhece o autor e tem a
capacidade de surpreender quem ainda não o conhece.
Mazagran, bebida típica do Maghreb e
composta por café forte, limão, açúcar e água gasosa, é um estímulo para a
conversa entre convivas. É um pretexto para a partilha de histórias. A bebida
também leva, segundo o escritor, um pouco de conhaque quando o profeta está
distraído. Este tipo de irreverência está presente nos 104 textos que
constituem este livro.
“ Além disso, devo dizer que na tua idade - vais fazer dezasseis? - Não há nada de alarmante em querer liquidar os pais. Eu próprio comecei a «matá-los» quando tinha uns doze anos e, curiosamente, também por causa da Páscoa” Pág. 21
“ Além disso, devo dizer que na tua idade - vais fazer dezasseis? - Não há nada de alarmante em querer liquidar os pais. Eu próprio comecei a «matá-los» quando tinha uns doze anos e, curiosamente, também por causa da Páscoa” Pág. 21
Nesta obra é mantido o registo sarcástico,
rabugento e sapiente que pode ser encontrado em dois livros do mesmo género
literário: “Com os Holandeses” e “Tempo Contado” (Grande Prémio de Literatura
Biográfica APE/CM Castelo Branco 2010/2011).
O trabalho sobre a linguagem é uma
característica que, pela constância tanto em ficção como em não-ficção, dota a
obra de Rentes de Carvalho de homogeneidade e notável qualidade.
Em
“Mazagran…”, Rentes de Carvalho consegue envolver o leitor da mesma forma
que conseguiu em “Os Lindos Braços da Júlia da Farmácia” (narrativas curtas),
“O Rebate” (romance), ou em “Com os Holandeses” (Crónicas).
As suas memórias são salvas
do esquecimento e formalizadas na prosa que, por ter um ritmo próprio, se
identifica como criação de Rentes de Carvalho. O contexto social mantém-se,
principalmente, na Holanda, Portugal e Brasil.
Na crónica “O prazer da viagem”, o autor
relaciona o tamanho do mundo com a velocidade com que um indivíduo o consegue
percorrer. As viagens longas são cada vez menos viáveis na contemporaneidade.
Essa redução de velocidade influencia a noção de distância, reduz a
imprevisibilidade e tem, consequentemente, importância na experiência
individual e respectiva rememoração.
A viagem, como suspensão de uma realidade para a vivência de uma outra, torna-se mais curta e mais formatada.
A viagem, como suspensão de uma realidade para a vivência de uma outra, torna-se mais curta e mais formatada.
Em “Diários” o escritor confronta-se com o
seu passado, quando analisa a evolução da sua consciência ao longo do tempo. O
medo do ridículo e a difícil dialéctica entre o “eu” presente e os “eus” que
foram desaparecendo, em “mortes” sucessivas, estão espelhados nas páginas desta
crónica.
“O diário que recebia os meus segredos, o
confidente silencioso e discreto, era afinal o mais cruel dos espelhos: apenas
capaz de reflectir a imagem incorrigível do passado (...) O que verdadeiramente
me dita urgência, porém, é o temor de que um acaso maléfico - a morte súbita, a
paralisia - coloque o meu «espelho» em mãos alheias. Que outros vejam
reflectidas nele as mil imagens que quero esquecer e que, antes de poder fazer
em paz o enterro do meu velho «eu», alguém o transforme em divertimento de
praça pública” Pág. 173
O autor não está camuflado pela ficção.
O texto “Para Romário de Souza Faria”, o
futebolista, é demonstrativo da mordacidade que a escrita de Rentes de Carvalho
pode alcançar.
“À semelhança daquele escritor que, quando lhe perguntaram o que é que ele pensava da literatura, respondeu: « Eu sou a literatura!», você com certeza sente que é o futebol” Pág.284
“À semelhança daquele escritor que, quando lhe perguntaram o que é que ele pensava da literatura, respondeu: « Eu sou a literatura!», você com certeza sente que é o futebol” Pág.284
Todos os textos de “Mazagran - recordações
& outras fantasias”, apesar de algumas inevitáveis oscilações, são dignos
da qualidade com que o escritor já habituou os leitores em Portugal.
Outrora conhecido essencialmente na Holanda, Rentes de Carvalho já conquistou o “espaço” na Literatura Portuguesa compatível com a excelência literária dos seus textos.
Outrora conhecido essencialmente na Holanda, Rentes de Carvalho já conquistou o “espaço” na Literatura Portuguesa compatível com a excelência literária dos seus textos.
Mário Rufino
Mariorufino.textos@gmail.com
Mazagran - Recordações & outras fantasias by José Rentes de Carvalho
My rating: 3 of 5 stars
O meu texto, para o diário Digital sobre "Mazagran - Recordações e outras fantasias"
http://oplanetalivro.blogspot.pt/2012...
3 estrelas em comparação com livros mais importantes na bibliografia do autor. Dentro do género - crónicas- vale mais. É um grande escritor
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O meu texto, para o diário Digital sobre "Mazagran - Recordações e outras fantasias"
http://oplanetalivro.blogspot.pt/2012...
3 estrelas em comparação com livros mais importantes na bibliografia do autor. Dentro do género - crónicas- vale mais. É um grande escritor
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terça-feira, 5 de junho de 2012
J. Rentes de Carvalho sobre "O Rebate" (Entrevista para o Diário Digital)
Entrevista com J. Rentes de Carvalho
sobre “O Rebate” -Quetzal
sobre “O Rebate” -Quetzal
-O respeito pelo leitor
implica que você não vai julgar que o leitor é estúpido porque ele não é. O que
você vai ser é muito humilde e saber que o leitor é muito competente e muito
capaz. Claro que há uns – inclusive os críticos- que não serão capazes de
acompanhar, mas a culpa é deles não é minha.-http://diariodigital.sapo.pt/news.asp?id_news=574593
Cheguei ao hotel e vi J. Rentes de Carvalho a observar um grupo de ingleses que, às 10 da manhã, bebia champanhe no átrio. De braços cruzados, rosto impávido e sereno, concentrado no grupo, não me viu chegar. Assim que me apresentei, foi ele que fez a primeira pergunta: “Você percebe alguma coisa de computadores?” e apontou para o seu portátil.
José Rentes de Carvalho é um contador de histórias. Sempre afável e conversador, não perdeu a vertente pedagógica formada pelas décadas de ensino universitário na Holanda. O motivo da nossa conversa era a edição do seu romance “O Rebate” (Quetzal), mas falámos sobre muito mais do que isso. Através desta entrevista, podemos conhecer o trajecto pessoal e o caminho que o escritor teve que percorrer até ser reconhecido em Portugal. J. Rentes de Carvalho leva-nos até outros autores. Os seus livros levam-nos até outros livros.
Começámos por falar sobre a sua colectânea de contos “Os Lindos Braços da Júlia da Farmácia” e continuámos por muitos mais temas. “Os Lindos Braços da Júlia da Farmácia”, também editado pela Quetzal, foi o livro que antecedeu “O Rebate”. No começo da nossa conversa ficámos a saber a razão de o livro ter o título de um dos contos que o integram.
Como ele gosta de dizer, “Eu vou contar-lhe outra história.”:
JRC-
O livro [“Os Lindos Braços da Júlia da Farmácia”] eram dois livros. Na Holanda
foi editado como dois. Um com o título de “O Milhão, recordações e outras
fantasias” e “O Joalheiro”. Mas quando estive a falar, cá, disse que aquilo era
tudo o mesmo e para fazermos um livro só e juntei, porque gosto muito de Dalton
Trevisan… -não conhece, não? Vá comprar já! Dois títulos: “A guerra conjugal” e
“O cemitério de elefantes”. O Dalton Trevisan é ainda vivo e é um pouco mais
velho do que eu. É director de uma fábrica de cerâmica em Curitiba (fábrica da
família). Nos Estados Unidos, na Alemanha e na Holanda é considerado o melhor
contista do mundo, mas no Brasil é só um bocadinho amado. Nos anos 60 escrevia,
no máximo, um conto de página e meia, e muito excepcionalmente duas páginas,
mas a força dele está no conto de uma página só. Os personagens masculinos são
sempre José e as femininas são sempre Maria. Outro título: “O vampiro de
Curitiba”. Agora está a ficar velho ou meio-tonto porque já tenta fazer um
conto em 6 ou 7 linhas. É um bocado exagerado. Quer dizer…ele tem razão, mas a cabeça
dele funciona de outra maneira do que a do leitor. Ele está-se nas tintas para
o leitor. Esses 3 livros: “A guerra conjugal”, “Cemitério dos elefantes” e “O
vampiro de Curitiba”. Eu tinha um colega, que foi meu tradutor e colega da
Universidade, que era um fanático de Dalton Trevisan. Ele deu-me os livros
todos e eu fiquei vendido. -Quando fiz esta junção de dois livros, escrevi o
conto que dá o título ao livro “Os lindos braços da Júlia da Farmácia”. É uma
página e ele está aí por uma simples homenagem ao homem que é fantástico! Eu
nunca vi um escritor que seja capaz de dizer de alguém “Ele levantou-se e tinha caspa nas sobrancelhas” [Risos]. Uma filha
que foi abusada pelo pai (não sabemos que foi), mas o pai morreu… Ele está no
caixão; ela está sozinha com o pai, olha para ele, põe um cigarro e vai
queimando-o aos poucos…Toda a gente devia ler Dalton Trevisan.
Tenho de lhe fazer uma pergunta que faço a mim e talvez seja a mais difícil. Por que razão só agora está a ser tão lido em Portugal?
A resposta é simples. O meu primeiro romance, “ Montedor”, foi aclamado de uma maneira “tonta” para aquele tempo. Saramago, que ainda não era uma pessoa com esta categoria, mas era um bom crítico e era respeitado, escreveu na Seara Nova uma pequena recensão…talvez de cem palavras… e deu-me uma quantidade de elogios e lançou-me no “meio” de Lisboa. Eu estava na Holanda e não segui isso. Depois houve umas tentativas de aproximação dos neo-realistas, mas tudo muito discreto. Eles disseram logo “Este sujeito não é de cá, nem quer ser de cá…”…não é no sentido da nacionalidade, ou da sensibilidade mas de não ser de cá da “capelinha” O livro foi editado pela antecessora da “Caminho”, pela “Prelo”, que era do Partido Comunista, toda a gente sabia, e três anos depois, em 71, saiu o segundo romance [O Rebate] e então caiu-me a malta em cima. Eu até pus no meu blogue [Tempo Contado] aqui há uns tempos. Entre outros, o Sr. Nelson Matos, que naquela altura era crítico: “..este gajo nem sequer sabe conjugar os verbos…isto não é linguagem…devia ter cabeça”. Eu tenho com muito orgulho aquilo no meu blogue. E depois tive uma sorte do caneco. Tinha um amigo que, por acaso, era editor holandês, director de uma grande editora, e juntávamo-nos a conversar, de vez em quando, num café. Ele bebia muito, eu bebia menos, fumávamos ambos muito, e demorávamos muitas horas a conversar. Nesse belo dia eu estava maldisposto com a vida e com a Holanda e dei uma “catanada” nos holandeses e ele ouviu, pois era um homem educado, cultivado e muito inteligente. Ao fim daquilo (demorou mais de uma hora; devo ter perdido a cabeça…) ele diz assim: “Porque é que não escreves isso?”
[acenou a cabeça negativamente] Eu estava tão arreliado com eles e com a vida… Fomos embora.
No dia seguinte ou talvez dali a dois dias recebo uma carta.
A carta trazia um cheque muito generoso e tinha um cartãozinho a dizer “e agora este é o pagamento dos direitos de autor”. E foi assim que o livro [Com os holandeses] nasceu.
Tenho de lhe fazer uma pergunta que faço a mim e talvez seja a mais difícil. Por que razão só agora está a ser tão lido em Portugal?
A resposta é simples. O meu primeiro romance, “ Montedor”, foi aclamado de uma maneira “tonta” para aquele tempo. Saramago, que ainda não era uma pessoa com esta categoria, mas era um bom crítico e era respeitado, escreveu na Seara Nova uma pequena recensão…talvez de cem palavras… e deu-me uma quantidade de elogios e lançou-me no “meio” de Lisboa. Eu estava na Holanda e não segui isso. Depois houve umas tentativas de aproximação dos neo-realistas, mas tudo muito discreto. Eles disseram logo “Este sujeito não é de cá, nem quer ser de cá…”…não é no sentido da nacionalidade, ou da sensibilidade mas de não ser de cá da “capelinha” O livro foi editado pela antecessora da “Caminho”, pela “Prelo”, que era do Partido Comunista, toda a gente sabia, e três anos depois, em 71, saiu o segundo romance [O Rebate] e então caiu-me a malta em cima. Eu até pus no meu blogue [Tempo Contado] aqui há uns tempos. Entre outros, o Sr. Nelson Matos, que naquela altura era crítico: “..este gajo nem sequer sabe conjugar os verbos…isto não é linguagem…devia ter cabeça”. Eu tenho com muito orgulho aquilo no meu blogue. E depois tive uma sorte do caneco. Tinha um amigo que, por acaso, era editor holandês, director de uma grande editora, e juntávamo-nos a conversar, de vez em quando, num café. Ele bebia muito, eu bebia menos, fumávamos ambos muito, e demorávamos muitas horas a conversar. Nesse belo dia eu estava maldisposto com a vida e com a Holanda e dei uma “catanada” nos holandeses e ele ouviu, pois era um homem educado, cultivado e muito inteligente. Ao fim daquilo (demorou mais de uma hora; devo ter perdido a cabeça…) ele diz assim: “Porque é que não escreves isso?”
[acenou a cabeça negativamente] Eu estava tão arreliado com eles e com a vida… Fomos embora.
No dia seguinte ou talvez dali a dois dias recebo uma carta.
A carta trazia um cheque muito generoso e tinha um cartãozinho a dizer “e agora este é o pagamento dos direitos de autor”. E foi assim que o livro [Com os holandeses] nasceu.
“O Rebate” foi publicado agora, mas foi
escrito quando?
Em 71
…e foi antes e depois de que livro?
Primeiro, foi “Montedor”, que o Saramago elogiou. Depois foi este [“O Rebate”] que toda a gente deitou abaixo. Teves umas críticas feitas por um sujeito que trabalhava para a Gulbenkian…”..isto não é moralidade…” enfim..
Depois,
veio o livro “Na Holanda”…
…quando diz “Na Holanda” [edição holandesa]
será “Com os holandeses” [edição portuguesa] cá ?
Sim,
sim…Tem um título “Onde mora um outro Deus”, mas eu achei que esse título não
passava em Portugal.
O êxito
foi enorme na Holanda. Foi espectacular. Tive três anos de edições consecutivas
e tive um ano quase inteiro em páginas de jornais inteiras. Nunca tinham tido
um sujeito a dizer aquelas coisas… [risos]. Eu não devo nada a ninguém, não
tenho partido nem tenho dívidas…
Esta
gente aqui… mudou depois porque tudo o que é nome na literatura portuguesa
desde 1960 até hoje todos me conhecem, todos me cumprimentaram já alguma vez e
mais! Uma grande parte, quando estive na universidade 32 anos, era convidada
para ir lá dar uma conferência e nós instalávamo-los no Hilton. Agora acontece
uma coisa: desde há dois anos essa gente que em trinta e tal anos não me
conheceu diz assim à mocidade: “Diga-lhe
lá! Eu conheço-o! Somos muito amigos! Ele que venha…” O único que fugiu
dessa miséria foi o Alçada Batista. Se eu lhe contar…houve uma visita de Estado
do Sampaio à Holanda. A Rainha, que já me convidou para sua casa, convidou-me a
mim e à minha mulher para o jantar. E disse assim “Conhece o Rentes de Carvalho, seu conterrâneo…” E o Sampaio…
[abriu muito os olhos demonstrando um ar atrapalhado] [risos]
Tenho
um outro testemunho: esse jantar era oferecido pela Rainha ao Sampaio, depois o
Sampaio ofereceu um jantar à Rainha numa espécie de igreja. Está o António
Esteves Martins, está o Jaime Gama e estou eu. Estamos a conversar, tinha
acabado o buffet, a Rainha passa com o Sampaio, olha para mim e faz assim
[acenou com a mão]; e o Jaime Gama diz assim: “Ela conhece-o????” [risos] e o rapaz da TV disse que sim, conhece…
Tenho
cartas muito bonitas do pai da Rainha a agradecer…ele gostou muito do livro,
ele próprio era alemão, por isso compreendia muito bem…Na Holanda, tenho uma
situação que não tem nada a ver. Isto tudo interessa-me só pelo lado do afecto
e da sensibilidade, mas a gente que é das literaturas…ah…
Não me interessa por uma quantidade de coisas…
Não me interessa por uma quantidade de coisas…
Agora,
estou a gozar este êxito. Eu soube ontem que depois do Peixoto sou o escritor
que vende mais. Neste momento, o Peixoto vende um pouquinho mais do que eu, mas
isso não… O carinho de ser editado na minha terra e de ser lido pela gente para
quem estes livros foram escritos! Não foram escritos para a Holanda, menos “Com
os Holandeses”… os outros não foram.
Tenho um guia de Portugal [Portugal, een gids voor vrienden (Portugal, Um Guia para Amigos)] que ultrapassou os 200.000 (duzentos mil) exemplares. Depois de ano e meio de ter saído a seguir de Portugal, foi espectacular. Esteve dez semanas acima de “O Nome da Rosa” do Eco. O ISEF fez um estudo e concluiu que no ano anterior cerca de 300.000 (trezentos mil) turistas holandeses tinham vindo a Portugal por causa do guia ou com o guia. Então o governo foi muito gentil e perguntou o que podiam fazer: “Você aceitaria uma condecoração?” Lá me fizeram Comendador da Ordem do Infante D. Henrique. Mas fizeram outra coisa…
Tenho um guia de Portugal [Portugal, een gids voor vrienden (Portugal, Um Guia para Amigos)] que ultrapassou os 200.000 (duzentos mil) exemplares. Depois de ano e meio de ter saído a seguir de Portugal, foi espectacular. Esteve dez semanas acima de “O Nome da Rosa” do Eco. O ISEF fez um estudo e concluiu que no ano anterior cerca de 300.000 (trezentos mil) turistas holandeses tinham vindo a Portugal por causa do guia ou com o guia. Então o governo foi muito gentil e perguntou o que podiam fazer: “Você aceitaria uma condecoração?” Lá me fizeram Comendador da Ordem do Infante D. Henrique. Mas fizeram outra coisa…
…foi com Sampaio?
…não,
foi com Mário Soares. Outra coisa que fizeram, que eu achei muito gentil, foi
que o governo ofereceu trazer nove jornalistas holandeses durante dez dias para
Portugal, com “carta branca” de despesas. Foi muito bonito. Depois, o meu
editor holandês, que me tinha mandado o cheque e que ganhou muitos milhões de
florins naquela altura, disse “A Editora
quer fazer alguma coisa por ti. O que é que tu queres?”
Pedi para se editar pelo menos 5 romances de Eça de Queiroz. Fizeram uma edição de luxo. E eu pus Eça de Queiroz, como já tinha posto Fernando Pessoa, na literatura holandesa. Aliás, Pessoa desde 1992 já vendeu para cima de 150.000 (cento e cinquenta mil) exemplares na tradução do meu colega. Não tem ideia do impacto de Fernando Pessoa na literatura holandesa! A tradução é genial.
O que é que traduziram na Holanda?
Pedi para se editar pelo menos 5 romances de Eça de Queiroz. Fizeram uma edição de luxo. E eu pus Eça de Queiroz, como já tinha posto Fernando Pessoa, na literatura holandesa. Aliás, Pessoa desde 1992 já vendeu para cima de 150.000 (cento e cinquenta mil) exemplares na tradução do meu colega. Não tem ideia do impacto de Fernando Pessoa na literatura holandesa! A tradução é genial.
O que é que traduziram na Holanda?
Traduziram o “Livro do Desassossego”, “ A Mensagem” e traduziram uma colectânea grande de poemas… O essencial de Fernando Pessoa.
Sabe… A vaidade está satisfeita, a parte financeira também está satisfeita….
Perguntei-lhe quando é
que tinha escrito “O Rebate” porque há uma grande diferença entre a forma de
escrever de “O Rebate” para “Os Lindos Braços da Júlia da Farmácia”[penúltimo
livro editado] …
…aí
há vinte anos de diferença.
O meu sonho na vida era ser realizador de cinema. Ainda fiz dois anos no IDHEC, em Paris, mas descobri uma coisa triste. Eu sou muito individualista e tenho horror a estar dependente, a precisar de [algo] para funcionar. O cinema não é feito pelo realizador; é pelo homem do dinheiro. O homem do dinheiro é que diz “Eu não quero essa cena. Deita fora.”. Alguém estar a dizer-me…um editor que me dissesse “Isto tem de mudar. Põe um bocadinho mais de sexo…”! Eu tenho tido uma sorte do caneco até agora: dois editores na Holanda e o da Quetzal são gente que me compreende e que se pegam [no livro] não vão mexer. Essa história do “Editor” [escola americana] … mas de quem é o livro? É meu ou é dele?
O meu sonho na vida era ser realizador de cinema. Ainda fiz dois anos no IDHEC, em Paris, mas descobri uma coisa triste. Eu sou muito individualista e tenho horror a estar dependente, a precisar de [algo] para funcionar. O cinema não é feito pelo realizador; é pelo homem do dinheiro. O homem do dinheiro é que diz “Eu não quero essa cena. Deita fora.”. Alguém estar a dizer-me…um editor que me dissesse “Isto tem de mudar. Põe um bocadinho mais de sexo…”! Eu tenho tido uma sorte do caneco até agora: dois editores na Holanda e o da Quetzal são gente que me compreende e que se pegam [no livro] não vão mexer. Essa história do “Editor” [escola americana] … mas de quem é o livro? É meu ou é dele?
Por
exemplo, O John Grisham não escreve. A Editora tem uma colectânea de cinco ou
seis ou dez sujeitos.
Ghostwriters…
Ghostwriters…
É assim. É um produto industrial. Por isso, todos os seis meses vem um livro e o homem anda de férias.
Eu sou da fase simples, do artesanal, e de eu próprio. Já vendi tanto livro que me deu aquele consolo: ”fizeste uma coisa bonita” [risos]
Já deixou a sua marca…
Portanto,
o meu sonho era o cinema. O meu sonho era escrever guiões para o cinema. Não
tinha muito interesse na literatura. A literatura era uma coisa que me parecia
tão superior, tão acima daquilo que eu podia alcançar. Li muito principalmente
Eça, Camilo, Zola, Balzac e esta gente deixou uma marca tão importante em mim
que eu olhava lá para cima.
“Montedor” foi escrito numa espécie de revolta contra a situação familiar e social portuguesa, depois veio “O Rebate” e esse era mais feito para ser um guião de filme porque é muito visual.
E segmentado, não é? Tanto a nível da estrutura, que é muito segmentada e plural (estamos com uma personagem e logo a seguir estamos com outra), como a nível de linguagem, que é como que “cubista”, ou seja fala da chuva e depois fala do cão depois fala da senhora… salta de imagem em imagem sempre com uma ideia em comum. Há coerência entre a estrutura e a construção frásica. Foi pensado assim?
Foi, foi propositado. É muito visual. Qual foi uma crítica importante que me fizeram? “Não se sabe quem é que está a falar!” [risos]
E eu disse “Você entra no livro e não está a pensar no que é que a Joana disse.” Esse é o costume dos maus escritores: “Então ele disse…e ela disse…e eles saíram”. Não! O respeito pelo leitor implica que você não vai julgar que o leitor é estúpido porque ele não é. O que você vai ser é muito humilde e saber que o leitor é muito competente e muito capaz. Claro que há uns – inclusive os críticos- que não serão capazes de acompanhar, mas a culpa é deles não é minha.
“Montedor” foi escrito numa espécie de revolta contra a situação familiar e social portuguesa, depois veio “O Rebate” e esse era mais feito para ser um guião de filme porque é muito visual.
E segmentado, não é? Tanto a nível da estrutura, que é muito segmentada e plural (estamos com uma personagem e logo a seguir estamos com outra), como a nível de linguagem, que é como que “cubista”, ou seja fala da chuva e depois fala do cão depois fala da senhora… salta de imagem em imagem sempre com uma ideia em comum. Há coerência entre a estrutura e a construção frásica. Foi pensado assim?
Foi, foi propositado. É muito visual. Qual foi uma crítica importante que me fizeram? “Não se sabe quem é que está a falar!” [risos]
E eu disse “Você entra no livro e não está a pensar no que é que a Joana disse.” Esse é o costume dos maus escritores: “Então ele disse…e ela disse…e eles saíram”. Não! O respeito pelo leitor implica que você não vai julgar que o leitor é estúpido porque ele não é. O que você vai ser é muito humilde e saber que o leitor é muito competente e muito capaz. Claro que há uns – inclusive os críticos- que não serão capazes de acompanhar, mas a culpa é deles não é minha.
Passando do nível
estrutural para o nível lexical. Há palavras que já caíram em desuso e há
muitos regionalismos…
A
menina da Câmara Clara, ontem, disse assim: “Ai!
Eu gostei tanto do seu livro e sabe porquê? Tem lá tantas palavras que eu ouvia
da minha avó, inclusive «cu de arroba» ” [risos]
Outro senhor disse “Que carinho! Pela primeira vez em cem anos eu vejo uma frase em que diz “Vós tendes lume? ”
Outro senhor disse “Que carinho! Pela primeira vez em cem anos eu vejo uma frase em que diz “Vós tendes lume? ”
O
Você nos anos cinquenta e sessenta era insultuoso! Agora vieram as telenovelas
brasileiras e limparam a coisa pelo mais baixo.
O Vós desapareceu da
oralidade… e da escrita também. Não sei se foi por escolha, mas vi que o livro
não seguiu o acordo ortográfico.
Ai
não! Por amor de Deus! Eu não sou do Acordo…É uma bandalheira, é uma coisa tosca.
Tudo aquilo que na língua, na ortografia, era sinal e ajudava… ai não sigo,
não…
Enquanto estava a ler o
livro dei comigo a pensar que era uma tragédia transmontana. Ninguém morre, mas
também ninguém se safa. Há aridez e azedume em relação à sociedade. Porquê essa
visão tão pessimista?
Não
é nada pessimista. É carinhosa. Eu já vou explicar… De vez em quando digo e não
é brincadeira: Nasci em meados do século XIX. Vila Nova de Gaia, o lugar onde
nasci, em 1946 ainda não tinha luz eléctrica. Nós íamos, nesse século XIX em
Agosto e Setembro, para Trás-os-Montes, e eu caía de imediato no Império
Romano. Já tenho dito várias vezes… Os instrumentos da lavoura que nós tínhamos
até aos anos sessenta do século passado, em Trás-os-Montes, eram os mesmos que
você encontra nas gravuras romanas inclusive o arado de pau. Isso deixaram os
romanos. O carro-de-bois, que em Trás-os-Montes ainda se vê e que as pessoas
agora põem no quintal, é o mesmo que você vê nas gravuras romanas inclusive o
tamanho das rodas.
Ora bem…eu vinha de Vila Nova de Gaia, em meados do século XIX, e chegava ao império romano.
A Margarida [Ferra] esteve lá ontem na casa que foi do meu avô. Atrás da casa está um bocado de terreno que é de um primo, mas naquela altura era, sem vergonha de ninguém, o cagadouro público. As pessoas vinham ali atrás daquela parede, as mulheres levantavam a saia e os homens arreavam as calças e, conversando, faziam ali as suas necessidades. O ânus, quem o limpava limpava-o com uma pedra com pó ou levava um bocadinho de palha. Você não vai acreditar nisto, mas é assim. Da minha infância, nos anos trinta, até quando me fui embora (tinha 19 anos), até 49, era assim. Por isso, não sou eu a “pintar” mal a situação! Você não imagina! As pessoas iam de porta em porta com uma pinha na mão… sabe o que é uma pinha, não sabe? Com uma pinha na mão, as mulheres iam às vizinhas: “Tens o lume aceso?” Para poupar o fósforo! Um fósforo!
Obviamente que havia muita pobreza. O imigrante que vem [de França] com a esposa traz hábitos completamente diferentes e…
Ora bem…eu vinha de Vila Nova de Gaia, em meados do século XIX, e chegava ao império romano.
A Margarida [Ferra] esteve lá ontem na casa que foi do meu avô. Atrás da casa está um bocado de terreno que é de um primo, mas naquela altura era, sem vergonha de ninguém, o cagadouro público. As pessoas vinham ali atrás daquela parede, as mulheres levantavam a saia e os homens arreavam as calças e, conversando, faziam ali as suas necessidades. O ânus, quem o limpava limpava-o com uma pedra com pó ou levava um bocadinho de palha. Você não vai acreditar nisto, mas é assim. Da minha infância, nos anos trinta, até quando me fui embora (tinha 19 anos), até 49, era assim. Por isso, não sou eu a “pintar” mal a situação! Você não imagina! As pessoas iam de porta em porta com uma pinha na mão… sabe o que é uma pinha, não sabe? Com uma pinha na mão, as mulheres iam às vizinhas: “Tens o lume aceso?” Para poupar o fósforo! Um fósforo!
Obviamente que havia muita pobreza. O imigrante que vem [de França] com a esposa traz hábitos completamente diferentes e…
Primeiro,
ele teve pouca sorte. Eu vou-lhe contar outra história. A Maria Isaura Pereira
de Queirós, que morreu há 4 ou 5 anos, era socióloga brasileira, professora na
Sorbonne, e conhecida em todo o mundo como socióloga. Quem via a Maria Isaura
julgava que era criada de servir. Ela foi à Prefeitura da Polícia, em Paris,
para renovar o visto e estava sentada ao lado de um sujeito e às tantas perguntou-lhe
a nacionalidade. Era português. E falou com o rapaz e disse-lhe assim “Então…está contente?”; “Estou contente,
estou contente»; “É casado?”; «Não, não sou porque eu tinha uma rapariga em
Aveiro e queria casar com ela, gostava muito dela, mas ela foi muito leal
comigo e disse que o patrão já lhe tinha feito o mal”;
E então diz a Maria Isaura assim “Mas lá na sua aldeia deve haver raparigas”; “Há minha senhora, mas não fazem nada”; “Mas então case com uma francesa!”; “Mas aqui fazem tudo!!” [risos]
E então diz a Maria Isaura assim “Mas lá na sua aldeia deve haver raparigas”; “Há minha senhora, mas não fazem nada”; “Mas então case com uma francesa!”; “Mas aqui fazem tudo!!” [risos]
É
a tragédia do sujeito que vive em dois mundos totalmente diferentes! Ou tem a
sorte de casar com uma mulher que traz dinheiro e fecha os olhos ao resto…mas
depois é confrontado…
…com aquelas situações.
Ora…Encontra-se
a si mesmo e a única coisa é fugir.
[O Rebate] Tem muitas
memórias suas?
Não tem memórias. A única coisa que tem de real é uma cena de mulheres cheias de moscas, com os xailes, no verão e no fontenário. É tudo invenção.
Anda à volta com o morto, ainda? [sobre o novo romance]
Não tem memórias. A única coisa que tem de real é uma cena de mulheres cheias de moscas, com os xailes, no verão e no fontenário. É tudo invenção.
Anda à volta com o morto, ainda? [sobre o novo romance]
Não.
Eu ontem dei a boa notícia. É um milagre. Estou à volta com o morto há mais de
dez anos e anteontem de manhã, quando acordei, estava a tomar café com a minha
mulher e estávamos a conversar e eu de repente tive um “salto” na minha cabeça
e “já sei o que vou fazer ao homem”.
Não estávamos a falar de coisa nenhuma em relação a livros, estávamos a falar
de coisas domésticas, e de repente descobri o que vou fazer. Para o ano tem
livro novo.
Mário
Rufino
segunda-feira, 12 de setembro de 2011
“Os Lindos Braços da Júlia da Farmácia”
J.
Rentes de Carvalho
Quetzal
I
“O caso do senhor
Mandel acabou por se fundir na minha memória (…) Alguns factos que inventei
tornaram-se «verdade» à força de repetições.” Pag. 126
“Os
Lindos Braços da Júlia da Farmácia” é composto por 30 narrativas escritas com a
mestria de quem sabe contar bem uma boa história. J. Rentes de Carvalho
surpreende-nos com a sua ironia queirosiana e com a fluidez de uma prosa equilibrada,
que transmite a sensação de que tudo o que é necessário está em cada frase, em
cada conto, na proporção exacta.
Se partirmos para uma análise por decomposição
dos contos (estudo fónico, das personagens, da acção, do espaço, etc.), podemos afirmar que a temática, dadas as características inerentes a uma compilação de narrativas curtas, é plural. Seguimos histórias de amor e adultério (“Um amor em Sevilha”), origem e exercício de autoridade (“Lord William”), crime passional (“A prisão nova”), contrabando (“o outro lado da paisagem”), sobrenatural (“Os medos de então”) e muito mais.
As narrativas não se limitam a uma área
geográfica. J. Rentes de Carvalho, usando as suas próprias experiências
pessoais e profissionais, coloca acção a decorrer em Lisboa (em “O incêndio de
Lisboa” diria mesmo que Lisboa é a personagem principal), no Brasil (para onde
foi viver por razões políticas), no Norte de Portugal (onde nasceu e viveu), na
Holanda (onde vive desde 1956. Foi docente na Universidade de Amsterdão), Paris
e Nova Iorque, onde viveu durante algum tempo. No aspecto lexical, esta
experiência faz-se notar em diversos diálogos com personagens oriundas do Brasil.
Nesta situação, ele credibiliza a narração manipulando o léxico e sintaxe das
frases quando assim é necessário.
“- Que besteira é essa
de quatro dias que você continua falando? Duas horas, rapaz! Eu mando o avião
te pegar e ele te deixa mesmo diante da porta. Tem pista.
Assim aprendi que,
usadas por um mortal de bolsa modesta ou um multimilionário, as mesmas simples
palavras com que convida alguém para almoçar encerram mais do que a diferença
entre dois mundos” (Gente de outro planeta, pag.297)
Em
“Gente de outro planeta” é feita uma análise mordaz sobre as desigualdades
sociais e a consequente modelação dos valores morais: “E não me refiro ao conforto nem às facilidades que o dinheiro compra,
mas a todo um comportamento e sistema de valores que só em aparência tinham
alguma coisa de comum com os do mundo em que a minha vida decorria” pag. 298
“O
incêndio de Lisboa” talvez seja o que detém mais memórias pessoais e menos
ficção. O narrador é o próprio autor. Não se “esconde” atrás de nenhuma
personagem. Como foi dito anteriormente, Lisboa é a personagem principal. Ao contrário
de muitas outras histórias neste livro, a geografia não contextualiza, somente,
o enredo. Lisboa é o que o ele quer contar. A narração é substancialmente
diferente. Aproveitando a deambulação pela cidade o autor caracteriza-a em
diversos períodos temporais e faz questão de mencionar o quanto valoriza Eça de
Queiroz: “Nos jornais e em todos os
livros de Eça- o maior dos nossos romancistas, nessa altura para mim um deus e
hoje ainda longe o meu favorito – o Chiado resplandecia, era único” pag.307
A
fronteira entre a realidade e a ficção dilui-se até quase à inexistência, não
fosse a memória ser mutável com o tempo. O autor refere-se ao seu primeiro
romance e, desta forma, sublinha o seu próprio papel dentro do enredo: “ O meu primeiro romance, Montedor, acabava
então de ser publicado…” pag. 311
Esta
dialéctica entre a realidade e a ficção é permanente. Se analisarmos, por
exemplo, “O caderno de Hakim” poderemos detectar mais uma referência a
entidades ou pessoas que, de facto, existem. Hakim, homem dotado de adivinhação,
afirma que Gabo viria a ser ainda mais conhecido do que Sartre (à época o autor
mais conhecido). Ao gritar para Gabo que ele viria a ser muito conhecido, “Gabo respondeu com um gesto obsceno e
continuou a ler o jornal” pag.227
Gabriel
Garcia Marquez (Gabo) passou a ser um personagem real dentro da ficção.
A
unidade entre os vários e diferentes textos é conseguida através dos recursos
estilísticos utilizados, pela dialéctica entre ficção e realidade e pela prosa
contida e equilibrada. J. Rentes de Carvalho consegue contar de forma
irrepreensível. A conjugação dos elementos anteriormente analisados por
decomposição é concretizada de forma homogénea. Por vezes parece que ele está
ao nosso lado, sentimos que nos conta tudo como se estivesse a falar connosco.
II
Se
há género literário em que o título se destaca, então é o conto. Principalmente
quando, numa colectânea, o título do livro remete para ele.
Segundo
Armando Moreno (1987)[i],
“O título de um livro deve funcionar
assim como uma palavra plurissémica, contendo os principais traços semânticos
de cada conto e sendo, simultaneamente, uno e vário, signo de cada conto e
signo dos contos reunidos”
No
conto “Os Lindos Braços da Júlia da Farmácia” existe uma ligação imediata entre
a apresentação e o desfecho. Os limites deste género narrativo são traçados com
exactidão. “Os Lindos Braços de Júlia da Farmácia” apresenta-se como acção
selectiva e sem dispersão e tudo (inclusive o título) está ligado à acção
principal.
No
entanto, J. Rentes de Carvalho, noutros contos, flexibiliza as características
próprias de uma narrativa curta quando informa que não poderá fugir ao facto de
ter de utilizar vários pormenores, que, por motivos de objectividade, não fazem
parte do conceito de conto. Se em “ um amor em Sevilha” afirma que “ mau grado a riqueza de detalhes com que em
geral acompanhava as recordações, neste caso particular, a sua narração era
sóbria e breve, quase como se tantos anos depois, ainda lhe fosse doloroso pôr
no retrato mais do que estritamente essencial” pag.9 já em “ Le Beuret”
afirma algo diferente: “ certas
histórias, mesmo comezinhas, só se podem contar de maneira satisfatória quando
se lhes acrescenta um luxo de pormenores. A compreensão de outras necessita do
apoio de referências: data, momento histórico, circunstâncias, antecedentes…Em
vez da meia dúzia de folhas planeadas enche-se com elas um caderno” pag.29
Conhece
as “regras” e não hesita em manipula-las e transgredi-las com segurança.
Sabemos
que utilizou muitas experiências pessoais na construção dos seus textos, mas ele
não se limita ao realismo. É o realismo real?
Em
“Le Beuret”, aproxima-se o mais possível do realismo, do mundano: “Mais adiante contarei como era meu hábito
diário pedir a monsieur Antoine « un grand créme er un croissant beurre, s`il
vous plaît» Seria estranho escrever, recorrendo aos dicionários: « Senhor
António, faça favor de me dar uma xícara grande de café com leite e um pãozinho
(ou bolo) amanteigado em forma de meia-lua». Além de não parecer a mesma coisa
e fazer rir, até o cheiro e o sabor se tornariam outros na imaginação do
leitor» pag.29, mas em “Os medos de então” interroga-se sobre os limites
desse mesmo realismo: “ Na minha infância
o sobrenatural ainda existia e amedrontava (…) O mundo era maior do que é hoje”
pag. 88
A
dialéctica entre o artifício e a realidade não se esgota aqui. Em “A quinta do
Mobutu” é demonstrada a “promiscuidade” existente entre ambos. O artifício não
elimina a realidade. Enquanto o narrador volta a casa, à aldeia onde cresceu, e
sente que a memória é traída pelo presente e a realidade não encaixa com o que
ele recordava daquele local, o “velho” quer ouvir as histórias sobre tudo o que
se passa no exterior, nas cidades. Aqui é demonstrado o quão pouco fiável pode
ser o narrador: “ Pensei desiludi-lo, mas
quando o vi assim prostrado na cadeira de encosto, os olhos semicerrados, já a
gozar, pareceu-me que seria crueldade. E então fantasiei-lhe deboches, bordéis
de luxo, ruas de pecado como em parte nenhuma existem” pag. 166
Não
se pode deixar de referir uma das principais riquezas deste livro: a capacidade
de transformação por parte de quem conta.
Opta-se,
raras vezes, pela narração na 3ª pessoa do singular (ou não-pessoa, segundo
Benveniste). A narração é concretizada num “eu” que ouviu ou assistiu
directamente ao que vai contar. A adopção desta técnica literária permite ao
autor manipular com brilhantismo a hibridez da identificação do narrador e
conjugar o artifício com a verosimilhança.
A
característica que talvez mais impressione é a incerteza na identificação da
voz narrativa (discurso indirecto livre). Muitas vezes não sabemos quem narra.
A narração acomoda-se à personagem, cola-se a ela e a voz do narrador adapta-se
à forma de pensar e falar da personagem. Esta “terceira pessoa próxima” é um
pacto íntimo entre os dois. Esta situação acontece em várias histórias e é
executada com mestria. Se em alguns casos é muito difícil identificar o
narrador, existem outros onde existe auxílio: “Ou pelo tom sigiloso, pelo seu modo expressivo de narrar, ou pela
minha natureza excessivamente impressionável, o certo é que no momento em que o
senhor Pontes começa a descrever a sua entrada na casa do morto, a barbearia e
o cliente deixam de existir, eu deixo de ser eu próprio. As palavras que ouço
são as que digo, no meu cérebro há uma amálgama de pensamentos alheios,
observações, memórias de uma vida diferente, sinto no corpo o cansaço de muitos
anos” pag. 334
III
José
Rentes de Carvalho tem controlo absoluto sobre as técnicas narrativas que
aplica na arte de contar. A leitura é fluida, não existem perdas de sentido,
malabarismos estéreis nem petulância no léxico utilizado.
Há
momentos de brilhantismo.
Arrisco
em dizer que esta obra não é somente (?) um belíssimo livro onde coexiste a
narrativa e a poética; é uma lição de bem escrever.
Em
suma, deve congratular-se a Quetzal Editores por divulgar em Portugal um
escritor exímio, que trabalha os textos até atingir o equilíbrio (quase) perfeito.
Fica a alegria de sabermos que há muito mais para ler deste autor.
Mário
Rufino


