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terça-feira, 4 de dezembro de 2018

‘O Corpo Dela e Outras Partes’, de Carmen Maria Machado, mostra-nos que o corpo é um campo de batalha






As ideologias e práticas sociais têm no corpo, especialmente no feminino, um campo de batalha. Sobre a mulher têm incidido prescrições morais e ideológicas. O sexo é ainda algo “sujo”, mantido debaixo da vergonha. A sua prática é vista como “guilty pleasure”, indigna de ser mencionada. Quando não é consentido e só existe como meio de domínio, o silêncio protege o abusador. Mas algo vem mudando nestes últimos anos.
O abuso sexual, denunciado por movimentos como os do #metoo, é de discussão pública. O mesmo se passa com a violência doméstica, crime anteriormente silenciado pela vergonha. Lentamente, a sociedade tem-se transformado e ido ao encontro de uma maior liberdade de acção e pensamento. Se é o suficiente? Não o é para quem sofre e denuncia essas limitações assimiladas ao longo de séculos.
Foi imbuída destas tensões que Carmen Maria Machado escreveu O Corpo Dela e Outras Partes (Alfaguara).
A escritora norte-americana põe o corpo no centro da questão enquanto desmonta, narrativa após narrativa, as diferentes consequências da impreparação da sociedade para aceitar a riqueza de diferentes tipos de individualidades, a redefinição do género e novas concepções de núcleos familiares.
As hierarquias esbatidas próprias de famílias organizadas em rede – e mais fragmentadas – encontram na pluralidade de narrativas e na fragmentação de muitas delas a melhor forma de análise. Essa fragmentação é ainda mais relevante em “Especialmente abominável”, onde Carmen Maria Machado “vira o jogo”.

Se a modelização das séries televisivas tem retirado relevância à ficção literária, a divisão das histórias em capítulos, que existem como parte de um todo sem perda de autonomia, fornece um maior fôlego para quem conta uma história. A autora utiliza essa estrutura na narração de várias histórias, modulares e coerentes. Inventário é outro dos contos fragmentados e, neste caso, pequenas histórias espelham a diversificada vida sexual da narradora. O sexo, para Carmen Maria Machado, é tão visceral como o de Eimear McBride, para quem a libido parece esbater fronteiras morais.
O encanto destas narrativas não depende, no entanto, de pornografia gratuita; são histórias em que a presença de elementos estranhos, como a fita de O Ponto do Marido, a defesa da liberdade sexual e de pensamento (a religião é substituída pela música e literatura em Mães) fazem com que o leitor queira acompanhar a voz de quem conta.
No fim, depois de se conhecer todas estas personagens, percebe-se que há algo de comum a todas elas.
“Se pensarmos bem”, é afirmado em O Ponto do Marido, “as histórias têm esta característica comum de se unirem como gotas de chuva num charco. Nascem das nuvens, separadas umas das outras, mas, assim que se juntam, torna-se impossível distingui-las.
É a mulher vista por uma escritora com algo para dizer, e di-lo com o mínimo de pudor. Em entrevista a Isabel Lucas, para o suplemento Ípsilon do jornal Público, a autora afirma: “Escolho as palavras que parecem adequar-se. Por exemplo, não sei como a palavra cunt [cona] foi traduzida. É uma palavra que uso porque é a minha palavra preferida. (…) O facto de ser directa, eficaz, agrada-me, por isso é uma palavra que gosto de usar. É tão bonita! É precisamente dessa forma desempoeirada e menos canónica de contar e de dar a conhecer as personagens que provam a qualidade de O Corpo Dela e Outras Partes.




segunda-feira, 22 de outubro de 2018

Shot #4: "Sessenta Contos", de Dino Buzzati






O tom encantatório de Dino Buzzati é irresistível.  “Sessenta Contos” (Cavalo de Ferro) compreende uma selecção representativa,  efectuada pelo autor, de um universo efabulado, onde o real é habitado por criaturas místicas, anacoretas, tiranos, devotos e cínicos. A singularidade da sua escrita, a simplicidade das histórias e a excelência na forma como as conta estão ao alcance de poucos escritores. Personagens como o cão Galleano, os dragões martirizados pelo homem ou o leproso inscrevem-se na realidade e na imaginação do leitor. Vivem além da última página. Mesmo nos textos seguintes, estes personagens fazem sombra nas novas criaturas inventadas pelo autor italiano. O leitor está sempre à espera de ser surpreendido com novas paisagens, acontecimentos irreais (mas verosímeis), personagens estranhas. E não sai desiludido. Por sua vez, o autor não esquece que há, do outro lado do texto, alguém que recepciona e intervém no sentido. Buzzati conta uma história sem incidir sobre um incipiente formalismo, ou uma nebulosa metaliteratura. Há uma história para ser contada, e há um leitor para ser encantado.  “Sessenta Contos” é para quem gosta e para quem não gosta de contos. É literatura apurada e do mais alto quilate. 




Sessenta Contos
ISBN: 9789896232559Ano de edição ou reimpressão: Editor: Cavalo de FerroIdioma: PortuguêsDimensões: 151 x 223 x 32 mmEncadernação: Capa duraPáginas: 456Tipo de Produto: Livro








PVP 23,99 € (IVA incluído)





sábado, 30 de dezembro de 2017

Octaedro, de Julio Cortazar




Orientar o leitor até ao sentido, dispensando o esforço de quem recebe o texto, é algo rejeitado por escritores como Jorge Luis Borges, ou Edgar Allan Poe. Julio Cortázar (1914-1984), influenciado por estes dois escritores, construiu narrativas que exigem do leitor redobrada atenção. O escritor argentino dá liberdade e pede responsabilidade, num jogo literário que depende da participação de quem decide caminhar por esta teia construída de forma exemplar. A Cavalo de Ferro continua a publicar a obra do autor de O jogo do mundo – Rayuela. Surge agora um dos últimos livros do escritor, Octaedro, publicado em 1974, mas inédito em Portugal até agora.

Octaedro é composto por oito narrativas breves em pouco mais de cem páginas, e são mais do que suficientes para o autor demonstrar a mestria ao alcance de muito poucos. A utilização de diferentes recursos estilísticos revela a capacidade do escritor argentino para contar uma história de várias formas.

A construção temporal de Liliana a Chamar é arrojada e bem-sucedida. Nesta narrativa, um homem está na antecâmara do grande sono. Nos instantes finais da sua vida, ele conta o que virá a acontecer depois da sua morte. A sua imaginação permite-lhe criar a história – com a utilização de tempos verbais como o futuro imperfeito, o condicional e o infinitivo – ainda antes de ela acontecer. O leitor não tem algo contado em media res, mas antes numa possibilidade por concretizar.



Cada conto cria um espaço próprio (o conto Aí mas onde, como é dos mais dúbios e radicais). O corte com o expectável abre uma porta para uma nova realidade, e é aí que as personagens se aproximam ou se afastam. Em boa verdade, existem várias realidades em cada conto. A tensão existente provém da clivagem entre interpretações das diferentes personagens do que vai acontecendo. Em Lugar chamado Kindberg essa clivagem provoca muita tensão não só entre os pontos de vista das personagens, mas também com o leitor. A interpretação nunca é unívoca.

Cortázar não se limita a replicar na literatura o tempo, falsamente linear. Ele introduz elementos inesperados, fantásticos, que impelem as personagens a reagir de forma diferente. Em Verão, por exemplo, uma menina provoca alterações na rotina de um casal. Mariano, o marido de Zulma, vê os rituais como uma “resposta à morte e ao vazio, fixar as coisas e os tempos, estabelecer ritos e passagens contra a desordem cheia de buracos e manchas”.

Um jogo de reflexos instalou a dúvida e o medo, rompendo com a previsibilidade diária. Um cavalo lá fora? O interior reflectido no vidro? O que representa este cavalo? A cena que sugere uma violação significa que algo os invadiu. Ela, dominada pelo medo; ele, a representação da ameaça. Tudo termina com a chegada da manhã.



Jean Chevalier, em “Diccionario de los simbolos”, afirma que o “cavalo”, como arquétipo presente na memória dos povos, “es portador a la vez de muerte y de vida, ligado al fuego, destructor y triunfador, y al agua, alimentadora y asfixiante.”
Entre as muitas possibilidades de significação, Chevalier afirma também que, ao amanhecer, “el caballo, siguiendo este  proceso, abandona sus oscuridades originales para elevarse hasta los cielos, en plena luz.” O desejo impetuoso desaparece com a chegada da luz.

Cortázar procura a colaboração do leitor. A dubiedade das palavras dos personagens, das suas posturas e da própria história introduzem variáveis que levam a múltiplas interpretações. Em As fases de Severo, talvez mais do que nos outros contos, o escritor argentino elimina as respostas a “como?”, “o quê?” e “porquê?”, mantendo o leitor em suspense e as possibilidades em aberto. O não entendimento daquele ritual e toda a simbologia cria uma ruptura com o expectável. O que estão a fazer?; porquê? Os contos de Cortázar são poliédricos, têm várias faces, tantas ou mais que as de um octaedro. E são, por vezes, analíticos do próprio jogo literário.

Os passos nas pegadas tem essa componente, ao constituir-se como uma história sobre um crítico ultrapassado pelo repórter de moda, crítico de coluna e escribas do momento. A erudição académica de Jorge Fraga foi relegada pela imediatez do consumo de textos com asserções parcamente fundamentadas. O seu conhecimento é de tal profundidade que acontece o fenómeno de interinfluência com Claudio Romero, sobre quem estuda a vida e a obra. Ele vive a vida do poeta tal qual ela não foi vivida, ou seja, os espaços em falta são preenchidos com os seus desejos, projecções e imaginação formando, desta forma, uma “vida paralela” fora do factual. A conjugação de várias interpretações constrói uma visão mais alargada e completa do indivíduo em estudo. Claudio Romero é muito mais do que dados recolhidos nos poucos estudos conhecidos. Ele é composto pelas diferentes vidas vistas por diversas pessoas com quem ele confraternizou. Tudo muda quando Fraga, já depois de ter contribuído para formalizar uma imagem icónica através da publicação de um livro com muito sucesso sobre Romero, percebe que a versão consagrada é enferma de parcialidade e erros grosseiros.

“Atingia agora o estado mais profundo da sua identificação com Claudio Romero, que nada tinha a ver com o sobrenatural. Irmãos na farsa, na mentira esperançosa por uma ascensão fulgurante, irmãos na queda brutal que os fulminava e destruía.”

A escrita sobre a captura do efémero através do jogo literário chega à excelência em Manuscrito encontrado no bolso. Este conto, um dos melhores do livro, tem uma realidade e um tempo próprio. “O jogo”, como lhe chama o narrador, tem regras “belas, estúpidas e tirânicas”. Na carruagem do metro, ele explica:

“ (…) se gostava de uma mulher sentada à minha frente junto à janela, se o seu reflexo na janela cruzava olhares com o meu reflexo na janela, se o meu sorriso no reflexo da janela perturbava ou agradava ou repelia o reflexo da mulher na janela, se Margrit me via sorrir e então Ana baixava a cabeça e começava a examinar detalhadamente o fecho da sua mala vermelha, então havia jogo (…)”

Cada estação de metro multiplica as possibilidades. O espaço e tempo subterrâneos, em que todos coincidem, exponenciam-se pelo número de saídas, ruas e pessoas. (Este espaço viria a ser importante, também, em Pescoço de gatinho preto, conto que encerra o livro.)

O autor de livros como Todos os fogos o fogo ou Gostamos tanto da Glenda não ilumina o “punto ciego”. Ele cria-o.
Octaedro não se deixa compreender numa só leitura. Cortázar é absolutamente brilhante.

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