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sexta-feira, 11 de novembro de 2016

Entrevista a Valter Hugo Mãe








São vinte anos de carreira literária e um livro novo. Valter Hugo Mãe celebra com os seus leitores um percurso com muitos momentos de sucesso. Faz furor no Brasil, onde ganhou o “Grande Prémio Portugal Telecom Melhor Livro do Ano” e o “Prémio Portugal Telecom Melhor Romance do Ano” com “A Máquina de Fazer Espanhóis”. Chegou aos lugares cimeiros dos tops da Islândia, com “A Desumanização”. Adónis, Caetano Veloso, José Saramago, Ney Matogrosso louvaram os livros do autor nascido em Saurimo (Angola). Em Portugal, “Nenhuma Palavra é exacta” (Porto Editora; org. Carlos Nogueira) reúne estudos sobre a sua obra: a poesia, os romances, o teatro e a literatura para a infância e juventude
“Homens Imprudentemente Poéticos” (Porto Editora) surge três anos depois de “A Desumanização”. A paisagem da Islândia dá lugar à magia do Japão. É nessa ilha que Valter Hugo Mãe dá a conhecer ao leitor as suas novas personagens.
Itaro, Saburo, a senhora Fuyu, o monge sábio, a menina cega e a senhora Kame são exemplos da capacidade imaginativa do autor residente em Caxinas. É através deles que Valter Hugo Mãe conta as sensações causadas pela sua visita à “floresta dos suicidas”, conforme ficou documentado em “O Sentido da Vida”, filme de Miguel Gonçalves Mendes (realizador de José e Pilar).
“Homens Imprudentemente Poéticos” tem do seu autor a toada poética e o prazer de narrar. O poeta não desapareceu para dar lugar ao prosador.

O autor conversou com o Diário Digital a propósito do seu novo livro

O teu primeiro romance  ["O Nosso Reino", 2004] é sobre um miúdo de oito anos; o segundo ["Remorso de Baltasar Serapião", 2006] tem um personagem com dezoito; no terceiro ["Apocalipse dos Trabalhadores",2008], o personagem tem mais de quarenta anos; o quarto ["A Máquina de Fazer Espanhóis", 2010] tem o senhor Silva com oitenta anos. 
Esta evolução foi propositada? 
Foi propositada. Os meus primeiros quatro romances, embora se tenham tornado conhecidos como a "tetralogia das minúsculas", são, na verdade, a construção de um tempo de vida humana. É como se eu pudesse abarcar uma vida inteira com a literatura. Não foi através da mesma personagem, porque não me era interessante fazer uma sequela contínua, uma saga da vida de alguém. A intensificação dos instantes fundamentais da vida é mais interessante: A infância, juventude, casamento, idade adulta e a velhice. De alguma forma, duvidando eu da minha longevidade, a literatura foi uma metodologia para eu viver velozmente uma vida inteira. 

Onde se encaixa "O Filho de Mil Homens"? 
"O Filho de Mil Homens" é absolutamente exterior a essa tetralogia, a essa lógica. Na verdade, não se encaixa em nada no meu trabalho. Hoje, com a saída de "Homens Imprudentemente Poéticos", já pode ser visível que "O Filho de Mil Homens" é um livro meio à deriva. Foi um texto que eu escrevi por uma pulsão muito pessoal, eventualmente até muito íntima, e que talvez tenha sido publicado pelo vício de ser normal publicar os meus textos. Talvez tivesse sido escrito para mim, como se não fosse necessário ter chegado a mais ninguém.  

Hoje, publicarias "O Filho de Mil Homens"? 
Talvez publicasse, mas alteraria o fim e faria algumas alterações drásticas. Talvez adensasse a tragédia e não criasse uma redenção em que, na verdade, não acredito. 

Com "A Desumanização" voltaste ao princípio... 
Foste o primeiro jornalista a reparar nisso. Com "A Desumanização" voltei à infância e com "Homens Imprudentemente Poéticos" voltei aos vinte anos. 

É um novo ciclo? 
É talvez uma nova tetralogia. Enquanto escrevi a tetralogia anterior, não a anunciei. Creio que a primeira vez que aventei a possibilidade de estar a fazer uma tetralogia foi exactamente depois de ter publicado "O Remorso de Baltasar Serapião", que foi o segundo livro. É curioso. Este é o segundo livro, também. 

Há três anos conversámos, por correio electrónico, sobre os conflitos do escritor, neste caso dos teus. Mencionaste a "violenta relação entre razão e inteligência emocional". Itaro e Saburo, personagens de "Homens Imprudentemente Poéticos", representam esse confronto?  
O Itaro e o Saburo interessam-me muito como inimigos que precisam de aprender a cordialidade. O esplendor do Japão tem muito a ver com a conquista dessa cordialidade. Por ser um lugar superpopulado, eles precisam de ser inimigos com respeito. Antagonizam-se, desentendem-se, contradizem-se e, sobretudo, rejeitam o estrangeiro, mas têm uma forma elegante e admirável de convívio.  Este Itaro e este Saburo simbolizam a maturação cultural do Japão, que vem de uma batalha contínua, constante e secular de carnificina e que, de repente, desemboca num esplendoroso bem-estar, numa esplendorosa espiritualidade de apaziguamento. De alguma forma, o Itaro e o Saburo são os indivíduos que estão numa batalha, numa fúria e numa promessa de agressão e que, eventualmente, chegam a um ponto em que atingem uma inimizade educada e respeitosa. 

Eles começam longe um do outro mas vão se aproximando, sem nunca ficar amigos. 
Exactamente. Eles aprendem a ser inimigos. 

Saburo, o oleiro, queria ser feliz. Escreveste "O Japão, no entanto, nunca definiria a felicidade assim". 
Ao mesmo tempo, o Saburo exceptua-se na cultura do Japão.  O japonês é contido e incapaz de adulterar as regras da Natureza. O Saburo interfere na decisão da Natureza. Ele ajardina a floresta, o que é uma intromissão sacrílega. A floresta, como dimensão da liberdade natural, não convida à adulteração. Por isso, ela não precisa de ser embelezada. A cultura japonesa de base propende para uma espécie de naturalização dos objectos e de todos os gestos, como se eles não fossem distintos da Natureza. Eles não têm de ser mais belos do que a Natureza. A Natureza é abraçada contendo o seu próprio grotesco, a sua própria perigosidade. A Natureza é que verdadeiramente decide o grau de esplendor que quer ter. O Saburo é um desrespeitoso cidadão. Ele tenta educar a Natureza. 

Através do jardim, o oleiro tenta amansar as feras e ganhar a atenção dos deuses. Li há alguns anos um texto teu publicado no Jornal de Letras em que falas das flores e do falecimento do teu pai. Que importância ou significado têm as flores para ti? 
 Foi numa das minhas primeiras crónicas para o Jornal de Letras. 
É tremendamente triste que as flores, indutoras de cor, de vida e de beleza imediata, sejam usadas para adornar, à custa da sua morte. Parece que as sacrificamos, embora na verdade não pensemos muito assim. A impressão que me dá é que quando asseamos os túmulos com as flores, estamos a sacrificá-las em prol dos nossos mortos. Não estamos muito distantes de outros povos que degolam as galinhas. Nós não temos a percepção de que, de algum modo, também matamos para elogiar e celebrar os nossos mortos. 

Disseste que não acreditas em redenção. Vejo muita tristeza nos teus livros. Escreveste em "Homens Imprudentemente Poéticos": "Ilustrava o desespero com o talento". Aplica-se à tua escrita? 
Sim, todos os meus livros são uma tentativa de ilustrar a disforia. Aqui há uns anos, alguém me perguntou se eu tivesse de escolher uma palavra portuguesa como a mais bela de todas qual seria. Eu escolhi "disforia". É uma espécie de desalento profundo. A ideia de disforia talvez esteja patente em todos os meus livros. O que eu procuro fazer, com toda a carga poética que emprego nos livros, é partir da disforia para uma possibilidade sublime, que seria essa redenção, mas que é sempre um projecto literário. Na verdade, tenho cada vez menos a convicção de que essa aspiração, essa construção para o sublime, possa ser aplicada à cidadania, ou mesmo à vida. 

Os teus primeiros escritos foram aos seis anos; uns versos sobre a praia.  Neste novo ciclo escolheste o Japão e a Islândia. São ilhas. A escolha dos locais foi propositada? 
Sim, foi.
Há pulsões; há livros à espera. É como se eu tivesse ao longo da vida uma acumulação de livros que ainda não escrevi, mas que esperam por mim. A escolha do Japão foi sedutora, muito também por isso. A deslocação do universo islandês para o japonês é enorme. Eu queria muito a possibilidade de partir para um livro que, apesar de comungar um esforço poético com "A Desumanização", não fosse um livro capaz de ser "A Desumanização". Por isso, eu queria muito deslocar-me para uma mundividência, para uma atmosfera que me desse, por natureza, a impossibilidade de repetir "A Desumanização". No meio das possibilidades todas que eu tinha para escrever um livro, de tudo o que tinha guardado acerca do Japão, achei que trabalhar outra vez com uma ilha faria um díptico interessante com "A Desumanização". 

Essa mudança de ambiente e de referências implicou uma mudança de linguagem? 
Há uma secura maior em relação a "A Desumanização". Há uma poeticidade mais controlada, que acaba por interferir na sintaxe, mas menos exuberante nas imagens. É claro que tem muitas imagens, mas investe mais na desconstrução do lugar das palavras na frase, ou de deturpação do lugar das palavras na frase, e menos no lirismo imediato e puro, como acontecia em "A Desumanização". 

E qual a importância do mar para ti? Estamos a falar de ilhas, vives perto mar, escreveste versos sobre a praia... 
O mar é sempre a aparência do vazio. Podemos olhar para aquela folha de água, como uma página limpa de um livro que ainda não se escreveu. É só aparentemente destituído de texto ou de discurso. O mar, na verdade, é tudo menos vazio. É um contentor tremendo. É o maior dos contentores. A relação com essa planura, com essa máscara, é muito sugestiva. Essa máscara induz-me medo. Lembro-me de quando fui para ali [Caxinas] morar, com os meus nove anos, desconfiar da quietude da água e de achar que num qualquer dia de Inverno a água seria capaz de galgar. Por que razão é que o mar decide parar na areia? A maior parte das Caxinas estão construídas no antigo areal.  

É uma zona com situações dramáticas... 
Essa realidade, que é a das pessoas do mar, é de tragédia expectável e constante. Claro que isso me marcou muito. Os meus pais tiveram um café, dos meus nove aos dezassete, dezoito anos. Nesse tempo, via clientes, que eram também amigos, a desaparecer. Recebíamos a notícia da morte daqueles jovens. Os pescadores eram inevitavelmente jovens. 

E a relação entre o homem e a montanha? Acontece no Japão, mas também existe na cultura ocidental. Moisés e o Monte Sinai, por exemplo. 
A elevação. O lugar da terra que se aproxima do céu, como indicador de proximidade com Deus, com a divindade.  Há uma coisa interessante no imaginário japonês. A maneira como eles dizem montanha é próxima da maneira como eles dizem selvagem. Isso significa que uma montanha é iminentemente um espaço selvagem.  Se viajarmos no comboio-bala, que vai de Tóquio a Quioto, vemos uma paisagem com muita população, mas as casas estão postas nas planícies. As colinas, por vezes ínfimas, são puramente selvagens. Não há intervenção. Existe esse conceito de que a montanha é selvagem. É sacralizada. 
Eu quase transformo a montanha numa personagem porque tento aludir à dimensão sagrada da montanha.  

Itaro parece renascer quando sai do buraco. Há a elevação divina e há um buraco no chão, um ventre... 
Sim, o ventre do Japão. É como se ele deixasse de se conceber como filho de alguém para se conceber como filho da natureza do Japão. Ele nasce daquilo que o sábio monge chama de ventre puro do Japão. Ele recomeça o seu percurso já não por generosidade dos seus pais, mas porque ele participa no espírito divino, animista, do próprio Japão. O hinduísmo, que é a religião endémica do Japão, é puramente animista. Eles têm um deus para cada coisa, para cada detalhe.
Há um deus para as ervas, um deus para as canas, outro para o bambu, um deus para a água, para o vento, para as laranjas... 
Nós simplificámos e juntámos tudo num deus.
Eles querem dizer que cada coisa é divina. Se arranjares um deus para todas as coisas, tu distingues o deus da coisa, mas se arranjares um deus para as laranjas tu dizes que as laranjas são divinas. Há um deus que só toma conta das laranjas. Ela é a obra fundamental de um determinado deus. Isso explica muito a consciência do japonês. Ele respeita todas as coisas, inclusive todas as coisas feias.  

O bicho dentro do poço escuro, sem ser visto, é mais sugerido do que descrito. Cabe ao leitor projectar o seu inimigo ou medo? 
É sobretudo para que o leitor seja confrontado com a escuridão. O Itaro no poço tem uma experiência de cegueira. Foi interessante descrever as coisas ao leitor, obrigando-o ao mesmo tipo de cegueira.  O que eu gosto desse longo capítulo é exactamente a respiração mais paulatina que nos obriga à aprendizagem de uma outra condição, que é a de cegueira. 

Esta alegoria é o capítulo mais longo do livro.  Pensaste nele ao longo da escrita, ou foi a génese do próprio livro? 
Um dia, numa das versões do livro, estou a contar à minha mãe alguns pormenores e aquilo que eu queria criar na história. Disse-lhe, numa daquelas conversas simples e despreocupadas na hora de almoço, que precisava que o Itaro experimentasse a cegueira sem estar cego. A minha mãe, com toda a naturalidade do mundo, disse-me para o atirar para o fundo de um poço. Eu fiquei pasmado. "Eis a minha mãe no seu melhor", pensei. Fez todo o sentido.  

"É fundamental que prepare a fome. A arte da fome", escreveste neste livro. "Arte" e "Fome" são, para mim, antagónicos. Que arte é esta? 
"A Arte da Fome" esteve quase para ser o título do livro. Não foi porque um amigo islandês me avisou de que Paul Auster tem uma recolha de ensaios sobre Arte com esse título.
A aprendizagem é uma espécie de preparação para a miséria. Tem que ver com o Itaro prevendo que empobrecerá mais ainda. Ele precisa de afeiçoar-se à fome, como se precisasse de fazer uma aprendizagem de uma miséria mais profunda e um despojamento mais profundo para subsistir.  

Itaro tem muito medo do escuro e do bicho. Ele tenta conquistar o inimigo com a bondade. Não será aqui que a ficção se afasta mais da realidade? 
Ele diz sempre que está a conceder a liberdade ao inimigo. Ele considera sempre aquele animal como inimigo e predador.  Com abnegação e bondade, Itaro consegue devolvê-lo à liberdade. O bicho será outra vez o predador em solta, sem a sua natureza ter sido alterada. De alguma forma, Itaro acredita nessa possibilidade de redenção. Sem querer, ele fez o ofício das flores do Saburo. Tentou domesticar a fera selvagem. Tem a ver com as utopias, com o nós acharmos que podemos ultrapassar aquilo que é a natureza.  

Itaro significa primogénito? 
Sim, primeiro filho. 

Continuas à volta do tema da paternidade. 
Até certo ponto está pressuposta a família. Ao chamar primeiro filho ao Itaro, está pressuposto um pai. No livro acaba até por entrar fantasmagoricamente culpando-o de alguma coisa. Ao princípio, Itaro não consegue imediatamente definir o quê. 

Fizeste várias versões do livro. O artesão Itaro "era um deus revoltado com a sua criação." Isto acontece-te, como artesão das palavras? 
Quantas vezes fico frustrado com os textos, com o facto de não conseguir clarificar o que verdadeiramente quero... É como se eu pressentisse o livro, mas não o conseguisse evidenciar e concretizar; ou como se estivesse a escrever nesta sala o que está para lá daquela parede, na outra sala. Sinto o que se passa na outra sala; consigo auscultar os seus movimentos. Através dos sons posso construir imagens, impressões e distâncias. Posso começar a imaginar as cores.  

Nesse exercício acabaste por deixar algumas personagens fora do livro? 
Nesse exercício de abandono das diversas versões caíram personagens.  

Sem revelar muito do livro, pode-se dizer que há uma personagem muito forte que, na verdade, não está. A senhora Fuyu... 
É uma personagem forte que não está. É mais importante do que outras que estão presentes. 

Numa entrevista à Visão [22/01/2010], dizes esperar que os livros sejam um percurso com o qual tu aprendas e te aproximes das pessoas e, de vez em quando, façam justiça a alguém. 
Seis anos mais tarde, pensas que alguma vez foi feita essa justiça? 
 Não sei se hoje chamaria justiça, mas que valeram para alguém, valeram. Reiteradamente recebo mensagens e encontro pessoas que me vêm agradecer a importância que algum livro meu teve na sua vida. Por exemplo, no caso esdrúxulo de "O Filho de Mil Homens", há pessoas que decidiram ter filhos depois de ter lido aquele livro. Inclusive, casais que não queriam ter filhos e estavam prestes a separarem-se, mas que se solucionaram depois da leitura daquele livro.  
Chega ao ponto de chamarem Valter a algumas crianças. 

Sabes o que responder numa situação dessas? 
Não sei. Fico atrapalhado, porque há uma responsabilidade minha que eu não consigo assumir. 

Lembro-me de uma situação no Fronteira – Festival Literário de Castelo Branco, em que uma rapariga, apesar de estar muito nervosa, conseguiu dizer que tinha ido ali só para agradecer-te pelo teus livros.  Pelas salas sempre cheias por onde passas, essa aproximação foi conseguida. 
Sim, penso que sim. Quem me acompanha e quem presta a mínima atenção à pessoa que eu sou percebeu que não crio uma barreira entre mim e o leitor. Não tenho a convicção de que uma pessoa se deve exceptuar do convívio com os outros. Por isso, ainda que em determinado momento possa querer ficar quieto e só, o normal é estar disponível para encontrar as pessoas.


http://diariodigital.sapo.pt/news.asp?id_news=848348


segunda-feira, 18 de janeiro de 2016

“Contos de Cães e Maus Lobos”, de Valter Hugo Mãe






A simplicidade é fruto de muito trabalho. Valter Hugo Mãe (n.1971) procura que a luz entre no texto. E consegue. “Contos de Cães e Maus Lobos” (Porto Editora) reune 11 histórias simples. São contadas com a tradicional sinceridade e sensibilidade do multipremiado autor português.
Antes de “Contos de Cães e Maus Lobos”, o público infantil já havia sido chamado a habitar a imaginação do escritor. Obras como “O Paraíso São os Outros”, “As Mais Belas Coisas do Mundo” e “O Rosto” foram pensadas e escritas para as crianças.
“Contos de Cães e Maus Lobos” tem potencialidade para agradar a várias faixas etárias O habitual leitor dos romances de Valter Hugo Mãe não se vai desiludir. As crianças que agora já lêem ou, simplesmente, ouvem as histórias pela voz do pai ou da mãe são encantadas. As narrativas foram construidas para elas e têm na ética a principal substância
 “Eu queria ser sagaz, ter perspicácia, estar sempre inspirado. O meu avô pedia que não me desiludisse. Quem se deslide morre por dentro. Dizia: é urgente viver encantado. O encanto é a única cura possível para a inevitável tristeza."
Assuntos como a liberdade, física ou de pensamento, a harmonia entre Homem e Natureza, a perda da inocência, a velhice, a relação dos meninos e meninas com os pais e os avós marcam o conteúdo dos contos. E a Morte, também. “As Mais Belas Coisas do Mundo”, um dos contos mais intensos, mostra o início da noção de finitude por parte da criança. A inocência vai desaparecendo no vazio deixado pelos seus avós.
Já em “O Mau Lobo”, a relação da neta com a avó é de espanto e de respeito.
“A minha avó traz um milagre de cada gesto”, afirmou a menina enquanto levava bolinhos frescos pelo meio da floresta e dos lobos. “O Mau Lobo” é uma reinterpretação de “O Capuchinho Vermelho”, conto publicado por Perrault e, posteriormente, pelos irmãos Grimm. Valter Hugo Mãe substitui o duelo entre animal e homem, entre malícia e inocência, pela total harmonia entre hipotéticos opostos. Sempre numa prosa encantatória e com a colaboração de diversas artes plásticas.
O interesse de Valter Hugo Mãe pela pluralidade da expressão artística encontra neste livro motivo para promover a participação de diversas áreas. A letra do escritor coopera com a criatividade de Ana Aragão, Paulo Damião, David de La Mano, Filipe Rodrigues, Joana Vasconcelos com Alice Vasconcelos, Daniela Nunes, Nino Cais, Luís Silveirinha, Cadão Volpato, José Rodrigues, Graça Morais, JAS, Duarte Vitória. A relação com os livros começa no autor, passa pelos diferentes artistas presentes até ser directamente abordada em “O Rapaz que Habitava os Livros”:
“Os livros estão esbugalhados a olhar para nós. Quando os seguramos, páginas abertas, eles também estão esbulhados a olhar para nós”
Em “Contos de Cães e Maus Lobos”, a ligeira amargura é o pórtico da reconciliação. Os 11 contos foram trabalhados até atingirem simplicidade. A preocupação com a oralidade está presente em todas as narrativas. São textos para serem descobertos e transmitidos de pais para filhos.
A criança entra num mundo-espelho do escritor: inteligente, sensível e com incrível capacidade de criar empatia com o outro.
Mia Couto, autor do prefácio, escreveu que “a escrita de Valter sugere, a todo o momento, que os outros somos nós mesmos”
No “Fronteira - Festival Literário de Castelo Branco” aconteceu um de muitos momentos exemplificativo dessa capacidade de Valter Hugo Mãe.
Uma leitora levantou-se no meio do público para fazer um comentário sobre a escrita do autor. Muito nervosa, disse que ao filho recém-nascido, quando ele começasse a ler, ela lhe colocaria um livro do Valter Hugo Mãe nas mãos.
Este pode ser esse livro.
“Contos de Cães e Maus Lobos” nas mãos e na imaginação de uma criança é uma excelente conjugação.

 http://diariodigital.sapo.pt/news.asp?id_news=806797

Mário Rufino



quarta-feira, 2 de outubro de 2013

Entrevista com Valter Hugo Mãe (Diário Digital)





Um dos autores mais emblemáticos da nova geração, Valter Hugo Mãe está de regresso com «A Desumanização», editado pela Porto Editora, uma obra onde a sensibilidade encontra-se ao virar de cada página. Para o escritor nortenho, «no lugar de Deus deve-se colocar a Arte».
Valter Hugo Mãe é um escritor diferente. E isso nota-se na sua escrita, onde as frases ganham um relevo poético. O autor garante que os os livros não o correspondem, mas é impossível não «vermos» VHM nas páginas das suas obras. Como afirma nesta entrevista, Valter Hugo Mãe pretende apenas «proporcionar a felicidade possível aos que amo». Os leitores agradecem tanto amor…

O que é desumanizar?
No contexto do meu novo romance, trata-se de perder sensibilidade, robustecer, não permitir a vulnerabilidade para persistir sendo gente. Para não perecer.

No seu novo livro, mudou de contexto, viajou para a Islândia, mas levou os seus demónios. O que seria diferente se o tivesse escrito em Portugal?

Devo ter levado parte dos meus demónios mas a Islândia é um reduto de fantasias. Um espaço de tradições esdrúxulas, histórias macabras e encantadoras que nunca abdicaram, sobretudo, da permissividade e da intensa imaginação. Vejo a Islândia como uma terra na qual os sonhos e os pesadelos, a euforia e o medo convivem numa inusitada mistura. Sem a Islândia creio que poderia falar dos temas mas nunca chegaria à mesma plasticidade. A Islândia confere um imaginário distinto, como se a estética fosse necessariamente afinada a partir do seu ambiente.

A razão da minha pergunta deve-se à inquietação que o leitor sente ao ver que o autor se expõe imenso no texto; o Valter põe o coração no texto. É possível falar dos seus livros sem estar a falar do mais intrínseco que há em si?

Não estou certo de que isso seja assim. Acho que os meus livros são intensos e sempre aproximam o leitor do que vai escrito. Sugerem uma intimidade. Mas, ainda que incluam parte das minhas mais sinceras preocupações ou desejos, os livros não me correspondem. Eles não contam exactamente a minha ida.
Freud denomina “forças impulsionadoras da arte” aos conflitos do escritor. Quais são os seus conflitos?
Sobretudo uma violenta relação entre a razão e a inteligência emocional. Também uma dificuldade constante em encontrar motivos para a vida e, ao mesmo tempo, precisar de encontrar pontos de esperança e, mais do que tudo, manter quem me ama motivado e feliz. Quero muito proporcionar a felicidade possível aos que amo.

Apesar de toda a sua [autor] exposição, há uma forte carga simbólica no texto (espelho, flores, morte, deus, boca, sangue, fogo) de “A Desumanização”. É uma forma de se proteger?

Creio que é um modo de fazer ver. O texto deste livro é muito feito da carga visual dos fiordes. As imagens são nítidas, ou pretendem sê-lo. Foi-me muito importante investir tudo na força das expressões, porque o estar ali não é nada menos do que avassalador. Um relato qualquer não faz ver a Islândia. Apenas os símbolos e a propensão para um certo absolutismo ou tremendismo.
Crisóstomo e pais de Sigridur. Para eles há a ausência, diferente conforme o caso, de um filho. Há um tipo de amor que tem urgência em se dar, mas não a quem. O Valter escreve sobre o tema para superar essa ausência [filial, paternal, amorosa] que sente?
Não escrevo para superar essa ausência. Escrevo para a entender. Entender a ausência e entender a potencial presença.

A morte é uma presença constante nos seus livros. Não é - para diversas personagens em diferentes livros seus - necessariamente o fim. O que o motiva a falar da morte? Medo? Curiosidade?

Não existem assuntos para além dos da morte e dos da vida. Tudo se divide entre uma coisa e outra. Não há nada mais escondido do que a morte e mais complexo do que a vida. Os livros fazem-se desses temas. É inevitável que me proponha pensar sobre eles. O sentido de todas as coisas, inclusive da literatura, só pode estar na utopia de cumprirmos em esplendor a vida e redimirmos tanto quanto possível a morte.

Qual a relação entre Halla e Valter Hugo Mãe? E entre Sigridur e Casimiro, seu irmão?

Há um paralelo ténue. Tive de crescer respeitando, e de certo modo amando, um irmão que nunca vi. Crescemos com a percepção da ausência, do lugar vazio de alguém. Fiz muitas conjecturas acerca da semelhança ou diferença que haveria de existir entre mim e esse irmão. As semelhanças e diferenças entre a minha vida e a morte dele. A Sigridur e a Halla acabam por ter uma questão assim estabelecida. Que é insanável. Não tem resposta. Nunca tem.

A perspectiva da irmã, pai e mãe sobre a morte de Sigridur é o Valter a colocar-se no papel de irmão e dos pais [em relação ao seu irmão]?

Não. Isso não. Não me coloco no lugar das personagens. Sei sempre que um romance é um percurso pela ficção. No máximo, as personagens coincidem comigo em algum sentimento, mas nunca me iludo ao ponto de achar que me retrato. Na verdade, nunca me retrato, apenas me sirvo do património de estar vivo e sentir para melhor entender o que sentiria uma personagem se vivesse também.

Há ligação entre o Sr. Silva de “A Máquina de Fazer Espanhóis” e o pai de Sigridur? Estamos perante a continuação da homenagem ao seu pai?

Não pensei nisso. Creio que não. O senhor Silva também não será o meu pai, apenas me permitiu reflectir acerca da terceira idade, algo que me propus fazer depois de perceber que não teria o meu pai como exemplo. O pai da Sigridur e da Halla prossegue algumas das minhas fixações relativas à validade dos textos, à capacidade que eles terão de mudar o mundo.

A mãe de Sigridur é o contraponto da ideia que tem da mulher? Parece-me ser uma mulher mais fraca, que cede perante a dor.

Nada. As mulheres são muito mais pragmáticas e resistentes do que os homens. Ao menos genericamente parece ser assim. Quis que a mãe das gémeas fosse como é no livro para criar uma força oposta entre as personagens femininas. A mãe encrudescendo e a Halla urgindo numa redenção. Como se fossem polos distintos, apartando-se, como se uma fizesse a morte e a outra tivesse de fazer a vida.

Na FLIP, 2011, afirma o seguinte: «Não sei se a Arte nos deve salvar, mas tenho a certeza de que pode conduzir ao melhor que há em nós para que não nos desperdicemos na vida». É um assunto presente em “A Desumanização”. A Arte é a melhor forma de comunicar connosco e com o divino? É dádiva em vez de prece?

É a única prece em que acredito. A arte é o melhor que podemos fazer, no sentido em que ela nos conduz ao extremo e mais genuíno de nós próprios. É a construção mais profunda de que somos capazes. Acredito nisso. Sim. No lugar de Deus colocar a Arte.

Em entrevista a Sílvia Souto Cunha (Visão; 22/01/2010), a propósito de “A Máquina de Fazer Espanhóis” afirma: «Há idosos que definham depois de se reformar, outros depois de tratarem de um filho ou neto, ou de perderem o companheiro… é como se a vida deles se justificasse através daquela relação». Halla encontra Einar, mas os pais de Halla vão desistindo de tudo ao perder Sigridur. Ainda é possível, nesta sociedade, morrer por amor? Ou viver para o amor em detrimento do sucesso?

Eu espero que sim. Sou um indivíduo eminentemente afectivo. Preciso de confiar que ainda somos capazes de colocar aqueles a quem amamos no centro das nossas ocupações e cuidados. Só interessa termos arte, e a arte ser divina, se o dividirmos com alguém. Os outros são o resultado de todo o esforço. No romance também se diz isso. Diz-se: “A beleza da lagoa é alguém”. Significa que a lagoa só é bela porque o podemos apreciar com alguém. Porque existe quem connosco possa discutir e partilhar o deslumbre.

Que evolução (temática, estilística…) encontra na sua obra, desde “O Nosso Reino” até “A Desumanização”?
Não serei o melhor juiz, mas tendo a ver uma depuração nas expressões que não sendo simples o parecem. Essa simplificação que melhora os sentidos, clarifica as ideias agrada-me muito e é resultado de muita escrita e reescrita. “A Desumanização”, por exemplo, tem um intenso trabalho de linguagem mas mantém alguma candura, como se as energias do texto fossem conseguindo um equilíbrio entre a aspereza do que se conta e a beleza como tudo quer ser contado. Quero muito a beleza dos textos. Muito.

A obrigatoriedade de publicar regularmente, própria de quem vive da escrita, não fatiga emocionalmente o escritor? Esgotará rapidamente a temática?

É ao contrário. Quero sempre escrever mais e mais. Escrevo coisas que guardo porque não faz sentido publicar mais. É fundamental deixar ao leitor o tempo suficiente para ler, sentir vontade de ler. O autor, por norma, respira pelos textos. Não pensa senão em textos. Quer textos. Viver da escrita, ao menos em Portugal, talvez seja possível apenas para quem tenha essa obstinação. Não sei. Na verdade, não há receitas. Tudo pode acontecer e todos os modos são legítimos. Eu escrevo muito. Passo os meus dias viciado em encontrar palavras que me ajudem a traduzir cada instante.

Mariorufino.textos@gmail.com



"A Desumanização", de Valter Hugo Mãe (Diário Digital)



A intensa inquietação de Valter Hugo Mãe.

http://diariodigital.sapo.pt/news.asp?id_news=655153

Valter Hugo Mãe (n. 1971; Saurimo, Angola) tem a coragem de se desnudar perante o leitor. As palavras são o espelho das suas emoções, das suas fundações psíquicas. O escritor põe o coração no texto.

Em “A Desumanização” (Porto Editora), Halla, “a menos morta”, é uma menina islandesa cuja irmã gémea (Sigridur) faleceu muito nova. É pela sua voz que o leitor vai acompanhando a acção passada nos fiordes islandeses.
Será ela a narrar, durante os dois a três anos após a morte da sua irmã, a decadência da família, as transformações do seu corpo, a ruptura com a infância, a luta pela individualidade, o desaparecimento da ingenuidade, e a dor, principalmente a dor causada pela perda.
A morte de Sigridur vai consumindo a sua família, devagar, por dentro. Os pais vão morrendo de tristeza. A mãe, personagem destrutiva, é o contraponto do pai. Ela, para ultrapassar a dor, projecta a presença de Sigridur em Halla.
“[a mãe] Não admitia que dissesse que estávamos mortas uma da outra. Precisava, outra vez, que eu representasse a vida da Sigridur. Era imperioso que eu fosse a Sigridur também. E ela dizia: não tinhas este sinal. Quem tinha este sinal era a tua irmã. Aqui, no pé do pescoço. Aqui. Estás a ver. Eu fazia que sim com a cabeça. Calada. Ela parava de me bater.” Pág. 110
O Pai, no entanto, tem uma ligação diferente com a “menos morta”. É pela sua influência que Halla conhece a literatura, as limitações da palavra, a divina beleza da poesia.
Ainda durante o período em que Sigridur está viva surge uma figura masculina: Einar. O homem, que era nojento aos olhos de Sigridur e de Halla, tem uma história por contar. Um segredo que a amnésia impede de ser revelado. Ele será essencial no desenvolvimento e epílogo do enredo.
 Apesar da Islândia não se assumir como força primordial do romance, e como tal não permitir conferir características do povo islandês, o país onde o autor escreveu “A Desumanização” é mais do que um elemento pitoresco. A Islândia é importante no desenvolvimento psicológico das personagens. A sua geografia enfatiza a solidão.
 “Tudo na Islândia pensa. Sem pensar, nada tem provimento aqui. Milagres e mais milagres, falava assim. E tudo pensa o pior.” Pág. 47

“O sonho desperto”, que é a escrita/ leitura de ficção, permite ao autor exorcizar acontecimentos da sua própria vida através de sonhos, símbolos, metáforas, comparações, imagens e conflitos dramáticos.
Esses conflitos, a que Freud chama de “forças impulsionadoras da arte”, são a motivação inerente a toda a obra do escritor. Em “A Desumanização”, o recurso a símbolos (espelho, flores, morte, deus, boca, sangue, fogo…) e a colocação de hipóteses, com maior ou menor probabilidade de concretização (“como se…; “queria que…”; “talvez…”; “ou se…”) são estratégias fundamentais na construção da narrativa.
“Pensei que a alma de uma montanha poderia cair e tombar sobre mim e eu, tão pequenita, haveria de morrer esmagada. Ou, se a alma de uma montanha me entrasse no corpo e me fizesse crescer como um gigante, seria magnífico.” Pág. 83
A utilização destes recursos abre o texto a novas possibilidades e sentidos. A simbologia existente dota o texto com uma assinalável riqueza semântica e complexidade psicológica.
“Para a boca de deus atirei o meu filho. (…) Era uma flor alva de pólen de carne. Desceu. Escureceu na boca de deus. Entrou para o lado absolutamente silente do poema.” Pág. 129
A prosa de Valter Hugo Mãe, tanto neste livro como nos anteriores, partilha algumas das características do simbolismo, pois dela emerge a viagem pelo interior do escritor que, por sua vez, recorre à revitalização de vocabulário indevidamente banalizado (amor, coração), a ousadas combinações vocabulares e à secundarização do materialismo e da racionalidade.
A utilização da sinestesia, tão usada pelos românticos e pós-românticos, é um traço estilístico muito presente em “A Desumanização”.
Quando Thurid se senta ao piano, dentro da igreja, os sons apropriam-se das propriedades das cores, num exemplo de utilização da sinestesia de forma eficaz e equilibrada.
“E a Thurid tocava e outra vez murmurava e, subitamente, entendemos muito bem. Dizia: azul, azul, negro, branco. A Thurid achava que pintava. Achava que as teclas eram pincéis e via, certamente nas costas dos olhos, telas grandes de caleidoscópios maravilhosos. Quando ouvimos claramente as cores que enumerava, vimos também.” Pág.186
Arte dentro da Igreja. Nos romances de Valter Hugo Mãe existem temas que são recorrentes: A morte, a decadência física (desfiguração, velhice), o amor filiar, o amor paternal, a solidão e a religião.
No interior de uma escrita humanista, Valter debate a existência de uma entidade divina e da instrumentalização da fé. O episódio com Thurid permite que vá mais longe. O autor eleva a Arte a oração e elege a música como a expressão de eleição.
“ De verdade, tinha sido missa bastante escutar aquelas variações. Nenhuma tarefa faltava. Deus estava servido. Assim se servira, melhor do que nos passados domingos. Diziam as nossas pessoas. Muito melhor do que alguma vez o servíramos por ali”. Pág. 188
As palavras têm capacidade limitada. Só na poesia o som se alia à forma para chegar ao divino, à Verdade. De outra maneira, as suas limitações impedem a capacidade de o ser humano transmitir os seus pensamentos e a suas emoções. Na palavra não cabe a necessidade de o ser humano se transmitir.
“As palavras são nada. Deviam ser eliminadas. Nada do que possamos dizer alude ao que no mundo é. Com trinta e duas letras num alfabeto não criamos mais do que objectos equivalentes entre si, todos irmanados na sua ilusão” pág. 46

A presença contínua destes traços estilísticos, ao longo dos 6 romances do autor, forma um estilo de cariz psicológico, emocional, mas ao mesmo tempo cognitivo. Mas até este romance só “o remorso de baltasar serapião” (Prémio José Saramago 2006) conseguira a quase perfeita simbiose entre a sensibilidade do autor e o seu estilo, entre o conteúdo e a forma.
Em “A Desumanização”, a concatenação de diferentes imagens e acções resulta em impressões de invulgar beleza e lirismo. A caracterização psicológica das personagens é perturbante.
“A minha mãe disse: fazes tudo assim, maldita, fazes tudo como se fosses um bicho. Vou gostar de te ver morta como um bicho também.
E eu respondi: morra a senhora também, minha mãe" Pág. 126
O enredo, simples e linear, envolve o leitor. A vulnerabilidade do autor é inquietante. O texto é a projecção da sua estrutura emocional: dos seus medos, anseios, dramas, esperanças...
A combinação destes factores faz de “A Desumanização” uma obra com possibilidades atingir ou ultrapassar a qualidade literária de “o remorso de baltasar serapião”.
Este livro mostra o autor no seu melhor.
O leitor está perante uma das ficções mais intensas da obra ficcional de Valter Hugo Mãe.
Quem gosta do estilo do autor ficará a gostar ainda mais. Quem não gosta talvez tenha uma agradável surpresa.

Mário Rufino

Mariorufino.textos@gmail.com






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