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sexta-feira, 6 de abril de 2018
Michael Palin: ‘Gostaria de escrever sobre o politicamente correcto, que está a ameaçar o desenvolvimento da comédia’
Texto publicado em Comunidade Cultura e Arte:
https://www.comunidadeculturaearte.com/michael-palin-gostaria-de-escrever-sobre-o-politicamente-correcto-que-esta-a-ameacar-o-desenvolvimento-da-comedia/
A 3ª edição do “Tinto no Branco - Festival Literário de Viseu” foi iniciada com a participação de Ricardo Araújo Pereira e Michael Palin. Cerca de 800 pessoas assistiram a "E agora para algo completamente diferente”, no início de noite gélida do primeiro dia de Dezembro.
O programa de “Tinto no Branco”, cujas actividades decorreram no Solar do Vinho do Dão, indicava a “Tenda Jardins de Inverno” como o local da primeira conversa deste festival literário. Mas tal não viria a acontecer.
A organização teve de a reprogramar para um local diferente do previsto. Os muitos e-mails recebidos e as chamadas telefónicas atendidas indicavam uma enchente inesperada até para os mais optimistas. A tenda com 200 lugares era insuficiente. Em consequência, o palco foi montado na zona envolvente e 600/650 cadeiras foram distribuídas pelo espaço. Uma hora antes do início (18:00), a fila para entrar indicava grande afluência. Quando começou, a temperatura tinha descido para os 5 ou 6 graus centígrados, não havia cadeiras desocupadas e as laterais estavam preenchidas por pessoas que assistiam em pé. As mantas e os aquecedores tentaram contrariar o frio, mas foram os dois convidados que o conseguiram com mais eficácia. O público só se levantou para ovacionar no fim da conversa.
Na manhã desse dia, Michael Palin disse que ainda não conhecia o seu interlocutor, mas que tinha lido um texto dele numa revista, ainda no aeroporto. O “Monty Python" viria a perceber que o “Gato Fedorento” era a escolha perfeita para estar com ele em palco. A empatia foi imediata.
Numa conversa em inglês, os dois humoristas recordaram alguns dos momentos dos Monty Python e o percurso do autor inglês após o fim do grupo.
Michael Palin considera-se um sortudo [“a lucky bastard”], que nunca levou nem a fama nem a si próprio demasiado a sério. A criatividade do actor inglês não se esgotou com o grupo humorístico. Palin escreveu ficção, literatura de viagens e diários.
“Escrever é o que mais gosto, pois é o acto criativo primordial”, começou por dizer. Os sketches são mais fáceis de escrever do que livros com 250 páginas.
As viagens são histórias que precisam de ser contadas. Livros como “À Aventura com Hemingway”, “A Volta ao Mundo em 80 Dias” ou “De Pólo a Pólo” registam essas experiências. É vital que sejam partilhadas com os leitores.
Quando Ricardo Araújo Pereira perguntou se ele não teria que estar casado com uma mulher muito tolerante, devido às ausências em viagem, Palin disse que “ela é mais do que paciente. Ela encoraja-me a partir. Quando volto, ela continua bem. Não perdeu peso, nem está a arranhar as portas com as unhas. Houve uma vez, voltava eu de uma viagem de 10 meses pelo Pacífico, em que encontrei um bilhete a dizer «hoje é noite de jogar “badminton”. O jantar está no forno»”.
Foi em ambiente familiar que encontrou a motivação para começar e manter um diário que hoje dá ao leitor uma ideia mais clara da relação entre os elementos dos Monty Python.
“Eu e a minha mulher tínhamos tido o primeiro filho. Eu fumava muito, nessa altura. Quando Tom [filho] queria ir para o meu colo, eu tinha de tirar o cigarro. Ele depois tentava comer o cigarro pousado no cinzeiro. Pensei que fumar e ter crianças não iria e resultar. Parei de fumar”
Essa demonstração de força de vontade, que até ali era desconhecida para o próprio, levou-o a concretizar uma ideia antiga. Depois de várias tentativas, Michael Palin decidiu começar um diário. Decorria o dia 16 de Abril de 1969, 3º aniversário de casamento. Está casado há 51 anos e continua a escrever.
“É muito diário. É uma grande narrativa”
É através desse registo que se pode conhecer melhor a forma de trabalhar dos Monty Python e da relação entre Palin e os seus colegas, especialmente John Cleese.
Segundo Palin, escrever os sketches nas duas primeiras épocas era incrível. Toda a gente contribuía com alguma coisa. Na 3ª época, perceberam que estavam a ficar sem energia. John Cleese queria sair para fazer outros trabalhos.
“Em alguns dias era frustrante. Por exemplo, quando John dizia que não queria fazer mais shows, enquanto viajávamos pelo Canadá em tour”.
A animosidade com John Cleese foi sugerida por diversas vezes no desenvolvimento da conversa. Ricardo Araújo Pereira disse que tinha escrito o prefácio para a autobiografia de John Cleese ["Ora, como eu dizia..."] e foi logo interpelado por Michael Palin: “Por que fizeste isso? Precisavas de dinheiro?”
E enquanto o humorista português fazia uma analogia entre o trabalho dos Monty Python, Chaplin e Seinfeld, Palin apontou para uma enorme traça que esvoaçava sobre Ricardo Araújo Pereira e disse que estavam sob ataque. John Cleese tinha enviado um drone.
Essa animosidade era parte da própria dinâmica do grupo. Palin, sublinhando que gosta de todos os seus colegas, afirmou que os Python eram uma série de felizes acidentes e que Cleese e Graham precisavam muito desse “confronto”. Para ele e para Terry Jones, tinha de haver humor e prazer em fazer o que estavam a fazer. Não tinham a necessidade de Cleese e de Graham em estarem zangados e em serem competitivos.
É por essa razão que Palin é considerado “The nice Python”, sugeriu Ricardo Araújo Pereira.
“Eu penso que o enganei”, respondeu Palin. “Só sou simpático quando comparado com os outros Pythons”
Dessa dinâmica criativa surgiram “Papagaio Morto”, “A Canção do Lenhador”, “A Loja dos Queijos” e “Sr. Hitler”, entre outros sketches, filmes e peças de teatro.
Apesar de nunca terem chegado ao “Top 20” do Reino Unido, o grupo tornou-se um fenómeno mundial que abrange várias gerações. Quando escreviam comédia, tudo era um alvo. Estranhamente ou não, podiam falar de quase tudo através da comédia porque isso não havia sido feito até àquela data. O critério de escolha dependia somente de eles próprios se divertirem com o que produziam.
Como é que hoje “A Vida de Brian” ou “A Canção do Lenhador” seriam recebidos, perguntou Ricardo Araújo Pereira.
“É difícil dizer, porque ainda são populares. Ainda são vistos e debatidos. Se alguém poderia escrever algo de novo sobre travestis, transgénero ou religião, eu não tenho a certeza. É um debate interessante. Eu gosto de dizer que o humor ilumina tudo e não há nada demasiado sério que não se possa defender do humor”.
No entanto, hoje vê em si mais limitações do que as que viu quando escreveu “A Vida de Brian”:
“Quando me perguntam se eu escreveria sobre o Islão da mesma forma, eu digo: De maneira nenhuma! De maneira nenhuma! Existem pessoas perigosas por perto.
No entanto, gostaria de escrever sobre o politicamente correcto, que está a ameaçar o desenvolvimento da comédia”
Sobre os grandes assuntos hipoteticamente apontados nos filmes dos Monty Python - Religião, Mitos e História do Reino Unido, Vida- Michael Palin aplicou o humor auto-depreciativo e desvalorizou a importância desses temas. É, sobretudo, sobre o comportamento humano.
Durante uma hora, Ricardo Araújo Pereira dirigiu a conversa com a inteligência que lhe é reconhecida. Um Gato Fedorento entrevistou um Monty Python. Foi muito mais do que um feliz acidente entre dois homens invulgares.
domingo, 1 de novembro de 2015
Fólio – Festival Literário Internacional de Óbidos: Ricardo Araújo Pereira e Luís Fernando Veríssimo
By
Mário Rufino
20:28
Festivais, Festival Literário Óbidos, Fólio, Luís Fernando Veríssimo, Ricardo Araújo Pereira
Festival de Óbidos rendido a Ricardo Araújo Pereira e Luís Fernando Veríssimo
http://diariodigital.sapo.pt/news.asp?id_news=796139
Ricardo Araújo Pereira (Lisboa, 1974) e Luís Fernando Veríssimo (Porto Alegre, 1936) debateram ideias sobre o humor, com moderação de Nuno Artur Silva, no Fólio – Festival Literário Internacional de Óbidos. Foi a “Mesa de Autores” (6ªfeira, dia 23) com maior assistência do Festival.
O cronista brasileiro confessou vir preparado para falar de comida, mas só tardiamente percebeu que esse não era o tema da mesa. Já Ricardo Araújo Pereira disse que tinha aceitado participar no Festival para poder ouvir Luís Veríssimo sem ter de ir para a bilheteira.
Sobre comida, o humorista português afirmou que gosta de pratos que podem ser descritos por uma palavra só, como “Bacalhau”, “Cozido”, “Chanfana”. Hoje vê-se nos restaurantes pratos que precisam de várias linhas para serem definidos. “Descrevem uma série de processos que fazem com que eu sinta não ter habilitações literárias para comer aquilo.”
E aconselhou, num acto de antropofagia, que se “comesse” Luis Fernando Veríssimo, declarando assim a sua admiração pelo colunista brasileiro. Algo que foi prontamente desaconselhado pelo pelo próprio. A sua carne, segundo o humorista brasileiro, já não era assim tão tenra devido aos seus quase 80 anos.
Entre constantes tiradas humorísticas, Ricardo Araújo Pereira definiu-se como “ um tipo que escreve piadas”. “Gosto de ver aquilo que acontece a uma pessoa quando ela se ri”, afirmou.
A “convulsão” que o ouvinte tem, sem o humorista lhe tocar, implica arte. Essa capacidade de fazer rir advém de muito trabalho. Ricardo Araújo Pereira recusa a hipótese de se nascer com um dom; ao invés, acredita ser possível aprender as técnicas que possibilitam fazer rir.
Um humorista tem um olhar de criança sobre as coisas, sobre os pormenores. É uma observação de filigrana. A mesma história pode ser uma tragédia ou uma comédia. A distância temporal também é essencial para o humor. Conseguimo-nos rir, anos depois, de algo que nos aconteceu e que nos transtornou nesse momento.
Luís Fernando Veríssimo considera-se mais depressivo do que humorístico. “Eu não sou um humorista espontâneo”, declarou. É consequência de muita técnica aprendida ao longo dos anos. Quando escreve, o seu objectivo é, principalmente, tornar a leitura agradável.
E qual o poder do humor?
Segundo o elemento dos “Gato Fedorento”, o humor não triunfa sobre coisa nenhuma. O humor diminui o medo, principalmente o medo principal: o da morte.
O autor brasileiro lembrou o hipocondríaco que, no leito de morte, deixou o seu epitáfio: “Eu não disse?”
A morte, para Veríssimo, é a maior piada de todas. Deus é humorista. Dá-nos tudo e depois mata-nos. Só pode ser uma piada.
No campo político, a sua intervenção durante a ditadura brasileira obrigou-o a ser inventivo e a usar muito a metáfora. Disso advinha a satisfação de saber que não o conseguiam calar totalmente. “O humor mantém o senso crítico nas pessoas”.
A crítica política tem estado muito presente no trabalho de Ricardo Araújo Pereira, mas o humorista não vê nos seus “sketches” importância suficiente para definir uma eleição. “Tentar intervir politicamente através de piadas é como tentar construir uma ponte com doçaria conventual. Não funciona.”
Um dos “sketches” mais famosos dos “Gato Fedorento” foi a imitação de Marcelo Rebelo de Sousa protagonizada por Ricardo Araújo Pereira, a propósito do referendo sobre a interrupção voluntária da gravidez.
“No fim do referendo, houve analistas que disseram que o nosso sketch tinha tido uma importância decisiva no resultado. Não tenho a certeza. Primeiro, posso garantir que não o fiz para ter influência. Fi-lo porque achei que tinha graça. Segundo, era impossível prever se ia ter e que influência teria. (…) Um lindo dia de sol no dia nas eleições pode ter influência. Isso não significa que o sol esteja a fazer política. É um exemplo bom para mim por comparar-me com o astro-rei”
Ainda segundo Ricardo Araújo Pereira, o “Daily Show” (EUA), de John Stewart, fez muita sátira política a George W. Bush. Isso não pediu que o Republicano ganhasse. Duas vezes.
Os humoristas portugueses estão mais atentos aos humoristas americanos e brasileiros do que aos europeus, mas diferenças entre Portugal e Brasil existem e podem fazer grande diferença. Ricardo Araújo Pereira sente-se mais confortável a improvisar em língua inglesa do que, estando em terras brasileiras, em Português do Brasil.
Segundo Luís Fernando Veríssimo, Portugal tem um português “meio espremido” por causa do espaço. O Brasil tem um espaço enorme. Isso permite que se explane.
Nuno Artur Silva recordou a frase de Agostinho da Silva: “o brasileiro é o português à solta”.
Dois humoristas de excelência pertencentes a gerações diferentes e a continentes distantes não defraudaram as elevadas expectativas.
O público encheu o espaço da “Tenda de Autores” para ouvir o diálogo entre os dois. A julgar pelas ruidosas gargalhadas, deu o dinheiro pago pelo bilhete (5 euros) por bem investido.

