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quinta-feira, 25 de agosto de 2016

"O Aroma do Tempo", de Byung-Chul Han





Em tempo de devoção à velocidade, suspender o movimento para reflectir é um acto de coragem. Byung-Chul Han (n.Seul, 1959) propõe em "O Aroma do Tempo – um ensaio filosófico sobre a Arte da demora" (Relógio d`Água) a revalorização do ócio.
Segundo o ensaísta nascido na Coreia do Sul, “o ócio remete para o pensar como thorein, como contemplação da verdade". Está distante do desligamento ou afastamento da realidade.
O trabalho, imposto como castigo a Adão e Eva quando expulsos do Paraíso, é regulador do carácter. Deus castigou a desobediência impondo o trabalho. Só através do labor Adão e Eva puderam satisfazer todas as necessidades outrora garantidas pelo Divino.
A mudança de paradigma também teve a religião como força impulsionadora. A Reforma viria a ampliar o conceito de trabalho para algo mais do que a satisfação de necessidades primárias. Até ao movimento que viria a dividir a Igreja, a vida activa era menos importante do que a vida contemplativa. As orações marcavam o início, o ritmo e o fim de cada dia. Posteriormente, Lutero viria a associar o labor à vontade de Deus.
O medo da condenação eterna é afastado através do trabalho, que ganha, desta forma, um sentido salvífico. A hierarquia é o espelho da elevação do indivíduo. O Belo e o Nobre, tão louvados por Aristóteles, foram substituídos pelo utilitarismo. Hoje, somos o que produzimos. A existência é quantificada e demonstrada em índices. A coesão social depende da capacidade produtiva. Quando se estuda, afasta-se a possibilidade de abstracção. Estuda-se para fazer. Um existe para alimentar o outro. A possibilidade de parar para reflectir é um luxo. A inutilidade de algo deve ser eliminada. Tudo é útil, ou não deve existir.
A contemplação, com a inutilidade como parte integrante da sua riqueza, é um vício dos ociosos. É algo que os produtores de riqueza permitem a quem é "extravagante", "diferente" ou "inadaptado". A inacção cataloga o ocioso como preguiçoso ou improdutivo
A crise temporal advém da eliminação da contemplação. Tudo tem de ser rápido e comensurável.  A nossa existência é fragmentada em vários planos, sem alcançarmos qualquer um deles em profundidade. Trocamos a essência pela pluralidade superficial.
Fazemos um zapping pelo mundo, sofrendo do que Heidegger chama de "desassossego distraído" e de "carência de morada". Para Byung Chul-Han, é por isto que "cada um de nós se torna qualquer coisa de radicalmente passageira".
A Literatura não escapa a esta hipervelocidade social (nem a crítica literária).
Byung-Chul Han afirma que "o tempo avança cada vez mais rapidamente no curso do romance. O que faz com que, num mesmo número de páginas, se apresentem, no princípio do livro, apenas umas quantas horas de tempo narrado, horas que depois se transformam em dias e acabam por ser semanas, de tal modo que, no final da obra, se comprimem meses e anos num pequeno número de páginas".
É a antítese de Proust. O aroma do tempo existe na madalena do autor de "Em Busca do Tempo Perdido" e na sua chávena de chá. A Magnum Opus de Proust é um exemplo do que se tem perdido com a fragmentação do tempo. A construção proustiana sustenta "o edifício enorme da recordação", algo que a atomização actual do tempo já não permite.
Byung-Chul Han sustenta as suas afirmações com vasta bibliografia, demonstrando, desta forma, ser um leitor voraz. Nietzsche, Heidegger, Adorno, Bouchillard, Zygmunt Bauman, Aristóteles, Arendt e São Agostinho, entre outros, abrem novas possibilidades ao leitor de "O Aroma do Tempo". O autor de "Psicopolítica"(Relógio d`Água) e “A Sociedade do Cansaço” (Relógio d`Água) indica caminhos sem cair na tentação do ostensivo "name dropping".
Byung-Chul Han preocupa-se em comunicar com o leitor. Os capítulos são curtos, os textos são extirpados de metalinguagem obscura, as ideias são explicadas claramente. Professor de Filosofia na Universidade de Artes de Berlim, Byung-Chul Han alia a pedagogia ao desenvolvimento teórico. O aluno/leitor não é secundário; o ensaísta/ professor não "fala" para se ouvir.
Em "O Aroma do Tempo – um ensaio filosófico sobre a Arte da Demora" são desenvolvidas ideias sobre a decisiva influência da organização do trabalho no comportamento do ser humano e na percepção do tempo.
A coacção, explícita em "Psicopolítica", encontra-se implícita nesta obra. A regulamentação comportamental por forças económicas tem o seu substrato em ideias religiosas. A coação existe sem o ser humano ter disso consciência. A optimização de processos físicos e mentais, abordada em "Psicopolítica", é desenvolvida nesta obra por diferentes prismas.
O "idiota" de "Psicopolítica" é aquele que se afasta para contemplar em "O Aroma do Tempo". Ele personifica a solução, aquele que percebe que "o tempo perde o aroma quando se despoja de qualquer estrutura de sentido, de profundidade, quando se atomiza ou aplana, se enfraquece ou se abrevia.” O "idiota" é aquele que contempla. E quem contempla dá coesão ao tempo e permite o resgate da narrativa como força criadora.


http://diariodigital.sapo.pt/news.asp?id_news=836877

quinta-feira, 24 de dezembro de 2015

Ha Letra#3 "Psicopolítica" (Relógio d`Água), Byung-Chul Han. Por Mário Rufino na Rádio Universidade de Coimbra










sexta-feira, 18 de setembro de 2015

"Psicopolítica" (Relógio d`Água), de Byung-Chul Han



«Psicopolítica»: o idiota é o verdadeiro indivíduo

http://diariodigital.sapo.pt/news.asp?id_news=788668
A descodificação de uma matriz precisa de alguém com excepcional capacidade para conciliar o conhecimento de quem está sob essa matriz e a lucidez de quem a analisa com distanciamento. Byung-Chul Han (n.Seul; 1959) demonstra ter construído essa indispensável competência. Depois de ter estudado Metalurgia, em Seul, foi para a Alemanha, onde estudou Filosofia, Literatura Alemã e Teologia. Actualmente, é na pátria de Friedrich Schiller e Johann Wolfgang von Goethe que o autor sul-coreano lecciona Filosofia. «Psicopolítica» (Relógio d`Água) é uma obra límpida, comunicativa e esclarecedora.
Os academismos estão ausentes do livro, o autor teve a preocupação em passar a sua mensagem, e o leitor sai, sem dúvida, com uma outra perspectiva da realidade que o formata.
Byung-Chul Han não se distancia do seu objectivo: Fazer-se compreender. Isso beneficia “Psicopolítica” de uma pedagogia que favorece a compreensão da obra. O autor não necessita de se refugiar numa metalinguagem obscura que, em tantos casos, esconde a falta de conteúdo. Os seus textos são curtos; as frases são refinadas até estarem o mais claras possível. A nomenclatura de influências existe para reforçar as ideias e para abrir outras possibilidades ao leitor. O professor de Filosofia (Universidade de das Artes de Berlim) não usa e abusa do “name dropping” para se elevar perante o leitor. Antes pelo contrário. A sua preocupação é pensar e passar uma mensagem. Para isso, ele adapta a linguagem ao receptor.
“Psicopolítica” tem uma palavra-chave na análise a que se propõe fazer sobre a liberdade: essa palavra é Coacção. As actuais formas de controlo da liberdade são diagnosticadas pelo autor sul-coreano. E Coação é apontada como a raiz da Biopolítica, que consiste na forma de governar através do poder disciplinar, e da Psicopolítica. A Psicopolítica é uma forma de domínio muito mais sofisticada. Na Psicopolítica, o ser humano submete-se a si próprio sem ter consciência disso. Ele é o seu próprio controlador.
Segundo Byung-Chul Han, “o poder disciplinar descobre a “população” como uma massa de produção e de reprodução a administrar meticulosamente. É dela que se ocupa a biopolítica. A reprodução, as taxas de natalidade e de mortalidade, o nível de saúde, a esperança de vida tornam-se objecto de controlos reguladores.”
A família, a escola, o cárcere, o quartel, o hospital e a fábrica são “espaços disciplinares de reclusão”. Este tipo de controlo enfrenta problemas devido à sua rigidez e enclausuramento. A evolução das tecnologias veio dar outras características às formas de produção. A Psicopolítica é a resposta a essas mudanças. O “poder fazer”, inerente à Psicopolítica, motiva o ser humano a ser captor de si próprio. A divergência entre classes sociais é eliminada (ou diluída); é o agora empresário (neo) liberal a impor a si próprio as condições de produção. Byung-Chul Han sublinha a ausência desta possibilidade em Karl Marx.
Assim, o Marxismo deixa de ser uma perspectiva de leitura do actual regime neoliberal. “O eu como projecto, que crê ter-se libertado das coacções externas e coerções alheias, submete-se a coacções internas e a coerções próprias sob a forma de uma coacção ao rendimento e à optimização” Daqui resultam novas patologias como a síndrome de esgotamento profissional e a depressão.
Na Psicopolítica “não se produzem objectos físicos, mas não-físicos como informações e programas. O corpo como força produtiva já não é tão central como na sociedade disciplinar biopolítica. Para aumentar a produtividade, não se superam resistências corporais, mas optimizam-se processos psíquicos e mentais”
Psicopolítica e biopolítica convergem em vários pontos. Byung-Chul Han salienta a relação de ambas com a produção, embora a manifestação seja díspar entre as duas.
Em textos breves, os vários tipos de poder vão sendo analisados. As redes sociais proporcionam, hoje, um original controlo sobre o ser humano É o próprio homem que se expõe e se submete a esse controlo. As informações prestadas são um produto. Ou seja: o próprio homem transforma-se em produto num mercado onde tudo se vende e tudo se compra. O “Big Data” é um sofisticado mecanismo de controlo alimentado com informação pessoal pelo próprio indivíduo.
“Comunicação e controle coincidem na totalidade”, afirma Byung-Chul Han.
Como criticar algo em que se é interveniente principal e onde se tem uma falsa ideia de liberdade?
A livre circulação dessa informação pessoal permite um pan-óptico ao ser humano. Tudo é visível por todos os elementos. É um modelo de prisão, onde se pensa estar em liberdade. Lembra “Matrix”, não lembra?
A solução, para Byung-Chul Han, é o idiotismo.
O idiota é o verdadeiro indivíduo, um “Neo” que foge ao possível e ao consenso; ele apresenta uma solução fora dos parâmetros formatados. O idiota vive desconectado e tem opinião desvinculada da realidade.
“Fazer-se idiota foi sempre uma função da filosofia (…) Desde o início, a filosofia está fortemente ligada ao idiotismo. Todo o filósofo que engendra um novo idioma, uma nova língua, um novo pensamento, será necessariamente um idiota.”
“Psicopolítica” é um livro sobre a formação da vontade, escrito com intuito pedagógico e, como tal, pensado para comunicar. É sobre si, caro leitor, e em como se transformou no seu próprio produto.

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