News

segunda-feira, 18 de março de 2019

CELA| Connecting Emerging Literary Artists: Cătălin Pavel


CĂTĂLIN PAVEL


 CELAConnecting Emerging Literary Artists




O Projecto:

O projeto CELA (Connecting Emerging Literary Artists) abre o palco europeu a uma nova geração de criadores literários. Permite uma cooperação transnacional intensiva entre talentosos escritores, tradutores e profissionais literários europeus em início de carreira. No decurso do projeto, os participantes enfrentam algumas das mais exigentes realidades da nossa era — de fraturas cada vez mais acentuadas na Europa a um setor editorial em mudança — e põem-nas em perspetiva, partilham o seu trabalho e colmatam o fosso que os separa do setor editorial e do público europeu.
As organizações literárias de seis países europeus uniram forças para fundar o projeto de incubação de talentos cela — Connecting Emerging Literary Artists. Partilhamos a necessidade de estabelecer uma infraestrutura sustentável de incubação de talentos para preservar a diversidade da literatura europeia e dar maiores oportunidades a línguas minoritárias. 
O projeto proporciona um percurso de dois anos com formação, instrumentos e uma rede que visam tornar possível uma carreira internacional e estabelecer uma prática profissional integrada. Com uma atenção em competências e mobilidade transnacional, incluímos especialmente as oportunidades digitais na literatura, novas formas de os participantes conseguirem emprego e rendimento.
Cada edição do projeto cela decorre durante dois anos. No primeiro ano, as organizações literárias orientam os escritores, tradutores e profissionais literários e proporcionam-lhes um programa multinacional de residências, formação e master classes para os preparar para trabalhar no mercado europeu e para um público internacional. No segundo ano, os participantes são inseridos por via de marketing internacional e campanhas publicitárias, uma digressão por festivais
europeus e apresentações ao público e a profissionais europeus por escritores e tradutores de renome (os nossos embaixadores cela) e organizações literárias. 

Os autores e tradutores participam em campanhas internacionais, festivais literários em diferentes países e numa rede de trabalho que proporcionará contacto entre todos os participantes.
Kick-Off: Hay Festival Segovia (Espanha)Tinto-no-Branco- Festival Literário de Viseu (Portugal), Book Fest (Roménia), Pisa Book Festival (Itália), Lev-Literatura em Viagem (Portugal), Passa Porta Festival (Belgium), Wintertuinfestival (Holanda) recebem os autores e tradutores do projecto CELA.


Parceiros:
Booktailors
Escuela de Escritores
Flemish-Dutch House deBuren
Passa Porta
Pisa Book Festival
Wintertuin


Biografia

CĂTĂLIN PAVEL

Ano de nascimento 1976
Nascido na Roménia
Vive e trabalha em Bucareste

–  Romance Aproape a șaptea parte din lume     (A Sétima Parte do Mundo ou por aí,             Humanitas, 2010), tradução francesa La         septième partie du monde (Non Lieu, 2017)
Romance Nicio clipă Portasar (Portasar Nenhum Instante, Cartea Românească,        2015)
–  Romance Trecerea (A Passagem, Cartea  Românească, 2016), vencedor do prémio      nacional romeno Ziarul de Iași (2016) e        nomeado para o Prémio da    União dos Escritores (2016)
Romance Chihlimbar (Âmbar, Polirom,      2017)
Poesia (última publicação): Adagietto        (2016)




Sobre Cătălin Pavel
«Todas as profissões com que uma criança sonha são incertas. Escritor, ator, bombeiro ou astronauta, enquanto criança, não se pensa em termos de uma perspectiva de futuro. Não, uma criança sonha sem limites. E o emprego dos seus sonhos sempre foi escrever. Sabia disto com toda a certeza: eu iria ser escritor.»
Cătălin Pavel, escritor e arqueólogo, pode ter sido um sonhador enquanto criança, mas no ensino secundário começou-se a sentir entediado. Ele constatou que tinha que refletir acerca de coisas maçadoras.
«É assim que as coisas funcionam, não é?», diz ele próprio. «A minha convicção inabalável de que, mais tarde, viria a escrever, começou-se a desvanecer durante o ensino secundário. De repente, uma pessoa constata que tem que refletir acerca de coisas sem o mínimo de interesse. Enquanto adulto, uma pessoa tem que se comportar de forma responsável. Tem que se escolher uma carreira com perspectiva de futuro e segurança financeira.»
É então que Pavel descobre a arqueologia, uma profissão, ainda assim, insegura. Ele desata-se a rir acerca disto. «Foi na altura da mudança de século. Encontrava-me, pela primeira vez, numa escavação arqueológica e esta experiência foi incrível. Apaixonei-me completamente pelo trabalho, pelas pessoas e pelo cenário. É de uma beleza enorme trabalhar com um grupo de pessoas apaixonadas num trabalho de reconstrução, numa área completamente deserta.
Entretanto, Pavel já tem um número vasto de escavações arqueológicas em seu nome, em países como a Turquia, Marrocos e Roménia, entre outros. Para além de pesquisa arqueológica, também contribuiu para um dicionário mitológico. É assim que se consegue perfilar como autor, porque, na realidade, Pavel nunca parou de escrever. «É algo que corre no meu sangue, e do qual não dá para escapar. Escrevo constantemente e em qualquer lugar. Quem diz que não tem tempo para escrever não é escritor. Mesmo quando não há tempo, é possível escrever.
Precisamente nestes momentos, quando tal se irrompe.» Pavel repete-o com frequência, através do uso de diversos exemplos:
a sua mestria tem um carácter artesanal. Ele não acredita, assim, em inspiração. «De forma alguma», diz ele de forma resoluta. «Inspiração não vem ter com uma pessoa, de repente. Ela encontra-se ao nosso redor. Olhar
para aquilo que se encontra à nossa volta é suficiente. A minha escrita emana sempre da minha própria observação.»
Ele escreve acerca do quotidiano? Não é isso aquilo que ele pretende dizer, e esclarece: «Escrevo acerca do amor, da perda e da morte. Grandes temas, sim, mas eles encontram-se sempre presentes na minha mente.
Quando compro um pepino no supermercado, os temas pesados encontram-se logo atrás do meu pensamento. A camada que separa os grandes temas das nossas vidas diárias é extremamente fina. Isto vai de encontro ao meu ponto de vista acerca da literatura: que gira à volta de algo que se encontra em falta, de uma retenção de explicação. O valor surge precisamente daquilo que permanece implícito ou daquilo que parece estar em falta.»
Pavel constata uma sobreposição entre o seu trabalho de arqueólogo e o seu trabalho de escritor. Ele fala com facilidade. Quem sabe, é questionado, de forma recorrente acerca disto. Porém, dá ares de ser alguém que, simplesmente, pensa muito acerca do assunto. Com fogo na voz, diz: «Enquanto arqueólogo, uma pessoa dá, constantemente, de caras com coisas que não reconhece. Trabalha-se com fragmentos, com pedaços difíceis de identificar. Tal continua a acontecer, mesmo após vinte anos de experiência. Demora tempo a entender qual é que é a origem de algo. Isto também se aplica à escrita.» A sua voz baixa, finalmente, para um ritmo mais lento. «Uma pessoa depara-se com algo que não consegue imediatamente enquadrar, e não sabe de onde é que vem o entusiasmo. É só, então, que o trabalho começa.»

Conto de Cătălin Pavel

REVOLTA INVERSA

A sua vida com Carmen Ottomany começara muito abruptamente nos finais do décimo primeiro ano. No dia em que tinha decidido deixar a cidade, procurou uma fulana alta da turma mais próxima, uma tal Fahrida (o seu pai era do Irão), mas que se apresentava como Frida. Saiu da cidade pois estava convencido de que ao partir os limites ficariam para trás, uma convicção absurda, mas se alguém nunca a tiver será digno de piedade. Foi encontrar a tal Frida entre um grupo de raparigas nas traseiras de um prédio, fumando e rindo. Fumava-se naqueles tempos, mesmo nos liceus dos snobes como era o Suber e sobretudo ali. Era um liceu extremamente fraco quanto à qualidade dos seus professores, com algumas exceções, mas surpreendentemente alguns dos alunos estavam entre os melhores jovens cérebros do país, facto este usado sem qualquer pudor nas campanhas de promoção do liceu, não o diziam abertamente, os nossos professores são uma desgraça, mas, se nos entregarem os vossos filhos, estes terão como colegas os futuros primeiros-ministros. Era um liceu-clube. Tinha recebido o nome de alguém da União Europeia, mas em boa medida era uma empresa comercial. Uma espécie de local onde o primeiro ano em nada diferia do segundo, apenas o preço do bilhete era dez vezes maior sem motivo algum, de tal modo que ao decidires ingressar ali sabes seguramente que estarás entre os ricos. Radu Grinda e o seu professor de inglês, um alcoólico que recebera de Deus todos os dons de mão beijada, cegamente, era exatamente ao contrário, quer dizer, Uivărășeanu tinha uma mente do tamanho do corpo docente e Grinda não só não tinha nenhuma qualidade excecional, como não possuía nem a décima parte do dinheiro dos seus colegas. E então, Radu encontrou Frida nos campos de ténis das traseiras, onde as raparigas, impressionantemente belas e tentadoras, fumavam e deitavam as cinzas nas caixas das bolas. Dirigiu-se diretamente a ela. Tinha-a visto ao longe e teve tempo de fumar ininterruptamente até se aproximar e dizer-lhe que deixaria Bucareste naquela noite, mudar-se-ia para Cîmpulung, e caso ela quisesse poderia vir com ele para ali viverem. As raparigas ficaram de olhos esbugalhados, Frida exclamou uma obscenidade e todas desataram literalmente a rir às gargalhadas, escoando naquele imenso riso muita ansiedade e energia sexual. Grinda olhou-a com ar calmo e já se resolvera ir embora quando uma fulana do décimo primeiro A ou B, uma loira com um casaco de cabedal ̧ exclamou: «Eu vou.» 
Aquela era Carmen Ottomany. O riso congelou--se nos lábios de Frida e das outras, e conquanto tivessem começado a acotovelá-la e a dizer-lhe:
«Vai-te lixar, miúda, estás louca», tal como os meninos superdotados eram obrigados a dizer, a fulana olhou-o fixamente sem um sorriso nos lábios e Grinda, depois de refletir um segundo, exclamou: «Está bem.» E, de facto, naquela tarde partiram para Cîmpulung Moldovenesc. A viagem de comboio foi a mais confortável de toda a sua vida. Ali chegados, deram uma volta pelas redondezas, completamente sem rumo, e Carmen disse-lhe que queria fazer algumas compras. Grinda entrou igualmente num supermercado para comprar algo para fazer sandes. Cada um deles comprou duas escovas de dentes. Acharam uma pensão perto da floresta, a Baliverna, administrada por dois velhos, provavelmente alguém escolhera o nome da pensão em lugar deles. Comeram algo, conversaram um pouco e caíram exaustos, talvez mais pela emoção do que pelo cansaço, ou talvez não. Na manhã do dia seguinte, Grinda saiu à procura de trabalho.
Carmen foi ver se seria possível inscrever-se no liceu dali a partir de setembro. Encontrou, por um acaso histórico, uma secretária de bom coração, que quase a adotava naquele dia. Infelizmente, Carmen teve de mentir-lhe, dizendo-lhe que se tinha mudado para ali com o marido, não tinha como desmentir o que tinha dito e o que poderia fazer então? Já Grinda não teve a mesma sorte, deparou-se com uma série de indivíduos horríveis, mas obviamente haveria muitos lugares onde trabalhar quando não se tem pretensões. Não durou nem duas semanas para se empregar numa firma de construção. Nada de estável, mas alguém de lá afirmou-lhe que a dita firma tinha projetos uns a seguir a outros. Grinda não esqueceria nunca aquele homem que lhe dissera palavras tão animadoras. Embora não tivesse nada de animador para dizer |naquela noite, mesmo assim comprou uma garrafa de vinho, subiram para um monte, ambos contendo o nervosismo e o medo de se lançarem no vazio, tão habilmente que cada um deles se reencontrou perfeitamente encorajado na sua decisão ao ver o outro tão calmo. Dormiram em camas separadas e nem sequer se tocavam, a não ser de forma funcional, quer dizer, davam o braço quando atravessavam a estrada, como se isto contribuísse de algum modo para uma travessia com maior eficiência ou deferência superior. De manhã foram surpreendidos pelo pai da rapariga a bater à porta do quarto. Ambos tinham pensado que só após muitos dias, oh! algumas semanas talvez, houvesse este confronto, no entanto subestimaram a rapidez do pânico dos pais, mas demonstraram de um modo incrível a capacidade de se desenrascarem. Por trás da raiva que tinha de mostrar, era claro que o homem ficou aliviado por saber que a filha estava inteira e sobretudo, ao deparar-se com a altura de Grinda, chegou imediatamente à conclusão de que ele não apresentava nenhum perigo de transtorno na vida da rapariga.
Porém, enganou-se profundamente. O próprio papel, na qualidade de pai, estava comprometido desde o início, pois toda a situação apresentava um grande potencial de embaraço, e, pior ainda, todos os três tinham consciência disso. A sua filha vestida com uma t-shirt junto a um homem que claramente se via que a considerava uma mulher por inteiro! Grinda
pediu-lhe para esperar lá fora alguns minutos, e este obedeceu. Quando voltou, bufando de raiva ali no corredor, e com toda a razão, pois a filha, liceal, tinha fugido de casa, lançou um discurso sobre obrigações, o susto e a sua inconsciência. Até que Grinda abrisse a boca para responder, ouviu Carmen, que tinha tomado os acontecimentos por sua conta, interrompendo o pai e gritando com uma voz muito alta e clara, disse-lhe que nunca teria pensado estar uma tal voz dentro de um ser tão gracioso:
«Estou grávida dele!» O pai ficou de rastos e a partir daí até a sua partida, com a cauda entre as pernas, não mostrou qualquer espécie de ascendente sobre eles. Grinda preparou-lhe mesmo uma sandes para a viagem, embrulhadas em papel higiénico pois não tinha guardanapos. Ao ficarem sozinhos, a rapariga pediu-lhe desculpa pela invenção, mas Grinda não queria ouvir desculpas, pelo contrário, tinha sido um excelente jogo diplomático. Constatou que a olhava com uma atenção duplicada. A rapariga tinha olhos castanhos vivos exatamente como o retrato de Brigite Spinola-Doria. Era evidente que este primeiro teste tinha sido canja. Já com a chegada da mãe de Carmen, a situação mudou. Ordenou que Carmen saísse para poder conversar com Grinda cara a cara. Poderiam sair por este mundo fora, mas teriam de ter um respeito atávico pelos adultos. Carmen saiu do quarto sem protestar, para que ele ouvisse calmamente o que a senhora lhe perguntava: Como te chamas, rapazinho? Radu? Diz-me lá, Radu, os teus pais dar-me-ão o dinheiro que gastei durante três anos com Carmen no Liceu «Jean Subercaseaux»? Até se ouviram as aspas, embora não fosse claro para que serviam. Grinda ouvia-a atentamente, por interesse pela sua filha. Descobriria mais tarde que qualquer semelhança mesmo a mais insignificante entre a mulher que se ama e os seus pais é, de um modo simpático, embaraçosa como o diabo. Até então, todas estas pessoas eram estranhas para ele, e ainda bem. A mulher ameaçou-o de diversos modos, incompatíveis entre si, que chamaria a polícia, que o obrigaria a casar com a sua filha — que a sua vida seria destruída, explicou-lhe, aparentando uma perfeita seriedade — enviaria agressores para lhe partirem as pernas, mas, sem esperar que alguma das ameaças surtisse efeito, o jovem mal tinha conseguido anotá-las mentalmente para as digerir mais tarde, ela passou a implorar, fazer ofertas... Enquanto a ouviam, ambos se abraçaram. A mulher gritou-lhe que ela não era pau-mandado do marido, com ela não iriam conseguir nada, a rapariga iria com ela à ginecologista naquele instante. Bato-lhe, perguntou baixinho a Carmen, ela sorriu e fez-lhe sinal que não. A mãe falou durante mais um pouco e de repente fez-se luz na cabeça de Grinda, percebeu porque Carmen Ottomany tinha de passar rapidamente por casa antes de partir, demonstrando que aprendera algo nas aulas de literatura romena do século dezanove, como as cartas que se trocavam quando era preciso, das decisões que tomavam. Depois de se livrarem dela, Carmen e ele foram até à floresta. Ambos olhavam à volta, tal Dürer para o rinoceronte, era como se nunca se tivessem dado conta até então de que na floresta havia uma profusão de árvores que cresciam umas ao lado das outras. Era como se descobrissem um planeta coberto de árvores soalheiras que se abanavam, onde não existisse nada mais que o momento de estarem juntos, os bichinhos transportando o sol e a terra que gemia a grande profundidade.
Muitos anos depois, quando percebeu a importância daquele dia na sua vida, Grinda compreendeu porque esta revelação continha nela o desmoronar, pois qualquer revelação pressupõe um período de cegueira anterior a ela, isto é, um crime que necessitava agora de uma penitência. Naquela altura sentia apenas a felicidade de estar com Carmen Ottomany, perguntando-lhe se estava tudo OK, se ainda queria ficar, e ouvi-la simplesmente responder que sim. Não ficaram a viver por ali, mas decidiram viver juntos. Grinda sempre soube que a rapariga era mais inteligente do que ele e nem sequer tentou perceber os motivos porque o teria acompanhado, ou quão gratuito tinha sido o gesto dela. Tomava como tal a ambição desastrosa de Carmen em cuidar dele e mantê-lo limpo e aprumado, talvez esta fosse a sua forma de revolta aos dezassete anos, uma revolta inversa da dos colegas da sua geração, que procuravam o excesso, a frivolidade e a violência e Tóquio, Amesterdão e a Terra do Fogo. Ela seguiu alguém que não prometia mais do que uma monogamia banal, sem documentos, nos confins do mundo, um lugar de facto muito belo para eles, como se viu. A Grinda, não lhe interessava se de facto este era ou não um excesso similar, numa mente demasiado sofisticada, cheia de literatura, como era a de Carmen naquela altura. Certo era que ela não tinha de
acusar nem sequer um quarto de uma questão em todos estes anos, e não tinha sido simples, ele tinha terminado o bacharelato dois anos mais tarde que ela, sempre num esforço permanente, com dificuldades e problemas, apesar de retrospetivamente terem sido anos bons, claro, como todos os anos bons. Apenas o facto de terem realizado algo radical, e no entanto muito simples, não significava que eles também fossem simples, nem na sua natureza, nem na história. Naquela prova, eles permaneceram indivíduos entrópicos. Mas foram anos de solidariedade, numa espécie de regime militar, na verdade não perdiam nenhum concerto quando havia uma guitarra em cena ou nas tabernas onde cantavam amadores. Não podia fazer nada agora, estava impedido de se regozijar com esta lembrança, porque, indiferentemente do que acontecesse mais tarde, esta rapariga era a única que o amparava por acreditar que se pode viver loucamente, indiferentemente das consequências, mais exatamente indiferentemente das consequências inventadas pelos outros.
Separaram-se, com certeza, mas apenas quando ultrapassaram todos aqueles problemas, aquele esforço, quando chegaram a conhecer-se e tolerar-se e quando por fim apareceram premissas para eles também florescerem. Mas o motor que te põe em órbita é também aquele que no final te faz cair do céu. O Adão da estátua já tem nele incorporado um Cristo doente de ergotismo. Carmen terminou a faculdade, Grinda tornou-se assistente de Uivărășeanu trabalhando num magnífico projeto europeu, e agora, quando finalmente poderia pagar todas as faturas e o exílio ter o seu fim, a corda partira-se e separaram-se após anos juntos. 
Porquê? Porque Carmen sabia o que fazia e continuava a sua revolta através de meios que ele não poderia entender. Num belo dia passou os dedos pelos seus cabelos e disse amorosamente a Grinda que precisava de se separar por alguns anos agradecendo-lhe por a ter conduzido até ao lugar que procurava. Ele olhou para ela, aparvalhado. Que a mulher quisesse de repente separar-se dele era algo que poderia compreender, mas que precisasse de se separar temporariamente, por alguns anos, era um disparate abissal para a sua mente. Duma forma totalmente atípica para ele, ilustrando perfeitamente a ideia de perda temporária das faculdades mentais, partiu um prato na cozinha, gritando que não podia aceitar algo tão literariamente diabólico, experiências dela. Percebendo que Carmen estava a gostar da sua reação, acalmou-se. Talvez ela tivesse levado longe de mais a ideia do gesto gratuito do que ele imaginou e que é possível e proveitoso. Porém, Grinda preferia dizer a si próprio que ela não desejava um outro homem mas sim um regresso aos anos do liceu, ali onde ele agora já não podia acompanhá-la, porque não sabia como se libertar da lógica desta solidão que se chama maturidade. Nunca a condenou, embora um outro mais inteligente o tivesse feito. Para ele, aquela Carmen que tinha vindo com ele quando tivera de escolher entre ele e o mundo nunca se poderia voltar contra ele, mesmo que agora tivesse chegado o momento de ela escolher o mundo.


Tradutor:

SIMION DORU CRISTEA


Simion Doru Cristea (1965) nasceu em Bistrita, Roménia. É licenciado em Cinema na Faculdade de Filologia de Babes-Bolyai. É pós-graduado em Filologia e História pela mesma universidade. 
Publicou várias críticas, participou em publicações colectivas e publicou livros em seu nome:Manifestul elevului de nota 10 (The Manifest of the A mark Student, Dokia Publishing House), Funcția symbolic-mitică în textul religios (Symbolic-mythic function in Religious text, Cluj-Napoca, GEDO Publishing House) e o romance Să trăiți, Domule Președinte (God speed, Mister President, Cluj-Napoca, Dokia Publishing House).








Sem comentários:

Formulário de Contacto

Nome

Email *

Mensagem *

Arquivo do blogue