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quinta-feira, 28 de março de 2019

Divulgação: Sabrina, de Nick Drnaso







Sabrina
 
Chega finalmente às livrarias a novela gráfica que surpreendeu o mundo literário.  
A Porto Editora publica a 4 de abril Sabrina, a novela gráfica que veio estabelecer um marco na história deste género literário: foi a primeira a ser selecionada para o Booker Prize e tem sido consensualmente aclamada como uma das mais empolgantes e comoventes narrativas dos últimos anos. 

Escrita e desenhada pelo jovem cartoonista americano Nick Drnaso, esta é uma «reflexão em vinhetas sobre o crescente canibalismo digital» (El País), uma fábula da era moderna sobre a fragilidade crescente das relações e sobre a forma como as interações através de ecrãs alimentam a falta de sentido de responsabilidade e a ameaça das fake news. 


«Uma obra-prima [..] maravilhosamente escrita e desenhada, possuindo todo o poder político da polémica e em simultâneo toda a delicadeza da verdadeira grande arte. Assustou-me. Adorei.» 
Zadie Smith 

«O primeiro grande romance americano do século XXI, uma novela gráfica que foi capaz de captar o mundo em que vivemos.» 
El País 

«Uma obra de arte esmagadora.» 
The New York Times 




quarta-feira, 27 de março de 2019

Divulgação: Ficção contemporânea e um clássico juvenil nas novidades da Sextante



A 4 de abril a Sextante Editora publica o novo livro de contos de Rubem Fonseca, Carne Crua, que reúne vinte e seis histórias curtas. Com agilidade e humor, o autor tão rapidamente nos escreve sobre a crueza de assassinatos, traições, sexo e injustiças sociais – temas que, aliás, marcam a sua obra –, como logo depois nos revela um lado mais romântico e nos traz a avidez das descobertas, a delicadeza das histórias de amor e umas trocas de olhar com a poesia.





No mesmo dia, chega às livrarias, na coleção Biblioteca dos Tesouros, uma nova edição de Coração, de Edmondo de Amicis. Clássico da literatura juvenil publicado pela primeira vez em 1886, tem por base o diário de Enrico, um rapaz de onze anos que frequenta a terceira classe durante o ano escolar de 1881-1882, em Turim, no contexto da Unificação italiana.



terça-feira, 26 de março de 2019

Divulgação: As melhores crónicas de Mário de Carvalho pela primeira vez em livro





As melhores crónicas de Mário de Carvalho pela primeira vez em livro
 
  O que eu ouvi na barrica das maçãs será apresentado a 10 de abril por Ricardo Araújo Pereira, em Lisboa.  
  A 4 de abril a Porto Editora publica pela primeira vez uma seleção de crónicas de Mário de Carvalho em O que eu ouvi na barrica das maçãs. Divididas em quatro partes – que separam o escritor, o cidadão, o comunicador e o memorialista –, as crónicas que aqui encontramos foram publicadas pela primeira vez nos anos 80 e 90, no jornal Público e no Jornal de Letras, e algumas são reveladoras de como a História é cíclica e alguns autores proféticos. E, como acontece na sua ficção, também aqui reencontramos o observador atento e o incomparável contador de histórias. 

Memórias políticas e familiares (como em «Uma bandeira na varanda»), preocupações de um cidadão inconformado («A ascensão da canalha»), um olhar crítico sobre o ofício da escrita («Espelho de escritores») e encontros («Um homem tranquilo», sobre Saramago) fazem parte do universo deste livro que será lançado a 10 de abril às 18:30, no El Corte Inglés Lisboa, com apresentação a cargo de Ricardo Araújo Pereira. 

SOBRE O LIVRO 

Lançamento: 04-04-2019 
N.º de páginas: 256 

Reconhecido como um dos mais importantes escritores portugueses da atualidade, a sua faceta de cronista passou despercebida à maior parte dos leitores; daí esta seleção das suas melhores crónicas publicadas nas décadas de oitenta e noventa do século passado no Público e no Jornal de Letras. Delas emergem o ficcionista, o cidadão, o comunicador e o memorialista, em textos que alguns diriam proféticos e, nas palavras de Francisco Belard: «testemunhos de um largo campo de assuntos, abordagens, dimensões e estilos, através de eras e lugares, sinais de um escritor que declaradamente prefere viajar no discurso e decurso do tempo e do espaço doméstico a fazê-lo em itinerários geográficos, programados e turísticos. Por tudo isto […], os leitores dos romances o vão reencontrar em mudáveis cenários e perspectivas, de outros pontos de vista, na familiaridade e na estranheza diante do seu mundo, que faz nosso.» 




segunda-feira, 25 de março de 2019

João Valente (Portugal) :CELA| Connecting Emerging Literary Artists








 CELAConnecting Emerging Literary Artists




O Projecto:

O projeto CELA (Connecting Emerging Literary Artists) abre o palco europeu a uma nova geração de criadores literários. Permite uma cooperação transnacional intensiva entre talentosos escritores, tradutores e profissionais literários europeus em início de carreira. No decurso do projeto, os participantes enfrentam algumas das mais exigentes realidades da nossa era — de fraturas cada vez mais acentuadas na Europa a um setor editorial em mudança — e põem-nas em perspetiva, partilham o seu trabalho e colmatam o fosso que os separa do setor editorial e do público europeu.
As organizações literárias de seis países europeus uniram forças para fundar o projeto de incubação de talentos cela — Connecting Emerging Literary Artists. Partilhamos a necessidade de estabelecer uma infraestrutura sustentável de incubação de talentos para preservar a diversidade da literatura europeia e dar maiores oportunidades a línguas minoritárias. 
O projeto proporciona um percurso de dois anos com formação, instrumentos e uma rede que visam tornar possível uma carreira internacional e estabelecer uma prática profissional integrada. Com uma atenção em competências e mobilidade transnacional, incluímos especialmente as oportunidades digitais na literatura, novas formas de os participantes conseguirem emprego e rendimento.
Cada edição do projeto cela decorre durante dois anos. No primeiro ano, as organizações literárias orientam os escritores, tradutores e profissionais literários e proporcionam-lhes um programa multinacional de residências, formação e master classes para os preparar para trabalhar no mercado europeu e para um público internacional. No segundo ano, os participantes são inseridos por via de marketing internacional e campanhas publicitárias, uma digressão por festivais
europeus e apresentações ao público e a profissionais europeus por escritores e tradutores de renome (os nossos embaixadores cela) e organizações literárias. 

Os autores e tradutores participam em campanhas internacionais, festivais literários em diferentes países e numa rede de trabalho que proporcionará contacto entre todos os participantes.
Kick-Off: Hay Festival Segovia (Espanha)Tinto-no-Branco- Festival Literário de Viseu (Portugal), Book Fest (Roménia), Pisa Book Festival (Itália), Lev-Literatura em Viagem (Portugal), Passa Porta Festival (Belgium), Wintertuinfestival (Holanda) recebem os autores e tradutores do projecto CELA.


Parceiros:
Booktailors
Escuela de Escritores
Flemish-Dutch House deBuren
Passa Porta
Pisa Book Festival
Wintertuin


Biografia

JOÃO VALENTE

Ano de nascimento 1977
Nascido em Portugal
Vive e trabalha em Lisboa 
– Licenciado em Relações Internacionais, mestrado em Estudos Europeus
– Eleito um dos Novos Talentos FNAC da Literatura em 2015
– O seu primeiro romance, The Empire, foi aclamado pela crítica e pelos leitores
– The Empire é um exercício sobre como escrever ficção que pareça não-ficção
– Colaborador regular com agências de produção de conteúdos e produtoras

bookoffice.booktailors.com/autores/joao-valente/



Sobre João Valente

«Segui, em tempos, o curso de Relações Internacionais. Olhando para trás, não é de todo um mau percurso para um escritor. Formei-me no que os estudos sociais têm de melhor: tive oportunidade de aprender um pouco de politicologia, economia, sociologia e filologia. É uma boa caixa de ferramentas para quem quer escrever: são competências sociais que é preciso ter», explica João Valente. Parece deter-se um pouco para pensar nas palavras a usar. «Devemos conseguir ver o que se passa à nossa volta.»

«Sempre escrevi. Desde criança que invento histórias e fico feliz por nunca ter perdido isso. Continuo a olhar para a escrita como a coisa mais bonita que existe», diz Valente sorrindo. Depois, mais sério: «É trabalho duro, isso sim. Às vezes é horrivelmente frustrante.» Valente é alguém que muda rapidamente de um tom grave para um tom alegre. Por vezes, fala com um olhar sério e um franzir ondulante na testa, mas nunca demora muito até voltar a soltar uma piada, até os cantos da boca se virarem de novo para cima — um sorriso está sempre próximo.

«Não acredito naquela imagem tradicional do escritor no seu sótão, com um copo de vinho à espera de inspiração», diz Valente. «Não funciona assim. É preciso escrever, escrever muito.» De forma paradoxal, para ele este processo começa apenas realmente quando já está quase a terminar. Assim que um texto parece acabado, começa a reescrita. «Só aí é que vejo realmente o que estou a fazer, sobre o que tenho andado a debruçar-me há algum tempo.» Endireita os óculos, contorce ligeiramente a boca larga: novamente, nota-se o quão próximos estão o seu riso do seu ricto. Esses dois lados parecem unir-se de forma contínua à sua atitude perante a escrita. «A primeira hora é sempre cansativa. Demora um pouco até encontrares as palavras certas. Esse é também o processo de aprendizagem mais importante: não aprendes a ser um bom escritor, quanto muito aprendes a ser um escritor eficiente. Aprendes o que funciona ou não funciona para ti.»

«Escrevo sobre aquilo que conheço. Não é o que fazem todos os escritores? Escrevo sobre aquilo que me rodeia. Sobre o trabalho, a família, sobre viver no século XXI», diz Valente enquanto se ajeita na cadeira. Parece não gostar muito de filosofar sobre o seu trabalho: inicialmente, reage de forma relutante quando questionado sobre se a escolha de certos temas é deliberada. É difícil perceber se está irritado. Talvez sim: ele põe um braço em cima da mesa, inclina-se para a frente e, por trás dos óculos, os seus olhos ganham uma qualidade intensa. «Primeiro: escrevo porque me divirto a fazê-lo. Gosto de o fazer. Em segundo lugar, não tenho nenhuma ilusão de que a minha voz vá mudar o mundo». Num tom mais leve continua: «Não sou um homem numa missão. Esse não é um peso que queira carregar, se quisesse educar as outras pessoas, só me iria censurar a mim mesmo. Não sei ensinar nada a ninguém. Quanto muito posso dar a conhecer algo novo.»

Metade do ofício de Valente consiste em ler. «Pelo menos metade», diz corrigindo-se. «Já enfatizei isso o suficiente? Enquanto escritor, é preciso estar quase permanentemente a ler. A sério, um escritor tem de ler livros, jornais e revistas, mas também expressões. Ler é observar: estou continuamente a estudar as pessoas à minha volta.» Depois, sorri abertamente. «Se não conseguires observar, nunca serás um bom escritor. Nem sequer um mau escritor serás.»

    Testemunho





Conto de João Valente

Finalmente tens um quarto só para ti

Estou desconfortável, mas sem arriscar mexer-me para não te acordar. 
Alongo as costas e atenuo a moinha. Estou meio sentado na borda da cama, deixando o colchão à tua disposição. Caíste num sono profundo e aproveito para te afagar os cabelos com meiguice. Não gostas que o faça quando estás acordado.
Era no sofá que me desforrava. Nos momentos em que quase adormecias, embalado por um dia de correrias e brincadeiras, punha-te a ver desenhos animados. Nessa altura, enchia-te de cafunés. Aceitavas os meus mimos por estares num estado de semiconsciência. Deixavas-te estar, chuchando ruidosamente. Sei que a acção é condenável. Obrigava-te a ver televisão quando tinhas sono apenas para te conseguir encher de amor.
Para eu me sentir bem.
Agora, enquanto dormes, enrolo os teus caracóis à volta dos dedos. Hoje, fico contigo. Já te troquei demasiadas vezes. Precisava de trabalhar, ver os mails, o Twitter, o Facebook, arrumar a casa, lavar a loiça, fazer o jantar, marcar as férias, ver a bola, ir ao ginásio, fazer a barba, jantar com
amigos, jantar com a mãe, ver o vídeo do gajo-que-caiu-a-andar-de-mota, ler o jornal, ler o livro, ler a revista, ver as mensagens, carregar o telemóvel, lavar a roupa, pôr gasóleo, depositar dinheiro, levantar dinheiro, fazer o pagamento, beber uma cerveja, ver um filme, tocar guitarra, arranjar o varão dos cortinados. E, depois de tudo isto, tu continuavas à minha espera.
Finalmente tens um quarto só para ti. Não precisas de o partilhar com o teu irmão. E é azul. Sempre nos pediste um quarto azul. Com uma televisão. Eu sou contra televisores nos quartos, mas, desta vez, não ia recusar. Já viste como tudo está arrumado? Cada coisa no seu lugar: limpo, dobrado, ordenado. Tão diferente da enxovia onde dormiam. Havia dias em que nem conseguia ver o chão, coberto de brinquedos, jogos, livros e roupa.
Lembras-te das férias em que passámos por uma máquina de brindes? Daquelas em que se põe uma moeda e cai uma cápsula de plástico com um brinquedo lá dentro? Jantámos pizza e comemos gelado. No fim da noite, apontaste para a máquina: «Põe uma moeda, papá.» Quando te respondi que não, desataste aos gritos, a chorar. Deitaste-te no chão da rua, a bater com os pés e as mãos na calçada, e senti vergonha. As pessoas olhavam para mim. Uns criticavam a minha avareza, outros desprezavam a forma como te educara. Sabias disso. Alimentavas-te do olhar depreciativo dos turistas para apresentar o teu espectáculo. Nessa noite mantive-me firme. Ao fim de algum tempo, a birra deixou de ser por causa da máquina. Era porque sim, misturando-se com o sono e o orgulho ferido. Voltaste para o hotel, arrastado pelo chão e de mãos vazias. Atrás de nós, um rio de ranho e lágrimas desenhava o caminho. Adormeceste a soluçar. O sono fez as pazes entre nós.
Sabes que, disfarçado de pedagogia paternal, tive um prazer desprezível em negar-te esse momento de felicidade? Dava-te tudo de mão beijada. Calava os teus pedidos cedendo. Compensava a minha ausência com sequências de prendas. Negar-te um capricho era dizer que tudo ia ser diferente. Que podias brincar comigo.
Estás a mexer-te... Dói-te alguma coisa? Afago-te a cabeça, deixo o meu dedo desenhar-te a testa e o nariz. Acabas por sossegar e continuas a dormir. Não seria dor. Apenas um sonho mau. Não te preocupes, o pai está aqui. Não vou deixar que os monstros entrem no quarto, muito menos que te façam mal. Sou obrigado a conviver com os meus monstros todos os dias. Vivo aterrorizado desde que tu e o teu irmão nasceram.
Tenho medo do que vos possa suceder: as doenças, os acidentes, que deixem de gostar de mim, que a vida nos afaste ou que sejam infelizes. E há sempre aquela questão que não pronuncio perante ninguém: o que me aconteceria se te perdesse? Há um fardo que cai sobre os meus ombros a cada sorriso teu. Em cada momento de bem-aventurança vem-me à boca o sabor agridoce da possibilidade de perder a fonte de felicidade. A vida seria mais suportável se nunca te tivesse conhecido. Correria como correria.
Como tivesse de ser. Mas, agora que te conheço, não consigo ignorar-te. O amor paternal é a maior pena a que podemos ser condenados. Eterno e infinito, é intolerável. Demasiado concentrado para ser carregado.
Demasiado simples para ser compreendido. Depois de nasceres, morri. Os meus desejos, a minha vontade, os meus planos, a minha vida desapareceram. Agora, não posso voltar atrás. Anestesiando
voluntariamente a dor nas costas para não seres incomodado, esqueci-me de quem era antes de ti.
O pânico alimenta-se da impotência. Foi assim que me senti no hospital, há meses. Entraste com febre alta. Submeteram-te a uma sucessão de análises sem conseguirem identificar o que te afligia. Os primeiros resultados animaram-me. Respirava de alívio a cada despiste de doenças.
Ao final do dia, contudo, desejava que tivesses algum problema. Não identificar aquilo de que sofrias poderia significar um diagnóstico raro ou grave. Ou a soma dos dois. Quanto mais eu queria saber o que tinhas, mais o médico insistia em me dizer o que não tinhas, porque determinado reagente falhara na sua missão de oráculo. Os pais com que me cruzava no corredor da pediatria sorriam em solidariedade. Eu sorria-lhes de volta.
Não se fazem análises nos hospitais durante a noite. Insistem que os doentes devem descansar. Dessa vez, dormiste com a tua mãe. Baixaram-te a febre, alimentaram-te e deram-te brinquedos. Voltei para casa e adormeci o teu irmão. Acomodava um pânico que me obrigou a andar pelo corredor a noite toda. Evitei olhar para as tuas fotografias e brinquedos. Ser pai é uma tensão permanente entre termos contraditórios e incompatíveis. Por um lado, quero que a tua vida seja longa e feliz. Por outro, sei que qualquer existência tem como certeza a morte. A ideia de que «nenhum pai deve assistir à morte de um filho» é uma tentativa espúria de mitigar a contradição. Sabemos o que vai acontecer, mas preferimos não o viver.
Sabê-lo dá cabo de mim. Como se não merecesse a felicidade que é ser teu pai e tivesse medo de que, um dia, Deus ou o universo ou a estatística o percebessem. Como posso aproveitar a felicidade de estares aqui, sabendo que um dia podes não estar?
Acordei no dia seguinte sem ter adormecido. Tratei de mim e do teu irmão de forma mecânica. Voltei ao hospital e já fazias nova bateria de análises. Quando o médico voltou, ao fim de trinta minutos que pareceram trinta anos, brincou contigo, referindo-se a um «valentão». Explicou-nos que tinhas uma infecção pouco comum, mas tratável com antibióticos. E que serias acompanhado para se perceber a razão de uma infecção tão súbita e violenta.
Hoje, antes de adormeceres, perguntaste pela mãe e pelo mano. «Agora não estão aqui», respondi. Esta noite fica o pai contigo. A mãe ficou com o mano. Um dia havemos de trocar. É para o teu bem que fazemos isto. Custa-me tanto como a ti, mas é a coisa certa. A tua mãe não te ama menos por ter ficado com o teu irmão, nem eu te prefiro só porque estou aqui, na primeira noite neste quarto.
Que recordações terás daquela vez em que acordaste a meio da noite, aterrorizado por um pesadelo? Pediste o colo da mãe, mas a mãe estava fora, em trabalho, e só voltaria no dia seguinte. Nessa noite, tentei tudo.
Beijei-te, abracei-te, peguei-te ao colo, embalei-te na cama e levei-te para a sala. O choro aumentou de volume e tornou-se colérico. Acordaste o teu irmão e eu convenci-o a voltar para a cama, carregando-te ao colo em movimentos de contorcionista. Querias a mãe. Tinhas o meu calor, os meus afagos, a minha voz, mas recusavas-me. A mãe estava longe, inalcançável. Terias de te contentar comigo. Aos poucos, percebeste-o: o choro descontrolado deu lugar a uma suave ladainha, interrompida por guinchos cada vez menos frequentes. Próprios de quem percebe que o sono vai vencer. Comprazia-me com cada um destes gritinhos. Sentia-me vingado pela rejeição a que me sujeitaras. À medida que te caíam as pálpebras eu serenava e desaparecia-me o sentimento de inveja. Demorei a deitar-te na cama. Não porque quisesses mais colo, mas porque eu necessitava de te ter nos braços.
Quando os teus avós vos ofereceram uma enorme caixa de lápis de cera, fizeram-no para dar largas à vossa imaginação, mas esqueceram-se de que, neste tipo de prendas, a quantidade de papel em branco deveria ser proporcional à tinta, grafite ou cera disponível. Infelizmente, as poucas páginas do caderno que os acompanhavam foram consumidas num ápice, deixando os lápis com muita cera para gastar. Em consequência, fui brindado com um mural de beleza discutível na parede branca do corredor.
A mesma parede que tanto trabalho me dera a pintar, semanas antes, por encomenda da vossa mãe. Uma empreitada que vinha com um caderno de encargos: deveria ser feita de manhã para que as janelas abertas dissipassem o cheiro a tinta até ao final do dia.
Serviu de muito... Pouco tempo depois, as paredes do corredor pareciam os braços de um jogador de futebol, tatuadas com gatafunhos intrincados e das cores mais bizarras. Fiquei furioso. Convosco por causa das pinturas rupestres e com a vossa mãe pela forma leviana como encarou o sucedido. Perdi uma tarde com um alguidar de água e uma medida de lixívia a apagar os desenhos, apenas para perceber que as marcas do crime eram indeléveis. Mesmo depois de nova sessão de pintura com rolo, trincha e duas demãos da tinta mais cara do Aki.
Fiz uma tempestade num copo de água. Ainda se viam os desenhos na parede do corredor? Talvez os devesse lá ter deixado. A parede apresentar-se-ia mais original, menos anónima. Uma parede branca é uma parede branca. A parede que vocês pintaram era só nossa. E eu destruí-a.
Talvez a culpa de tudo isto seja minha. Uma parede não tem de ser branca. Pode ser o que eu quiser. Ou o que vocês quiserem. E que um corredor pode ser mais do que uma passagem entre dois pontos. Pode ser um museu mutável das vidas dos que passam por ele.
Tu defines-me. A minha vida é um mapa em que és a latitude e longitude. Por mais distante que esteja, sei sempre onde estou em função de ti. Quando nasceu o teu irmão já não houve um corte com o passado. Gosto dos dois de forma igual, mas sabia ao que ia.
Descobri que vivo rodeado de especialistas em parentalidade que podiam ser excelentes treinadores de bancada. Limitaram-se a ter um filho ou dois, mas parecem saber imenso da poda. Como se, por conseguirem cozinhar um par de pratos, fossem críticos gastronómicos encartados.
Outros, sem nunca terem cozinhado na vida, explicavam-me até à exaustão o que devia e não devia fazer. Para vosso bem, eu e a tua mãe somos — ou éramos — um casal orgulhoso. Sem ligar ao que diziam, optámos por navegar à vista. Houve momentos em que ficámos à deriva. Li os best-sellers da puericultura como se fossem romances e percebi que a história é igual em todos: tu crescerás por entre desafios e interrogações até seres um adulto feliz. Sem ter entrado no quadro de honra dos pais, fiz um trabalho razoável. Não é inevitável que vocês se tornem marginais e tiveram uma infância satisfatoriamente feliz.
Queria que estivéssemos os quatro em casa. A esta hora já vos tínhamos deitado e lido uma história. Faltava o beijo para que dormissem em paz. De que serve teres um quarto só para ti, se estamos sozinhos? Não sei o que fazer. Não há chip escondido, sexto sentido ou intuição que me valha. Sinto que falhei. Como marido e como pai. Uma família não se desune. Eu não deveria passar a noite, meio sentado na cama para não te acordar, longe da tua mãe. Não sou culpado pelo que aconteceu. Ninguém tem culpa. Mas sou culpado pelo que não aconteceu. Pelo que não fiz, pelas vezes em que não estive presente, pelas gargalhadas que não te provoquei, pelo carinho que não dei à tua mãe, pelo exemplo que não fui, pelas prioridades erradas que estabeleci.
Levantei-me sem que notasses. Devagar, pressionando o colchão para que a mudança de peso não o elevasse. Não te queria abandonar, mas a bexiga é impiedosa. Na verdade, nem te estava a abandonar. A casa de banho está a dois passos do quarto. Enquanto lavava as mãos, ouvi um barulho no corredor. Abri a porta e vi a equipa de serviço debruçada sobre ti. A enfermeira olhou-me com uma expressão de impotência triste. O médico movia-se com rapidez e era o protagonista de um bailado louco, acompanhado pelos assistentes que tentavam resgatar a vida que te abandonava. Só eu permanecia quieto. Impávido. Sem poder fazer nada.
Queria trocar de lugar contigo. Queria ser eu a abandonar a vida, deitado nessa cama de hospital. Tu poderias continuar a viver, livre da doença, a crescer e sorrir. Mas isso não me era permitido. Os médicos avisaram-me. Eu preparara-me, mas só então percebi a futilidade do exercício. Cai sobre o cadeirão preparado para as visitas. Esperei que a equipa médica desistisse de te salvar.
Voltei a sentar-me na cama. Respeitando a minha dor, o médico deixou que te abraçasse e te desse mais uma vez, uma última vez, o meu colo. Não conseguia acreditar que tivesses morrido. O teu corpo estava quente. A cara desenhava um sorriso suave, de paz. Para mim, estavas a dormir. Durante uns instantes, até que a mão serena e firme do médico me tocasse no ombro e me chamasse de volta, acreditei que dormias. Junto a mim. Ao colo. Com a vida toda pela frente.





sexta-feira, 22 de março de 2019

Divulgação: Arte e Literatura, de Diogo Ramada Curto





Chega hoje às livrarias História, Arte e Literatura, da autoria do historiador e investigador português Diogo Ramada Curto.

Este livro consiste numa seleção de notas e ensaios de uma história cultural publicados em dois jornais nos últimos anos. Como o próprio título indica, trata-se de textos sobre história, arte e literatura, destinados a públicos alargados, que seguem uma linha de intervenção crítica, em que não se abdica de instrumentos de prova, nem de análises rigorosas.

Segundo a prefaciadora do livro, a historiadora brasileira da Universidade de São Paulo, Iris Kantor: «São ensaios na melhor tradição da crítica historiográfica e jornalística, porque olham para dentro e para fora das fronteiras nacionais, dialogando frontalmente com o que há de mais urgente na historiografia mundial. Diogo Ramada Curto não paga pedágio a nenhum dos seus interlocutores, nacionais ou estrangeiros, mantendo-se numa posição equidistante, o que lhe permite criticar a importação de modelos culturais e modismos intelectuais que mais servem à banalização da vida académica do que à imaginação crítica.»

Em História, Arte e Literatura, Diogo Ramada Curto prima por um pensamento radical, disruptivo e autónomo, avesso às mistificações e aos falsos decoros que permeiam a vida académica.



quinta-feira, 21 de março de 2019

Divulgação: Vernon Subutex 1, de Virginie Despentes






Vernon Subutex 1, de Virginie Despentes

Finalista do Prémio Internacional Man Booker 2018

«Vernon Subutex é um romance notável que simplesmente nos perturba. Despentes é uma escritora extraordinária.» - Express

***

Amplamente elogiada pela crítica e pelos seus pares, Virginie Despentes é uma autora de culto, sendo reconhecida como uma das principais figuras feministas em França. Membro da Academia Francesa, a sua obra, provocadora e focada na sociedade urbana dos últimos trinta anos, tem sido galardoada com vários prémios. 

De entre os seus livros, destacam-se Bye Bye Blondie, Teoria King Kong (Ed. Orfeu Negro, 2016) e Apocalypse Baby (Ed. Sextante, 2011), vencedor dos Prix Renaudot de 2010, e a trilogia Vernon Subutex, vencedora, em 2015, do Prix Anaïs Nin, Prix Landerneau e Prix La Coupole, e finalista do Prémio Man Booker Internacional. A trilogia foi adaptada à televisão. A primeira temporada estreia em França, em abril. 

Com os seus capítulos curtos e ritmo acelerado, Vernon Subutex 1, que chega agora às livrarias (segundo volume será publicado no segundo semestre de 2019), é um romance imperdível, um retrato cru e audaz da sociedade europeia contemporânea, definido pela crítica como «parte épico social, parte thriller punk rock, escrito com uma fúria que nos atinge em cheio como um murro».virginbie des 

A Elsinore disponibiliza os primeiros capítulos para leitura em: www.elsinore.pt/livros/vernon-subutex-1



A história: 

Vernon Subutex faz parte de uma espécie em vias de extinção. Proprietário de uma loja de discos, viveu os anos 80 e 90 furiosamente, seguindo religiosamente a trindade sexo, drogas e rock 'n' roll. Passados vinte anos, Vernon depara-se com um novo mundo: a sua loja fechou, a maioria dos seus amigos morreu ou mudou-se, e o seu benfeitor pessoal, Alex Bleach, acaba de desaparecer, vítima de overdose. Sem emprego, casa ou planos, o futuro de Vernon passa agora pelas ruas de Paris. Os dados da sorte, no entanto, continuam a rolar e, graças a um comentário inadvertidamente deixado no Facebook, espalha-se a notícia de que Vernon tem em seu poder algo de muito valioso: três cassetes de vídeos que Bleach, durante uma noite de farra, deixou como testamento. Entre produtores, estrelas porno e fãs desocupados, Vernon não faz ideia da multidão esfomeada que tem no seu encalço. 





terça-feira, 19 de março de 2019

Divulgação: DJAIMILIA PEREIRA DE ALMEIDA VENCE PRÉMIO LITERÁRIO FUNDAÇÃO INÊS DE CASTRO 2018






DJAIMILIA PEREIRA DE ALMEIDA VENCE PRÉMIO LITERÁRIO FUNDAÇÃO INÊS DE CASTRO 2018
A cerimónia de entrega do prémio terá lugar no dia 30 de Março, no Hotel Quinta das Lágrimas, em Coimbra


Djaimilia Pereira de Almeida é a vencedora da 12.ª edição do Prémio Literário Fundação Inês de Castro 2018, com o seu mais recente livro, Luanda, Lisboa, Paraíso, editado pela Companhia das Letras. Aclamado pela crítica e considerado um dos melhores livros do ano pelo jornal Expresso, pelo diário online Observador e pelo Centro Nacional de Cultura, este é o segundo romance da escritora. "O que escreve Djaimilia Pereira de Almeida pode entender-se como poderosa ferramenta de transformação da visão da paisagem humana portuguesa”, defendeu Inocência Mata, no Público. 

Com a sua estreia literária, em 2015 (o romance Esse Cabelo) Djaimilia Pereira de Almeida conquistou imediatamente um lugar no panorama dos novos autores de língua portuguesa, recebendo o Prémio Novos em 2016 - categoria Literatura, tendo entretanto publicado em revistas literárias e ensaísticas, portuguesas e estrangeiras, criando uma enorme expectactiva em relação ao seu regresso à ficção. Luanda, Lisboa Paraíso confirmou-a enquanto narradora atenta e singular, com um ponto de vista único. No Observador, Nuno Costa Santos acrescentou que nesta obra “o estilo é excelente e dedica-se ora a assinalar a crueldade da vida ora a desenhar páginas de enormíssima beleza”.




O júri do Prémio Literário Fundação Inês de Castro 2018, composto por José Carlos Seabra Pereira (Presidente), Mário Cláudio, Isabel Pires de Lima, Pedro Mexia e António Carlos Cortez, reconfirmando a sua vocação enquanto promotor de obras que revelem grande originalidade e melhor qualidade estético literária — atribuiu por maioria este prémio a Djaimilia Pereira de Almeida pela sua obra Luanda, Lisboa, Paraiso. 

”Nesta edição, o Tributo de Consagração Fundação Inês de Castro 2018, um prémio que visa distinguir a carreira de um autor, foi atribuído por unanimidade ao conceituado tradutor e poeta José Bento, importante divulgador da cultura hispânica em Portugal.

Ao longo dos anos, o Prémio Literário Fundação Inês de Castro tem distinguido autores e obras de reconhecido valor, como Pedro Tamen (2007), José Tolentino Mendonça (2009), Hélia Correia (2010), Gonçalo M. Tavares (2011), Mário de Carvalho (2013), Rui Lage (2016) ou a poeta Rosa Oliveira, vencedora do galardão em 2017, entre muitos outros.


A cerimónia de entrega do Prémio Literário Fundação Inês de Castro 2018— um troféu de prata e pedra, da autoria do escultor João Cutileiro — terá lugar no Hotel Quinta das Lágrimas, em Coimbra, no dia 30 de Março.

Durante a cerimónia, Isabel Pires de Lima falará sobre a obra literária de Djaimilia Pereira de Almeida e Pedro Mexia sobre a carreira e a obra de José Bento. 




segunda-feira, 18 de março de 2019

CELA| Connecting Emerging Literary Artists: Cătălin Pavel


CĂTĂLIN PAVEL


 CELAConnecting Emerging Literary Artists




O Projecto:

O projeto CELA (Connecting Emerging Literary Artists) abre o palco europeu a uma nova geração de criadores literários. Permite uma cooperação transnacional intensiva entre talentosos escritores, tradutores e profissionais literários europeus em início de carreira. No decurso do projeto, os participantes enfrentam algumas das mais exigentes realidades da nossa era — de fraturas cada vez mais acentuadas na Europa a um setor editorial em mudança — e põem-nas em perspetiva, partilham o seu trabalho e colmatam o fosso que os separa do setor editorial e do público europeu.
As organizações literárias de seis países europeus uniram forças para fundar o projeto de incubação de talentos cela — Connecting Emerging Literary Artists. Partilhamos a necessidade de estabelecer uma infraestrutura sustentável de incubação de talentos para preservar a diversidade da literatura europeia e dar maiores oportunidades a línguas minoritárias. 
O projeto proporciona um percurso de dois anos com formação, instrumentos e uma rede que visam tornar possível uma carreira internacional e estabelecer uma prática profissional integrada. Com uma atenção em competências e mobilidade transnacional, incluímos especialmente as oportunidades digitais na literatura, novas formas de os participantes conseguirem emprego e rendimento.
Cada edição do projeto cela decorre durante dois anos. No primeiro ano, as organizações literárias orientam os escritores, tradutores e profissionais literários e proporcionam-lhes um programa multinacional de residências, formação e master classes para os preparar para trabalhar no mercado europeu e para um público internacional. No segundo ano, os participantes são inseridos por via de marketing internacional e campanhas publicitárias, uma digressão por festivais
europeus e apresentações ao público e a profissionais europeus por escritores e tradutores de renome (os nossos embaixadores cela) e organizações literárias. 

Os autores e tradutores participam em campanhas internacionais, festivais literários em diferentes países e numa rede de trabalho que proporcionará contacto entre todos os participantes.
Kick-Off: Hay Festival Segovia (Espanha)Tinto-no-Branco- Festival Literário de Viseu (Portugal), Book Fest (Roménia), Pisa Book Festival (Itália), Lev-Literatura em Viagem (Portugal), Passa Porta Festival (Belgium), Wintertuinfestival (Holanda) recebem os autores e tradutores do projecto CELA.


Parceiros:
Booktailors
Escuela de Escritores
Flemish-Dutch House deBuren
Passa Porta
Pisa Book Festival
Wintertuin


Biografia

CĂTĂLIN PAVEL

Ano de nascimento 1976
Nascido na Roménia
Vive e trabalha em Bucareste

–  Romance Aproape a șaptea parte din lume     (A Sétima Parte do Mundo ou por aí,             Humanitas, 2010), tradução francesa La         septième partie du monde (Non Lieu, 2017)
Romance Nicio clipă Portasar (Portasar Nenhum Instante, Cartea Românească,        2015)
–  Romance Trecerea (A Passagem, Cartea  Românească, 2016), vencedor do prémio      nacional romeno Ziarul de Iași (2016) e        nomeado para o Prémio da    União dos Escritores (2016)
Romance Chihlimbar (Âmbar, Polirom,      2017)
Poesia (última publicação): Adagietto        (2016)




Sobre Cătălin Pavel
«Todas as profissões com que uma criança sonha são incertas. Escritor, ator, bombeiro ou astronauta, enquanto criança, não se pensa em termos de uma perspectiva de futuro. Não, uma criança sonha sem limites. E o emprego dos seus sonhos sempre foi escrever. Sabia disto com toda a certeza: eu iria ser escritor.»
Cătălin Pavel, escritor e arqueólogo, pode ter sido um sonhador enquanto criança, mas no ensino secundário começou-se a sentir entediado. Ele constatou que tinha que refletir acerca de coisas maçadoras.
«É assim que as coisas funcionam, não é?», diz ele próprio. «A minha convicção inabalável de que, mais tarde, viria a escrever, começou-se a desvanecer durante o ensino secundário. De repente, uma pessoa constata que tem que refletir acerca de coisas sem o mínimo de interesse. Enquanto adulto, uma pessoa tem que se comportar de forma responsável. Tem que se escolher uma carreira com perspectiva de futuro e segurança financeira.»
É então que Pavel descobre a arqueologia, uma profissão, ainda assim, insegura. Ele desata-se a rir acerca disto. «Foi na altura da mudança de século. Encontrava-me, pela primeira vez, numa escavação arqueológica e esta experiência foi incrível. Apaixonei-me completamente pelo trabalho, pelas pessoas e pelo cenário. É de uma beleza enorme trabalhar com um grupo de pessoas apaixonadas num trabalho de reconstrução, numa área completamente deserta.
Entretanto, Pavel já tem um número vasto de escavações arqueológicas em seu nome, em países como a Turquia, Marrocos e Roménia, entre outros. Para além de pesquisa arqueológica, também contribuiu para um dicionário mitológico. É assim que se consegue perfilar como autor, porque, na realidade, Pavel nunca parou de escrever. «É algo que corre no meu sangue, e do qual não dá para escapar. Escrevo constantemente e em qualquer lugar. Quem diz que não tem tempo para escrever não é escritor. Mesmo quando não há tempo, é possível escrever.
Precisamente nestes momentos, quando tal se irrompe.» Pavel repete-o com frequência, através do uso de diversos exemplos:
a sua mestria tem um carácter artesanal. Ele não acredita, assim, em inspiração. «De forma alguma», diz ele de forma resoluta. «Inspiração não vem ter com uma pessoa, de repente. Ela encontra-se ao nosso redor. Olhar
para aquilo que se encontra à nossa volta é suficiente. A minha escrita emana sempre da minha própria observação.»
Ele escreve acerca do quotidiano? Não é isso aquilo que ele pretende dizer, e esclarece: «Escrevo acerca do amor, da perda e da morte. Grandes temas, sim, mas eles encontram-se sempre presentes na minha mente.
Quando compro um pepino no supermercado, os temas pesados encontram-se logo atrás do meu pensamento. A camada que separa os grandes temas das nossas vidas diárias é extremamente fina. Isto vai de encontro ao meu ponto de vista acerca da literatura: que gira à volta de algo que se encontra em falta, de uma retenção de explicação. O valor surge precisamente daquilo que permanece implícito ou daquilo que parece estar em falta.»
Pavel constata uma sobreposição entre o seu trabalho de arqueólogo e o seu trabalho de escritor. Ele fala com facilidade. Quem sabe, é questionado, de forma recorrente acerca disto. Porém, dá ares de ser alguém que, simplesmente, pensa muito acerca do assunto. Com fogo na voz, diz: «Enquanto arqueólogo, uma pessoa dá, constantemente, de caras com coisas que não reconhece. Trabalha-se com fragmentos, com pedaços difíceis de identificar. Tal continua a acontecer, mesmo após vinte anos de experiência. Demora tempo a entender qual é que é a origem de algo. Isto também se aplica à escrita.» A sua voz baixa, finalmente, para um ritmo mais lento. «Uma pessoa depara-se com algo que não consegue imediatamente enquadrar, e não sabe de onde é que vem o entusiasmo. É só, então, que o trabalho começa.»

Conto de Cătălin Pavel

REVOLTA INVERSA

A sua vida com Carmen Ottomany começara muito abruptamente nos finais do décimo primeiro ano. No dia em que tinha decidido deixar a cidade, procurou uma fulana alta da turma mais próxima, uma tal Fahrida (o seu pai era do Irão), mas que se apresentava como Frida. Saiu da cidade pois estava convencido de que ao partir os limites ficariam para trás, uma convicção absurda, mas se alguém nunca a tiver será digno de piedade. Foi encontrar a tal Frida entre um grupo de raparigas nas traseiras de um prédio, fumando e rindo. Fumava-se naqueles tempos, mesmo nos liceus dos snobes como era o Suber e sobretudo ali. Era um liceu extremamente fraco quanto à qualidade dos seus professores, com algumas exceções, mas surpreendentemente alguns dos alunos estavam entre os melhores jovens cérebros do país, facto este usado sem qualquer pudor nas campanhas de promoção do liceu, não o diziam abertamente, os nossos professores são uma desgraça, mas, se nos entregarem os vossos filhos, estes terão como colegas os futuros primeiros-ministros. Era um liceu-clube. Tinha recebido o nome de alguém da União Europeia, mas em boa medida era uma empresa comercial. Uma espécie de local onde o primeiro ano em nada diferia do segundo, apenas o preço do bilhete era dez vezes maior sem motivo algum, de tal modo que ao decidires ingressar ali sabes seguramente que estarás entre os ricos. Radu Grinda e o seu professor de inglês, um alcoólico que recebera de Deus todos os dons de mão beijada, cegamente, era exatamente ao contrário, quer dizer, Uivărășeanu tinha uma mente do tamanho do corpo docente e Grinda não só não tinha nenhuma qualidade excecional, como não possuía nem a décima parte do dinheiro dos seus colegas. E então, Radu encontrou Frida nos campos de ténis das traseiras, onde as raparigas, impressionantemente belas e tentadoras, fumavam e deitavam as cinzas nas caixas das bolas. Dirigiu-se diretamente a ela. Tinha-a visto ao longe e teve tempo de fumar ininterruptamente até se aproximar e dizer-lhe que deixaria Bucareste naquela noite, mudar-se-ia para Cîmpulung, e caso ela quisesse poderia vir com ele para ali viverem. As raparigas ficaram de olhos esbugalhados, Frida exclamou uma obscenidade e todas desataram literalmente a rir às gargalhadas, escoando naquele imenso riso muita ansiedade e energia sexual. Grinda olhou-a com ar calmo e já se resolvera ir embora quando uma fulana do décimo primeiro A ou B, uma loira com um casaco de cabedal ̧ exclamou: «Eu vou.» 
Aquela era Carmen Ottomany. O riso congelou--se nos lábios de Frida e das outras, e conquanto tivessem começado a acotovelá-la e a dizer-lhe:
«Vai-te lixar, miúda, estás louca», tal como os meninos superdotados eram obrigados a dizer, a fulana olhou-o fixamente sem um sorriso nos lábios e Grinda, depois de refletir um segundo, exclamou: «Está bem.» E, de facto, naquela tarde partiram para Cîmpulung Moldovenesc. A viagem de comboio foi a mais confortável de toda a sua vida. Ali chegados, deram uma volta pelas redondezas, completamente sem rumo, e Carmen disse-lhe que queria fazer algumas compras. Grinda entrou igualmente num supermercado para comprar algo para fazer sandes. Cada um deles comprou duas escovas de dentes. Acharam uma pensão perto da floresta, a Baliverna, administrada por dois velhos, provavelmente alguém escolhera o nome da pensão em lugar deles. Comeram algo, conversaram um pouco e caíram exaustos, talvez mais pela emoção do que pelo cansaço, ou talvez não. Na manhã do dia seguinte, Grinda saiu à procura de trabalho.
Carmen foi ver se seria possível inscrever-se no liceu dali a partir de setembro. Encontrou, por um acaso histórico, uma secretária de bom coração, que quase a adotava naquele dia. Infelizmente, Carmen teve de mentir-lhe, dizendo-lhe que se tinha mudado para ali com o marido, não tinha como desmentir o que tinha dito e o que poderia fazer então? Já Grinda não teve a mesma sorte, deparou-se com uma série de indivíduos horríveis, mas obviamente haveria muitos lugares onde trabalhar quando não se tem pretensões. Não durou nem duas semanas para se empregar numa firma de construção. Nada de estável, mas alguém de lá afirmou-lhe que a dita firma tinha projetos uns a seguir a outros. Grinda não esqueceria nunca aquele homem que lhe dissera palavras tão animadoras. Embora não tivesse nada de animador para dizer |naquela noite, mesmo assim comprou uma garrafa de vinho, subiram para um monte, ambos contendo o nervosismo e o medo de se lançarem no vazio, tão habilmente que cada um deles se reencontrou perfeitamente encorajado na sua decisão ao ver o outro tão calmo. Dormiram em camas separadas e nem sequer se tocavam, a não ser de forma funcional, quer dizer, davam o braço quando atravessavam a estrada, como se isto contribuísse de algum modo para uma travessia com maior eficiência ou deferência superior. De manhã foram surpreendidos pelo pai da rapariga a bater à porta do quarto. Ambos tinham pensado que só após muitos dias, oh! algumas semanas talvez, houvesse este confronto, no entanto subestimaram a rapidez do pânico dos pais, mas demonstraram de um modo incrível a capacidade de se desenrascarem. Por trás da raiva que tinha de mostrar, era claro que o homem ficou aliviado por saber que a filha estava inteira e sobretudo, ao deparar-se com a altura de Grinda, chegou imediatamente à conclusão de que ele não apresentava nenhum perigo de transtorno na vida da rapariga.
Porém, enganou-se profundamente. O próprio papel, na qualidade de pai, estava comprometido desde o início, pois toda a situação apresentava um grande potencial de embaraço, e, pior ainda, todos os três tinham consciência disso. A sua filha vestida com uma t-shirt junto a um homem que claramente se via que a considerava uma mulher por inteiro! Grinda
pediu-lhe para esperar lá fora alguns minutos, e este obedeceu. Quando voltou, bufando de raiva ali no corredor, e com toda a razão, pois a filha, liceal, tinha fugido de casa, lançou um discurso sobre obrigações, o susto e a sua inconsciência. Até que Grinda abrisse a boca para responder, ouviu Carmen, que tinha tomado os acontecimentos por sua conta, interrompendo o pai e gritando com uma voz muito alta e clara, disse-lhe que nunca teria pensado estar uma tal voz dentro de um ser tão gracioso:
«Estou grávida dele!» O pai ficou de rastos e a partir daí até a sua partida, com a cauda entre as pernas, não mostrou qualquer espécie de ascendente sobre eles. Grinda preparou-lhe mesmo uma sandes para a viagem, embrulhadas em papel higiénico pois não tinha guardanapos. Ao ficarem sozinhos, a rapariga pediu-lhe desculpa pela invenção, mas Grinda não queria ouvir desculpas, pelo contrário, tinha sido um excelente jogo diplomático. Constatou que a olhava com uma atenção duplicada. A rapariga tinha olhos castanhos vivos exatamente como o retrato de Brigite Spinola-Doria. Era evidente que este primeiro teste tinha sido canja. Já com a chegada da mãe de Carmen, a situação mudou. Ordenou que Carmen saísse para poder conversar com Grinda cara a cara. Poderiam sair por este mundo fora, mas teriam de ter um respeito atávico pelos adultos. Carmen saiu do quarto sem protestar, para que ele ouvisse calmamente o que a senhora lhe perguntava: Como te chamas, rapazinho? Radu? Diz-me lá, Radu, os teus pais dar-me-ão o dinheiro que gastei durante três anos com Carmen no Liceu «Jean Subercaseaux»? Até se ouviram as aspas, embora não fosse claro para que serviam. Grinda ouvia-a atentamente, por interesse pela sua filha. Descobriria mais tarde que qualquer semelhança mesmo a mais insignificante entre a mulher que se ama e os seus pais é, de um modo simpático, embaraçosa como o diabo. Até então, todas estas pessoas eram estranhas para ele, e ainda bem. A mulher ameaçou-o de diversos modos, incompatíveis entre si, que chamaria a polícia, que o obrigaria a casar com a sua filha — que a sua vida seria destruída, explicou-lhe, aparentando uma perfeita seriedade — enviaria agressores para lhe partirem as pernas, mas, sem esperar que alguma das ameaças surtisse efeito, o jovem mal tinha conseguido anotá-las mentalmente para as digerir mais tarde, ela passou a implorar, fazer ofertas... Enquanto a ouviam, ambos se abraçaram. A mulher gritou-lhe que ela não era pau-mandado do marido, com ela não iriam conseguir nada, a rapariga iria com ela à ginecologista naquele instante. Bato-lhe, perguntou baixinho a Carmen, ela sorriu e fez-lhe sinal que não. A mãe falou durante mais um pouco e de repente fez-se luz na cabeça de Grinda, percebeu porque Carmen Ottomany tinha de passar rapidamente por casa antes de partir, demonstrando que aprendera algo nas aulas de literatura romena do século dezanove, como as cartas que se trocavam quando era preciso, das decisões que tomavam. Depois de se livrarem dela, Carmen e ele foram até à floresta. Ambos olhavam à volta, tal Dürer para o rinoceronte, era como se nunca se tivessem dado conta até então de que na floresta havia uma profusão de árvores que cresciam umas ao lado das outras. Era como se descobrissem um planeta coberto de árvores soalheiras que se abanavam, onde não existisse nada mais que o momento de estarem juntos, os bichinhos transportando o sol e a terra que gemia a grande profundidade.
Muitos anos depois, quando percebeu a importância daquele dia na sua vida, Grinda compreendeu porque esta revelação continha nela o desmoronar, pois qualquer revelação pressupõe um período de cegueira anterior a ela, isto é, um crime que necessitava agora de uma penitência. Naquela altura sentia apenas a felicidade de estar com Carmen Ottomany, perguntando-lhe se estava tudo OK, se ainda queria ficar, e ouvi-la simplesmente responder que sim. Não ficaram a viver por ali, mas decidiram viver juntos. Grinda sempre soube que a rapariga era mais inteligente do que ele e nem sequer tentou perceber os motivos porque o teria acompanhado, ou quão gratuito tinha sido o gesto dela. Tomava como tal a ambição desastrosa de Carmen em cuidar dele e mantê-lo limpo e aprumado, talvez esta fosse a sua forma de revolta aos dezassete anos, uma revolta inversa da dos colegas da sua geração, que procuravam o excesso, a frivolidade e a violência e Tóquio, Amesterdão e a Terra do Fogo. Ela seguiu alguém que não prometia mais do que uma monogamia banal, sem documentos, nos confins do mundo, um lugar de facto muito belo para eles, como se viu. A Grinda, não lhe interessava se de facto este era ou não um excesso similar, numa mente demasiado sofisticada, cheia de literatura, como era a de Carmen naquela altura. Certo era que ela não tinha de
acusar nem sequer um quarto de uma questão em todos estes anos, e não tinha sido simples, ele tinha terminado o bacharelato dois anos mais tarde que ela, sempre num esforço permanente, com dificuldades e problemas, apesar de retrospetivamente terem sido anos bons, claro, como todos os anos bons. Apenas o facto de terem realizado algo radical, e no entanto muito simples, não significava que eles também fossem simples, nem na sua natureza, nem na história. Naquela prova, eles permaneceram indivíduos entrópicos. Mas foram anos de solidariedade, numa espécie de regime militar, na verdade não perdiam nenhum concerto quando havia uma guitarra em cena ou nas tabernas onde cantavam amadores. Não podia fazer nada agora, estava impedido de se regozijar com esta lembrança, porque, indiferentemente do que acontecesse mais tarde, esta rapariga era a única que o amparava por acreditar que se pode viver loucamente, indiferentemente das consequências, mais exatamente indiferentemente das consequências inventadas pelos outros.
Separaram-se, com certeza, mas apenas quando ultrapassaram todos aqueles problemas, aquele esforço, quando chegaram a conhecer-se e tolerar-se e quando por fim apareceram premissas para eles também florescerem. Mas o motor que te põe em órbita é também aquele que no final te faz cair do céu. O Adão da estátua já tem nele incorporado um Cristo doente de ergotismo. Carmen terminou a faculdade, Grinda tornou-se assistente de Uivărășeanu trabalhando num magnífico projeto europeu, e agora, quando finalmente poderia pagar todas as faturas e o exílio ter o seu fim, a corda partira-se e separaram-se após anos juntos. 
Porquê? Porque Carmen sabia o que fazia e continuava a sua revolta através de meios que ele não poderia entender. Num belo dia passou os dedos pelos seus cabelos e disse amorosamente a Grinda que precisava de se separar por alguns anos agradecendo-lhe por a ter conduzido até ao lugar que procurava. Ele olhou para ela, aparvalhado. Que a mulher quisesse de repente separar-se dele era algo que poderia compreender, mas que precisasse de se separar temporariamente, por alguns anos, era um disparate abissal para a sua mente. Duma forma totalmente atípica para ele, ilustrando perfeitamente a ideia de perda temporária das faculdades mentais, partiu um prato na cozinha, gritando que não podia aceitar algo tão literariamente diabólico, experiências dela. Percebendo que Carmen estava a gostar da sua reação, acalmou-se. Talvez ela tivesse levado longe de mais a ideia do gesto gratuito do que ele imaginou e que é possível e proveitoso. Porém, Grinda preferia dizer a si próprio que ela não desejava um outro homem mas sim um regresso aos anos do liceu, ali onde ele agora já não podia acompanhá-la, porque não sabia como se libertar da lógica desta solidão que se chama maturidade. Nunca a condenou, embora um outro mais inteligente o tivesse feito. Para ele, aquela Carmen que tinha vindo com ele quando tivera de escolher entre ele e o mundo nunca se poderia voltar contra ele, mesmo que agora tivesse chegado o momento de ela escolher o mundo.


Tradutor:

SIMION DORU CRISTEA


Simion Doru Cristea (1965) nasceu em Bistrita, Roménia. É licenciado em Cinema na Faculdade de Filologia de Babes-Bolyai. É pós-graduado em Filologia e História pela mesma universidade. 
Publicou várias críticas, participou em publicações colectivas e publicou livros em seu nome:Manifestul elevului de nota 10 (The Manifest of the A mark Student, Dokia Publishing House), Funcția symbolic-mitică în textul religios (Symbolic-mythic function in Religious text, Cluj-Napoca, GEDO Publishing House) e o romance Să trăiți, Domule Președinte (God speed, Mister President, Cluj-Napoca, Dokia Publishing House).








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