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segunda-feira, 15 de abril de 2019

Livia Franchini: CELA| Connecting Emerging Literary Artists








 CELAConnecting Emerging Literary Artists




O Projecto:

O projeto CELA (Connecting Emerging Literary Artists) abre o palco europeu a uma nova geração de criadores literários. Permite uma cooperação transnacional intensiva entre talentosos escritores, tradutores e profissionais literários europeus em início de carreira. No decurso do projeto, os participantes enfrentam algumas das mais exigentes realidades da nossa era — de fraturas cada vez mais acentuadas na Europa a um setor editorial em mudança — e põem-nas em perspetiva, partilham o seu trabalho e colmatam o fosso que os separa do setor editorial e do público europeu.
As organizações literárias de seis países europeus uniram forças para fundar o projeto de incubação de talentos cela — Connecting Emerging Literary Artists. Partilhamos a necessidade de estabelecer uma infraestrutura sustentável de incubação de talentos para preservar a diversidade da literatura europeia e dar maiores oportunidades a línguas minoritárias. 
O projeto proporciona um percurso de dois anos com formação, instrumentos e uma rede que visam tornar possível uma carreira internacional e estabelecer uma prática profissional integrada. Com uma atenção em competências e mobilidade transnacional, incluímos especialmente as oportunidades digitais na literatura, novas formas de os participantes conseguirem emprego e rendimento.
Cada edição do projeto cela decorre durante dois anos. No primeiro ano, as organizações literárias orientam os escritores, tradutores e profissionais literários e proporcionam-lhes um programa multinacional de residências, formação e master classes para os preparar para trabalhar no mercado europeu e para um público internacional. No segundo ano, os participantes são inseridos por via de marketing internacional e campanhas publicitárias, uma digressão por festivais
europeus e apresentações ao público e a profissionais europeus por escritores e tradutores de renome (os nossos embaixadores cela) e organizações literárias. 

Os autores e tradutores participam em campanhas internacionais, festivais literários em diferentes países e numa rede de trabalho que proporcionará contacto entre todos os participantes.
Kick-Off: Hay Festival Segovia (Espanha)Tinto-no-Branco- Festival Literário de Viseu (Portugal), Book Fest (Roménia), Pisa Book Festival (Itália), Lev-Literatura em Viagem (Portugal), Passa Porta Festival (Belgium), Wintertuinfestival (Holanda) recebem os autores e tradutores do projecto CELA.


Parceiros:
Booktailors
Escuela de Escritores
Flemish-Dutch House deBuren
Passa Porta
Pisa Book Festival
Wintertuin


Biografia

LIVIA FRANCHINI


Ano de nascimento 1987
Nascida Itália
Vive e trabalha em Londres

– Licenciatura em Teatro e Literatura Inglesa, Goldsmiths (Londres, 2010)
– Mestrado em Escrita Criativa, Royal Holloway (Londres), terminando em segundo lugar do Prémio Margaret Hewson (2013)
– Candidata a doutoramento em Escrita Criativa em Goldsmiths, com investigação em estratégias de experimentação feminina em Virginia Woolf, Anna Kavan e Lydia Davis
– Publicada em The Quietus, 3:AM, The White Review, LESTE, Hotel, Review 31, Visual Verse e nas antologias On Bodies (3 of Cups) e Wretched Strangers (Boiler House Press).
– Performances em eventos como Faber Social, The European Poetry Festival, Free Verse Poetry Fair, Standon Calling, Lowlands
– Traduziu autores como Michael Donaghy, Luciano Funetta, Natalia Ginzburg, Francesco Pacifico, Sam Riviere, Vanni Santoni, Ettore Sottsass e James Tiptree Jr.


Sobre Livia Franchini

Livia Franchini nasceu em Itália, mas saiu do país quando tinha 19 anos. Um momento decisivo, numa idade decisiva. «Claro que dominava completamente o italiano aos meus 19 anos. Porém, é só a partir dos 20 anos que uma língua começa a ganhar camadas. Só então é que uma pessoa domina uma língua em todas as formas e situações. Se eu agora regressasse à Itália, voltaria a ser uma criança. Percebe aquilo que quero dizer? Eu não saberia como pagar uma fatura ou como funcionaria uma hipoteca, porque não aprendi a língua a este nível.» É uma situação extremamente esquisita, de acordo com Franchini: ela sente-se italiana e britânica, mas também tem consciência que não conhece as duas línguas em toda a sua profundidade. No entanto, a língua oral de Franchini não é, de forma alguma, mista: o seu inglês é inimitavelmente bom, sem qualquer rasto de italiano. Na verdade, por vezes, torna-se difícil entendê-la devido à sua pronúncia britânica. «Devido a este sotaque londrino, as pessoas esquecem-se, continuamente, de que, na realidade, sou italiana. E isto também se aplica a mim própria. Somente quando já se vive há algum tempo no estrangeiro, é que se começa a tornar complicado em termos mentais, quando uma pessoa se consciencializa de que foi perdendo um pouco de tudo pelo caminho. Não é possível voltar atrás e as ferramentas necessárias para uma pessoa ainda se encaixar na cultura da sua terra natal foram perdidas.» Franchini desata-se a rir acerca disto, mas é um tipo de risada que se desvanece e converte num tom mais suave. De forma instintiva, ainda escreve uma espécie de mistura: «Sento-me em frente ao computador, escrevo com entusiasmo e tudo corre sobre rodas. Só quando levanto o olhar é que vejo: três linhas em inglês, três linhas em italiano, parágrafo em inglês, algumas palavras em italiano. As línguas entrelaçam-se uma na outra no processo criativo. Percebe? É também por causa disto que é extremamente esquisito», e ela repete: «É bizarro reescrever os meus próprios textos.» Imediatamente de seguida, Franchini muda o discurso, em jeito de piada, para uma anedota. «Escrever em inglês continua a ser difícil. Quando morei em Londres por três anos, escrevi acerca de uma rapariga que pega no seu copo. Eu queria escrever em como ela pega o copo da mesa, mas que, primeiro, o arrasta até a borda da mesa antes de o levar à boca. Eu não tinha as palavras para o descrever.» Ela ri-se às gargalhadas: «Eu nem conseguia descrever que alguém pegava num copo.» Outro exemplo. Franchini dá-los de enfiada: «Quando fiz a audição para o curso de redação, tinha um portfolio de escrita correspondente a 5 000 palavras. Literalmente. Era tudo aquilo que eu já tinha escrito em inglês.» Franchini foi admitida e encontra-se, de momento, a trabalhar no seu primeiro romance, como parte integrante do seu mestrado. Ela escreve contos e poesia, traduz do italiano e trabalha para um festival em Londres na área de literatura italiana. Ela conseguiu dominar uma língua que não era a dela, algo do qual ela tem perfeita consciência, segundo a mesma. «Às vezes, parece ventriloquismo. É como se eu tivesse uma visão diferente através de uma língua diferente. Eu já não estou em condições de olhar para as coisas com meus próprios olhos. Isto é fucked up! Mas, quem sabe, talvez esta perspetiva objetiva seja algo também bom?» Franchini decide «Talvez seja algo bom.»



Vídeo



Conto de Livia Franchini

De Shelf Life

Sei dar o peso justo às coisas. Por exemplo: dez quilos de penas pesam tanto como dez quilos de tijolos, mas dez quilos de tijolos são mais fáceis de transportar. Meio quilo de carne compra-se pagando, ou paga-se de junto do coração para saldar uma dívida. Na América come-se um bolo muito pesado, que se faz adicionando o mesmo peso de cada um dos ingredientes: farinha, ovos, manteiga e açúcar. Estas coisas têm uma forma que é sempre a mesma: quando atribuímos uma forma a um peso, um objeto adquire consistência e podemos identificá-lo com precisão. Por exemplo, uma garrafa de água mineral de um litro pesa precisamente um quilograma. Por exemplo, a quantidade de cereais que comes ao pequeno-almoço é precisamente o dobro daquela que cabe na palma da minha mão. O teu casaco, quando mo pões pelos ombros se está frio e me esqueci da camisola, tem o peso específico do nosso jantar, quando fomos comer fora, e do vinho branco que bebi. Sinto-o nos joelhos, na enxaqueca que me comprime as têmporas. Sei atribuí-lo a uma certa hora da noite, entre as onze e a meia-noite, imediatamente antes de o último metro partir. O peso do teu braço que me repousa no peito, quando estamos na cama e estás quase a adormecer, e o tempo que demora a transformar-se no peso de ti, que adormeceste, quando me corta a respiração e devo pô-lo para o lado, é o peso do próprio sono. Sem ele, dormir é uma noção desprovida de significado, que existe fora do espaço e do tempo. Não faz sentido, por isso, que eu esteja aqui na cama, acordada, às seis da manhã, se ao meu lado há um buraco do peso de oitenta e quatro quilos, que tem precisamente a forma do teu corpo, mas tu não estás aqui. A tua ausência tem, de facto, um peso inesperado, que cresce minuto a minuto desde que te foste embora há oito horas. Na natureza, nada se cria e nada se destrói. Tudo se transforma. Mas ao meu lado há o vazio, e nesse vazio eu afogo-me.          Faz dez anos que nos deitámos de barriga para baixo na beira de um precipício. Tínhamos ido dar um passeio ao ar livre. Naquele ano dávamos tantos passeios ao ar livre. Chegámos a meio da subida a pé, depois deitaste-te no chão e eu ajoelhei-me ao teu lado e perguntei-te o que fazias. «Vem aqui para ao pé de mim», disseste-me. De barriga no chão, como os lagartos, rastejámos juntos até ao cume. Deste-me a mão e olhámos para baixo e não tive vertigens, como me tinhas prometido. Há tanto tempo que estou aqui; doem-me as vértebras. Olho para os cromossomas cor de laranja do rádio-despertador, é assim que faço para saber que passou muito tempo. Talvez tenha adormecido por algum tempo; não sei quanto, não consigo contar, os números não correspondem ao tempo. Sei a hora precisa: são seis e quarenta e três. Sei que dez anos são três mil, seiscentos e cinquenta dias, mais dois anos bissextos, três mil, seiscentos e cinquenta e dois, e hoje, que é o terceiro milésimo seiscentésimo septuagésimo terceiro, estou aqui na cama, sozinha.
Quando se trabalha num pronto-socorro, antes de mais aprende-se a avaliar o dano. A triagem é um sistema para selecionar os pacientes de acordo com níveis de urgência e tratamento necessário, um pouco como fazer a perícia de uma casa para a remodelar. O sol é filtrado pela persiana, e a luz vermelha da lâmpada desbota-se; o teu lado da cama torna-se cinzento e a lâmpada zune. Sei que é o momento de avaliar o dano, decidir o tratamento necessário, depois agir. Ergo a cabeça para olhar em volta. Dói-me o pescoço. As pernas estão rígidas e suadas. O teu roupão branco está pendurado atrás da porta como uma tira de gaze. Os sapatos de trabalho não estão aqui, aqueles bons para caminhar estão na sapateira. Os chinelos turcos roubados no hotel de cinco estrelas estão ainda envoltos no plástico. Tinhas pressa, levaste só o essencial. Chamavas-lhe o teu «plano de sobrevivência», mas na realidade tinhas mais do que um, conforme a ocasião. Um plano quinquenal revolucionário, se ao menos o teu chefe te tivesse escutado. Programas para o fim de semana de Páscoa. Uma estratégia de fuga em caso de ataque dos zombies: importante levar feijões em lata, pelas proteínas, e armas brancas longas, para não se esgotarem as munições. Agrada-te partir preparado, não me surpreende que te tivesses preparado para partir. Numa emergência, abandonar todos os objetos pessoais. Mas, se é uma emergência, não te convinha levar os sapatos bons? Não te conviria voltar para vires buscá-los? Estou exausta. Fecho os olhos e é um erro, porque assim às cegas todos os outros sentidos se aguçam. Volta-me à boca o sabor do jantar da noite de ontem. Alho-francês? Não me lembro. Triagem: selecionar o nível de urgência. Menina, acalme-se, respire fundo. Diga-me o que aconteceu.

Não me lembro bem. Empilhaste os pratos e levaste-os para a cozinha, esperando que eu viesse lavá-los. Peixe: bacalhau com alho-francês. Para ti. Para mim, bacalhau ao vapor, cortado em pedaços pequenos, fáceis de digerir. Gosto de comer contigo. Pus a correr a água quente e tirei o anel que me deste. Calcei as luvas amarelas. Raspava dos pratos para o balde os restos do peixe e do alho-francês, de costas para ti. Disseste: 

«Ruth.» 

Queimei os dedos com a água a ferver. Havia qualquer coisa estranha no teu tom de voz. Estas coisas percebem-se com o corpo, antes do cérebro.

«Diz», respondi. Uma noite como tantas outras, em nossa casa. A nossa vida de casal com as suas pequenas desatenções, através das quais acedemos às nossas pequenas, tépidas solidões. Egoísmos minúsculos necessários para sobreviver à intimidade de casal, para poder oferecer ao outro a melhor versão de nós mesmos. Chamaste-me outra vez:

«Ruth. Tenho de falar contigo.»

O cérebro demora sempre mais a chegar lá. Estava no meu mundo, distraída com os pratos no lava-loiça. Pensava que estivesses a treinar para o curso de life coaching. Grunhi, como que a dizer «diz». Não respondeste.

«Sim?», disse então, voltando-me para ti. 

«Tive uma epifania.» 

Lá vamos nós outra vez, pensei. Não era a primeira vez. Apoiei-me no armário enquanto o lava-loiça se enchia de água e fiz um sorrisinho, pronta para a tua liçãozita. Não sou uma pessoa muito perspicaz: regra geral, quando tenho a certeza de que percebi, estou errada. 
    O que aconteceu depois, antes de tudo se desfazer em mil pedaços? Não me lembro bem. A ordem cronológica é confusa. Fragmentos de conversa arremessam-se contra as paredes do meu crânio, explodem com o impacto. Massa cinzenta e violeta. «Hematoma subdural», também conhecido como hemorragia subdural: um tipo de hematoma que se desenvolve na sequência de um derrame cerebral. Pontinhos violeta atrás dos olhos. Pedaços de discussão sem pontuação. A perda da memória de curto prazo é complicação frequente do traumatismo craniano. 

*

Dez anos, Neil. Dez anos juntos são um monte de tempo. O suficiente para que as expectativas se sedimentem, como a tisana no fundo da chávena. Conheço os teus ciclos. Viver contigo significa aceitar pelo menos um pouco de caos e eu acolhi-o: acolhi-te. Estás sempre no limiar, estás sempre para descobrir qualquer coisa, precisas disso. Examinas o mundo como se tateasses um fruto, procurando o ponto mais maduro e mais brando para enfiar o polegar e romper a couraça da casca. A minha, nunca a rompeste. Talvez porque eu não a tinha realmente; nunca tive segredos para ti. Ocupo pouco espaço, o menor espaço possível; tudo o resto deixo para ti. Mas uma unidade não se divide apenas em meios; quando estávamos juntos havia pouco, dizia-te sempre que era o outro quarto da tua laranja. Depois deixei de o dizer porque levavas a mal. 
       Um quarto da tua laranja… não pensava nisso há tanto tempo. Era uma brincadeira. Dez anos juntos, no fim de contas, como partes complementares da mesma equação. Durante dez anos fui o quociente de cada uma das tuas necessidades e talvez tenha feito filmes. As coisas que faço por ti todos os dias são infinitas, dei por garantido ser qualquer coisa mais do que uma simples função. O motor foste sempre tu, sabemo-lo. Assim, há qualquer coisa que não bate certo. Acreditava que, subtraindo ao cálculo o teu movimento perpétuo, o resultado seria a ausência total de movimento. Aquela quietude morta aterrorizava-me. Afinal é diferente. É uma sensação sem nome, mas talvez consiga localizá-la. Vibração estática por trás das pálpebras, ruído branco. Dois grandes cabos entrelaçam-se no centro do meu peito: fibrilação ventricular. A eletricidade viaja nos capilares mais remotos dos meus nervos. Penso nas partes do meu corpo em que nunca penso: a parte de trás da barriga das pernas, as pontas dos cotovelos, a concha da orelha. Os interstícios entre os dedos das mãos e os dos pés. A vítima atingida por um raio permanece colada à terra, oscilante; a queimadura propaga-se como coral fúcsia ao longo do desenho das veias. A energia transborda do meu corpo parado, faz com que me ponha de pé, direita, ao lado da cama. 
       Tenho formigueiros nas pernas, como se tivesse acabado de tirar um gesso. Tento dar um passo, depois paro, depois recomeço, cega, rumo à cozinha. Força, digo a mim mesma, força, mexe-te, anda. Ando. Ando com o ombro direito contra a parede, assim nada pode sair do escuro e agarrar-me, bato com o rabo na mesa do telefone, olho para as minhas ancas, já mais largas do que há alguns meses. Tenho a barriga inchada, não fiz a digestão, tenho dores nas costas, está para me vir o período e se me vem o período então eu e tu… Apoio-me na parede, dor branca e muda; sinto-me velha, nunca me senti assim tão velha. Uma pessoa às portas da morte quer sempre a mesma coisa, um gole de água fria do dispensador, e eu levo-lho num copo de plástico, apoio-lho nos lábios, como faço agora. A minha boca seca toca a borda da chávena e a água fria corre-me pela garganta. Sei precisamente qual é o problema. 

Não sei ser uma pessoa. 
        Depois de dez anos contigo, Neil, eu sozinha não sei como se faz. Apoio as mãos nos dois lados do lava-loiça e fecho os olhos, inspiro, abro os olhos. Olho para o anel que me ofereceste, entre os pratos sujos e os post-its em forma de coração. No rebordo do papel uma gota de água cavou um buraco redondo. 

Tradutor

ANA CRISTINO

Ano de nascimento 1973 
Nascida Portugal 
Vive e trabalha em Coimbra, Portugal 
– Licenciatura pré-Bolonha em Línguas e Literaturas Modernas (Português e Inglês) pela Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra 
– Pós-graduação em Tradução pela Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra 
– Pares de línguas de trabalho: inglês, italiano, francês e espanhol > português e português > inglês

  

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