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terça-feira, 30 de abril de 2019

Divulgação: Uma Viagem pelo Mundo da Cerveja Artesanal Portuguesa, de Domingos Quaresma e Bruno Aquino





LeYa / Casa das Letras

A partir de hoje nas livrarias


Uma Viagem pelo Mundo da Cerveja Artesanal Portuguesa, de Domingos Quaresma e Bruno Aquino é uma visita guiada ao fabuloso mundo da cerveja artesanal.
O lançamento decorrerá no dia 7 de maio (terça-feira), às 18h30, na Livraria Ler Devagar, LX Factory, em Lisboa.


Num mundo perfeito toda a cerveja seria artesanal, fruto da paixão inspirada de mestres cervejeiros e feita com a melhor selecção de ingredientes em processos apurados ao longo de gerações.
A cerveja é a mais popular e social das bebidas. Cada copo de cerveja é um conjunto único de sensações, concebido para ser partilhado entre amigos.
O que lhe propomos é uma visita guiada a este mundo fabuloso – o da cerveja artesanal. Uma visão abrangente sobre a história, ingredientes, estilos e harmonizações com comida. E um incentivo claro a que se aventure a fazer a sua própria cerveja.
Sabia que há mais de 7 mil anos os povos da Mesopotâmia já faziam cerveja?
Sabia que pode produzir cerveja em casa de forma simples e barata?
Sabia que existem tipos de cerveja que pode deixar envelhecer e outros que deve beber logo?
Sabia que os vários estilos de cerveja devem ser bebidos a temperaturas diferentes?
Sabia que existem vários tipos de copo conforme o estilo de cerveja que se vai beber?
Sabia que existem hoje mais de 100 marcas portuguesas de cerveja artesanal?
Descubra a resposta a estas questões e explore o mundo da cerveja artesanal portuguesa!

BRUNO AQUINO
É o rosto da cerveja artesanal em Portugal e um dos bons embaixadores que temos em eventos no estrangeiro.
Tem dedicado toda a sua energia criadora a tirar cursos, organizar concursos, dar palestras e escrever artigos. Já há uns anos que andava a pensar em escrever um livro sobre cerveja artesanal mas o facto de escrever as notas de prova de mais de 12500 cervejas que já bebeu deixava-o com pouco tempo livre.
Refere, por várias vezes, de uma forma simples e clara, que gosta de todos os estilos de cerveja, mas foi ao beber uma quadrupel belga que sentiu o chamamento de dedicar a sua vida à divulgação da cerveja artesanal.

DOMINGOS QUARESMA
Assume sem pudores que a escrita é a melhor maneira que encontrou de dar alguma utilidade à acidez do seu humor. Não tendo formação cervejeira digna desse nome, o seu conhecimento resulta de todas as caricas que já fez saltar e de ter uma audição atenta, que lhe permite escutar as conversas de entendidos nas mesas em redor da sua.
Acompanha o movimento cervejeiro artesanal português desde 2005, altura em que as coisas ainda se passavam maioritariamente em caves escuras e garagens. Numa noite de copos mais animada prometeu que havia de escrever o primeiro livro sobre cerveja artesanal portuguesa.
Um conservador desenvergonhado e por isso mesmo amante de cerveja belga, vive com a mágoa dos monges Trapistas nunca se terem estabelecido em Portugal.

Ficha do Livro:
Título: Uma Viagem pelo Mundo da Cerveja Artesanal Portuguesa
Nº págs: 224
ISBN: 9789897801112
PVP C/ IVA: 20,90€




Divulgação: Nova Edição de "Ilíada", por Frederico Lourenço




Rufam tambores, enchem-se campos de batalha e os corações batem ao ritmo da emoção que Homero traduz em 24 cantos daquele que é tido como o mais belo texto épico da tradição ocidental. Ilíada, de Homero, é um canto de sangue e lágrimas, em que os próprios deuses são feridos e os cavalos do maior herói choram. É o primeiro livro da literatura europeia e, ainda hoje, no século XXI, mantém inalterada a sua capacidade de comover e perturbar. As civilizações passam, mas a cultura sobrevive? A pergunta é de Frederico Lourenço, que traduz este livro, agora publicado pela Quetzal –, e a mensagem deste extraordinário poema parece apontar nesse sentido.
Ler a Ilíada é reclamarmos o lugar que por herança nos cabe no processo de transmissão da cultura ocidental: cada novo leitor acrescenta mais uma etapa, ele mesmo um novo elo deste texto onde «luz e morte coincidem hora a hora» (Luiza Neto Jorge). Depois da Odisseia, e ainda antes de prosseguir a tradução da Bíblia, esta é uma das mais significativas traduções de Frederico Lourenço. Disponível a 3 de maio em todas as livrarias.



Divulgação: Novidades editoriais da Penguin Random House para Maio






Alfaguara:
- Serotonina, de Michel Houllebecq ( 21 de maio)
- Coração tão branco, de Javier Marías ( 7 de Maio)

Companhia das Letras:
- Anatomia dos mártires, de João Tordo ( 21 de Maio)

Suma de Letras:
- Freddie Mercury- Uma biografia  ( 7 de Maio)
- Acredita em mim, de JP Delaney ( 7 de Maio)

Nuvem de Letras:
- Zona de Unicórnios, de Dana Simpson ( 5ª livro da Colecção Bia e o Unicórnio)
- Diário de uma rapariga como tu, de Inês Almeida ( 1º volume desta colecção)

segunda-feira, 29 de abril de 2019

Simone Atangana Bekono:CELA| Connecting Emerging Literary Artists






 CELAConnecting Emerging Literary Artists




O Projecto:

O projeto CELA (Connecting Emerging Literary Artists) abre o palco europeu a uma nova geração de criadores literários. Permite uma cooperação transnacional intensiva entre talentosos escritores, tradutores e profissionais literários europeus em início de carreira. No decurso do projeto, os participantes enfrentam algumas das mais exigentes realidades da nossa era — de fraturas cada vez mais acentuadas na Europa a um setor editorial em mudança — e põem-nas em perspetiva, partilham o seu trabalho e colmatam o fosso que os separa do setor editorial e do público europeu.
As organizações literárias de seis países europeus uniram forças para fundar o projeto de incubação de talentos cela — Connecting Emerging Literary Artists. Partilhamos a necessidade de estabelecer uma infraestrutura sustentável de incubação de talentos para preservar a diversidade da literatura europeia e dar maiores oportunidades a línguas minoritárias. 
O projeto proporciona um percurso de dois anos com formação, instrumentos e uma rede que visam tornar possível uma carreira internacional e estabelecer uma prática profissional integrada. Com uma atenção em competências e mobilidade transnacional, incluímos especialmente as oportunidades digitais na literatura, novas formas de os participantes conseguirem emprego e rendimento.
Cada edição do projeto cela decorre durante dois anos. No primeiro ano, as organizações literárias orientam os escritores, tradutores e profissionais literários e proporcionam-lhes um programa multinacional de residências, formação e master classes para os preparar para trabalhar no mercado europeu e para um público internacional. No segundo ano, os participantes são inseridos por via de marketing internacional e campanhas publicitárias, uma digressão por festivais
europeus e apresentações ao público e a profissionais europeus por escritores e tradutores de renome (os nossos embaixadores cela) e organizações literárias. 

Os autores e tradutores participam em campanhas internacionais, festivais literários em diferentes países e numa rede de trabalho que proporcionará contacto entre todos os participantes.
Kick-Off: Hay Festival Segovia (Espanha)Tinto-no-Branco- Festival Literário de Viseu (Portugal), Book Fest (Roménia), Pisa Book Festival (Itália), Lev-Literatura em Viagem (Portugal), Passa Porta Festival (Belgium), Wintertuinfestival (Holanda) recebem os autores e tradutores do projecto CELA.


Parceiros:
Booktailors
Escuela de Escritores
Flemish-Dutch House deBuren
Passa Porta
Pisa Book Festival
Wintertuin




Biografia

Simone Atangana Bekono


Ano de nascimento 1991
Nascida Holanda
Vive e trabalha em Roterdão
– Licenciatura em Escrita Criativa na ArtEZ University of the Arts (2016)
– Poesia: hoe de eerste vonken zichtbaar waren (Wintertuin, 2017)
– Slow Writing Lab, incubadora de talentos da Fundação Holandesa para a Literatura (2016–2017)
– Residência em Paris com a Flemish Dutch House deBuren (2018)
– Vencedora do prémio de poesia "Poëziedebuutprijs aan Zee", concedido
pelo centro belga de poesia "Poëziecentrum" (2018)




Sobre Simone Atangana Bekono

Simone Atangana Bekono poderia nunca ter chegado a ser escritora. Enquanto estudante, seguiu um interesse muito diferente. «Não sou uma escritora que aos doze já sabia que queria escrever. Na escola, perdi verdadeiramente toda a vontade que tinha em ler. Já só queria ver filmes.»
 Ela solta uma gargalhada e em seguida prossegue, franzindo a testa como quem imita um tom sério: «A sério, enquanto fui aluna vi uma quantidade absurda de filmes.» Atangana Bekono escolheu, por esse motivo, seguir a licenciatura em Media e Cultura. Muitos dos colegas dela escolheram esse percurso porque queriam fazer filmes, mas: «Já sabia, ainda antes de entrar, que não queria ser atriz, também não fui feita para ser realizadora. Achava as conversas sobre cinema interessantes, mas estavam sempre relacionadas com estudos de imagens. As discussões eram sempre académicas, não tinha nada a ver comigo.» Atangana Bekono fez por isso a transição para o curso de Escrita Criativa. Quando chegou o primeiro dia, não precisou de mais motivos para ficar convencida. «Percebi imediatamente: esta é a minha língua, aqui analisam-se histórias de uma forma com a qual me identifico. Havia outras perspectivas», explica. «No entanto, continuo a pensar que o meu interesse em cinema tem influência no meu trabalho. Determina a forma como olho para as histórias. Não consigo, por exemplo, trabalhar com diálogos. Escrevo mais a partir de ações, imagens e associações.»
 Durante os seus estudos, Atangana Bekono desenvolveu uma forte consciência sobre o seu próprio ofício. Ela leva a chávena de café à boca. «Aprendes a encontrar o teu método de trabalho. Um curso de escrita obriga-te a dar passos que podem talvez não parecer fazer sentido.
 Obrigam-te a experimentar. Daí nasce também a noção de que é preciso refletir a partir de uma obra. O que é que uma obra precisa de ter? Que forma? E será que a obra pede uma abordagem específica?»
 Foi uma conclusão que muito trouxe a Atangana Bekono: «Tornei-me mais consciente de mim mesma». É então que a conversa desemboca na ascendência de Atangana Bekono:
 o pai dela vem dos Camarões. O tema surge quase acidentalmente, o que surpreende até a própria escritora. Ela sorri e continua de olhos bem abertos: «Isso é, sem exceção, a primeira coisa que as pessoas perguntam, as minhas origens também são sempre mencionadas quando escrevem sobre mim, acerca do meu pai camaronês, o meu ar estrangeiro.
 Uma conversa como esta? Sobre a influência de filmes no meu trabalho? São raras», e Atangana Bekono começa a falar mais devagar, ela mede cuidadosamente as palavras. «Sim, também falo muito sobre a minha posição, os meus pontos de vista ou a minha voz, mas sempre em diálogo com a minha identidade. Sou uma mulher jovem e negra. Isso são características que me influenciam enquanto autora, mas essa influência não é maior do que para um homem idoso e branco.» Ela volta a franzir a testa: «A tua identidade não precisa de influenciar o teu estatuto enquanto autor, podes até escolher ignorá-la completamente. Mas porque sou mulher, jovem e negra, não tenho essa possibilidade.»
 Ela pousa o café. «O meu interesse em cinema é muito mais determinante para o meu trabalho», diz enquanto passa a colher pela espuma. «Aquilo que escrevo move-se entre a poesia e o guionismo. Vejo a poesia primeiramente como um conjunto de imagens, só depois como uma construção linguística. É por isso que escrever é muitas vezes um processo de montagem, como se estivesses a escolher a melhor passagem entre as imagens de um filme.» Atangana Bekono bate levemente com a palma da mão na mesa. Diz uma asneira e volta-se a rir: «Agora fiquei com vontade de ir ao cinema.» 

Vídeo



Conto de Simone Atangana Bekono

Prince Julian 

Durante o pouco tempo que passou na Escola Superior de Arnhem e Nijmegen, onde tinha tentado, para espanto dos pais, seguir o curso de assistência social, Fleur vivia na rua Molenbeek por trás da estação ferroviária de Arnhem Velperpoort. No quarto, onde o sol apenas entrava de manhãzinha, ela dormia mal. Isto por causa dos vizinhos de cima que passavam o tempo a insultarem-se um ao outro, a ter sexo barulhento e a snifar linhas de coca antes de irem para os seus empregos no solário e no ginásio. Lá estava ela, deitada numa toalha ao sol, no primeiro verão da sua estadia. Ela sabia que passar tempo ao sol lhe fazia bem às articulações e ao espírito. Nos primeiros anos da puberdade, Fleur tinha tido enormes depressões sazonais de outubro a março. Quando tinha catorze anos, sentara-se uma vez no parapeito da janela do quarto com as pernas viradas para fora, dando em doida por causa do silêncio vazio e desgastante na sua cabeça. Tinha estado a fumar cigarros ao frio até que o pai os conseguisse cheirar da sala de estar e fosse a correr para cima para lhe dar nas orelhas. Ao abrir a porta com toda a força, assustou-a de tal forma que ela pulou da janela e foi parar à roseira lá em baixo, ainda que nunca tivesse realmente tido a intenção de saltar. 
Fleur estava portanto deitada naquela toalha ao sol no pequeno terraço da sua casa, quando ouviu um reboliço e uma voz vinda da janela do quarto de um dos apartamentos adjacentes com vista para o seu terraço. Levantou os olhos para a imagem do rapaz vizinho, para o cabelo longo, preto, ele penteando-o.

No Facebook o rapaz chamava-se Prince Julian e posava com bonés da tropa, grandes colares de diamantes falsos e camisas de alças apertadas, lip gloss nos lábios e umas sobrancelhas perfeitas. Na biografia dizia que era de origem iraniana. Fleur não conhecia propriamente o Prince Julian, mas ele passava sempre por ela de bicicleta quando ela vinha da escola com aqueles caracóis brilhantes, o seu traseiro maravilhoso rangendo no selim da bicicleta, e por vezes até sorriam um para o outro. Tinha surgido uma estranha e minúscula amizade que não passava de dizerem adeus da janela do quarto ou do terraço, cumprimentarem-se quando iam para a paragem de autocarro e de vez em quando uma conversa bêbeda a caminho de casa, o Prince Julian de braço dado com o namorado, a Fleur com as mãos metidas nos bolsos do casaco. 

Seja como for, ela estava portanto deitada no terraço a ouvir a voz do Prince Julian. Ele estava a cantar quando de repente parou, meteu a cabeça fora da janela e gritou: — Ei!

Fleur acenou de volta, sentou-se direita, deslizou os óculos de sol para dentro do cabelo.
 — Ei — disse ela. 
— Sobe, está demasiado calor. Estou a beber chá. 
— OK — disse Fleur. Limpou o suor do lábio superior e levantou-se, entrou na cozinha para se vestir.

 O Prince Julian deixou-a entrar, usando uma camisa de alças preta e umas calças de jogging apertadas. Já tinha feito chá. No corredor, onde Fleur tinha tirado os chinelos e ficado a olhar para as fotos do Prince Julian e o seu namorado, do Prince Julian e uma rapariga loira e apenas do Prince Julian, ouvia um locutor a falar na televisão com um barulho de fundo que parecia de tambores. O Prince Julian caminhou à sua frente. Ela pôde sentar-se no sofá preto de pele na sala de estar e podia pôr a música mais baixo, senão não conseguiam falar. A televisão, que estava muito mais alta do que a canção que produzia o barulho dos tambores, teve de ficar ligada.
 Um locutor da BBC entrevistava uma repórter sobre o brexit. Quando o Prince Julian se foi sentar no outro sofá preto de pele à beira da janela, apontou zangado para o ecrã com uma das duas canecas de chá quente, entornando chá preto no laminado.
 — O problema deste continente da piça é que todos vivemos nele, mas ’tá-se toda a gente a cagar para a Europa — disse ele, voltando a sair para a cozinha e regressando pouco depois com um prato cor-de-rosa com bolachinhas de amêndoa. Fleur tirou logo uma e meteu-a na boca enquanto observava a sala de estar do Prince Julian.
 O interior era bastante impressionante. Muitos diamantes falsos, mas também incríveis tapetes persas pendurados na parede. Uma combinação de móveis em madeira escura, candelabros de cristais falsos, pormenores dourados. Lembrava-lhe uma clássica casa de chá turca, mas quitada pela Paris Hilton. Até lhe achava piada.
 — O que acontece se lhe cai uma bomba em cima? Ou se nos chateamos mesmo a sério com a Rússia? Ou se todos aqueles refugiados já não conseguirem entrar na Inglaterra e começarem a saltar de prédios em massa? — O Prince Julian tinha uma voz estridente e instável e que, independentemente do seu verdadeiro estado emocional, fazia parecer muitas vezes que poderia a qualquer momento desatar a chorar.
 Fleur abriu a boca. A bolachinha de amêndoa estava pousada às migalhas em cima da sua língua, mas o Prince Julian olhou para ela tão intensamente que ela se sentiu na obrigação de abandonar todas as regras de etiqueta e responder-lhe o mais rápido possível.
— Então estamos todos perdidos — disse ela, esperando imitar o tom dramático do Prince Julian, borrifando migalhas de bolacha em cima da mesa toda e nas duas canecas.
 — Não, man! — berrou o Prince Julian, estupefacto. Levantou-se do sofá, tirou uma moldura do armário que estava entre os dois sofás e meteu-a em frente à cara de Fleur. Na foto estava uma criança com cerca de oito anos com três homens mais velhos, cada um dos três com um bigode robusto e um charuto na mão. Encontravam-se numa sala de estar e usavam vestes brancas. A criança segurava um envelope. O Prince Julian batia de forma irritada com uma unha pintada de roxo no vidro da moldura.
 — Voltamos mas é todos para donde viemos. Levamos connosco o conhecimento, as contas bancárias. Que se fodam estes cabrões, nós estamos habituados às cenas de topo, de onde achas que vêm as teorias mais avançadas, as tecnologias de ponta, os trends, a moda, essa merda toda, a música toda, donde é que achas que isso vem tudo? Nós saímos e sai tudo connosco!
 Fleur levantou os olhos da fotografia para o Prince Julian e pensou naquela palavra. Nós. «Mas tu agora estás connosco!», dissera-lhe muitas vezes a mãe, Agnes, por vezes em tom de reprovação mas geralmente satisfeita, sempre que Fleur perguntava alguma coisa sobre a sua vida antes dos Países Baixos, sobre as outras crianças do orfanato, sobre porque a tinham escolhido. Era uma frase que amiúde lhe vinha à cabeça como um portão espesso de ferro, como se ao dizê-la Agnes a puxasse pelo colarinho para longe das suas fantasias sobre a sua curta vida no Haiti e batesse com o portão atrás delas, trancasse o portão, atirasse a chave na retrete, puxasse o autoclismo, fechasse também a porta da retrete à chave, et cetera, et cetera. Fleur ouvira a frase tantas vezes durante a puberdade que a curiosidade que tinha sobre a sua terra natal se havia traduzido numa enorme vontade em sair de Tilburg. Baldava-se frequentemente às aulas e saía em Amesterdão às escondidas. Tinha amigos e amigas que nunca levava a casa. Tirava notas medianas. No seu último ano de escola, planeou a fuga e fugiu. Mas sobre os Países Baixos, sobre a Europa, as estruturas e os efeitos, o seu lugar no meio disso tudo, sobre isso ela nunca pensava.
 — És tu? — perguntou ela, ficando desconfortável.
 — Não! — berrou o Prince Julian mais alto ainda. Soltou um suspiro frustrado e atirou a moldura para o lado no sofá enquanto se sentava, como se tivesse acabado de tentar explicar teorias fanonianas a um nazi.
 — Não estou a perceber — retorquiu Fleur.
 — Este é o meu irmão Kadar — indicou o Prince Julian, apontando para a foto.
 — Ele não é mesmo meu irmão, mais tipo um primo. É uma longa história. Mas isso também não tem nada a ver. Eles querem-nos todos fora daqui. Passam o tempo a não quererem isto e a não quererem aquilo e quando querem alguma coisa é só para não darem a entender o tipo de pessoas que realmente são. Só precisamos de andar por aí e vivermos as nossas vidas para nos lavarem o cérebro, percebes?
 O Prince Julian inclinou-se para a frente para agarrar a caneca. Os seus espessos caracóis pretos pendiam-lhe sobre o ombro. Fleur não sabia se concordava com ele. Mas sabia que mataria por um cabelo daqueles. Na Afro Cosmetics da rua Hommel era possível gastar o salário de um mês inteiro por algo assim. E ainda teriam de o encomendar.
 — Estou simplesmente tão farto disto — disse o Prince Julian quando Fleur não reagiu.
 — Sim, eu também — anuiu Fleur. E era verdade. Sentia-se subitamente perdida. Talvez fosse a raiva do Prince Julian sobre o brexit ou o facto de ele também não parecer perceber o que raio se estava a passar com o mundo. Prince Julian abanou a cabeça e pescou um maço de tabaco de entre as almofadas do sofá.
 — Devíamos mas era desaparecer todos. A ver se gostavam disso — disse ele enquanto metia dois cigarros entre os lábios, acendendo-os ao mesmo tempo. Um dos cigarros era para Fleur. Ela começou a fumá-lo agradecida.
 — Em casa as coisas são melhores? — perguntou ela vendo que Prince Julian não ia explicar melhor a sua tirada anterior.
 — Querida, esta é a minha casa. Se for para o Irão matam-me logo — disse, estalando os dedos.
 — Não é que leve a mal. Eu não conheço lá ninguém e ninguém lá me conhece a mim, porque é que fariam alguma coisa por mim? É diferente, sabes.
 — Sim, eu sei — disse Fleur e de repente ficou com uma vontade imensa em deixar de existir, visto o Prince Julian também não parecer ter uma alternativa. Ficou ali a fumar o cigarro até ao fim. O Prince Julian parecia estar imerso nos seus pensamentos, ficou a abanar a cabeça até acabar o cigarro e enfiou a ponta acesa na caneca cheia. Ainda ficaram os dois a ver as notícias durante um bocado. Fleur gostava de ouvir o Prince Julian quando ele se zangava com as notícias nacionais, as notícias internacionais, as notícias de economia, a previsão do tempo, sempre a mesmíssima coisa, até com os anúncios. Ele era entusiástico, brincalhão, fogoso. Fleur tinha-se sentido tímida e deslocada a vida toda. A raiva dele empolgava-a de forma estranha, como se finalmente alguém falasse sobre alguma coisa. Só era stressante quando ele lhe fazia perguntas sobre algum dos segmentos das notícias. Aí era como se a credibilidade dela enquanto estrangeira fosse posta à prova.
— Isto é treta, right? O que é que interessa se o autor do crime é negro? — Suores frios, logo. Era como aquela primeira vez em que entrou sozinha num cabeleireiro especializado em cabelos crespos. A senhora que a atendeu perguntou-lhe pela sua rotina de cuidados com o cabelo e Fleur sentiu-se instantaneamente inflamada de vergonha, como se a senhora lhe tivesse carregado num botão perto das entranhas.
 — Não tenho nenhuma — teve de dizer.
 — Filha — suspirou a senhora. Tristonha, remexeu os caracóis de Fleur e em seguida lavou-os com uma grande quantidade de champô hidratante.

 O Prince Julian desaparecia volta e meia para dentro da cozinha. Depois voltava com um cinzeiro ou com mais chá. Estava sempre a fazer alguma coisa e nunca terminava nada. Fleur já achava mágico o suficiente poder observá-lo em ação, participar não era necessário. Ele abria a câmara do telemóvel para ver como é que estava, ordenava pacotes de batatas fritas e latas de café de um lado para o outro nos armários da cozinha, deixava-se cair ao lado dela no sofá para acender um cigarro, depois apercebia-se de que ela ainda estava sentada ali e mudava-se para o outro sofá para, passados cinco minutos, se voltar a levantar e marchar em direção à casa de banho. Esta performance a solo prolongou-se algumas horas. Fleur encheu-se de bolachinhas de amêndoa até ficar enjoada. As notícias não paravam, um desastre a seguir ao outro, e ela esperava pacientemente até que o Prince Julian voltasse a ter motivos para criticar a Europa, os Países Baixos, o Ocidente inteiro.
 — Eu gosto disto aqui, mas eles são uns hipócritas — suspirou quando veio pousar uma taça com batatas fritas. Um relógio noutro quarto dava as seis horas. Fleur sentia que concordava com ele.
 — Mas e então? — perguntou ela.
 — Nada, isso é que é fodido, não é? Não podemos fazer nada. Eu estou aqui preso e tu estás aqui presa. Temos umas quantas oportunidades, mais do que isso só nos resta aguentar. É terrível. Não somos nada.
 — Iá.
 — Mas também é na boa, sabes. Estou feliz, tenho pessoas fixes à minha volta, tenho-te a ti, acho que até curtimos um do outro, sabes? — O Prince Julian acenou de forma convincente, depois pareceu dar-se conta outra vez de algo terrível e voltou a abanar a cabeça. Aquilo parecia ser um tique típico dele, como se estivesse constantemente a passar por um turbilhão de emoções que mal conseguia controlar. Parecia ser fatigante, pensava Fleur. Apetecia-lhe fazer alguma coisa que o pudesse ajudar. — De qualquer forma, eu gosto de ti — disse ela. — Só não penso tanto no estado do nosso país quanto tu, acho eu.
— Why not? — perguntou o Prince Julian. Tirou uma batata frita da taça de plástico, mas não a comeu, em vez disso pousou-a em cima do joelho e começou a fazer tranças no cabelo.
 — Em que raio é que se pode pensar mais? Até quando estou no supermercado penso nisso!
 — No supermercado penso nas coisas de que preciso — disse Fleur. Ao que parece o Prince Julian achou aquilo uma resposta de merda. Voltou a abanar a cabeça. Fumaram mais um cigarro. — Nunca te podes deixar adormecer — disse ele só passados uns minutos, tinha atado um elástico na ponta da trança e estava sentado com uma mão sobre a outra a olhar fixamente para um ponto à sua frente —, tens de estar sempre ligada.

Tradutor

XÉNON CRUZ

Ano de nascimento: 1991
Nascido: Portugal 
Vive e trabalha em Amesterdão, Holanda

– Publicação de «Éticas de Tradução: Da Visibilidade à Diferença» em Via
Panorâmica (2017), http://ojs.letras.up.pt/index.php/VP/article/
view/3302
– Licenciado em Filosofia pela Faculdade de Letras da Universidade de
Coimbra
– Mestrado em Tradução pela Faculdade de Ciências Sociais e Humanas
da Universidade Nova de Lisboa
– Premiado com JRAAS Seal pelo Centre for English, Translation and
Anglo-Portuguese Studies
– Traduz de holandês/flamengo e inglês para português





  

segunda-feira, 22 de abril de 2019

Lotte Lentes: CELA| Connecting Emerging Literary Artists







 CELAConnecting Emerging Literary Artists




O Projecto:

O projeto CELA (Connecting Emerging Literary Artists) abre o palco europeu a uma nova geração de criadores literários. Permite uma cooperação transnacional intensiva entre talentosos escritores, tradutores e profissionais literários europeus em início de carreira. No decurso do projeto, os participantes enfrentam algumas das mais exigentes realidades da nossa era — de fraturas cada vez mais acentuadas na Europa a um setor editorial em mudança — e põem-nas em perspetiva, partilham o seu trabalho e colmatam o fosso que os separa do setor editorial e do público europeu.
As organizações literárias de seis países europeus uniram forças para fundar o projeto de incubação de talentos cela — Connecting Emerging Literary Artists. Partilhamos a necessidade de estabelecer uma infraestrutura sustentável de incubação de talentos para preservar a diversidade da literatura europeia e dar maiores oportunidades a línguas minoritárias. 
O projeto proporciona um percurso de dois anos com formação, instrumentos e uma rede que visam tornar possível uma carreira internacional e estabelecer uma prática profissional integrada. Com uma atenção em competências e mobilidade transnacional, incluímos especialmente as oportunidades digitais na literatura, novas formas de os participantes conseguirem emprego e rendimento.
Cada edição do projeto cela decorre durante dois anos. No primeiro ano, as organizações literárias orientam os escritores, tradutores e profissionais literários e proporcionam-lhes um programa multinacional de residências, formação e master classes para os preparar para trabalhar no mercado europeu e para um público internacional. No segundo ano, os participantes são inseridos por via de marketing internacional e campanhas publicitárias, uma digressão por festivais
europeus e apresentações ao público e a profissionais europeus por escritores e tradutores de renome (os nossos embaixadores cela) e organizações literárias. 

Os autores e tradutores participam em campanhas internacionais, festivais literários em diferentes países e numa rede de trabalho que proporcionará contacto entre todos os participantes.
Kick-Off: Hay Festival Segovia (Espanha)Tinto-no-Branco- Festival Literário de Viseu (Portugal), Book Fest (Roménia), Pisa Book Festival (Itália), Lev-Literatura em Viagem (Portugal), Passa Porta Festival (Belgium), Wintertuinfestival (Holanda) recebem os autores e tradutores do projecto CELA.


Parceiros:
Booktailors
Escuela de Escritores
Flemish-Dutch House deBuren
Passa Porta
Pisa Book Festival
Wintertuin




Biografia

LOTTE LENTES



Ano de nascimento: 1990
Nascida: Alemanha
Vive e trabalha em Amesterdão
– Novela De jongen, het stof (Wintertuin, 2015)
– Contos Een tweede keer kijken (Wintertuin, 2017)
– Segundo lugar no concurso de escrita holandês e flamengo Write Now!
(2014)
– Slow Writing Lab, incubadora de talentos da Fundação Holandesa para a
Literatura (2015–2016)

– Residência em Paris com a Flemish Dutch House deBuren (2018)





Sobre Lotte Lentes

Lotte Lentes cresceu numa aldeia, entre duas culturas. O pai, de origem alemã, e a mãe, de Amesterdão, estabeleceram-se na província de Limburg, no sul da Holanda, tendo optado por uma espécie de meio termo. «Vivíamos num lugar que parecia não se adequar a nós», explica Lentes. «No sul de Limburg, fomos sempre vistos como estranhos. Por outro lado, os meus pais também nunca fizeram muito para inverter a situação. Cresci com um pai que tinha saudades permanentes de casa. Ele queria sempre estar num lugar diferente do que naquele em que se encontrava. Tal situação tem um impacto enorme numa criança: uma pessoa cresce com a percepção de que ocupa um lugar. Sempre tive perfeita consciência da existência de um contexto, da ideia de que ocupava um lugar na aldeia, numa história e numa família.» 
Lentes permanece em silêncio, por alguns momentos, apesar de não parecer estar à procura de palavras. Ela parece saber exatamente aquilo que pretende dizer. Enquanto fala, estica o seu cabelo loiro, para, de seguida, deixar cair o rabo-de-cavalo solto sobre um dos ombros. «Talvez este tema, em que o lugar de uma pessoa é determinado, se consiga rever no meu trabalho. Escrevo bastante acerca do desejo de estar num sítio diferente, acerca do desejo de entender esse lugar ou situação. Tenho uma espécie de reflexo que é descobrir as leis e regras de um lugar. Quero entendê-las», Lentes acrescenta, num tom mais suave: «Gostava de preencher os requisitos. As minhas personagens, pelo menos, ou cumprem as regras na sua totalidade, ou fazem exatamente o contrário.»
 Lentes escreve prosa, mas de formas variadas. Ela trabalha, alternadamente, em textos escritos e falados, de vez em quando escreve cenários, e produz, de forma recorrente, uma história para o palco. «Foi aqui que nasceu a minha paixão pela língua. No passado, fiz bastante teatro e sempre achei o trabalho de pesquisa da língua mais interessante do que a sua expressão. Ainda é precisamente isto que me atrai na literatura: a escrita como uma forma de pesquisa. Em prosa, é possível fazer movimentos circulares. Dá para uma pessoa se aproximar de uma essência sem ter que desenhar uma linha reta nesta direção. Neste sentido, sou uma criadora sóbria. Aquilo que crio, tem de ser construído da forma mais clara possível.» E, pela primeira vez, Lentes solta uma gargalhada. «O meu trabalho é sempre descrito como sólido», diz ela, e, de forma teatral, agarra o seu coração. Com um olhar alegre e inquisitivo: «Sempre vi isto como um insulto, como se fosse algo empoeirado e rígido. Porém, talvez se tenha tornado um nome forte. Também quero que o meu trabalho seja bem estruturado. Que seja um trabalho profissional sólido.» 
De qualquer das formas, Lentes vê o seu trabalho como bastante experimental, embora nunca deixe a língua descarrilar. «A parte experimental encontra-se mais na imaginação do que nas palavras que utilizo para o efeito. O meu jogo é o jogo de exploração da força da imaginação. De momento, encontro-me a trabalhar no meu romance de estreia, e neste mesmo romance são espelhados dois eventos históricos. A um nível conceptual trata-se de algo bastante experimental: é uma investigação acerca de como um tema se pode repetir. Acerca das conexões que as imagens podem ter umas com as outras.» Normalmente, Lentes trabalha com tópicos que se encontram enraizados na realidade. «Isto é sempre um trabalho de pesquisa. A ficção é uma maneira de procurar uma estrutura que não existia na realidade», e, de repente, diz de forma brusca : «Literatura é intervenção.» Ela olha para a rua através da janela. «Talvez seja por causa disto que escrevo de forma tão meticulosa. Quando se sai da realidade, é necessário precisão. Se se quer construir algo real, por que não lidar com isto de forma precária?»

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Conto de Lotte Lentes

diário de bordo de um último dia

I suppose, I said, it is one definition of love, the belief in something that only the two of you can see. Rachel Cusk, Outline 


Pela enésima vez, proíbe-me de retirar o mapa da ilha da minha mochila. 
   «Assim, parece que somos turistas», diz ela. 
   «Mas nós somos turistas, ou não?», pergunto eu. 
   Ela não dá resposta, mas fica a olhar para o ecrã do telemóvel com as sobrancelhas franzidas. 
   Uma pessoa tinha-lhe recomendado uma aplicação através da qual era possível descarregar mapas de uma área específica, para poderem ser usados offline. Pelo facto de nos guiarmos pela seta verde no ecrã dela, a qual muda de direção cada vez que paramos e fica parada sem se mover durante minutos quando nos encontramos em movimento, vagueamos, pelo sétimo dia consecutivo, por um dos subúrbios de Cala D’Or. Ela muda de direção de forma cada vez mais resoluta, mas pela quarta vez, acabámos de passar em frente ao Fun Route '69, uma pista de karting coberta de musgo e meio escondida atrás de umas palmeiras. A pele dos meus ombros começa a escaldar e uma pequena bola de demolição invisível monda, há já algum tempo e de forma implacável, a parte esquerda da minha cabeça, o que acontece todos os dias por esta altura. Cada vez mais, tal serve-me de aviso de que tenho de deixar esta ilha quanto antes. 
   «Ó pá, caminha ao meu lado! Por que raio te deixas ficar para trás?» 
   Dou dois passos grandes, e voltamos a caminhar lado a lado. Sinto, imediatamente, receio de chocar com ela na próxima mudança inesperada de direção. 
   «Não posso adivinhar para onde vais, ou posso?», digo eu, de forma cáustica. 
   Ela acelera o passo e eu peço desculpa entre dentes, como se o choque que eu temia tivesse acabado de ocorrer. 
 Aqui, os supermercados não se chamam supermercados, mas sim supermarkets. Nos letreiros, são exibidas fotografias desbotadas de feijão em molho de tomate, queijos franceses e cerveja. Apartamentos e hotéis construídos em altura determinam, há já sete dias, as nossas vistas. As suas varandas, tal qual canis cheios de baleias, golfinhos e crocodilos insufláveis, calmamente à espera de alguém que os carregue de volta para a praia ou para a piscina. Com as nossas Nikes e blusas folgadas, e os cabelos atados num nó descuidado no topo da cabeça, destoamos do resto. As raparigas daqui são de um tipo mais produzido. Usam batom e argolas grandes e douradas nas orelhas quando vão à praia. À noite, usam vestidos sem alças que conseguem esconder à justa as nádegas, de forma a não embaraçarem os pais.
   Tenho vestidos comigo, mas não os uso. Prefiro formar uma frente com ela. É mais divertido, tento convencer-me a mim própria. Mas aquilo que realmente quero dizer é: mais necessário. 
  Manter a distância entre ela e eu tão pequena quanto possível significa enfatizar o contraste entre nós e todas as outras pessoas presentes na ilha. Nós divertimo-nos com um inimigo mútuo, rimo-nos à sorrelfa de tatuagens de rosas e cabeças de bebés, de barrigas da perna e omoplatas escaldadas, de capas de telefone gigantes da Hello Kitty, de chinelos decorados com missangas. Enquanto pudermos definir aquilo que não somos, nenhuma de nós precisa se preocupar com o oposto. 
   Nos três anos que a conheço, vi-a precisamente uma vez com um vestido. Como uma criança angustiada, estava no provador do V&D com os ombros bem erguidos. Ela estava a remexer na bainha de renda. O fecho de correr não fechava por completo até ao topo. Eu tentava ajudá-la, mas ela não parava quieta. 
   «Posso despi-lo?», disse, quando tentei ver a situação do fecho de perto. «Eu quero despi-lo.» 
   De forma desajeitada, puxou o tecido de cetim dos ombros, abrindo-se uma costura em algum sítio. O vestido preto acabou no chão, tal qual um pano do pó descartado. Ela permaneceu lá, com o seu soutien desgastado. Eu ao seu lado, com o meu casaco de inverno ainda vestido. 
   Na ilha, sinto-me cada vez mais o vestido que ela traz vestido, mas que não quer. À noite, na cama, damos tantas voltas quanto necessário até ambas termos encontrado uma posição tão confortável como aceitável: suficientemente afastadas de forma a não se tornar demasiado íntimo; suficientemente próximas de forma a poderem passar por amantes. Uma vez, tentei tocá-la, não tendo conseguido encontrar nada suave nela. Ela estava ali deitada como um poste de alta tensão. A sua inexorabilidade tornava-me combativa, pelo que a acariciei, massajei e pressionei, e ela permitiu, mas nada mudou. Somente quando a minha mão descendeu e fiz desaparecer os meus dedos por trás da bainha das suas cuecas, de forma pouco elegante e crua, através do qual rasguei um pedaço de pele, é que ela me pediu para parar. 
   No passado, aninhávamo-nos de tal forma perto uma da outra que tudo, até ao último cabelo dos nossos rabos de cavalo, se encontrava entrelaçado. Encaixa-se perfeitamente, dizíamos então, mas encaixa-se sempre perfeitamente. Até chegar o ponto em que apenas se encaixa mais ou menos, e, depois, com dificuldade, até, finalmente, não se encaixar mais. 
   Durante o almoço, recusa-se, novamente, a fazer o pedido da comida noutra língua que não o espanhol. Trata-se de uma questão de respeito para com os locais, diz ela. Porém, quando olho à minha volta, não faço ideia qual o significado de «local» neste contexto, e quem iria apreciar o seu gesto. Além do mais, chegámos à conclusão de que a empregada de mesa do Churchill's Tapasbar era de Helmond, que se chamava Eva e que, mais do que tudo, não fazia tenção de responder à chafurdice em espanhol noutra língua que não em holandês. Após duas investidas, parou de tentar. Ela inclina-se para trás amuada e fica a olhar para a empregada do bar, a qual agita o cabelo extremamente louro sobre os ombros estreitos enquanto caminha. 
   «Atrasada de merda», digo eu baixinho. 
  Ela solta um pequeno sorriso, mas procura contrariá-lo, olhando de forma carrancuda para as mãos assentes nas coxas, tal qual uma criança teimosa.
  «Meu Deus, que atrasada de merda.» 
 Digo-o mais alto, mostro a minha indignação e reparo em duas cabeças completamente escaldadas na mesa ao nosso lado, irritadas a olhar na nossa direção. Quando a Eva de Helmond regressa, encarrego-a de nos trazer dois mojitos, «por favor». De seguida, uma garrafa de vinho. Faço tantas perguntas quanto possível. Ela fala de forma animada e bastante gestualizada. Para sobremesa, pedimos tiramisu e gelado. 
   Antes de pagar a conta, puxo-a para junto de mim. Ela beija-me de forma desajeitada, pelo que os nossos dentes da frente acabam por colidir, e ela ri-se às gargalhadas. Deixamos vinte euros de gorjeta para Eva, e dizemos gracias em voz alta na esplanada. No regresso a casa, caminhamos o tempo todo de mão dada. Apenas quando chegamos ao hotel, onde um grupo de rapazes se encontra a fumar em frente à fachada, é que voltei a largá-la. Ela sobe as escadas à minha frente. As suas pernas esguias e bronzeadas sobressaem debaixo dos calções. Quero morder a barriga das pernas dela. 
   No átrio de entrada do hotel, está uma rapariga a dormir em cima do telemóvel a carregar. Dois rapazes, de aproximadamente dez anos, jogam pingue-pongue de forma apática. Uma mulher arrasta os pés e suspira em direção às escadas. O seu sarongue amarelo garrido de tal forma apertado à volta das ancas que a gordura escorre por todos os lados. Os dias colam-se uns aos outros devagar e sem fim. Quem os ainda quer separar, dá uma olhadela no letreiro com o programa para a noite. Ontem festa latina, hoje à noite karaoke, amanhã noite de póquer. 
   Na baía, estamos pela última vez debaixo de água até aos nossos umbigos. À superfície, resplandece o brilho madrepérola de um creme protetor. Ela não se atreve a mais do que isto. Mais à frente, a água é menos clara e também, de repente, bastante mais profunda. Tem medo dos peixes, assusta-se com pedaços de alga na cavidade do joelho. 
  Pus os dois braços ao redor da sua cintura, puxando-a para mim até ela conseguir relaxar. Mais à frente, cinco homens escaldados puseram uma jangada na água, em que um frigorífico e umas colunas de som foram construídos em dois compartimentos. Eles gritam euforicamente e eu começo a imaginá-los a serem eletrocutados em algazarra. Através dos cantos da boca dela, os quais se enrolam suavemente, consigo ver que ela tem mais ou menos o mesmo cenário em mente. 
   Fazemos silêncio e ficamos a olhar para o mar. Há pessoas que nadam lá ao longe. Tão longe que se encontram mais próximas dos barcos que vagarosamente passam em frente à baía do que de nós. No primeiro dia, também lá nadei. Sentia-me livre e lúcida, quando parti da baía com grandes braçadas. Porém, já em mar alto, a lucidez converteu-se, de repente, em medo. Nadei de volta tão depressa quanto podia, e quando cheguei sem fôlego às nossas toalhas, ela estava danada. Ela tinha-me perdido de vista, disse. Tinha deixado de me conseguir distinguir da água e tinha ficado preocupada. Eu pedi desculpa e prometi nunca mais ir tão longe. Enquanto me encontrava deitada ao lado dela a secar-me, apercebi-me de que ambas temos a tendência para desejar algo que está fora do nosso alcance. Ela acredita que o mar alto guarda algo especial, mas não se atreve a nadar até lá; eu vou à procura do mar alto, sem refletir, até que um medo instintivo me relembra daquilo que deixei para trás. Assim, nunca estamos no mesmo sítio. 
   O resto da semana, nadei no limite do seu campo de visão. Nem a lucidez, nem o medo regressaram. 
   Durante a nossa última noite na ilha, sonho que o pai dela me telefona e diz que ela teve um acidente automóvel a caminho de casa. Ela ia a conduzir um carro que colidiu de frente com um condutor em contramão. No meu sonho, senti um pânico tão grande no meu tórax que parecia que as minhas costelas eram esmagadas, uma por uma. Esqueço-me de perguntar se ela está viva e corro para fora de casa com os pés descalços. 
  Acordo tensa e sinto-me, instantaneamente, muitíssimo satisfeita com o pânico. De forma orgulhosa, conto, durante o pequeno-almoço, acerca do telefonema e da minha reação. Quando vou postular o pormenor dos pés descalços, com as minhas mãos agitadas por cima dos ovos, ela solta um sorriso. De forma a poder atribuir ao sonho ainda mais significado, vou à procura do cabeçalho: «acidente de automóvel» em «informacaodosonho.com», mas engulo a tempo aquilo que ele diz: «Quando se sonha que uma pessoa amada morre num acidente, tal sugere um desejo profundo de se despedir desta mesma pessoa.» Retiro os olhos do ecrã, vejo como ela corta uma fatia de pão branco com geleia de morango em quatro pedaços, e digo que em casa estão vinte e um graus. No avião, estamos sentadas lado a lado, com o corredor a separar-nos. Seguro um livro sem o ler. Pelo canto do olho, vejo no ecrã do assento em frente dela, como ela tenta derrubar um conjunto de cones em formação com uma bola de bowling. Com o rosto convulsivo, toca e desliza o dedono ecrã, mas não consegue pôr a bola em movimento. Ela desiste e começa a folhear de forma apática pelos filmes. 
   Algumas filas à frente da nossa, um casal procura lidar com a insatisfação do bebé. Do pequeno corpo soa choro e soluços. Devido ao som, o ambiente do avião muda, apesar de não se saber ao certo se os outros passageiros absorveram o estado de espírito do bebé, ou se é o bebé que expressa o cansaço e aborrecimento que reina. Todos sabemos que ainda não estaremos libertos disto quando aterrarmos. Primeiro que tudo, teremos de esperar pela bagagem e teremos de conduzir em direção a casa. Já em casa, teremos de varrer um mar de cartas do tapete da entrada e que tudo o resto estará precisamente tal como o deixámos. 
   Num curto espaço de tempo, as pessoas começam a formar uma opinião acerca do choro, ela inclusive. O pai levanta-se, põe a criança aos ombros e, com vergonha, começa a andar de um lado para o outro. Ela suspira nas primeiras vezes que ele passa por ela, mas, passado pouco tempo, volta a perder-se no filme e esquece-se dele. Sempre a achei no topo da sua beleza quando se encontrava concentrada, mas, quanto mais tempo estávamos juntas, mais eu a achava bonita quando ela se concentrava em algo que não eu. 
   Lá fora, cai a noite. Os últimos raios de sol retiram-se para trás do horizonte. De vez em quando, ela levanta o olhar e sorrimos uma para a outra. O meu braço é suficientemente longo para atravessar o corredor estreito. O dela também. Porém, deixamo-los ficar onde eles estão.

Tradutor

PEDRO VIEGAS


Ano de nascimento: 1981
Nascido: Portugal
Vive e trabalha em Nimega, Holanda.
– Tradutor de holandês e inglês para português
– Estudou Gestão na Faculdade de Economia de Coimbra e Marketing
Research, na Universidade de Groninga
– Certificate of Proficiency de Inglês (CPE) / Certificado de Holandês
como segunda língua (NT2)
– Tradutor de holandês/flamengo para português
– Especialização em tradução técnica, no que concerne a processos de
adoção
– Fã de livros e filmes holandeses/flamengo


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