Uma Viagem pelo Mundo da Cerveja Artesanal Portuguesa, de Domingos Quaresma e Bruno Aquino é uma visita guiada ao fabuloso mundo da cerveja artesanal.
O lançamento decorrerá no dia 7 de maio (terça-feira), às 18h30, na Livraria Ler Devagar, LX Factory, em Lisboa.
Num mundo perfeito toda a cerveja seria artesanal, fruto da paixão inspirada de mestres cervejeiros e feita com a melhor selecção de ingredientes em processos apurados ao longo de gerações.
A cerveja é a mais popular e social das bebidas. Cada copo de cerveja é um conjunto único de sensações, concebido para ser partilhado entre amigos.
O que lhe propomos é uma visita guiada a este mundo fabuloso – o da cerveja artesanal. Uma visão abrangente sobre a história, ingredientes, estilos e harmonizações com comida. E um incentivo claro a que se aventure a fazer a sua própria cerveja.
Sabia que há mais de 7 mil anos os povos da Mesopotâmia já faziam cerveja?
Sabia que pode produzir cerveja em casa de forma simples e barata?
Sabia que existem tipos de cerveja que pode deixar envelhecer e outros que deve beber logo?
Sabia que os vários estilos de cerveja devem ser bebidos a temperaturas diferentes?
Sabia que existem vários tipos de copo conforme o estilo de cerveja que se vai beber?
Sabia que existem hoje mais de 100 marcas portuguesas de cerveja artesanal?
Descubra a resposta a estas questões e explore o mundo da cerveja artesanal portuguesa!
BRUNO AQUINO
É o rosto da cerveja artesanal em Portugal e um dos bons embaixadores que temos em eventos no estrangeiro.
Tem dedicado toda a sua energia criadora a tirar cursos, organizar concursos, dar palestras e escrever artigos. Já há uns anos que andava a pensar em escrever um livro sobre cerveja artesanal mas o facto de escrever as notas de prova de mais de 12500 cervejas que já bebeu deixava-o com pouco tempo livre.
Refere, por várias vezes, de uma forma simples e clara, que gosta de todos os estilos de cerveja, mas foi ao beber uma quadrupel belga que sentiu o chamamento de dedicar a sua vida à divulgação da cerveja artesanal.
DOMINGOS QUARESMA
Assume sem pudores que a escrita é a melhor maneira que encontrou de dar alguma utilidade à acidez do seu humor. Não tendo formação cervejeira digna desse nome, o seu conhecimento resulta de todas as caricas que já fez saltar e de ter uma audição atenta, que lhe permite escutar as conversas de entendidos nas mesas em redor da sua.
Acompanha o movimento cervejeiro artesanal português desde 2005, altura em que as coisas ainda se passavam maioritariamente em caves escuras e garagens. Numa noite de copos mais animada prometeu que havia de escrever o primeiro livro sobre cerveja artesanal portuguesa.
Um conservador desenvergonhado e por isso mesmo amante de cerveja belga, vive com a mágoa dos monges Trapistas nunca se terem estabelecido em Portugal.
Ficha do Livro:
Título: Uma Viagem pelo Mundo da Cerveja Artesanal Portuguesa
Rufam tambores, enchem-se campos de batalha e os corações batem ao ritmo da emoção que Homero traduz em 24 cantos daquele que é tido como o mais belo texto épico da tradição ocidental. Ilíada, de Homero, é um canto de sangue e lágrimas, em que os próprios deuses são feridos e os cavalos do maior herói choram. É o primeiro livro da literatura europeia e, ainda hoje, no século XXI, mantém inalterada a sua capacidade de comover e perturbar. As civilizações passam, mas a cultura sobrevive? A pergunta é de Frederico Lourenço, que traduz este livro, agora publicado pela Quetzal –, e a mensagem deste extraordinário poema parece apontar nesse sentido.
Ler a Ilíada é reclamarmos o lugar que por herança nos cabe no processo de transmissão da cultura ocidental: cada novo leitor acrescenta mais uma etapa, ele mesmo um novo elo deste texto onde «luz e morte coincidem hora a hora» (Luiza Neto Jorge). Depois da Odisseia, e ainda antes de prosseguir a tradução da Bíblia, esta é uma das mais significativas traduções de Frederico Lourenço. Disponível a 3 de maio em todas as livrarias.
O projeto CELA (Connecting Emerging Literary Artists) abre o palco europeu a uma nova geração de criadores literários. Permite uma cooperação transnacional intensiva entre talentosos escritores, tradutores e profissionais literários europeus em início de carreira. No decurso do projeto, os participantes enfrentam algumas das mais exigentes realidades da nossa era — de fraturas cada vez mais acentuadas na Europa a um setor editorial em mudança — e põem-nas em perspetiva, partilham o seu trabalho e colmatam o fosso que os separa do setor editorial e do público europeu. As organizações literárias de seis países europeus uniram forças para fundar o projeto de incubação de talentos cela — Connecting Emerging Literary Artists. Partilhamos a necessidade de estabelecer uma infraestrutura sustentável de incubação de talentos para preservar a diversidade da literatura europeia e dar maiores oportunidades a línguas minoritárias. O projeto proporciona um percurso de dois anos com formação, instrumentos e uma rede que visam tornar possível uma carreira internacional e estabelecer uma prática profissional integrada. Com uma atenção em competências e mobilidade transnacional, incluímos especialmente as oportunidades digitais na literatura, novas formas de os participantes conseguirem emprego e rendimento. Cada edição do projeto cela decorre durante dois anos. No primeiro ano, as organizações literárias orientam os escritores, tradutores e profissionais literários e proporcionam-lhes um programa multinacional de residências, formação e master classes para os preparar para trabalhar no mercado europeu e para um público internacional. No segundo ano, os participantes são inseridos por via de marketing internacional e campanhas publicitárias, uma digressão por festivais europeus e apresentações ao público e a profissionais europeus por escritores e tradutores de renome (os nossos embaixadores cela) e organizações literárias.
– Licenciatura em Escrita Criativa na ArtEZ University of the Arts (2016)
– Poesia: hoe de eerste vonken zichtbaar waren (Wintertuin, 2017)
– Slow Writing Lab, incubadora de talentos da Fundação Holandesa para a Literatura (2016–2017)
– Residência em Paris com a Flemish Dutch House deBuren (2018)
– Vencedora do prémio de poesia "Poëziedebuutprijs aan Zee", concedido
pelo centro belga de poesia "Poëziecentrum" (2018)
Sobre Simone Atangana Bekono
Simone Atangana Bekono poderia nunca ter chegado a ser escritora.
Enquanto estudante, seguiu um interesse muito diferente. «Não sou uma
escritora que aos doze já sabia que queria escrever. Na escola, perdi
verdadeiramente toda a vontade que tinha em ler. Já só queria ver filmes.»
Ela solta uma gargalhada e em seguida prossegue, franzindo a testa como
quem imita um tom sério: «A sério, enquanto fui aluna vi uma
quantidade absurda de filmes.»
Atangana Bekono escolheu, por esse motivo, seguir a licenciatura
em Media e Cultura. Muitos dos colegas dela escolheram esse percurso
porque queriam fazer filmes, mas: «Já sabia, ainda antes de entrar, que não
queria ser atriz, também não fui feita para ser realizadora. Achava as
conversas sobre cinema interessantes, mas estavam sempre relacionadas
com estudos de imagens. As discussões eram sempre académicas, não tinha
nada a ver comigo.» Atangana Bekono fez por isso a transição para o curso
de Escrita Criativa. Quando chegou o primeiro dia, não precisou de mais
motivos para ficar convencida. «Percebi imediatamente: esta é a minha
língua, aqui analisam-se histórias de uma forma com a qual me identifico.
Havia outras perspectivas», explica. «No entanto, continuo a pensar que o
meu interesse em cinema tem influência no meu trabalho. Determina a
forma como olho para as histórias. Não consigo, por exemplo, trabalhar
com diálogos. Escrevo mais a partir de ações, imagens e associações.»
Durante os seus estudos, Atangana Bekono desenvolveu uma forte
consciência sobre o seu próprio ofício. Ela leva a chávena de café à boca.
«Aprendes a encontrar o teu método de trabalho. Um curso de escrita
obriga-te a dar passos que podem talvez não parecer fazer sentido.
Obrigam-te a experimentar. Daí nasce também a noção de que é preciso
refletir a partir de uma obra. O que é que uma obra precisa de ter? Que
forma? E será que a obra pede uma abordagem específica?»
Foi uma conclusão que muito trouxe a Atangana Bekono:
«Tornei-me mais consciente de mim mesma». É então que a conversa
desemboca na ascendência de Atangana Bekono:
o pai dela vem dos
Camarões. O tema surge quase acidentalmente, o que surpreende até a
própria escritora. Ela sorri e continua de olhos bem abertos: «Isso é, sem
exceção, a primeira coisa que as pessoas perguntam, as minhas origens
também são sempre mencionadas quando escrevem sobre mim, acerca do
meu pai camaronês, o meu ar estrangeiro.
Uma conversa como esta? Sobre a influência de filmes no meu
trabalho? São raras», e Atangana Bekono começa a falar mais devagar, ela
mede cuidadosamente as palavras. «Sim, também falo muito sobre a
minha posição, os meus pontos de vista ou a minha voz, mas sempre em
diálogo com a minha identidade. Sou uma mulher jovem e negra. Isso são
características que me influenciam enquanto autora, mas essa influência não é maior do que para um homem idoso e branco.» Ela volta a franzir a
testa: «A tua identidade não precisa de influenciar o teu estatuto enquanto
autor, podes até escolher ignorá-la completamente. Mas porque sou
mulher, jovem e negra, não tenho essa possibilidade.»
Ela pousa o café. «O meu interesse em cinema é muito mais
determinante para o meu trabalho», diz enquanto passa a colher pela
espuma. «Aquilo que escrevo move-se entre a poesia e o guionismo. Vejo a
poesia primeiramente como um conjunto de imagens, só depois como
uma construção linguística. É por isso que escrever é muitas vezes um
processo de montagem, como se estivesses a escolher a melhor passagem
entre as imagens de um filme.» Atangana Bekono bate levemente com a
palma da mão na mesa. Diz uma asneira e volta-se a rir: «Agora fiquei com
vontade de ir ao cinema.»
Vídeo
Conto de Simone Atangana Bekono
Prince Julian
Durante o pouco tempo que passou na Escola Superior de Arnhem e
Nijmegen, onde tinha tentado, para espanto dos pais, seguir o curso de
assistência social, Fleur vivia na rua Molenbeek por trás da estação
ferroviária de Arnhem Velperpoort. No quarto, onde o sol apenas entrava
de manhãzinha, ela dormia mal. Isto por causa dos vizinhos de cima que
passavam o tempo a insultarem-se um ao outro, a ter sexo barulhento e a
snifar linhas de coca antes de irem para os seus empregos no solário e no
ginásio. Lá estava ela, deitada numa toalha ao sol, no primeiro verão da sua
estadia. Ela sabia que passar tempo ao sol lhe fazia bem às articulações e ao
espírito. Nos primeiros anos da puberdade, Fleur tinha tido enormes
depressões sazonais de outubro a março. Quando tinha catorze anos,
sentara-se uma vez no parapeito da janela do quarto com as pernas viradas
para fora, dando em doida por causa do silêncio vazio e desgastante na sua
cabeça. Tinha estado a fumar cigarros ao frio até que o pai os conseguisse
cheirar da sala de estar e fosse a correr para cima para lhe dar nas orelhas.
Ao abrir a porta com toda a força, assustou-a de tal forma que ela pulou da
janela e foi parar à roseira lá em baixo, ainda que nunca tivesse realmente
tido a intenção de saltar.
Fleur estava portanto deitada naquela toalha ao sol no pequeno
terraço da sua casa, quando ouviu um reboliço e uma voz vinda da janela
do quarto de um dos apartamentos adjacentes com vista para o seu terraço.
Levantou os olhos para a imagem do rapaz vizinho, para o cabelo longo,
preto, ele penteando-o.
No Facebook o rapaz chamava-se Prince Julian e posava com bonés da
tropa, grandes colares de diamantes falsos e camisas de alças apertadas, lip
gloss nos lábios e umas sobrancelhas perfeitas. Na biografia dizia que era de
origem iraniana. Fleur não conhecia propriamente o Prince Julian, mas ele
passava sempre por ela de bicicleta quando ela vinha da escola com aqueles
caracóis brilhantes, o seu traseiro maravilhoso rangendo no selim da
bicicleta, e por vezes até sorriam um para o outro. Tinha surgido uma
estranha e minúscula amizade que não passava de dizerem adeus da janela
do quarto ou do terraço, cumprimentarem-se quando iam para a paragem
de autocarro e de vez em quando uma conversa bêbeda a caminho de casa,
o Prince Julian de braço dado com o namorado, a Fleur com as mãos
metidas nos bolsos do casaco.
Seja como for, ela estava portanto deitada no terraço a ouvir a voz do
Prince Julian. Ele estava a cantar quando de repente parou, meteu a cabeça
fora da janela e gritou:
— Ei!
Fleur acenou de volta, sentou-se direita, deslizou os óculos de sol
para dentro do cabelo.
— Ei — disse ela.
— Sobe, está demasiado calor. Estou a beber chá.
— OK — disse Fleur. Limpou o suor do lábio superior e
levantou-se, entrou na cozinha para se vestir.
O Prince Julian deixou-a entrar, usando uma camisa de alças preta e umas
calças de jogging apertadas. Já tinha feito chá. No corredor, onde Fleur
tinha tirado os chinelos e ficado a olhar para as fotos do Prince Julian e o
seu namorado, do Prince Julian e uma rapariga loira e apenas do Prince
Julian, ouvia um locutor a falar na televisão com um barulho de fundo que
parecia de tambores. O Prince Julian caminhou à sua frente. Ela pôde
sentar-se no sofá preto de pele na sala de estar e podia pôr a música mais
baixo, senão não conseguiam falar. A televisão, que estava muito mais alta
do que a canção que produzia o barulho dos tambores, teve de ficar ligada.
Um locutor da BBC entrevistava uma repórter sobre o brexit. Quando o
Prince Julian se foi sentar no outro sofá preto de pele à beira da janela,
apontou zangado para o ecrã com uma das duas canecas de chá quente,
entornando chá preto no laminado.
— O problema deste continente da piça é que todos vivemos nele,
mas ’tá-se toda a gente a cagar para a Europa — disse ele, voltando a sair
para a cozinha e regressando pouco depois com um prato cor-de-rosa com
bolachinhas de amêndoa. Fleur tirou logo uma e meteu-a na boca
enquanto observava a sala de estar do Prince Julian.
O interior era bastante impressionante. Muitos diamantes falsos,
mas também incríveis tapetes persas pendurados na parede. Uma
combinação de móveis em madeira escura, candelabros de cristais falsos,
pormenores dourados. Lembrava-lhe uma clássica casa de chá turca, mas
quitada pela Paris Hilton. Até lhe achava piada.
— O que acontece se lhe cai uma bomba em cima? Ou se nos
chateamos mesmo a sério com a Rússia? Ou se todos aqueles refugiados já
não conseguirem entrar na Inglaterra e começarem a saltar de prédios em
massa? — O Prince Julian tinha uma voz estridente e instável e que,
independentemente do seu verdadeiro estado emocional, fazia parecer
muitas vezes que poderia a qualquer momento desatar a chorar.
Fleur abriu a boca. A bolachinha de amêndoa estava pousada às
migalhas em cima da sua língua, mas o Prince Julian olhou para ela tão
intensamente que ela se sentiu na obrigação de abandonar todas as regras
de etiqueta e responder-lhe o mais rápido possível.
— Então estamos todos perdidos — disse ela, esperando imitar o
tom dramático do Prince Julian, borrifando migalhas de bolacha em cima
da mesa toda e nas duas canecas.
— Não, man! — berrou o Prince Julian, estupefacto. Levantou-se
do sofá, tirou uma moldura do armário que estava entre os dois sofás e
meteu-a em frente à cara de Fleur. Na foto estava uma criança com cerca de
oito anos com três homens mais velhos, cada um dos três com um bigode
robusto e um charuto na mão. Encontravam-se numa sala de estar e
usavam vestes brancas. A criança segurava um envelope. O Prince Julian
batia de forma irritada com uma unha pintada de roxo no vidro da
moldura.
— Voltamos mas é todos para donde viemos. Levamos connosco o
conhecimento, as contas bancárias. Que se fodam estes cabrões, nós
estamos habituados às cenas de topo, de onde achas que vêm as teorias mais
avançadas, as tecnologias de ponta, os trends, a moda, essa merda toda, a
música toda, donde é que achas que isso vem tudo? Nós saímos e sai tudo
connosco!
Fleur levantou os olhos da fotografia para o Prince Julian e pensou
naquela palavra. Nós. «Mas tu agora estás connosco!», dissera-lhe muitas
vezes a mãe, Agnes, por vezes em tom de reprovação mas geralmente
satisfeita, sempre que Fleur perguntava alguma coisa sobre a sua vida antes
dos Países Baixos, sobre as outras crianças do orfanato, sobre porque a
tinham escolhido. Era uma frase que amiúde lhe vinha à cabeça como um
portão espesso de ferro, como se ao dizê-la Agnes a puxasse pelo colarinho
para longe das suas fantasias sobre a sua curta vida no Haiti e batesse com o
portão atrás delas, trancasse o portão, atirasse a chave na retrete, puxasse o
autoclismo, fechasse também a porta da retrete à chave, et cetera, et cetera.
Fleur ouvira a frase tantas vezes durante a puberdade que a curiosidade que
tinha sobre a sua terra natal se havia traduzido numa enorme vontade em
sair de Tilburg. Baldava-se frequentemente às aulas e saía em Amesterdão
às escondidas. Tinha amigos e amigas que nunca levava a casa. Tirava notas
medianas. No seu último ano de escola, planeou a fuga e fugiu. Mas sobre
os Países Baixos, sobre a Europa, as estruturas e os efeitos, o seu lugar no
meio disso tudo, sobre isso ela nunca pensava.
— És tu? — perguntou ela, ficando desconfortável.
— Não! — berrou o Prince Julian mais alto ainda. Soltou um
suspiro frustrado e atirou a moldura para o lado no sofá enquanto se
sentava, como se tivesse acabado de tentar explicar teorias fanonianas a um
nazi.
— Não estou a perceber — retorquiu Fleur.
— Este é o meu irmão Kadar — indicou o Prince Julian, apontando
para a foto.
— Ele não é mesmo meu irmão, mais tipo um primo. É uma longa história. Mas isso também não tem nada a ver. Eles querem-nos
todos fora daqui. Passam o tempo a não quererem isto e a não quererem
aquilo e quando querem alguma coisa é só para não darem a entender o
tipo de pessoas que realmente são. Só precisamos de andar por aí e
vivermos as nossas vidas para nos lavarem o cérebro, percebes?
O Prince Julian inclinou-se para a frente para agarrar a caneca. Os
seus espessos caracóis pretos pendiam-lhe sobre o ombro. Fleur não sabia
se concordava com ele. Mas sabia que mataria por um cabelo daqueles. Na
Afro Cosmetics da rua Hommel era possível gastar o salário de um mês
inteiro por algo assim. E ainda teriam de o encomendar.
— Estou simplesmente tão farto disto — disse o Prince Julian
quando Fleur não reagiu.
— Sim, eu também — anuiu Fleur. E era verdade. Sentia-se
subitamente perdida.
Talvez fosse a raiva do Prince Julian sobre o brexit ou o facto de ele
também não parecer perceber o que raio se estava a passar com o mundo.
Prince Julian abanou a cabeça e pescou um maço de tabaco de entre as
almofadas do sofá.
— Devíamos mas era desaparecer todos. A ver se gostavam disso —
disse ele enquanto metia dois cigarros entre os lábios, acendendo-os ao
mesmo tempo. Um dos cigarros era para Fleur. Ela começou a fumá-lo
agradecida.
— Em casa as coisas são melhores? — perguntou ela vendo que
Prince Julian não ia explicar melhor a sua tirada anterior.
— Querida, esta é a minha casa. Se for para o Irão matam-me logo
— disse, estalando os dedos.
— Não é que leve a mal. Eu não conheço lá
ninguém e ninguém lá me conhece a mim, porque é que fariam alguma
coisa por mim? É diferente, sabes.
— Sim, eu sei — disse Fleur e de repente ficou com uma vontade
imensa em deixar de existir, visto o Prince Julian também não parecer ter
uma alternativa. Ficou ali a fumar o cigarro até ao fim. O Prince Julian
parecia estar imerso nos seus pensamentos, ficou a abanar a cabeça até
acabar o cigarro e enfiou a ponta acesa na caneca cheia. Ainda ficaram os
dois a ver as notícias durante um bocado. Fleur gostava de ouvir o Prince
Julian quando ele se zangava com as notícias nacionais, as notícias
internacionais, as notícias de economia, a previsão do tempo, sempre a
mesmíssima coisa, até com os anúncios. Ele era entusiástico, brincalhão,
fogoso. Fleur tinha-se sentido tímida e deslocada a vida toda. A raiva dele
empolgava-a de forma estranha, como se finalmente alguém falasse sobre
alguma coisa. Só era stressante quando ele lhe fazia perguntas sobre algum
dos segmentos das notícias. Aí era como se a credibilidade dela enquanto
estrangeira fosse posta à prova.
— Isto é treta, right? O que é que interessa se o autor do crime é negro? —
Suores frios, logo. Era como aquela primeira vez em que entrou sozinha
num cabeleireiro especializado em cabelos crespos. A senhora que a
atendeu perguntou-lhe pela sua rotina de cuidados com o cabelo e Fleur
sentiu-se instantaneamente inflamada de vergonha, como se a senhora lhe
tivesse carregado num botão perto das entranhas.
— Não tenho nenhuma — teve de dizer.
— Filha — suspirou a senhora. Tristonha, remexeu os caracóis de
Fleur e em seguida lavou-os com uma grande quantidade de champô
hidratante.
O Prince Julian desaparecia volta e meia para dentro da cozinha. Depois
voltava com um cinzeiro ou com mais chá. Estava sempre a fazer alguma
coisa e nunca terminava nada. Fleur já achava mágico o suficiente poder
observá-lo em ação, participar não era necessário. Ele abria a câmara do
telemóvel para ver como é que estava, ordenava pacotes de batatas fritas e
latas de café de um lado para o outro nos armários da cozinha, deixava-se
cair ao lado dela no sofá para acender um cigarro, depois apercebia-se de
que ela ainda estava sentada ali e mudava-se para o outro sofá para,
passados cinco minutos, se voltar a levantar e marchar em direção à casa de
banho. Esta performance a solo prolongou-se algumas horas. Fleur
encheu-se de bolachinhas de amêndoa até ficar enjoada. As notícias não
paravam, um desastre a seguir ao outro, e ela esperava pacientemente até
que o Prince Julian voltasse a ter motivos para criticar a Europa, os Países
Baixos, o Ocidente inteiro.
— Eu gosto disto aqui, mas eles são uns hipócritas — suspirou
quando veio pousar uma taça com batatas fritas. Um relógio noutro
quarto dava as seis horas. Fleur sentia que concordava com ele.
— Mas e então? — perguntou ela.
— Nada, isso é que é fodido, não é? Não podemos fazer nada. Eu
estou aqui preso e tu estás aqui presa. Temos umas quantas oportunidades,
mais do que isso só nos resta aguentar. É terrível. Não somos nada.
— Iá.
— Mas também é na boa, sabes. Estou feliz, tenho pessoas fixes à
minha volta, tenho-te a ti, acho que até curtimos um do outro, sabes? — O
Prince Julian acenou de forma convincente, depois pareceu dar-se conta
outra vez de algo terrível e voltou a abanar a cabeça. Aquilo parecia ser um
tique típico dele, como se estivesse constantemente a passar por um
turbilhão de emoções que mal conseguia controlar. Parecia ser fatigante,
pensava Fleur. Apetecia-lhe fazer alguma coisa que o pudesse ajudar.
— De qualquer forma, eu gosto de ti — disse ela. — Só não penso
tanto no estado do nosso país quanto tu, acho eu.
— Why not? — perguntou o Prince Julian. Tirou uma batata frita
da taça de plástico, mas não a comeu, em vez disso pousou-a em cima do
joelho e começou a fazer tranças no cabelo.
— Em que raio é que se pode
pensar mais? Até quando estou no supermercado penso nisso!
— No supermercado penso nas coisas de que preciso — disse Fleur.
Ao que parece o Prince Julian achou aquilo uma resposta de merda. Voltou
a abanar a cabeça. Fumaram mais um cigarro.
— Nunca te podes deixar adormecer — disse ele só passados uns
minutos, tinha atado um elástico na ponta da trança e estava sentado com
uma mão sobre a outra a olhar fixamente para um ponto à sua frente —,
tens de estar sempre ligada.
Tradutor
XÉNON CRUZ
Ano de nascimento: 1991
Nascido: Portugal
Vive e trabalha em Amesterdão, Holanda
– Publicação de «Éticas de Tradução: Da Visibilidade à Diferença» em Via
O projeto CELA (Connecting Emerging Literary Artists) abre o palco europeu a uma nova geração de criadores literários. Permite uma cooperação transnacional intensiva entre talentosos escritores, tradutores e profissionais literários europeus em início de carreira. No decurso do projeto, os participantes enfrentam algumas das mais exigentes realidades da nossa era — de fraturas cada vez mais acentuadas na Europa a um setor editorial em mudança — e põem-nas em perspetiva, partilham o seu trabalho e colmatam o fosso que os separa do setor editorial e do público europeu. As organizações literárias de seis países europeus uniram forças para fundar o projeto de incubação de talentos cela — Connecting Emerging Literary Artists. Partilhamos a necessidade de estabelecer uma infraestrutura sustentável de incubação de talentos para preservar a diversidade da literatura europeia e dar maiores oportunidades a línguas minoritárias. O projeto proporciona um percurso de dois anos com formação, instrumentos e uma rede que visam tornar possível uma carreira internacional e estabelecer uma prática profissional integrada. Com uma atenção em competências e mobilidade transnacional, incluímos especialmente as oportunidades digitais na literatura, novas formas de os participantes conseguirem emprego e rendimento. Cada edição do projeto cela decorre durante dois anos. No primeiro ano, as organizações literárias orientam os escritores, tradutores e profissionais literários e proporcionam-lhes um programa multinacional de residências, formação e master classes para os preparar para trabalhar no mercado europeu e para um público internacional. No segundo ano, os participantes são inseridos por via de marketing internacional e campanhas publicitárias, uma digressão por festivais europeus e apresentações ao público e a profissionais europeus por escritores e tradutores de renome (os nossos embaixadores cela) e organizações literárias.
Biografia LOTTE LENTES Ano de nascimento: 1990 Nascida: Alemanha Vive e trabalha em Amesterdão – Novela De jongen, het stof (Wintertuin, 2015) – Contos Een tweede keer kijken (Wintertuin, 2017) – Segundo lugar no concurso de escrita holandês e flamengo Write Now! (2014) – Slow Writing Lab, incubadora de talentos da Fundação Holandesa para a Literatura (2015–2016) – Residência em Paris com a Flemish Dutch House deBuren (2018) Sobre Lotte Lentes Lotte Lentes cresceu numa aldeia, entre duas culturas. O pai, de origem
alemã, e a mãe, de Amesterdão, estabeleceram-se na província de Limburg,
no sul da Holanda, tendo optado por uma espécie de meio termo.
«Vivíamos num lugar que parecia não se adequar a nós», explica Lentes.
«No sul de Limburg, fomos sempre vistos como estranhos. Por outro lado,
os meus pais também nunca fizeram muito para inverter a situação. Cresci
com um pai que tinha saudades permanentes de casa. Ele queria sempre
estar num lugar diferente do que naquele em que se encontrava. Tal
situação tem um impacto enorme numa criança: uma pessoa cresce com a
percepção de que ocupa um lugar. Sempre tive perfeita consciência da
existência de um contexto, da ideia de que ocupava um lugar na aldeia,
numa história e numa família.» Lentes permanece em silêncio, por alguns momentos, apesar de não
parecer estar à procura de palavras. Ela parece saber exatamente aquilo que
pretende dizer. Enquanto fala, estica o seu cabelo loiro, para, de seguida,
deixar cair o rabo-de-cavalo solto sobre um dos ombros. «Talvez este tema,
em que o lugar de uma pessoa é determinado, se consiga rever no meu
trabalho. Escrevo bastante acerca do desejo de estar num sítio diferente,
acerca do desejo de entender esse lugar ou situação. Tenho uma espécie de
reflexo que é descobrir as leis e regras de um lugar. Quero entendê-las»,
Lentes acrescenta, num tom mais suave: «Gostava de preencher os
requisitos. As minhas personagens, pelo menos, ou cumprem as regras na
sua totalidade, ou fazem exatamente o contrário.» Lentes escreve prosa, mas de formas variadas. Ela trabalha,
alternadamente, em textos escritos e falados, de vez em quando escreve
cenários, e produz, de forma recorrente, uma história para o palco. «Foi
aqui que nasceu a minha paixão pela língua. No passado, fiz bastante teatro
e sempre achei o trabalho de pesquisa da língua mais interessante do que a
sua expressão. Ainda é precisamente isto que me atrai na literatura: a
escrita como uma forma de pesquisa. Em prosa, é possível fazer
movimentos circulares. Dá para uma pessoa se aproximar de uma essência
sem ter que desenhar uma linha reta nesta direção. Neste sentido, sou uma
criadora sóbria. Aquilo que crio, tem de ser construído da forma mais clara
possível.» E, pela primeira vez, Lentes solta uma gargalhada. «O meu
trabalho é sempre descrito como sólido», diz ela, e, de forma teatral, agarra
o seu coração. Com um olhar alegre e inquisitivo: «Sempre vi isto como
um insulto, como se fosse algo empoeirado e rígido. Porém, talvez se tenha
tornado um nome forte. Também quero que o meu trabalho seja bem
estruturado. Que seja um trabalho profissional sólido.» De qualquer das formas, Lentes vê o seu trabalho como bastante
experimental, embora nunca deixe a língua descarrilar. «A parte
experimental encontra-se mais na imaginação do que nas palavras que utilizo para o efeito. O meu jogo é o jogo de exploração da força da
imaginação. De momento, encontro-me a trabalhar no meu romance de
estreia, e neste mesmo romance são espelhados dois eventos históricos. A
um nível conceptual trata-se de algo bastante experimental: é uma
investigação acerca de como um tema se pode repetir. Acerca das conexões
que as imagens podem ter umas com as outras.»
Normalmente, Lentes trabalha com tópicos que se encontram
enraizados na realidade. «Isto é sempre um trabalho de pesquisa. A ficção é
uma maneira de procurar uma estrutura que não existia na realidade», e,
de repente, diz de forma brusca : «Literatura é intervenção.» Ela olha para
a rua através da janela. «Talvez seja por causa disto que escrevo de forma
tão meticulosa. Quando se sai da realidade, é necessário precisão. Se se quer
construir algo real, por que não lidar com isto de forma precária?» Vídeo
Conto de Lotte Lentes
diário de bordo de um último dia
I suppose, I said, it is one definition of love,
the belief in something that only the two of you can see.
Rachel Cusk, Outline
Pela enésima vez, proíbe-me de retirar o mapa da ilha da minha mochila.
«Assim, parece que somos turistas», diz ela.
«Mas nós somos turistas, ou não?», pergunto eu.
Ela não dá resposta, mas fica a olhar para o ecrã do telemóvel com as
sobrancelhas franzidas.
Uma pessoa tinha-lhe recomendado uma aplicação através da qual
era possível descarregar mapas de uma área específica, para poderem ser
usados offline. Pelo facto de nos guiarmos pela seta verde no ecrã dela, a
qual muda de direção cada vez que paramos e fica parada sem se mover
durante minutos quando nos encontramos em movimento, vagueamos,
pelo sétimo dia consecutivo, por um dos subúrbios de Cala D’Or. Ela
muda de direção de forma cada vez mais resoluta, mas pela quarta vez,
acabámos de passar em frente ao Fun Route '69, uma pista de karting
coberta de musgo e meio escondida atrás de umas palmeiras. A pele dos
meus ombros começa a escaldar e uma pequena bola de demolição invisível
monda, há já algum tempo e de forma implacável, a parte esquerda da
minha cabeça, o que acontece todos os dias por esta altura. Cada vez mais,
tal serve-me de aviso de que tenho de deixar esta ilha quanto antes.
«Ó pá, caminha ao meu lado! Por que raio te deixas ficar para trás?»
Dou dois passos grandes, e voltamos a caminhar lado a lado. Sinto,
imediatamente, receio de chocar com ela na próxima mudança inesperada
de direção.
«Não posso adivinhar para onde vais, ou posso?», digo eu, de forma
cáustica.
Ela acelera o passo e eu peço desculpa entre dentes, como se o
choque que eu temia tivesse acabado de ocorrer.
Aqui, os supermercados não se chamam supermercados, mas sim
supermarkets. Nos letreiros, são exibidas fotografias desbotadas de feijão
em molho de tomate, queijos franceses e cerveja. Apartamentos e hotéis
construídos em altura determinam, há já sete dias, as nossas vistas. As suas
varandas, tal qual canis cheios de baleias, golfinhos e crocodilos insufláveis,
calmamente à espera de alguém que os carregue de volta para a praia ou
para a piscina. Com as nossas Nikes e blusas folgadas, e os cabelos atados
num nó descuidado no topo da cabeça, destoamos do resto. As raparigas
daqui são de um tipo mais produzido. Usam batom e argolas grandes e
douradas nas orelhas quando vão à praia. À noite, usam vestidos sem alças
que conseguem esconder à justa as nádegas, de forma a não embaraçarem
os pais.
Tenho vestidos comigo, mas não os uso. Prefiro formar uma frente
com ela. É mais divertido, tento convencer-me a mim própria. Mas aquilo
que realmente quero dizer é: mais necessário.
Manter a distância entre ela e eu tão pequena quanto possível
significa enfatizar o contraste entre nós e todas as outras pessoas presentes
na ilha. Nós divertimo-nos com um inimigo mútuo, rimo-nos à sorrelfa de
tatuagens de rosas e cabeças de bebés, de barrigas da perna e omoplatas
escaldadas, de capas de telefone gigantes da Hello Kitty, de chinelos
decorados com missangas. Enquanto pudermos definir aquilo que não
somos, nenhuma de nós precisa se preocupar com o oposto.
Nos três anos que a conheço, vi-a precisamente uma vez com um
vestido. Como uma criança angustiada, estava no provador do V&D com
os ombros bem erguidos. Ela estava a remexer na bainha de renda. O fecho
de correr não fechava por completo até ao topo. Eu tentava ajudá-la, mas
ela não parava quieta.
«Posso despi-lo?», disse, quando tentei ver a situação do fecho de
perto. «Eu quero despi-lo.»
De forma desajeitada, puxou o tecido de cetim dos ombros,
abrindo-se uma costura em algum sítio. O vestido preto acabou no chão,
tal qual um pano do pó descartado. Ela permaneceu lá, com o seu soutien
desgastado. Eu ao seu lado, com o meu casaco de inverno ainda vestido.
Na ilha, sinto-me cada vez mais o vestido que ela traz vestido, mas
que não quer. À noite, na cama, damos tantas voltas quanto necessário até
ambas termos encontrado uma posição tão confortável como aceitável:
suficientemente afastadas de forma a não se tornar demasiado íntimo;
suficientemente próximas de forma a poderem passar por amantes. Uma
vez, tentei tocá-la, não tendo conseguido encontrar nada suave nela. Ela
estava ali deitada como um poste de alta tensão. A sua inexorabilidade
tornava-me combativa, pelo que a acariciei, massajei e pressionei, e ela
permitiu, mas nada mudou. Somente quando a minha mão descendeu e fiz
desaparecer os meus dedos por trás da bainha das suas cuecas, de forma
pouco elegante e crua, através do qual rasguei um pedaço de pele, é que ela
me pediu para parar.
No passado, aninhávamo-nos de tal forma perto uma da outra que
tudo, até ao último cabelo dos nossos rabos de cavalo, se encontrava
entrelaçado. Encaixa-se perfeitamente, dizíamos então, mas encaixa-se
sempre perfeitamente. Até chegar o ponto em que apenas se encaixa mais
ou menos, e, depois, com dificuldade, até, finalmente, não se encaixar mais.
Durante o almoço, recusa-se, novamente, a fazer o pedido da
comida noutra língua que não o espanhol. Trata-se de uma questão de
respeito para com os locais, diz ela. Porém, quando olho à minha volta, não
faço ideia qual o significado de «local» neste contexto, e quem iria apreciar o seu gesto. Além do mais, chegámos à conclusão de que a empregada de
mesa do Churchill's Tapasbar era de Helmond, que se chamava Eva e que,
mais do que tudo, não fazia tenção de responder à chafurdice em espanhol
noutra língua que não em holandês. Após duas investidas, parou de tentar.
Ela inclina-se para trás amuada e fica a olhar para a empregada do bar, a
qual agita o cabelo extremamente louro sobre os ombros estreitos
enquanto caminha.
«Atrasada de merda», digo eu baixinho.
Ela solta um pequeno sorriso, mas procura contrariá-lo, olhando de
forma carrancuda para as mãos assentes nas coxas, tal qual uma criança
teimosa.
«Meu Deus, que atrasada de merda.»
Digo-o mais alto, mostro a minha indignação e reparo em duas
cabeças completamente escaldadas na mesa ao nosso lado, irritadas a olhar
na nossa direção. Quando a Eva de Helmond regressa, encarrego-a de nos
trazer dois mojitos, «por favor». De seguida, uma garrafa de vinho. Faço
tantas perguntas quanto possível. Ela fala de forma animada e bastante
gestualizada. Para sobremesa, pedimos tiramisu e gelado.
Antes de pagar a conta, puxo-a para junto de mim. Ela beija-me de
forma desajeitada, pelo que os nossos dentes da frente acabam por colidir, e
ela ri-se às gargalhadas. Deixamos vinte euros de gorjeta para Eva, e dizemos
gracias em voz alta na esplanada. No regresso a casa, caminhamos o tempo
todo de mão dada. Apenas quando chegamos ao hotel, onde um grupo de
rapazes se encontra a fumar em frente à fachada, é que voltei a largá-la. Ela
sobe as escadas à minha frente. As suas pernas esguias e bronzeadas
sobressaem debaixo dos calções. Quero morder a barriga das pernas dela.
No átrio de entrada do hotel, está uma rapariga a dormir em cima
do telemóvel a carregar. Dois rapazes, de aproximadamente dez anos,
jogam pingue-pongue de forma apática. Uma mulher arrasta os pés e
suspira em direção às escadas. O seu sarongue amarelo garrido de tal forma
apertado à volta das ancas que a gordura escorre por todos os lados. Os dias
colam-se uns aos outros devagar e sem fim. Quem os ainda quer separar, dá
uma olhadela no letreiro com o programa para a noite. Ontem festa latina,
hoje à noite karaoke, amanhã noite de póquer.
Na baía, estamos pela última vez debaixo de água até aos nossos
umbigos. À superfície, resplandece o brilho madrepérola de um creme
protetor. Ela não se atreve a mais do que isto. Mais à frente, a água é menos
clara e também, de repente, bastante mais profunda. Tem medo dos peixes,
assusta-se com pedaços de alga na cavidade do joelho.
Pus os dois braços ao redor da sua cintura, puxando-a para mim até ela
conseguir relaxar. Mais à frente, cinco homens escaldados puseram uma
jangada na água, em que um frigorífico e umas colunas de som foram construídos em dois compartimentos. Eles gritam euforicamente e eu
começo a imaginá-los a serem eletrocutados em algazarra. Através dos
cantos da boca dela, os quais se enrolam suavemente, consigo ver que ela
tem mais ou menos o mesmo cenário em mente.
Fazemos silêncio e ficamos a olhar para o mar. Há pessoas que
nadam lá ao longe. Tão longe que se encontram mais próximas dos barcos
que vagarosamente passam em frente à baía do que de nós. No primeiro
dia, também lá nadei. Sentia-me livre e lúcida, quando parti da baía com
grandes braçadas. Porém, já em mar alto, a lucidez converteu-se, de
repente, em medo. Nadei de volta tão depressa quanto podia, e quando
cheguei sem fôlego às nossas toalhas, ela estava danada. Ela tinha-me
perdido de vista, disse. Tinha deixado de me conseguir distinguir da água e
tinha ficado preocupada. Eu pedi desculpa e prometi nunca mais ir tão
longe. Enquanto me encontrava deitada ao lado dela a secar-me,
apercebi-me de que ambas temos a tendência para desejar algo que está fora
do nosso alcance. Ela acredita que o mar alto guarda algo especial, mas não
se atreve a nadar até lá; eu vou à procura do mar alto, sem refletir, até que
um medo instintivo me relembra daquilo que deixei para trás. Assim,
nunca estamos no mesmo sítio.
O resto da semana, nadei no limite do seu campo de visão. Nem a
lucidez, nem o medo regressaram.
Durante a nossa última noite na ilha, sonho que o pai dela me
telefona e diz que ela teve um acidente automóvel a caminho de casa. Ela ia
a conduzir um carro que colidiu de frente com um condutor em
contramão. No meu sonho, senti um pânico tão grande no meu tórax que
parecia que as minhas costelas eram esmagadas, uma por uma. Esqueço-me
de perguntar se ela está viva e corro para fora de casa com os pés descalços.
Acordo tensa e sinto-me, instantaneamente, muitíssimo satisfeita
com o pânico. De forma orgulhosa, conto, durante o pequeno-almoço,
acerca do telefonema e da minha reação. Quando vou postular o pormenor
dos pés descalços, com as minhas mãos agitadas por cima dos ovos, ela solta
um sorriso. De forma a poder atribuir ao sonho ainda mais significado, vou
à procura do cabeçalho: «acidente de automóvel» em
«informacaodosonho.com», mas engulo a tempo aquilo que ele diz:
«Quando se sonha que uma pessoa amada morre num acidente, tal sugere
um desejo profundo de se despedir desta mesma pessoa.» Retiro os olhos
do ecrã, vejo como ela corta uma fatia de pão branco com geleia de
morango em quatro pedaços, e digo que em casa estão vinte e um graus.
No avião, estamos sentadas lado a lado, com o corredor a separar-nos.
Seguro um livro sem o ler. Pelo canto do olho, vejo no ecrã do assento em
frente dela, como ela tenta derrubar um conjunto de cones em formação
com uma bola de bowling. Com o rosto convulsivo, toca e desliza o dedono ecrã, mas não consegue pôr a bola em movimento. Ela desiste e começa
a folhear de forma apática pelos filmes.
Algumas filas à frente da nossa, um casal procura lidar com a
insatisfação do bebé. Do pequeno corpo soa choro e soluços. Devido ao
som, o ambiente do avião muda, apesar de não se saber ao certo se os
outros passageiros absorveram o estado de espírito do bebé, ou se é o bebé
que expressa o cansaço e aborrecimento que reina. Todos sabemos que
ainda não estaremos libertos disto quando aterrarmos. Primeiro que tudo,
teremos de esperar pela bagagem e teremos de conduzir em direção a casa.
Já em casa, teremos de varrer um mar de cartas do tapete da entrada e que
tudo o resto estará precisamente tal como o deixámos.
Num curto espaço de tempo, as pessoas começam a formar uma
opinião acerca do choro, ela inclusive. O pai levanta-se, põe a criança aos
ombros e, com vergonha, começa a andar de um lado para o outro. Ela
suspira nas primeiras vezes que ele passa por ela, mas, passado pouco
tempo, volta a perder-se no filme e esquece-se dele. Sempre a achei no topo
da sua beleza quando se encontrava concentrada, mas, quanto mais tempo
estávamos juntas, mais eu a achava bonita quando ela se concentrava em
algo que não eu.
Lá fora, cai a noite. Os últimos raios de sol retiram-se para trás do
horizonte. De vez em quando, ela levanta o olhar e sorrimos uma para a
outra. O meu braço é suficientemente longo para atravessar o corredor
estreito. O dela também. Porém, deixamo-los ficar onde eles estão.
Tradutor
PEDRO VIEGAS
Ano de nascimento: 1981
Nascido: Portugal
Vive e trabalha em Nimega, Holanda.
– Tradutor de holandês e inglês para português
– Estudou Gestão na Faculdade de Economia de Coimbra e Marketing
Research, na Universidade de Groninga
– Certificate of Proficiency de Inglês (CPE) / Certificado de Holandês
como segunda língua (NT2)
– Tradutor de holandês/flamengo para português
– Especialização em tradução técnica, no que concerne a processos de