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segunda-feira, 22 de abril de 2019

Lotte Lentes: CELA| Connecting Emerging Literary Artists







 CELAConnecting Emerging Literary Artists




O Projecto:

O projeto CELA (Connecting Emerging Literary Artists) abre o palco europeu a uma nova geração de criadores literários. Permite uma cooperação transnacional intensiva entre talentosos escritores, tradutores e profissionais literários europeus em início de carreira. No decurso do projeto, os participantes enfrentam algumas das mais exigentes realidades da nossa era — de fraturas cada vez mais acentuadas na Europa a um setor editorial em mudança — e põem-nas em perspetiva, partilham o seu trabalho e colmatam o fosso que os separa do setor editorial e do público europeu.
As organizações literárias de seis países europeus uniram forças para fundar o projeto de incubação de talentos cela — Connecting Emerging Literary Artists. Partilhamos a necessidade de estabelecer uma infraestrutura sustentável de incubação de talentos para preservar a diversidade da literatura europeia e dar maiores oportunidades a línguas minoritárias. 
O projeto proporciona um percurso de dois anos com formação, instrumentos e uma rede que visam tornar possível uma carreira internacional e estabelecer uma prática profissional integrada. Com uma atenção em competências e mobilidade transnacional, incluímos especialmente as oportunidades digitais na literatura, novas formas de os participantes conseguirem emprego e rendimento.
Cada edição do projeto cela decorre durante dois anos. No primeiro ano, as organizações literárias orientam os escritores, tradutores e profissionais literários e proporcionam-lhes um programa multinacional de residências, formação e master classes para os preparar para trabalhar no mercado europeu e para um público internacional. No segundo ano, os participantes são inseridos por via de marketing internacional e campanhas publicitárias, uma digressão por festivais
europeus e apresentações ao público e a profissionais europeus por escritores e tradutores de renome (os nossos embaixadores cela) e organizações literárias. 

Os autores e tradutores participam em campanhas internacionais, festivais literários em diferentes países e numa rede de trabalho que proporcionará contacto entre todos os participantes.
Kick-Off: Hay Festival Segovia (Espanha)Tinto-no-Branco- Festival Literário de Viseu (Portugal), Book Fest (Roménia), Pisa Book Festival (Itália), Lev-Literatura em Viagem (Portugal), Passa Porta Festival (Belgium), Wintertuinfestival (Holanda) recebem os autores e tradutores do projecto CELA.


Parceiros:
Booktailors
Escuela de Escritores
Flemish-Dutch House deBuren
Passa Porta
Pisa Book Festival
Wintertuin




Biografia

LOTTE LENTES



Ano de nascimento: 1990
Nascida: Alemanha
Vive e trabalha em Amesterdão
– Novela De jongen, het stof (Wintertuin, 2015)
– Contos Een tweede keer kijken (Wintertuin, 2017)
– Segundo lugar no concurso de escrita holandês e flamengo Write Now!
(2014)
– Slow Writing Lab, incubadora de talentos da Fundação Holandesa para a
Literatura (2015–2016)

– Residência em Paris com a Flemish Dutch House deBuren (2018)





Sobre Lotte Lentes

Lotte Lentes cresceu numa aldeia, entre duas culturas. O pai, de origem alemã, e a mãe, de Amesterdão, estabeleceram-se na província de Limburg, no sul da Holanda, tendo optado por uma espécie de meio termo. «Vivíamos num lugar que parecia não se adequar a nós», explica Lentes. «No sul de Limburg, fomos sempre vistos como estranhos. Por outro lado, os meus pais também nunca fizeram muito para inverter a situação. Cresci com um pai que tinha saudades permanentes de casa. Ele queria sempre estar num lugar diferente do que naquele em que se encontrava. Tal situação tem um impacto enorme numa criança: uma pessoa cresce com a percepção de que ocupa um lugar. Sempre tive perfeita consciência da existência de um contexto, da ideia de que ocupava um lugar na aldeia, numa história e numa família.» 
Lentes permanece em silêncio, por alguns momentos, apesar de não parecer estar à procura de palavras. Ela parece saber exatamente aquilo que pretende dizer. Enquanto fala, estica o seu cabelo loiro, para, de seguida, deixar cair o rabo-de-cavalo solto sobre um dos ombros. «Talvez este tema, em que o lugar de uma pessoa é determinado, se consiga rever no meu trabalho. Escrevo bastante acerca do desejo de estar num sítio diferente, acerca do desejo de entender esse lugar ou situação. Tenho uma espécie de reflexo que é descobrir as leis e regras de um lugar. Quero entendê-las», Lentes acrescenta, num tom mais suave: «Gostava de preencher os requisitos. As minhas personagens, pelo menos, ou cumprem as regras na sua totalidade, ou fazem exatamente o contrário.»
 Lentes escreve prosa, mas de formas variadas. Ela trabalha, alternadamente, em textos escritos e falados, de vez em quando escreve cenários, e produz, de forma recorrente, uma história para o palco. «Foi aqui que nasceu a minha paixão pela língua. No passado, fiz bastante teatro e sempre achei o trabalho de pesquisa da língua mais interessante do que a sua expressão. Ainda é precisamente isto que me atrai na literatura: a escrita como uma forma de pesquisa. Em prosa, é possível fazer movimentos circulares. Dá para uma pessoa se aproximar de uma essência sem ter que desenhar uma linha reta nesta direção. Neste sentido, sou uma criadora sóbria. Aquilo que crio, tem de ser construído da forma mais clara possível.» E, pela primeira vez, Lentes solta uma gargalhada. «O meu trabalho é sempre descrito como sólido», diz ela, e, de forma teatral, agarra o seu coração. Com um olhar alegre e inquisitivo: «Sempre vi isto como um insulto, como se fosse algo empoeirado e rígido. Porém, talvez se tenha tornado um nome forte. Também quero que o meu trabalho seja bem estruturado. Que seja um trabalho profissional sólido.» 
De qualquer das formas, Lentes vê o seu trabalho como bastante experimental, embora nunca deixe a língua descarrilar. «A parte experimental encontra-se mais na imaginação do que nas palavras que utilizo para o efeito. O meu jogo é o jogo de exploração da força da imaginação. De momento, encontro-me a trabalhar no meu romance de estreia, e neste mesmo romance são espelhados dois eventos históricos. A um nível conceptual trata-se de algo bastante experimental: é uma investigação acerca de como um tema se pode repetir. Acerca das conexões que as imagens podem ter umas com as outras.» Normalmente, Lentes trabalha com tópicos que se encontram enraizados na realidade. «Isto é sempre um trabalho de pesquisa. A ficção é uma maneira de procurar uma estrutura que não existia na realidade», e, de repente, diz de forma brusca : «Literatura é intervenção.» Ela olha para a rua através da janela. «Talvez seja por causa disto que escrevo de forma tão meticulosa. Quando se sai da realidade, é necessário precisão. Se se quer construir algo real, por que não lidar com isto de forma precária?»

                                                    Vídeo



Conto de Lotte Lentes

diário de bordo de um último dia

I suppose, I said, it is one definition of love, the belief in something that only the two of you can see. Rachel Cusk, Outline 


Pela enésima vez, proíbe-me de retirar o mapa da ilha da minha mochila. 
   «Assim, parece que somos turistas», diz ela. 
   «Mas nós somos turistas, ou não?», pergunto eu. 
   Ela não dá resposta, mas fica a olhar para o ecrã do telemóvel com as sobrancelhas franzidas. 
   Uma pessoa tinha-lhe recomendado uma aplicação através da qual era possível descarregar mapas de uma área específica, para poderem ser usados offline. Pelo facto de nos guiarmos pela seta verde no ecrã dela, a qual muda de direção cada vez que paramos e fica parada sem se mover durante minutos quando nos encontramos em movimento, vagueamos, pelo sétimo dia consecutivo, por um dos subúrbios de Cala D’Or. Ela muda de direção de forma cada vez mais resoluta, mas pela quarta vez, acabámos de passar em frente ao Fun Route '69, uma pista de karting coberta de musgo e meio escondida atrás de umas palmeiras. A pele dos meus ombros começa a escaldar e uma pequena bola de demolição invisível monda, há já algum tempo e de forma implacável, a parte esquerda da minha cabeça, o que acontece todos os dias por esta altura. Cada vez mais, tal serve-me de aviso de que tenho de deixar esta ilha quanto antes. 
   «Ó pá, caminha ao meu lado! Por que raio te deixas ficar para trás?» 
   Dou dois passos grandes, e voltamos a caminhar lado a lado. Sinto, imediatamente, receio de chocar com ela na próxima mudança inesperada de direção. 
   «Não posso adivinhar para onde vais, ou posso?», digo eu, de forma cáustica. 
   Ela acelera o passo e eu peço desculpa entre dentes, como se o choque que eu temia tivesse acabado de ocorrer. 
 Aqui, os supermercados não se chamam supermercados, mas sim supermarkets. Nos letreiros, são exibidas fotografias desbotadas de feijão em molho de tomate, queijos franceses e cerveja. Apartamentos e hotéis construídos em altura determinam, há já sete dias, as nossas vistas. As suas varandas, tal qual canis cheios de baleias, golfinhos e crocodilos insufláveis, calmamente à espera de alguém que os carregue de volta para a praia ou para a piscina. Com as nossas Nikes e blusas folgadas, e os cabelos atados num nó descuidado no topo da cabeça, destoamos do resto. As raparigas daqui são de um tipo mais produzido. Usam batom e argolas grandes e douradas nas orelhas quando vão à praia. À noite, usam vestidos sem alças que conseguem esconder à justa as nádegas, de forma a não embaraçarem os pais.
   Tenho vestidos comigo, mas não os uso. Prefiro formar uma frente com ela. É mais divertido, tento convencer-me a mim própria. Mas aquilo que realmente quero dizer é: mais necessário. 
  Manter a distância entre ela e eu tão pequena quanto possível significa enfatizar o contraste entre nós e todas as outras pessoas presentes na ilha. Nós divertimo-nos com um inimigo mútuo, rimo-nos à sorrelfa de tatuagens de rosas e cabeças de bebés, de barrigas da perna e omoplatas escaldadas, de capas de telefone gigantes da Hello Kitty, de chinelos decorados com missangas. Enquanto pudermos definir aquilo que não somos, nenhuma de nós precisa se preocupar com o oposto. 
   Nos três anos que a conheço, vi-a precisamente uma vez com um vestido. Como uma criança angustiada, estava no provador do V&D com os ombros bem erguidos. Ela estava a remexer na bainha de renda. O fecho de correr não fechava por completo até ao topo. Eu tentava ajudá-la, mas ela não parava quieta. 
   «Posso despi-lo?», disse, quando tentei ver a situação do fecho de perto. «Eu quero despi-lo.» 
   De forma desajeitada, puxou o tecido de cetim dos ombros, abrindo-se uma costura em algum sítio. O vestido preto acabou no chão, tal qual um pano do pó descartado. Ela permaneceu lá, com o seu soutien desgastado. Eu ao seu lado, com o meu casaco de inverno ainda vestido. 
   Na ilha, sinto-me cada vez mais o vestido que ela traz vestido, mas que não quer. À noite, na cama, damos tantas voltas quanto necessário até ambas termos encontrado uma posição tão confortável como aceitável: suficientemente afastadas de forma a não se tornar demasiado íntimo; suficientemente próximas de forma a poderem passar por amantes. Uma vez, tentei tocá-la, não tendo conseguido encontrar nada suave nela. Ela estava ali deitada como um poste de alta tensão. A sua inexorabilidade tornava-me combativa, pelo que a acariciei, massajei e pressionei, e ela permitiu, mas nada mudou. Somente quando a minha mão descendeu e fiz desaparecer os meus dedos por trás da bainha das suas cuecas, de forma pouco elegante e crua, através do qual rasguei um pedaço de pele, é que ela me pediu para parar. 
   No passado, aninhávamo-nos de tal forma perto uma da outra que tudo, até ao último cabelo dos nossos rabos de cavalo, se encontrava entrelaçado. Encaixa-se perfeitamente, dizíamos então, mas encaixa-se sempre perfeitamente. Até chegar o ponto em que apenas se encaixa mais ou menos, e, depois, com dificuldade, até, finalmente, não se encaixar mais. 
   Durante o almoço, recusa-se, novamente, a fazer o pedido da comida noutra língua que não o espanhol. Trata-se de uma questão de respeito para com os locais, diz ela. Porém, quando olho à minha volta, não faço ideia qual o significado de «local» neste contexto, e quem iria apreciar o seu gesto. Além do mais, chegámos à conclusão de que a empregada de mesa do Churchill's Tapasbar era de Helmond, que se chamava Eva e que, mais do que tudo, não fazia tenção de responder à chafurdice em espanhol noutra língua que não em holandês. Após duas investidas, parou de tentar. Ela inclina-se para trás amuada e fica a olhar para a empregada do bar, a qual agita o cabelo extremamente louro sobre os ombros estreitos enquanto caminha. 
   «Atrasada de merda», digo eu baixinho. 
  Ela solta um pequeno sorriso, mas procura contrariá-lo, olhando de forma carrancuda para as mãos assentes nas coxas, tal qual uma criança teimosa.
  «Meu Deus, que atrasada de merda.» 
 Digo-o mais alto, mostro a minha indignação e reparo em duas cabeças completamente escaldadas na mesa ao nosso lado, irritadas a olhar na nossa direção. Quando a Eva de Helmond regressa, encarrego-a de nos trazer dois mojitos, «por favor». De seguida, uma garrafa de vinho. Faço tantas perguntas quanto possível. Ela fala de forma animada e bastante gestualizada. Para sobremesa, pedimos tiramisu e gelado. 
   Antes de pagar a conta, puxo-a para junto de mim. Ela beija-me de forma desajeitada, pelo que os nossos dentes da frente acabam por colidir, e ela ri-se às gargalhadas. Deixamos vinte euros de gorjeta para Eva, e dizemos gracias em voz alta na esplanada. No regresso a casa, caminhamos o tempo todo de mão dada. Apenas quando chegamos ao hotel, onde um grupo de rapazes se encontra a fumar em frente à fachada, é que voltei a largá-la. Ela sobe as escadas à minha frente. As suas pernas esguias e bronzeadas sobressaem debaixo dos calções. Quero morder a barriga das pernas dela. 
   No átrio de entrada do hotel, está uma rapariga a dormir em cima do telemóvel a carregar. Dois rapazes, de aproximadamente dez anos, jogam pingue-pongue de forma apática. Uma mulher arrasta os pés e suspira em direção às escadas. O seu sarongue amarelo garrido de tal forma apertado à volta das ancas que a gordura escorre por todos os lados. Os dias colam-se uns aos outros devagar e sem fim. Quem os ainda quer separar, dá uma olhadela no letreiro com o programa para a noite. Ontem festa latina, hoje à noite karaoke, amanhã noite de póquer. 
   Na baía, estamos pela última vez debaixo de água até aos nossos umbigos. À superfície, resplandece o brilho madrepérola de um creme protetor. Ela não se atreve a mais do que isto. Mais à frente, a água é menos clara e também, de repente, bastante mais profunda. Tem medo dos peixes, assusta-se com pedaços de alga na cavidade do joelho. 
  Pus os dois braços ao redor da sua cintura, puxando-a para mim até ela conseguir relaxar. Mais à frente, cinco homens escaldados puseram uma jangada na água, em que um frigorífico e umas colunas de som foram construídos em dois compartimentos. Eles gritam euforicamente e eu começo a imaginá-los a serem eletrocutados em algazarra. Através dos cantos da boca dela, os quais se enrolam suavemente, consigo ver que ela tem mais ou menos o mesmo cenário em mente. 
   Fazemos silêncio e ficamos a olhar para o mar. Há pessoas que nadam lá ao longe. Tão longe que se encontram mais próximas dos barcos que vagarosamente passam em frente à baía do que de nós. No primeiro dia, também lá nadei. Sentia-me livre e lúcida, quando parti da baía com grandes braçadas. Porém, já em mar alto, a lucidez converteu-se, de repente, em medo. Nadei de volta tão depressa quanto podia, e quando cheguei sem fôlego às nossas toalhas, ela estava danada. Ela tinha-me perdido de vista, disse. Tinha deixado de me conseguir distinguir da água e tinha ficado preocupada. Eu pedi desculpa e prometi nunca mais ir tão longe. Enquanto me encontrava deitada ao lado dela a secar-me, apercebi-me de que ambas temos a tendência para desejar algo que está fora do nosso alcance. Ela acredita que o mar alto guarda algo especial, mas não se atreve a nadar até lá; eu vou à procura do mar alto, sem refletir, até que um medo instintivo me relembra daquilo que deixei para trás. Assim, nunca estamos no mesmo sítio. 
   O resto da semana, nadei no limite do seu campo de visão. Nem a lucidez, nem o medo regressaram. 
   Durante a nossa última noite na ilha, sonho que o pai dela me telefona e diz que ela teve um acidente automóvel a caminho de casa. Ela ia a conduzir um carro que colidiu de frente com um condutor em contramão. No meu sonho, senti um pânico tão grande no meu tórax que parecia que as minhas costelas eram esmagadas, uma por uma. Esqueço-me de perguntar se ela está viva e corro para fora de casa com os pés descalços. 
  Acordo tensa e sinto-me, instantaneamente, muitíssimo satisfeita com o pânico. De forma orgulhosa, conto, durante o pequeno-almoço, acerca do telefonema e da minha reação. Quando vou postular o pormenor dos pés descalços, com as minhas mãos agitadas por cima dos ovos, ela solta um sorriso. De forma a poder atribuir ao sonho ainda mais significado, vou à procura do cabeçalho: «acidente de automóvel» em «informacaodosonho.com», mas engulo a tempo aquilo que ele diz: «Quando se sonha que uma pessoa amada morre num acidente, tal sugere um desejo profundo de se despedir desta mesma pessoa.» Retiro os olhos do ecrã, vejo como ela corta uma fatia de pão branco com geleia de morango em quatro pedaços, e digo que em casa estão vinte e um graus. No avião, estamos sentadas lado a lado, com o corredor a separar-nos. Seguro um livro sem o ler. Pelo canto do olho, vejo no ecrã do assento em frente dela, como ela tenta derrubar um conjunto de cones em formação com uma bola de bowling. Com o rosto convulsivo, toca e desliza o dedono ecrã, mas não consegue pôr a bola em movimento. Ela desiste e começa a folhear de forma apática pelos filmes. 
   Algumas filas à frente da nossa, um casal procura lidar com a insatisfação do bebé. Do pequeno corpo soa choro e soluços. Devido ao som, o ambiente do avião muda, apesar de não se saber ao certo se os outros passageiros absorveram o estado de espírito do bebé, ou se é o bebé que expressa o cansaço e aborrecimento que reina. Todos sabemos que ainda não estaremos libertos disto quando aterrarmos. Primeiro que tudo, teremos de esperar pela bagagem e teremos de conduzir em direção a casa. Já em casa, teremos de varrer um mar de cartas do tapete da entrada e que tudo o resto estará precisamente tal como o deixámos. 
   Num curto espaço de tempo, as pessoas começam a formar uma opinião acerca do choro, ela inclusive. O pai levanta-se, põe a criança aos ombros e, com vergonha, começa a andar de um lado para o outro. Ela suspira nas primeiras vezes que ele passa por ela, mas, passado pouco tempo, volta a perder-se no filme e esquece-se dele. Sempre a achei no topo da sua beleza quando se encontrava concentrada, mas, quanto mais tempo estávamos juntas, mais eu a achava bonita quando ela se concentrava em algo que não eu. 
   Lá fora, cai a noite. Os últimos raios de sol retiram-se para trás do horizonte. De vez em quando, ela levanta o olhar e sorrimos uma para a outra. O meu braço é suficientemente longo para atravessar o corredor estreito. O dela também. Porém, deixamo-los ficar onde eles estão.

Tradutor

PEDRO VIEGAS


Ano de nascimento: 1981
Nascido: Portugal
Vive e trabalha em Nimega, Holanda.
– Tradutor de holandês e inglês para português
– Estudou Gestão na Faculdade de Economia de Coimbra e Marketing
Research, na Universidade de Groninga
– Certificate of Proficiency de Inglês (CPE) / Certificado de Holandês
como segunda língua (NT2)
– Tradutor de holandês/flamengo para português
– Especialização em tradução técnica, no que concerne a processos de
adoção
– Fã de livros e filmes holandeses/flamengo


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