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segunda-feira, 27 de maio de 2019

Matias Candeira: CELA| Connecting Emerging Literary Artists








 CELAConnecting Emerging Literary Artists




O Projecto:

O projeto CELA (Connecting Emerging Literary Artists) abre o palco europeu a uma nova geração de criadores literários. Permite uma cooperação transnacional intensiva entre talentosos escritores, tradutores e profissionais literários europeus em início de carreira. No decurso do projeto, os participantes enfrentam algumas das mais exigentes realidades da nossa era — de fraturas cada vez mais acentuadas na Europa a um setor editorial em mudança — e põem-nas em perspetiva, partilham o seu trabalho e colmatam o fosso que os separa do setor editorial e do público europeu.
As organizações literárias de seis países europeus uniram forças para fundar o projeto de incubação de talentos cela — Connecting Emerging Literary Artists. Partilhamos a necessidade de estabelecer uma infraestrutura sustentável de incubação de talentos para preservar a diversidade da literatura europeia e dar maiores oportunidades a línguas minoritárias. 
O projeto proporciona um percurso de dois anos com formação, instrumentos e uma rede que visam tornar possível uma carreira internacional e estabelecer uma prática profissional integrada. Com uma atenção em competências e mobilidade transnacional, incluímos especialmente as oportunidades digitais na literatura, novas formas de os participantes conseguirem emprego e rendimento.
Cada edição do projeto cela decorre durante dois anos. No primeiro ano, as organizações literárias orientam os escritores, tradutores e profissionais literários e proporcionam-lhes um programa multinacional de residências, formação e master classes para os preparar para trabalhar no mercado europeu e para um público internacional. No segundo ano, os participantes são inseridos por via de marketing internacional e campanhas publicitárias, uma digressão por festivais
europeus e apresentações ao público e a profissionais europeus por escritores e tradutores de renome (os nossos embaixadores cela) e organizações literárias. 

Os autores e tradutores participam em campanhas internacionais, festivais literários em diferentes países e numa rede de trabalho que proporcionará contacto entre todos os participantes.
Kick-Off: Hay Festival Segovia (Espanha)Tinto-no-Branco- Festival Literário de Viseu (Portugal), Book Fest (Roménia), Pisa Book Festival (Itália), Lev-Literatura em Viagem (Portugal), Passa Porta Festival (Belgium), Wintertuinfestival (Holanda) recebem os autores e tradutores do projecto CELA.


Parceiros:
Booktailors
Escuela de Escritores
Flemish-Dutch House deBuren
Passa Porta
Pisa Book Festival
Wintertuin


Biografia

MATIAS CANDEIRA


Ano de nascimento 1984
Nascido Espanha
Vive e trabalha em Madrid
– Autor do romance Fiebre (Febre, Candaya, 2015) e quatro livros de contos: La soledad de los ventrílocuos (A Solidão dos Ventríloquos, Tropo, 2009), Antes de las jirafas (Antes das Girafas, Páginas de espuma, 2011), Todo irá bien (Vai Correr Tudo Bem, Salto de Página, 2013) e Ya no estaremos aquí (Não Vamos Estar aqui, Salto de Página, 2017), e do guião de Fase terminal (Fase Terminal), curta-metragem selecionada para muitos festivais de cinema espanhóis e estrangeiros
– Publicado em várias revistas (Quimera, Esquire, Time Out, Tierra Adentro, El estado mental, ABC Cultural) e antologias espanholas, entre as quais Última temporada (Lengua de Trapo, 2013), Mi madre es un pez (Libros del silencio, 2011), Pequeñas Resistencias 5 (Páginas de espuma, 2010), Aquelarre (Salto de página, 2010)
– Vencedor de várias bolsas literárias, entre elas a da Fundação Antonio Gala para Jovens Criadores (2010), a da Fundação Han Nefkens (2013) e a Fundação Leonardo BBVA, uma das mais prestigiadas para jovens escritores espanhóis
– Incluído pelo jornal ABC e pelo suplemento literário El Cultural nas suas listas de melhores romancistas de língua espanhola (2013 e 2015)


Sobre Matias Candeira

«Quando se trabalha num livro há sempre um momento em que uma pessoa dá de caras com um muro. Uma pessoa já se encontra de volta disto há algum tempo, já se escreveu bastante, mas, de repente, a história parece um muro. Embate-se nele e tenta-se contorná-lo. Vai-se à procura de uma maneira de entrar na própria história. Quem são as personagens? À volta de quê é que giram os seus conflitos?» 
   Matías Candeira coça a sua barba curta aparada. Na parte superior das suas bochechas veem-se pelos de barba curtos. Por baixo destes corre uma área de barba bem cuidada. «Quando começo, nunca sei onde é que o texto vai parar. Há escritores que fazem as coisas ao contrário? Eu, pelo menos, não. Quando escrevo, faço-o de forma explorativa. A minha recompensa é ir à procura daquilo de que se trata o texto», e termina a frase com um sorriso breve. Não se trata de uma gargalhada. Ele ri-se entre dentes, riso esse que já se vem a desenrolar há alguma distância. 
   Candeira já publicou uma novela, coletâneas de histórias e cenários. Ele gosta bastante de escrever e, se possível, em quantidade, e sempre prestando atenção à língua. «Tal desempenha um papel de relevo, sim. Coloquemos a questão nestes termos: Sempre me senti um falso poeta. Como se fosse um poeta que tivesse sido traduzido para prosa. Escrevo histórias em que a poesia sempre se encontra bastante próxima.» Esta visão da literatura também se parece aplicar ao próprio Candeira. Ele avalia cada palavra com o maior cuidado. «Não, deixe-me reformular isto», diz ele, para, de seguida, fazer uma afirmação mais precisa. «A língua é uma ferramenta extremamente interessante. É um meio de distorcer a realidade e de criar confusão. Isto atrai-me imenso.» 
   Ele prossegue, agora de forma mais audível: «O facto de a nossa realidade ser a única coisa que reivindica ser verdadeira, irrita-me. No que me diz respeito, esconde-se tanta verdade em algo que não é real como naquilo que é. Esta é uma das razões que me leva a escrever. Pretendo construir algo que vá além da nossa visão limitada da realidade.» Candeira dá um exemplo: «Vamos imaginar que uma pessoa foi encarregue de escrever um texto acerca de uma menina e um gato. O que é que se vai escrever?», pergunta ele de forma desafiadora. «Vai-se escrever acerca de como eles se acarinham um ao outro?», diz com um ar afável. «Prefiro descrever a forma como o gato lambe o rosto da menina, ou como a menina se começa a comportar como um gato. Por outro lado, o gato poder-se-á tornar uma menina. Eu criaria algo que não se encontra enraizado na realidade. Não tenho qualquer interesse numa descrição realista.»
    Candeira coloca um dos braços sobre o encosto da sua cadeira. O outro fica debaixo do queixo, com o indicador dobrado perto da boca. De repente, parece ficar a refletir, quase que por acidente, tendo em conta que a sua presença é mais alegre do que tímida. «O meu trabalho nem sempre é realista e, por vezes, comporta algo pesado. Interesso-me pela escuridão. Escrevo personagens que nem sempre se dão a conhecer. Nem ao leitor, nem a mim.» Ele regressa ao muro do qual tinha falado anteriormente. Também ele dá ares de se ter apercebido de tal, mas não diz nada. Ele apenas sorri ironicamente e, de seguida, traça as pernas. 





Vídeo





Conto de Matias Candeira

Torcidos

Naquela noite chamava-me, e não parecia que fosse parar.
— Mamã. Mamã!
Dizia-o assim, oferecendo-o a mim e ao quarto enquanto se encolhia numa escuridão de cera, cheia de brinquedos (a sua única propriedade).
Voltou a gritar-mo, com muito mais força, e então afastei o olhar e acariciei
o copo de uísque, mesmo debaixo da base, até que a humidade passou para
a ponta do dedo.
A palavra estava bem cosida ao seu cérebro desde bebé.
Fiquei muito quieta enquanto observava a forma brilhante e obstinada da gota. Não era um crime deixar que aprendesse a sentir frio, ou como tragá-lo. Imaginava a sua língua ao estender-se, o excesso de saliva ao dizer com clareza quem era eu nesta casa, mamã, mamã, mamã; essa reza sufocada, essa súplica ao único Deus que realmente conhecia. Algumas vezes, desde que nasceu e o segurei nos meus braços, desejei que me vissem uns olhos diferentes. Ser simplesmente uma desconhecida que se afasta completamente, mas ao mesmo tempo se reflete, um instante, nas pupilas de quem está a olhá-la. Nunca me chamava pelo meu verdadeiro nome. De novo outro apelo, mamã, vem, a gota tensa e afiada na ponta do meu dedo, mamã, mãezinha, já a desviar-se. Agora, essa palavra chegava a mim numa correria com um som húmido; tantas vezes amolecida num choro pela febre, por um pé que lhe ficou preso ao sair do carro.
— Vem — repetiu. — Está a falar comigo.
Tapei os ouvidos. Reconhecia a dor. Então detive o olhar na mesa de madeira onde comíamos (às vezes com as mãos, como num filme de que ele gosta; os esquilos falam com eloquência grega entre os ramos de um grande carvalho e partem nozes com a mandíbula, têm os dentes achatados, enormes; depois vencem um mau). Três cadeiras estavam separadas. Eram de design industrial, negras, e brilhavam muito sob a luz do candeeiro. A minha cadeira, a do meu filho e a cadeira em frente. Apenas Adrián brincava na sala. A terceira tinha de ter sido separada por ele. Voltei a atacar o copo, cada vez mais gelado. Talvez lambesse o fundo para tentar perceber.
Um pressentimento vibrava por trás daquela imagem; o facto de a terceira cadeira, separada da mesa de jantar, ser tão real nos seus detalhes. Havia algo de estranho na forma como estava colocada, como se alguém tivesse
acabado de se sentar ali a conversar comigo; a dizer-me…, não pude acabar de pensá-lo.
— Mamã, vem — voltou a dizer.
— Dorme, Adrián. Quero estar sozinha. Há muitos outros momentos em que estou contigo.
— É que…
— Já te disse para dormires.
Ao ouvir-me, já devia ter coberto a cara com o seu edredom com desenhos de aviões, até não deixar passar o ar. Não se calou desta vez. Era estranho.
Sempre tinha sido uma criança obediente, com os dentes separados e brancos. Viam-se na escuridão. Nem sequer vomitava quando tinha gripe.
— Está a falar comigo.
Eu tremia outra vez ao beber, e pressionava o copo contra o peito. A pele das pontas dos dedos ia ficando branca, sem sangue.
— Tapa a boca, filho. Cerra bem os dentes.
Cravei a minha voz no corredor, na bola esvaziada, em todos os seus bonecos de guerreiros mutantes amontoados numa espécie de vala (uma vez tinha bebido e, antes de fechar a porta do seu quarto, disse-lhe que tinha tirado a cabeça a cada um dos bonecos e ele mostrou-mos). Quem estaria a falar com ele? O sabor ácido e denso do uísque fazia que a minha cabeça cercasse o coração dessa frase. Ramificava-se e abria-se mais. De repente, era como se o meu filho me pudesse contagiar ao ponto de me aparecerem manchas e depois eu já fosse capaz de ver ao meu lado um dos seus amigos invisíveis. Sentado, sem se mover.
— Cala-te de uma…
Cravei a voz na porta do seu quarto e retorci-a para que não me chamasse mais. Restava-me quase meia garrafa. Mas ele continuava a pedir que fosse lá. Não ia parar. Se calhar não podia, e agora o seu corpo estava doente daquele verbo. Vem nos músculos, atrás dos olhos. Vem, está a falar comigo, encharcando-se no sangue. Estava muito tonta, por isso levantei--me, respirei fundo e cobri-me com a palavra de novo. Bebi uma vez mais para apagar a luz.
— Mamã.
Ao dizê-la em voz alta, com a tontura, achei-a demasiado branda.
Tinha-se deformado. Na rua não passava nenhum carro. Pareceu-me distinguir uns pássaros imóveis, cravados nos ramos da acácia do outro lado da rua. O nevoeiro colava-se à janela como o faz uma língua. Era apenas uma avenida vazia onde caía a pique a palavra mamã, e eu não podia ir atrás, quase não podia segui-la ou correr atrás dela. Tinha de ficar fechada com ele ali. Passei ao lado da terceira cadeira e acariciei o encosto. Pede um desejo. A luz fazia-a escorregadia, de um negro irreal. Pede um desejo. Uma fenda em metade da casa.
Continuei a caminhar, adentrando-me no corredor com mais dificuldade. De repente, pisei algo duro e tropecei. Bati contra a esquina da parede. Consegui apoiar-me. De certeza que era um boneco. O rangido branco do plástico ao partir-se trepou-me pela perna.
— A mamã vai — disse em voz alta, e ri-me sozinha. — Está muito perto.
Detive-me outra vez e olhei as nossas fotografias penduradas na parede. Em várias passava o braço pelo ombro de Adrián, suavemente, e já não parecia
mamã, mamã, mamã. A sensação anterior surgiu-me mais forte na garganta. Metia-se dentro. Vem. Mas não podia deixar de olhar as fotos. Dava a impressão de que, nesses lugares onde tínhamos pedido a algum habitante que nos fotografasse — a aldeia onde passávamos as férias, a sua poeira húmida, os seus olhos por trás dos cortinados —, também tínhamos deixado um lugar, sempre à esquerda, para mais alguém. Ao lado de várias molduras, encontrei traços de lápis vermelho e amarelo. A ponta tinha deixado incisões na parede. Eram desenhos de Adrián. As cabeças dentadas de um grupo de crianças, seguramente. Estaria eu ali? Não podem ver-te, Clara. As nossas imagens misturavam-se com os desenhos retorcidos das crianças, a lápis. Tinha pintado cada um de uma cor, sem cara, com braços em forma de pau ou as pernas em espirais, ganchos, pontas. Queria ele que entrassem dentro das nossas fotos? Estavam muito próximos. Fui até à cozinha e abri a janela para olhar o nevoeiro e deixar que pousasse no parapeito.
Quando me meti no seu quarto, ele tinha começado a alterar o grito.
Assim que me viu, na ombreira da porta, tirou o edredom da cara. Só deixou descobertos os olhos e o nariz. Sussurrava-me algo com pequenas agulhas de voz, mas eu não compreendia o que me queria dizer.
— O que fizeste à parede? — disse.
Cerrei o punho. Tremia, e não me importava que me descobrisse assim.
— São meus amigos.
— Esses não são os teus amigos. Tens de fazer melhor as linhas da cara.
Talvez fosse a altura de começar a falar-lhe como a um adulto e tirar proveito disso. Sei que uma mãe nunca jamais deve brindar em frente do seu filho. Eu fi-lo.
A toalha tapava o suporte na parede, em frente à cama. Tinha preparado o seu quarto para que não me incomodassem os brinquedos, e sobretudo, a cara do urso que pendurei ali quando ele tinha quatro anos. 
Tempos antes, tinha-lhe ensinado a cobri-la quando acabasse de brincar com ele. Costumava pedir-me que a tirasse de lá, quando tinha pesadelos.
Num deles, contou-me, o dentista arrancava-lhe os dentes, um a um, e punha-lhe lápis de cera nos buracos. Depois pedia-me que a voltasse a pôr, e então o urso era o verdadeiro monarca do quarto. Parecia que ao cobri-lo com a toalha estava a arrancar o único pedaço de beleza.
Desta vez, tirei a toalha dos ganchos e ri-me segurando com muita força o copo. Bebi. Acariciei-lhe o focinho. Tinha um desses rostos animais ridículos, onde o nariz e a boca eram de um tamanho exagerado. O fabricante tinha-lhe tirado os dentes, imagino que por um medo completamente absurdo: que isso fosse traumatizar a criança. O interior da boca era uma pura massa de plástico rígido, parecido com uma pasta ensanguentada. O urso ria-se. Ríamo-nos os dois. Não voltei a tapá-lo.
— Porque não dormes?
— É que ele não deixa de falar comigo.
— Os ursos não falam, Adrián. Não tem língua.
Mas eu não estava a olhar para o animal quando o disse. O nevoeiro cobria quase toda a rua, um intestino que saía do outro lado da janela e se metia debaixo dos carros. Os ramos tinham folhas curvas, torciam-se por causa do vento e caíam sem som. Adrián tremia; e eu necessitava de beber, voltar a deitar-me no sofá ou procurar outro sítio. Fora.
— É melhor que durmas — disse, e senti que desenterrava as palavras. — Ouve o que te digo.
Ao aproximar-me, notei que estava pálido e que lhe brilhavam os olhos, como se lhos tivessem acendido por dentro. Toquei-lhe na testa e segurei-a. Estava quente, embora ainda não tivesse febre. Pareceu-me que movia os lábios e que dizia vem. Gemeu uma vez mais.
— Mamã, tu tens frio, como ele.
— Sim, tens razão. Tenho muito frio.
Ao arranjar lugar a seu lado, senti que a cama estava demasiado afundada e pensei, um instante, na terceira cadeira separada da mesa.
Deixei o copo no chão. Creio que cheguei a ouvi-lo a entornar-se. Então peguei-lhe na cabeça e apertei-a contra o meu peito. Agora, via os meus pés nus. A boca do urso tinha-se esfumado no meu olhar; e era negra, as gengivas, tudo aberto. Deixei escorregar a mão da cama, tentei tocar no copo, mas os dedos pesavam-me e não o encontrei. Encharquei-os no uísque. Senti que delirava a nado, num círculo, como se pudesse ver com mais claridade, mergulhar-lhe a cabeça ali, no vermelho e no amarelo — queria beber, e ele resistia nos meus braços —; mergulhá-lo em mamã, e ao fundo, um lago cheio de crianças que flutuam muito quietas à superfície. Eu própria ocupando lentamente o lugar de uma dessas crianças pintadas na parede e entrando numa fotografia em que só aparecesse a minha figura.
Queria ficar ali. Virar-me e ir-me embora, voltar a colocar a cadeira.
— Vem — disse.
Ainda continuava a apertar-lhe a cabeça.

Tradutor

MATIAS GOMES

Ano de nascimento 1972
Nascido Portugal
Vive e trabalha em Lisboa
– Tradutor de espanhol > português, inglês/francês > português e português > inglês
– Professor de Português (ensino secundário)
– Mestrado em Literatura Medieval Portuguesa (publicação de várias comunicações feitas em Congressos da Associação Hispânica de Literatura
Medieval — AHLM)
– Dinamizador da comunidade de leitura «Conversas Para Lê-las» (só literatura de mulheres escritoras) durante cinco anos
– Organizador e dinamizador de workshops «Drag King» (p. ex., «Here Comes Your Man»), enquanto ativista de género.




segunda-feira, 20 de maio de 2019

Mariana Torres: CELA| Connecting Emerging Literary Artists






 CELAConnecting Emerging Literary Artists




O Projecto:

O projeto CELA (Connecting Emerging Literary Artists) abre o palco europeu a uma nova geração de criadores literários. Permite uma cooperação transnacional intensiva entre talentosos escritores, tradutores e profissionais literários europeus em início de carreira. No decurso do projeto, os participantes enfrentam algumas das mais exigentes realidades da nossa era — de fraturas cada vez mais acentuadas na Europa a um setor editorial em mudança — e põem-nas em perspetiva, partilham o seu trabalho e colmatam o fosso que os separa do setor editorial e do público europeu.
As organizações literárias de seis países europeus uniram forças para fundar o projeto de incubação de talentos cela — Connecting Emerging Literary Artists. Partilhamos a necessidade de estabelecer uma infraestrutura sustentável de incubação de talentos para preservar a diversidade da literatura europeia e dar maiores oportunidades a línguas minoritárias. 
O projeto proporciona um percurso de dois anos com formação, instrumentos e uma rede que visam tornar possível uma carreira internacional e estabelecer uma prática profissional integrada. Com uma atenção em competências e mobilidade transnacional, incluímos especialmente as oportunidades digitais na literatura, novas formas de os participantes conseguirem emprego e rendimento.
Cada edição do projeto cela decorre durante dois anos. No primeiro ano, as organizações literárias orientam os escritores, tradutores e profissionais literários e proporcionam-lhes um programa multinacional de residências, formação e master classes para os preparar para trabalhar no mercado europeu e para um público internacional. No segundo ano, os participantes são inseridos por via de marketing internacional e campanhas publicitárias, uma digressão por festivais
europeus e apresentações ao público e a profissionais europeus por escritores e tradutores de renome (os nossos embaixadores cela) e organizações literárias. 

Os autores e tradutores participam em campanhas internacionais, festivais literários em diferentes países e numa rede de trabalho que proporcionará contacto entre todos os participantes.
Kick-Off: Hay Festival Segovia (Espanha)Tinto-no-Branco- Festival Literário de Viseu (Portugal), Book Fest (Roménia), Pisa Book Festival (Itália), Lev-Literatura em Viagem (Portugal), Passa Porta Festival (Belgium), Wintertuinfestival (Holanda) recebem os autores e tradutores do projecto CELA.


Parceiros:
Booktailors
Escuela de Escritores
Flemish-Dutch House deBuren
Passa Porta
Pisa Book Festival
Wintertuin


Biografia

MARIANA TORRES



Ano de nascimento: 1981
Nascida no Brasil
Vive e trabalha em Madrid

– Autora de El cuerpo secreto (Páginas de Espuma, 2015) e da curtametragem Rascacielos (2009)
– Parte dos Bogotá39 2017, escolhidos pelo Festival Hay Festival de
Cartagena de Indias, que representa os 39 melhores ficcionistas com menos
de 40 anos nascidos na América Latina
– Ensina escrita criativa na Escuela de Escritores desde a sua fundação em
Madrid (2003)
– Membro da rede EACWP (Associação Europeia de Programas de Escrita
Criativa)
– Dois contos traduzidos para inglês por Lisa Dillman: revista LALT
(Latin American Literature Today), conto «Árvore Monstro Menino
Árvore», que integra o seu primeiro livro El cuerpo secreto; e «Roots», para
Bogotá 39: New Voices from Latin America (Oneworld Publications, Reino
Unido, 2018)


Sobre Mariana Torres

«Sou uma escritora obsessiva», começa por dizer Mariana Torres. «Quando estou a escrever um livro, não tenho tempo para mais nada. A escrita absorve todos os momentos dos meus dias. Enquanto estava a escrever o meu primeiro livro, as outras áreas da minha vida ficaram completamente destruídas. Esquecia-me de prazos. Uma vez deixei arder a minha casa. A escrita torna-se uma obsessão», diz, soltando uma gargalhada. «Isso é bom.» Torres nasceu no Brasil, filha de pais argentinos. «Em criança, vivi em muitos sítios diferentes. Durante um período de tempo, os meus pais mudaram de casa frequentemente, às vezes até dentro da mesma cidade. Vivíamos um ano numa casa e outro ano vivíamos noutra. E de cada vez que nos mudávamos, eu levava os meus livros comigo. Quase não tinha tempo para conhecer novas pessoas. Nessas alturas era bom poder ler.» Em cima da mesa está a sua coletânea de contos. Torres olha para o livro de forma enternecida. De vez em quando, folheia-o rapidamente, à procura de um determinado exemplo. «Foi difícil escrever isto», diz, pousando de novo a coletânea. A capa brilha por baixo dos seus dedos finos. «Tive de recomeçar três ou quatro vezes, porque havia algo de errado. Falta algo à escrita. Só na última tentativa é que consegui encontrar um estilo, um som que me agradava. Depois, passou a ser uma voz a escrever.» Torres leva muito a sério essa voz narrativa. Fala sobre ela de forma fogosa, mas ao mesmo tempo mantém uma certa circunspeção. Os cabelos pretos que lhe pendem dos lados da cara fazem com que pareça estar escondida. Todavia, a voz dela é calorosa e alegre. «Apercebi-me que a minha escrita definha quando tento controlá-la. Na verdade, tenho de perder completamente o controlo. Isso só acontece quando escrevo muito rápido. Quero sobretudo não pensar», e por um momento ela fica em silêncio. «Confio mais nos meus instintos do que nos meus pensamentos. Sim», diz devagar, «não preciso do meu cérebro quando escrevo. Tem a tendência para me corrigir, em vez me ajudar a criar.» «Só me consigo aprofundar na leitura do meu próprio trabalho, uma vez terminado. Só quando o volto a ler, é que pareço compreender-me», diz, contendo o riso. Torres foi recentemente convidada para uma conferência, onde tinha de se apresentar em dez minutos. Não o seu trabalho, mas a si mesma. «Foi um pouco estranho», ela ri-se baixinho. «Considero o meu trabalho mais relevante do que eu.» A atitude dela muda quando volta a falar das mudanças de casa. Novamente, olha para baixo por uns instantes. Com isto, os seus cabelos caem para a frente, tapando-lhe a cara de ambos os lados, como se uma pequena cortina preta se fechasse. Ao todo, já mudou de casa 29 vezes. Isso teve influência no seu trabalho? «I don’t mind change», diz. «Mudar não me incomoda. Isso reflete-se no meu trabalho, parece que a adaptabilidade costuma desempenhar um papel naquilo que escrevo. As minhas personagens são obrigadas a lidar com mudanças», conclui e de novo esboça um sorriso: «Quando terminei o meu primeiro livro, o meu editor comentou que havia nele um número surpreendente de caixas.»  



Conto de Mariana Torres

Árvore Monstro Menino Árvore

Ainda não sabemos como Óscar comeu a semente, nem descobrimos de onde a tirou. Temos ainda menos respostas para percebermos como pôde a árvore crescer-lhe por dentro, germinar a semente sem qualquer impedimento, disse o médico, na boca do seu estômago, regada somente pelos sucos biliares do menino. É que aos sete anos, também nos disse o médico, os estômagos funcionam muito bem. O corpo do nosso Óscar — ainda era o nosso Óscar então — permitiu que a árvore crescesse, que as raízes se estendessem pelos intestinos e que o tronco se fosse distendendo esguio, cerimonioso, ao longo do esófago até à boca, os ramos procurando a luz do Sol. O que realmente sabemos, ou queremos crer, é que a árvore não pretendia fazer-lhe mal nenhum, que essa árvore monstro — como lhe chamo a sós quando me olho ao espelho, ainda envergonhada pelo que fizemos — o amava. De alguma forma, Óscar e a árvore monstro eram uma só coisa, faziam parte um do outro. E assim os ramos que lhe cresceram pela garganta nunca lhe atravessaram o peito e sim, com paciência, foram arranjando espaço. Sempre sem incomodar. Sempre sem magoar. Embora, de fora, parecesse o contrário. 
    Não era uma árvore comum, com folhas e madeira vulgares, a madeira da árvore monstro era tão flexível como um músculo esquivo, de uma cor que se assemelhava às vísceras. As folhas eram finíssimas e tão verdes como costumam ser as folhas, mas só até metade, no pecíolo eram irrigadas por capilares microscópicos que, quase sem se notar, coloriam a metade inferior da folha com um tom avermelhado, como um entardecer. 
    Demorámos bastante a apercebermo-nos de tudo isto porque a invasão da árvore monstro não parecia trazer a Óscar senão alegria. Naqueles primeiros dias muitos de nós achámo-lo encantador e mais saudável que nunca. O miúdo entediado e doentio que era transformou-se num menino magnífico, cheio de energia. Não parava quieto. A sua face, habitualmente pálida, estava mais do que rosada, os olhos brilhavam-lhe como nunca. É certo que a pele, se a observávamos a certas horas do dia, tinha um leve tom esverdeado, mas não nos quisemos preocupar com uma ninharia desse género. Foi o primeiro dos nossos erros. Também não quisemos obrigá-lo a tirar aquele gorro que usava encaixado na cabeça, do qual não se separava nem para dormir e já tresandava um pouco a humidade. Interpretámos aquilo tudo como as esquisitices habituais de um menino vulgar. 
    Descobrimos a árvore no dia em que Óscar abriu a boca para gritar connosco e, em vez de um grito, saiu-lhe uma flor. Era uma flor dourada e húmida, ainda pequena e fechada, como se tivesse medo de se abrir. Assim que Óscar se apercebeu de que a queríamos cortar, fechou a boca e negou-se a dizer o que quer que fosse. Enquanto não escondemos a tesoura da poda e não nos afastámos a uma distância prudente, não voltou a abrir a boca. Quando o fez, a flor voltou a sair, um pouco mais ousada desta vez, e abriu-se só um pouco, assegurando-se de que ninguém a queria arrancar do menino. Nesse mesmo dia, Óscar tirou o gorro que havia semanas usava enfiado na cabeça para nos mostrar os ramos que já lhe saíam das orelhas, flexíveis e jovens, com rebentos de folhas novas. 
    — Precisam de luz. Foi tudo o que nos disse, a única explicação que nos deu. Sacudiu a cabeça, feliz por poder agitar os seus ramos sem pudor. Nós estávamos tão surpreendidos que até devemos ter deixado de respirar. Alguns de nós vomitaram. Os demais puseram-se a chorar. Óscar foi-nos consolando a todos, como se de repente os papéis se tivessem invertido e nós fôssemos as crianças de quem era preciso cuidar. Sobretudo, fez-nos prometer que nunca, independentemente do que acontecesse, o levaríamos ao médico. Que nunca nenhum médico o examinaria. 

***

Desde a descoberta da árvore, alguns dos nossos hábitos alteraram-se. Os horários, por exemplo. As horas de luz eram tão necessárias para Óscar que aprendemos a repartir os passeios ao exterior por todos para que o menino estivesse sempre acompanhado por um adulto. Às vezes, um de nós surpreendia Óscar a acariciar suavemente o estômago. Nunca se queixou de nenhuma dor, e até hoje perguntamo-nos se por medo de uma possível ida ao médico, ou porque era uma daquelas dores tão inerentes à vida que chegam a deslumbrar e a suportar-se na mesma medida. Nos meses seguintes a árvore cresceu muitíssimo, mais de um metro acima da sua cabeça. O gorro, já perdido na parte mais alta da árvore, deve ter chegado a albergar um ninho de pássaros. O menino, além do mais, tinha de se dobrar para entrar no seu quarto. Apesar dos ramos e das folhas e tudo o que não podíamos ver por causa da altura, aquilo não parecia pesar a Óscar. Nunca entendemos essa simbiose. Era apenas como se o mundo, de repente, tivesse ficado para ele mais pequeno.
    À noite, entrávamos no seu quarto sem que nos visse para observá-lo enquanto dormia. Chegámos a gostar de assistir àquele momento anterior ao sono profundo, quando as flores fechadas lhe saíam da boca e se acomodavam a ambos os lados da cabeça de Óscar, abraçando e protegendo. Se o menino era vítima de um sonho mau e se movia agitado, logo uma das flores acordava para lhe acariciar a face, acalmando-o. Também éramos testemunhas de como, todas as noites, quando o menino já estava total e profundamente adormecido, começava a chorar. Óscar chorava sem alarde durante horas, sem ruído, sem ranho. Dos seus olhos caíam rios de água salgada que encharcavam os lençóis e os ramos do pescoço e as folhas baixas. E, ainda que Óscar parecesse dormir tranquilo, tínhamos a permanente sensação de que em cada uma dessas lágrimas lhe escapava um pouco de vida. Mas o facto é que a cada manhã nada de mau parecia ter acontecido, o menino pedia vários copos de água fresca, dava um grande bocejo e depois esfregava os olhos e as folhas e todo o corpo, sem o mais leve vestígio de lágrimas. 
    Nunca soube que o observávamos a dormir. Regressávamos aos nossos quartos ao amanhecer, tínhamos a certeza de que não teria gostado de saber que fazíamos aquilo. A doença chegou de repente. Não sabemos se foi o frio, ou a janela aberta, ou a falta de gorro, ou a mudança de estação. Ou era a árvore monstro que, nessa altura, sem poder crescer muito mais, sem espaço por dentro para alargar as suas raízes, começou a adoecer. As folhas foram caindo aos pares, a rega habitual que as alimentava deixou de ser suficiente e desprendiam-se, acastanhadas, como folhas de outono. Os ramos pareciam encolher. E a cada passo de Óscar iam-se perdendo mais folhas, caíam sozinhas, com o seu próprio peso. Nós às vezes varríamo-las sem que o menino se apercebesse. Mas sabia-o, claro que se apercebia. Por muito que lhe explicássemos que em determinadas épocas do ano há árvores que perdem as folhas, ele intuía que a sua árvore não era dessas, e que perder as folhas não era bom. 
    Não podia fazer mais do que sentar-se ao sol, ficar tão quieto quanto lhe fosse possível, e estender os ramos e os braços firmes para apanhar os raios de um Sol que, lá em cima, pairava cada vez mais apagado ou coberto de nuvens. As flores, e essa era a nossa esperança, não caíram. Permaneciam hesitantes e grandes, eram um total de quatro as que lhe saíam, encantadoras, pela boca, e se acomodavam atrás da cabeça, como uma coroa dourada. Quando Óscar apanhava sol, imóvel, e os raios oblíquos lhe iluminavam a cara e as flores, parecia o rei das árvores, um rei com uma coroa de flores douradas. Era algo único de se ver. 
    Mas o sol ia perdendo fôlego à medida que avançava o outono, cada vez se repetiam mais amiúde os dias enevoados. Óscar tinha, então, de passar cada vez mais horas no exterior, quieto com os ramos estendidos, para aproveitar cada lâmina de luz. Também cada noite dormia mais e chorava rios abundantes de água salgada. Tínhamos, naquela época do ano, todos os dias cada vez menos horas de luz.

*** 

Quando chegou o inverno decidimos chamar o médico. Disfarçámo-lo o suficiente para que o menino nunca soubesse quem era. Apresentámo-lo como alguém que tinha tido também uma árvore dentro de si e o menino acreditou piamente na história. A verdade é que o médico o fez muito bem, inventou uma personagem muito coerente, aproveitando aquela cara de feto que tinha, aquela barba que parecia musgo, e com ajuda de umas ervas que utilizou para pintar a língua de verde. Calculámos que Óscar já estava cansado, passara muitos dias assim, com os ramos e os braços estendidos para captar o pouco sol que havia no exterior. Tínhamos a certeza de que desejava voltar a ser como os outros meninos, que não podia com a carga de uma árvore já tão grande, estando tão doente. Ou talvez tenha sido um erro querer convertê-lo num dos nossos. Como poderíamos sabê-lo. 
   Mesmo assim fizemo-lo. Éramos nós os adultos. O médico falsa árvore explicou-lhe como extrair a planta sem que nenhum dos dois sofresse. Baseou-se na sua experiência, com muitos detalhes contou-nos como ele o tinha conseguido, inclusivamente mostrou ao menino fotografias da sua suposta árvore, crescendo agora feliz nas margens de um rio, tão alta e frondosa como qualquer outra. O médico contou a Óscar que a sua árvore, com os anos, chegou a dar frutos e que agora alimentava uma família inteira. O menino escutava com todo o empenho de que era capaz, já não lhe restavam forças nem para falar, mas brilhavam-lhe imensamente os olhos enquanto acariciava os ramos e os braços e as flores douradas. 
   Então, nessa mesma noite, antes de dormir, Óscar deixou-nos podá-lo. Com toda a delicadeza de que fomos capazes cortámos-lhe os ramos, com um enorme cuidado para não quebrar os rebentos dos ramos altos, uns lindos rebentos que podiam conservar-se em água para, talvez, gerar novas folhas. Podámo-lo devagar, entre todos. Óscar não deixava de tremer. Dois de nós segurávamos-lhe as mãos e outros dois secavam-lhe as lágrimas que caíam ao chão em grandes pingos do nariz. O menino ficou branco quando, para terminar, lhe cortámos as flores da boca e lhas pusemos nas mãos. Tomou-as com respeito e depositou-as em água junto aos ramos. As flores permaneciam, ainda, eretas e belas, tão douradas como sempre. 
   Abraçámo-lo entre todos, finalmente sem nos espetarmos nos ramos, que alegria, subimo-lo a um palmo do chão, depois a dois, conseguimos inclusivamente levantá-lo entre todos. Óscar tentava rir como nós, mas da boca saía-lhe algo mais parecido com um som gutural, uma espécie de arroto de madeira. Era tão agradável poder abraçar Óscar sem nos picarmos num ramo, que não pensávamos noutra coisa. Como tínhamos sentido a sua falta. Tomou sem resistir a bebida que lhe tinha preparado o médico falsa árvore para expulsar, o quanto antes e o mais inteiras possível, as raízes dos seus intestinos. 
   Fomos todos dormir. No dia seguinte, iríamos plantar com cuidado os restos da árvore, tal como nos tinha explicado o médico que devíamos fazer. Nessa noite, o menino fechou a porta do seu quarto e, pela primeira vez, não pudemos espiá-lo a dormir. Passámos a noite, em contrapartida, a vigiar os ramos da árvore na água até adormecermos. Estávamos tranquilos. Cansados. 
   Dormimos tanto que nos surpreendeu o meio-dia. Mas quase sucumbimos de amargura ao abrir os olhos e apercebermo-nos como as flores da árvore na água, horas antes douradas, bonitas e húmidas, estavam agora caídas, deprimidas, murchas. Os ramos tinham perdido toda a flexibilidade do dia anterior, e agora, separados de Óscar, não eram mais do que madeira dura e cheia de lascas. Corremos para o quarto do menino, tivemos cuidado para não deitarmos todos a porta abaixo. Óscar estava deitado na cama, em posição fetal, parecia dormir tranquilo. Não lhe tinham crescido mais ramos nem flores. Demos as mãos com emoção contida e aproximámo-nos devagar. Acariciámos-lhe suavemente as faces, os braços, as pernas, o peito. Até a pele tinha recuperado a cor pálida de antigamente, antes da semente. Óscar respirava tranquilo, alheio à nossa alegria. Foi acordando pouco a pouco, não o forçámos, esperámos, apreciando cada um dos seus movimentos de menino. 
   Mas deve-nos ter gelado o sorriso na cara quando Óscar abriu os olhos. Isso mudou tudo. Os seus olhos, aparentemente os de sempre, com a mesma cor e a mesma forma, estavam irreconhecíveis. Estavam apagados, sem qualquer brilho, opacos. Tão vazios que nos provocava uma náusea desgastante olhá-lo diretamente. Ao tomar contacto com aqueles olhos invadiu-nos uma tristeza profunda, uma tristeza tão grande, tão contagiosa, que só quisemos morrer. Como se a tristeza de Óscar estivesse no ar e nos impregnasse a pele e as vísceras. De repente só tínhamos vontade de nos enterrarmos uns aos outros, de nos escondermos, taparmos e cobrirmos com muita terra por cima, de nos esmagarmos completamente no fundo, na escuridão. De criar raízes e de nos deixarmos comer pelos vermes. Foi disso que tivemos vontade a partir de então.

Tradutor

MATIAS GOMES

Ano de nascimento 1972
Nascido Portugal
Vive e trabalha em Lisboa
– Tradutor de espanhol > português, inglês/francês > português e
português > inglês
– Professor de Português (ensino secundário)
– Mestrado em Literatura Medieval Portuguesa (publicação de várias
comunicações feitas em Congressos da Associação Hispânica de Literatura
Medieval — AHLM)
– Dinamizador da comunidade de leitura «Conversas Para Lê-las» (só
literatura de mulheres escritoras) durante cinco anos
– Organizador e dinamizador de workshops «Drag King» (p. ex., «Here
Comes Your Man»), enquanto ativista de género.



segunda-feira, 13 de maio de 2019

Fabio Guidetti: CELA| Connecting Emerging Literary Artists








 CELAConnecting Emerging Literary Artists




O Projecto:

O projeto CELA (Connecting Emerging Literary Artists) abre o palco europeu a uma nova geração de criadores literários. Permite uma cooperação transnacional intensiva entre talentosos escritores, tradutores e profissionais literários europeus em início de carreira. No decurso do projeto, os participantes enfrentam algumas das mais exigentes realidades da nossa era — de fraturas cada vez mais acentuadas na Europa a um setor editorial em mudança — e põem-nas em perspetiva, partilham o seu trabalho e colmatam o fosso que os separa do setor editorial e do público europeu.
As organizações literárias de seis países europeus uniram forças para fundar o projeto de incubação de talentos cela — Connecting Emerging Literary Artists. Partilhamos a necessidade de estabelecer uma infraestrutura sustentável de incubação de talentos para preservar a diversidade da literatura europeia e dar maiores oportunidades a línguas minoritárias. 
O projeto proporciona um percurso de dois anos com formação, instrumentos e uma rede que visam tornar possível uma carreira internacional e estabelecer uma prática profissional integrada. Com uma atenção em competências e mobilidade transnacional, incluímos especialmente as oportunidades digitais na literatura, novas formas de os participantes conseguirem emprego e rendimento.
Cada edição do projeto cela decorre durante dois anos. No primeiro ano, as organizações literárias orientam os escritores, tradutores e profissionais literários e proporcionam-lhes um programa multinacional de residências, formação e master classes para os preparar para trabalhar no mercado europeu e para um público internacional. No segundo ano, os participantes são inseridos por via de marketing internacional e campanhas publicitárias, uma digressão por festivais
europeus e apresentações ao público e a profissionais europeus por escritores e tradutores de renome (os nossos embaixadores cela) e organizações literárias. 

Os autores e tradutores participam em campanhas internacionais, festivais literários em diferentes países e numa rede de trabalho que proporcionará contacto entre todos os participantes.
Kick-Off: Hay Festival Segovia (Espanha)Tinto-no-Branco- Festival Literário de Viseu (Portugal), Book Fest (Roménia), Pisa Book Festival (Itália), Lev-Literatura em Viagem (Portugal), Passa Porta Festival (Belgium), Wintertuinfestival (Holanda) recebem os autores e tradutores do projecto CELA.


Parceiros:
Booktailors
Escuela de Escritores
Flemish-Dutch House deBuren
Passa Porta
Pisa Book Festival
Wintertuin




Biografia

FABIO GUIDETTI


Ano de nascimento 1983
Nascido Itália
Vive e trabalha em Edimburgo
– Arqueólogo e historiador da Antiguidade
– Doutoramento na Scuola Normale Superiore (Pisa), a mais prestigiada
instituição italiana nas humanidades, com orientação de Paul Zanker
– Autor de O Império Romano em 100 Datas (Della Porta Editori, 2016),
aclamado pela crítica como «uma síntese indispensável para navegarmos
pelos protagonistas, batalhas, acontecimentos políticos, grandes reformas,
arquitetura e obras literárias da Roma Imperial, que continuam a hoje a
influenciar-nos e a atrair-nos»
– Autor de diversas publicações em revistas académicas e volumes editados
no domínio da arqueologia, história antiga, filologia clássica e história da
ciência

www.dellaportaeditori.it/autori/fabio-guidetti/


Sobre Fabio Guidetti

«Sou historiador, arqueólogo e escritor de não-ficção histórica. Para mim, trata-se de uma combinação perfeitamente lógica», diz Fabio Guidetti. Quando o escritor nascido em Itália começa a falar, ainda se encontra de braços cruzados. Ele ainda se encontra à procura de palavras, e, por vezes, olha, inadvertidamente, com ar um pouco sério. Quanto mais fala, mais esta postura se altera. Guidetti dá ares de ser um especialista em todas as frentes, mas é, acima de tudo, um orador apaixonado. «O texto académico é, por definição, um meio de comunicação rígido. O investigador necessita de entrar em detalhes, fazer interpretações de interpretações, e ter em conta os conhecimentos básicos do leitor. Num texto literário, pelo contrário, tudo gira à volta do distanciamento. A língua, a estrutura, a disposição, tudo isto é determinado pela importância da narrativa. Questiono-me sempre: por que razão é que toda a gente tem de saber a história destas pessoas que já morreram?» Guidetti manteve-se, conscientemente, à distância de uma forma fictícia. «Para mim, trata-se de uma questão de eficiência. Não sinto necessidade de inventar histórias. Simplesmente quero contá-las da melhor forma possível. Para além disto, na maior parte das vezes, a realidade é muito mais poderosa do aquilo que eu poderia vir a inventar. «Conhece o filme Kingdom of Heaven, de Ridley Scott?» pergunta Guidetti. Ele começa a falar acerca do filme. Conversa acerca de cruzadas e da última rainha de Jerusalém. Quanto maior o entusiasmo, mais ele levanta os seus ombros. «Sibylle, a rainha em questão, depara-se com um dilema neste filme: ela opta pelo futuro do estado, ou opta pelo amor, e parte com o amante? Na versão cinematográfica, a escolha recai sobre a secunda hipótese, pelo que se chega a um final feliz. Porém, na realidade, aconteceu exatamente o contrário: a verdadeira Sibylle também optou pelo amor, mas devido a esta opção, o seu império desmoronou-se, caindo no abismo. Isto é muito mais poético, ou não?» Os livros do próprio Guidetti são puramente históricos? Por um momento, o autor inclina-se bastante para trás na sua cadeira, como se desaparecesse da conversa por breves momentos. «Não», diz, então. Os autores de não-ficção histórica também criam uma história. «Claro», diz ele, acenando intensamente com a cabeça. «Sim, a versão que crio da realidade também é construída», e bate com o dedo na mesa. «Sem dúvida. Olho para figuras históricas como se fossem personagens. Vou à procura dos seus motivos, das suas vivências. O que é que realmente se passou e por que razão?» Guidetti especializou-se em antiguidade clássica, na época das civilizações grega e romana. Ele formula cuidadosamente a razão de ser deste interesse. «Primeiro que tudo, ainda somos romanos. Eles moldaram a nossa sociedade atual. Eles lançaram as bases de como nós ainda vivemos e pensamos», diz ele, e puxa a gola de sua camisa. «Em segundo lugar, podemos aprender imenso com o período romano. A sua sociedade foi, em grande parte, baseada em igualdade e nos valores universais.» «Tal parece paradoxal, para um povo que se servia de escravos», apressa-se a dizer, como se se estivesse a antecipar às reações indignadas de um auditório. «Isto pode parecer um pouco estranho, mas a forma romana de escravidão não se baseava em raça ou sexo. Na sociedade romana, um bárbaro, alguém de fora da cultura romana, poderia chegar a imperador», e arregala os olhos. «E digo isto literalmente. Os Romanos tiveram reis bárbaros. Na sua visão do mundo, o estranho também era visto como apto. Ainda podemos aprender com isto. Especialmente numa época de problemas de migração e de conflitos culturais.» Guidetti volta a baixar os ombros, desvia o olhar e cruza, novamente, os braços. Aqui, está um escritor com uma necessidade de narração incontrolável e que, acima de tudo, vai à procura do significado de uma história que tende a ser esquecida

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Conto de Fabio Guidetti

o Império Romano em 100 Datas


11 de setembro. No final de uma sangrenta batalha que durou mais de três dias na floresta de Teutoburgo, na Alemanha Setentrional, três legiões romanas inteiras, comandadas pelo governador Públio Quintílio Varo, são aniquiladas por uma coligação de populações germânicas chefiada por Armínio, chefe da tribo dos Queruscos. O choque que a notícia provoca em Roma é enorme: na sequência da derrota, Augusto decide evacuar todos os territórios compreendidos entre o Reno e o Elba, conquistados por Druso e depois por Tibério (os filhos da mulher, Lívia, nascidos do primeiro casamento com Tibério Cláudio Nero) a partir do ano 12 a.C., renunciando ao plano, já iniciado, de os transformar em província romana. A partir deste momento, e até aos nossos dias, o rio Reno delimitará definitivamente a fronteira entre o mundo latino e o germânico. 

14 

19 de agosto. Morre em Nola, na Campânia, o imperador Augusto, com a idade de setenta e cinco anos e depois de quase quarenta e quatro anos de governo. Sucede-lhe Tibério, filho do primeiro casamento da mulher, Lívia, adotado como herdeiro pelo príncipe no ano 4 d.C., depois da morte de Caio César; na mesma ocasião, Augusto tinha obrigado Tibério a adotar como herdeiro, por sua vez, o sobrinho Germânico, filho do irmão Druso. Como legado testamentário, Augusto faz chegar ao Senado uma série de escritos, entre os quais uma obra autobiográfica, um memorial destinado a Tibério, contendo uma série de conselhos de governação, e detalhadas instruções para a sua própria divinização. Afastando-se do exemplo do pai adotivo Júlio César, Augusto tinha sempre evitado aceitar honras divinas públicas em vida, reservando para si apenas as póstumas: após a morte, será então venerado, com o título de Divino Augusto, como númen protetor da estabilidade de Roma e do seu Império; a divinização, certificada pelo Senado através de uma disposição especial, será daí em diante decretada para todos aqueles imperadores que, em vida, tenham demonstrado ser bons governantes e respeitadores das prerrogativas do Senado. Da mesma série de documentos faz parte, por fim, uma narração, redigida pelo próprio Augusto pouco antes da sua morte, dos feitos por si realizados durante a sua longa carreira: por decisão do Senado, o texto é publicado, em latim ou em grego, em todas as províncias do Império, com o título Feitos do Divino Augusto (Res Gestae Divi Augusti). Chegaram-nos os fragmentos de diversas cópias gravadas em pedra, provenientes sobretudo das cidades da Ásia Menor, que permitem reconstituir o texto na íntegra: nele, Augusto apresenta, de forma extremamente sucinta, o relatório das suas iniciativas políticas e dos seus feitos bélicos, bem como as honras que lhe foram conferidas pelo Senado e pelo povo romano.
O sucessor Tibério, que se torna imperador com a idade de cinquenta e quatro anos, encontra-se na difícil condição de ter de gerir a pesada herança de Augusto, sem contudo possuir o carisma do predecessor. O seu carácter sombrio e reservado dá azo até a frequentes incompreensões, especialmente com os membros mais influentes do Senado, ao ponto de a historiografia senatorial (representada para nós, em primeiro lugar, pelos Anais de Cornélio Tácito) fornecer um retrato negro deste príncipe, representando-o como um tirano hipócrita e cruel. Esse juízo é, contudo, bastante falto de generosidade quando comparado com a realidade: embora mantendo uma absoluta continuidade com a política de Augusto, Tibério tentará, de facto, dar ao Principado uma dimensão mais «republicana» e procurará constantemente a cooperação com o Senado, participando nas suas sessões, ampliando-lhe as funções administrativas e judiciárias e confiando-lhe a nomeação dos magistrados. 

17 

26 de maio. É celebrado em Roma o triunfo de Germânico, que no decurso de diversas campanhas militares para lá do Reno tinha derrotado repetidamente as tribos locais, conseguindo até recuperar parte das insígnias perdidas por Varo em Teutoburgo: entre os prisioneiros ilustres levados para Roma e obrigados a desfilar durante o triunfo encontram-se também Tusnelda, a mulher de Armínio, e o seu filho recém-nascido. Neste momento, o jovem herdeiro de Tibério está no auge da popularidade, em forte contraste com o clima de rancor que rodeia o príncipe. Logo após o triunfo, Germânico é enviado para o Oriente, para supervisionar a inclusão no ordenamento provincial romano dos ex-reinos vassalos da Capadócia, Cilícia e Comagena, cujos soberanos tinham falecido recentemente; todavia, durante esta missão Germânico entra em intensa disputa com Gneu Calpúrnio Pisão, governador da Síria que Tibério colocara a dar-lhe assistência, e com o qual se cria um contínuo conflito de competências. Quando, a 10 de outubro de 19, Germânico morre em Antioquia, com apenas trinta e três anos, de uma doença súbita, difundir-se-á a suspeita de que tenha sido o próprio Tibério a mandar envenená-lo, por receio da sua excessiva popularidade, servindo-se de Pisão como executor material. No mesmo ano 17 morre o historiador Tito Lívio; originário de Pádua, de uma família plebeia e de tendências republicanas, é recordado como autor dos livros Ab Urbe condita (Da Fundação da Cidade), a maior obra histórica em latim, que narra a história de Roma das origens da cidade à época contemporânea: desta obra monumental chegaram-nos trinta e cinco livros, pouco menos de um quarto do número original.

23 


Morre em circunstâncias pouco claras Druso Menor, único filho de Tibério e seu herdeiro natural após o desaparecimento de Germânico. Em consequência deste luto, o príncipe fecha-se ainda mais em si mesmo: alguns anos mais tarde, em 27, abandonará definitivamente Roma para se recolher na sua casa na ilha de Capri, de onde, no entanto, não renunciará a encarregar-se dos deveres governativos. Nestas circunstâncias, em Roma assume um cada vez maior poder Lúcio Élio Sejano, que fora escolhido pelo príncipe para prefeito pretoriano, ou seja, chefe da sua guarda pessoal: enquanto representante da autoridade imperial na cidade, e aproveitando da confiança nele depositada por Tibério, Sejano pouco a pouco exautora a ordem senatorial das suas funções, instruindo processos políticos contra os opositores e mesmo contra alguns membros da família imperial, até controlar de facto cada um dos aspetos da vida pública. Tendo finalmente tomado conhecimento do comportamento de Sejano graças à denúncia de Antónia, viúva do irmão Druso, Tibério removê-lo-á do cargo, fazendo-o condenar à morte pelo Senado e executar a 18 de outubro de 31. Nesta ocasião será finalmente esclarecida também a causa da morte do filho de Tibério: a ex-mulher de Sejano, Apicata, revelará que fora de facto o marido a mandar envenenar, oito anos antes, o herdeiro do príncipe, pois desejava substituí-lo como seu sucessor designado; o assassínio teria, além disso, sido perpetrado com a cumplicidade de Lívila, mulher de Druso e amante de Sejano. A queda do poderoso prefeito pretoriano representa o primeiro caso de conflito aberto entre a autoridade do príncipe e o poder gerido por um alto funcionário militar: uma circunstância que se repetirá mais vezes nos séculos vindouros, frequentemente dando origem a verdadeiras usurpações que verão prevalecer ora uma, ora outra parte. 

29 

18 de março. Em vésperas dos festejos da Páscoa hebraica, o governador da Judeia, Pôncio Pilatos, a pedido do Sinédrio de Jerusalém, ordena a condenação à morte por crucificação de um dirigente religioso local, Jesus de Nazaré: trata-se de um profeta que conseguiu atrair um vasto séquito, sobretudo entre as classes mais humildes, e que os sacerdotes do Templo consideram perigoso, uma vez que propõe uma interpretação das expectativas messiânicas do povo hebreu em sentido pauperístico e potencialmente subversivo. Contudo, a condenação e a execução de Jesus não detêm os seus discípulos, que, guiados pelo seu braço-direito, Pedro, começam a difundir os ensinamentos do mestre e o anúncio da sua ressurreição dos mortos junto das comunidades hebraicas da Palestina e da Síria.

37 

18 de março. Morre em Miseno, com a idade de setenta e sete anos, o imperador Tibério: mal a notícia chega a Roma, o povo reage com manifestações de alegria; entretanto o Senado elege como novo príncipe Caio, de vinte e quatro anos, o mais novo dos filhos varões de Germânico e o único sobrevivente dos processos organizados por Sejano. O jovem é cognominado Calígula, ou seja, «pequena cáliga»: a cáliga era um tipo de calçado fornecido ao exército romano, e que Caio, crescido entre os militares, se habituara a usar desde criança. Caio, pouco acostumado aos delicados equilíbrios que regiam o compromisso institucional ideado por Augusto e mantido por Tibério, exibe desde o início um estilo de governo inspirado mais em formas de realeza do que no regime de Principado, instaurando de facto uma monarquia de tipo helenístico, semelhante à que Roma tinha experienciado oitenta anos antes, durante a ditadura de Júlio César. Se, por um lado, se traduz em disposições que obtêm grande aceitação popular, como a amnistia e as distribuições gratuitas de alimentos e dinheiro, por outro falta o vínculo com as tradições republicanas garantido pela respeitosa colaboração entre o príncipe e o Senado, que é mantido numa posição de clara inferioridade. Isto provoca uma crescente intolerância para com o príncipe entre a classe aristocrática, que no decurso de poucos anos levará à conspiração que lhe custará a vida. A atitude despótica de Caio é coerente com uma concepção divina do poder imperial: Caio, como Júlio César antes dele, aceita de facto ser venerado em vida como uma divindade, promovendo até o culto da própria pessoa também por parte dos membros do Senado, prática que os seus predecessores tinham cuidadosamente evitado encorajar. Durante toda a primeira época imperial, e pelo menos até ao início do século IV, o governo de Roma oscilará constantemente entre os polos opostos do principado e da monarquia, e cada um dos imperadores, à vez, interpretará o seu papel como o de supremo magistrado de uma república ou de um autocrata com poderes divinos. 

41 

24 de janeiro. O imperador Caio é morto, aos vinte e oito anos, numa conspiração palaciana, com a mulher Cesónia e a filha recém-nascida. Enquanto o Senado debate entre escolher, no seu seio, um novo príncipe ou restaurar a ordem republicana, os soldados da guarda pretoriana proclamam imperador (depois de o ter feito sair das salas onde se havia escondido) o único varão sobrevivo da família imperial: o quinquagenário Cláudio, irmão mais novo de Germânico, que até então se livrara de todas as conspirações por ser considerado por todos como inapto para os assuntos de governo. O novo príncipe, de facto, é afligido desde o nascimento por disfunções que o deixam coxo e gago, e por este motivo sempre se manteve à margem da vida pública, dedicando-se ao estudo e em particular à elaboração de obras históricas e arqueológicas. Contrariamente às expectativas, Cláudio revelar-se-á um político hábil e um excelente administrador, reconduzindo o Principado à esteira da tradição augustana, mas fazendo suas também algumas instâncias surgidas durante a traumática experiência de governo do sobrinho Caio. A mais importante novidade do principado de Cláudio é a criação de um sistema administrativo centralizado e eficiente que depende diretamente do príncipe, ultrapassando de facto as tradicionais magistraturas republicanas. Deste modo, reduz-se a margem de discricionariedade e de clientelismo com que os senadores estavam habituados a gerir os cargos públicos, também porque grande parte dos novos burocratas são personagens de condição social mais baixa, cavaleiros ou escravos alforriados, dos quais Cláudio pode esperar fidelidade e obediência maiores do que as demonstradas pelas poderosas famílias senatoriais. Inicia-se, portanto, neste período o gradual processo de exclusão dos senadores do governo efetivo do Império, que se concluirá mais de dois séculos depois. Além disso, Cláudio dá um renovado impulso às obras públicas, com a construção de novos aquedutos e de um novo porto na foz do Tibre, e retoma a expansão territorial do Império: o ordenamento provincial é, de facto, alargado a diversos ex-estados vassalos (Mauritânia, Lícia, Judeia, Trácia) e dá-se início à conquista da Britânia, que será concluída quarenta anos mais tarde, durante o principado de Domiciano.

Tradutor

ANA CRISTINO

Ano de nascimento 1973 
Nascida Portugal 
Vive e trabalha em Coimbra, Portugal 
– Licenciatura pré-Bolonha em Línguas e Literaturas Modernas (Português e Inglês) pela Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra 
– Pós-graduação em Tradução pela Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra 
– Pares de línguas de trabalho: inglês, italiano, francês e espanhol > português e português > inglês

  



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