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terça-feira, 25 de agosto de 2020

"A Ocupação", de Julián Fuks






Entramos em “A Ocupação” (Companhia das Letras) como se tivéssemos acabado de sair de “A Resistência”, anterior romance de Julián Fuks (São Paulo, 1981). A cadência é similar e a qualidade mantém-se. Dois romances depois, verificamos que há uma voz merecedora da atenção do leitor. Sensibilidade e inteligência unem-se em simbiose tanto num romance mais pessoal, como “A Resistência”, ou mais político, como “A Ocupação”. 



 A prosa de Julián Fuks, , vencedor do Prémio José Saramago, do Prémio Oceanos e do Prémio Jabuti, é a expressão literária de quem tem demonstrado em várias entrevistas um pensamento bem estruturado, rico e com marca pessoal.  O autor aproxima a ficção da factualidade. Entre uma e outra, algum poder digressivo propõe ideias e demonstra a vulnerabilidade individual. Existe em “A Resistência”, existe em “A Ocupação”. No mais recente romance, Fuks tenta chegar ao Outro, ora conseguindo, ora esbarrando em palavras e anseios próprios. A sua vontade é deixar-se ocupar, ser recipiente de tudo o que o rodeia e verter tudo isso para literatura. Sebastián, o narrador, quer sair do “presente em ruínas”, ocupar o olhar do Outro e deixar-se levar por fluxos citadinos. Só olhar, deixar-se ocupar pelas personagens e ambientes, para depois escrever. Nas ruas da cidade, vagabundam os sem-tecto, que ocupam praças, ruas e prédios vazios. Para Sebástian 

“Ocupar era uma urgência dos corpos, convertida no mais contundente dos actos políticos, a afrontar a resignação dos serenos. Ocupar, nem que fosse para estar entre muitos, para existir ainda uma vez em colectivo.”








  
Entre afastamentos e aproximações ficcionais ou reais, o Brasil está no pai, na mulher e em Najati. Por mais que se tente afastar de si para concretizar a alteridade, não consegue por ser inviável. Nos olhos dos outros está o seu reflexo. Por mais que use a ficção para chegar aos outros, ele sabe estar presente nessa metamorfose. E em vez de se esconder, Fuks faz desse jogo matéria literária. 

 “Pai, vou ter um filho. Que notícia linda, Julián. Obrigado por me dizer. Obrigado a você, pai. Mas aqui você me chama de Sebastián 

Se, como Saramago dizia, o leitor lê o autor quando está a ler o livro, essa premissa é denotativa em “A Ocupação”. No entanto, Fuks procura ser Sebastián; ele não pretende ser narcisista. Essa luta para ir além dos dramas pessoais é inglória, mas não fútil. Essa luta é matéria prima. Vemos os outros, vemos o reflexo do autor nos outros e vemos o esforço na procura da alteridade. O autor mostra as fundações do romance e ao fazê-lo vai além da história pessoal ou de terceiros; ao fazê-lo dota o texto de componentes metaliterárias. A ficção, ao debruçar-se sobre si, faz da metaficção seu objecto ficcionalUm dos muitos exemplos é a carta a Mia Couto. Nas palavras de Fuks destinadas ao autor moçambicano está a essência de “A Ocupação”. A chave de leitura do romance está nessa carta. É aí que são expostas inquietações e denunciados objectivos. Apesar de não serem atingidos na íntegra, está longe de ser um romance falhado. E isso não acontece porque, como já foi dito, Fuks fez desse caminho, com os obstáculos ultrapassados e por ultrapassar, matéria romanesca. 

“Acho que não consegui me perder, que em cada palavra que atribuí aos outros encontrei uma palavra minha, em cada casa alheia vasculhei a minha, em cada rosto reconheci o meu rosto, por vício, por teimosia. Se queria me aproximar dos outros, se queria entendê-los, posso ter falhado miseravelmente.” 

Há desalento nas palavras. A melancolia une-as quando têm si a miséria, o exílio, a raiva pela realidade brasileira, a tragédia de não se encontrar uma solução. A definição de Ocupar indica-nos a tomada de posse, ou o exercer de controlo sobre determinado espaço. Verbo transitivo, precisa de um complemento para completar o sentido. Fuks procura que os sem-tecto tomem posse dos espaços, o bebé ocupe o corpo da mulher e conta-nos sobre o corpo do pai ocupado pela doença. Uns completam o sentido dos outros; todos complementam a voz de Julián Fuks. 


1 comentário:

Carlos Faria disse...

Lembro-me que classifiquei Resistência como o melhor romance originalmente escrito em português que li no ano de 2018... agora estou curioso com este Ocupação.
Penso que Sebastian é o nome do irmão adotado, ou seja, ele volta novamente

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