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quarta-feira, 10 de abril de 2019

Ragnarok - o fim dos deuses, de A. S. Byatt





Entrar na alma das personagens e contar a história com o ritmo próprio da literatura de origem. Foi o que fez A. S. Byatt, vencedora do Man Booker Prize, em “Ragnarok - o fim dos deuses” (Elsinore). A simplicidade e magia nórdicas, tão presente em autores como Laxness ou Hamsun, definem a prosa deste curto e belo livro. Byatt narra o mito, como forma de tornar compreensível as características dos seres humanos. A pesquisa mais académica (Karen Armstrong, com “Breve História dos Mitos”, e Nietzsche, com “A Origem da Tragédia”, são fundamentais) foi transformada numa narrativa onírica, fluída e aprazível.
 A distinção entre ensaio, ficção romanesca e recriação dos mitos é bem vincada. Segundo a autora, “os deuses, os demónios e outras personagens mitológicas não possuem personalidades ou características iguais às das personagens de um romance”. No entanto, os seus romances têm atributos míticos essenciais ao pensamento e trajecto das personagens. Esta característica foi essencial na escolha de Ragnarok, o mito que termina com os mitos, onde os deuses são destruídos. Através da releitura de “Asgard e os Deuses” e da preparação de aulas para a disciplina “Mito e Realidade no Romance”, em que foi professora, Byatt compreendeu a diferença entre um mito e um conto de fadas. “Eu não «acreditava» nos deuses nórdicos e, na realidade, vali-me da perceção que tinha desse mundo para concluir que a história cristã também era um mito, o mesmo tipo de história sobre a natureza das coisas, mas menos interessante e menos emocionante”.  Os seguidores de N. F.S. Grundtvig, autor de “Northern Mithology” (1808), vão ainda mais longe: o novo mundo do poema “Elder Edda”, surgido após a catástrofe de Ragnarok, é uma analogia da Segunda Vinda de Cristo, assim como do novo Céu e da Nova Terra anunciados no Apocalipse.  
A interpretação dos contos mitológicos é renovada por novas ideias e novas formas culturais. Neste caso, a interpretação de Ragnarok seria influenciada pelas ideias cristãs. A contínua presença dos mitos nas sociedades deve-se à constante releitura das características, de acordo com as próprias idiossincrasias dos intérpretes. Mas não só. A extinção dos deuses encontra paralelismo na actual destruição ambiental e na extinção de espécies. Ragnarok é essa sempiterna inclinação niilista do ser humano.  Byatt recorreu à guerra para contextualizar a criança magra, leitora dos mundos de Asgard e de “O Caminho do Peregrino”. Foi o pretexto para a autora escrever para a criança que foi e sobre o encontro com as histórias mitológicas de “Asgard e os Deuses”.  Ragnarok - o fim dos deuses” não é só sobre essa criança magra que tem poucas esperanças de ver o pai regressar do combate. A criança é uma estratégia narrativa, bem conseguida, para levar o leitor pela mão para mundos de dimensão mitológica. No entanto, há um “twist”: acontece redenção na vida desta criança ao contrário do acontecido no mito de Ragnarok. A releitura do mito inclui um novo desfecho. A criança magra em tempo de guerra irá ver tudo renascer em tempo de paz. Nem tudo é destruído nesta recriação elaborada por A. S. Byatt do mito de Ragnarok. 
O catálogo da Elsinore com reelaboração de histórias essenciais da cultura ocidental contempla autores como David Grossman (“O Mel do Leão”), Margaret Atwood (“A Odisseia de Penélope”) e Victor Pelevin (“O Elmo do Horror”) A estes autores junta-se A. S. Byatt, com este belo e mágico “Ragnarok - o fim dos deuses”.  




AUTOR A. S. Byatt
ILUSTRADOR
COLEÇÃO Ficção Traduzida
ISBN 9789898864550
PVP 16,59 € (IVA incluído)
preço fixo até fim de agosto de 2020
1ª EDIÇÃO março de 2019
EDIÇÃO ATUAL 1.ª
PÁGINAS 160
APRESENTAÇÃO capa dura
DIMENSÕES 150x222x14 mm












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