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Shot #25: "1984", de George Orwell e Fido Nesti

 



Os clássicos são sempre bem-vindos. Neste tempo pandémico, em que as liberdades individuais são cerceadas, a realidade está prenhe de distopia. 
Não há uma guerra contra a Eurásia, não há bombardeamentos, nem nos foi retirada a possibilidade de exprimir opinião. No entanto, estamos encostados às cordas por um vírus, governos empurram as pessoas para confinamento e a liberdade de expressão perde-se num ruído sem ponta por onde se puxar. A possibilidade de andar na rua submete-nos à escravidão de uma cama de hospital, agarrados a ventiladores. Damos os nossos dados a empresas abstractas e vigiamo-nos, como membros de um pelotão da polícia do pensamento. Estamos prontos a castigar a diferença em prol de um pensamento unificado por ideologias bem aceites. No meio do ruído, corporações de media e homens nas mais poderosas nações do planeta tentam reescrever a História através da manipulação de imagens, opiniões formadas por essas manipulações, “tweets”, declarações e comícios. 
Para termos paz, é necessária guerra ao vírus. Para termos liberdade, precisamos de nos aprisionar em casa, ou limitarmos os contactos sociais. No meio de tanta desinformação, a ignorância mantém o equilíbrio e a força mental.  
2020 bem podia ser “1984”. 
Procuramos entender recorrendo às palavras dos mais antigos. O livro de George Orwell apresenta similitudes com este ano disruptivo. Daí não ser uma surpresa ver “1984” como um dos livros mais vendidos na quarentena. Seja pela temática ou pelo “hype”, a publicação da novela gráfica baseada na distopia de Orwell é bem-vinda. A história escrita em 1949 mantém-se actual. 

Fido Nesti (São Paulo, 1971) carrega o ambiente de tons escuros e a pele das personagens de macilência. Winston Smith é um homem doente. Olhamos para as vinhetas de Nesti e percebemos o quanto ele espelha o ambiente opressivo. 
É a primeira adaptação de “1984” e afirma-se como capaz de manter a substância do texto original nesta transmudação de género. 
Esta novela gráfica não é bela; suja os dedos do leitor com a fuligem da desgraça disruptiva de uma sociedade caída e dividida em castas. 
Soa-nos a aviso. Olhemos para as vinhetas de Fido Nesti. Estaremos a espreitar um futuro possível. Leiamos a inquietação de Winston. Será assim tão diferente da nossa? 
Big Brother is watching you. O Big Brother somos nós. 
 

 








ISBN: 9789897840418Edição: 10-2020Editor: Alfaguara PortugalIdioma: PortuguêsDimensões: 175 x 245 x 22 mmEncadernação: Capa duraPáginas: 224





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