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quinta-feira, 28 de fevereiro de 2019

Divulgação: Sessão de apresentação do livro A Imortal da Graça, de Filipe Homem Fonseca



Sessão de apresentação do livro A Imortal da Graça, de Filipe Homem Fonseca:  8 de março, às 21:00, na FNAC Chiado, em Lisboa. O livro será apresentado por Miguel Martins. Com leituras por Ana Água.



Shot #10: "Fora do Mundo- a extraordinária história do último eremita"








Christopher Knight pegou no carro, começou a conduzir em Massachusetts e só parou em Maine, por falta de gasolina. Sem postos de abastecimento por perto, decidiu entrar na floresta. E por lá ficou. Apanhado a roubar, Knight foi preso. Tinham passado 27 anos desde que decidira entrar na floresta e abandonar a sociedade. A sua existência, real para uns ou lendária para outros, era tema de conversa entre os poucos habitantes das áreas circundantes. Esta história real motivou o autor Michael Finkel a escrever “Fora do Mundo – a extraordinária história do último eremita” (Elsinore). O autor norte-americano procedeu a uma série de entrevistas com o eremita, com a família, com as autoridades e ainda com os habitantes daquela zona. A sua admiração foi crescendo.  Knight roubava o indispensável para sobreviver. Os únicos objectos lúdicos eram livros. Para evitar que ele entrasse nas casas, maioritariamente segundas habitações para férias, os donos deixavam recados nas portas com o objectivo de Knight escrever o que que precisava. Nunca o fez por medo de armadilhas. Acabou por ser derrotado pela tecnologia. As câmaras de vigilância, cada vez mais indetectáveis, filmaram-no. Quando a polícia o prendeu, o eremita não ofereceu resistência. Narrativa bem montada por Finkel, com recurso a diversas formas de contar e a um credível conjunto de fontes. A realidade é mais estranha do que a ficção. 


 


  • AUTOR Michael Finkel
  • ILUSTRADOR
  • COLEÇÃO Biografia / Memórias
  • ISBN 9789898864109
  • PVP 16,59 € (IVA incluído)
  • preço livre
  • 1ª EDIÇÃO maio de 2017
  • EDIÇÃO ATUAL 1.ª
  • PÁGINAS 208
  • APRESENTAÇÃO Capa Mole
  • DIMENSÕES 153 x 235 x 10,5 mm





Divulgação: Terra Incógnita é o nome da nova coleção de literatura da Quetzal.








Terra Incógnita é o nome da nova coleção de literatura da Quetzal. Mais do que livros de viagens, com um formato especial, a Terra Incognita reúne títulos e autores que desprezam a ideia de turismo e fazem da viagem um modo de conhecimento. 



O relato de viagens é, provavelmente, o género literário mais comum desde o princípio dos tempos. Hoje, quando o mundo é um gigantesco ecrã onde tudo está já conhecido, a única coisa que nos resta é o espírito da viagem. Se já não vamos à procura do exótico e do belo, nem do irrepetível, esses livros transmitem uma sabedoria que nos devolve a ilusão e a alegria da viagem. Nada mais natural, portanto, do que uma coleção inteira e propositadamente dedicada ao tema – com estes livros, nenhum mapa vai ficar fora da nossa imaginação. •••• Breviário Mediterrânico, de Predrag Matvejevitch, e O Grande Bazar Ferroviário, de Paul Theroux, marcam o arranque desta jornada e estão disponíveis nas livrarias a 8 de março. O primeiro com tradução de Pedro Tamen, introdução de Claudio Magris e posfácio de Robert Bréchon. Cheio de sabedoria, memórias, informações preciosas, o Breviário Mediterrânico pode ser também um romance moderno, genial, brilhante e imprevisível. Este pode ser, segundo a crítica, um diário de bordo, um livro de aforismos ou de orações, um atlas, um romance ilustrado do século xx, um tratado poético-filosófico, um livro de História Antiga. Quanto a O Grande Bazar Ferroviário, é o relato emocionante que Paul Theroux faz da sua épica e invejável viagem de comboio entre a Europa e a Ásia. Repleta de evocativos nomes de comboios lendários, descreve lugares, culturas e paisagens que atravessou e as pessoas fascinantes que conheceu e que o acompanharam ao longo de milhares de quilómetros. Theroux contempla o mundo vivo e animado – para o transportar em cada livro da sua já vasta bibliografia. 



  

segunda-feira, 25 de fevereiro de 2019

Divulgação: Novidades. Obras exclusivas Círculo de Leitores





Para enriquecer a coleção Obras Pioneiras da Cultura Portuguesa, exclusiva do Círculo de Leitores sob a égide da Universidade de Coimbra e da Universidade Aberta e com o apoio da Fundação Calouste Gulbenkian, do Ministério da Educação e da Biblioteca Nacional de Portugal, e com direção de José Eduardo Franco e Carlos Fiolhais, estão agora disponíveis os volumes 7 e 20: «Primeiras Obras de Dramaturgia», com coordenação de Miguel Real e Ricardo Ventura; e «Primeiros Tratados de Música», com coordenação de Rui Vieira Nery.


Acaba de ser publicado o quarto volume da coleção Arte e Ciência, de Paulo Pereira, «Descrição do Cosmo», que nos dá conta da fascinante tensão gerada entre os antigos saberes e a descoberta dos novos modelos geográfico e astronómico resultantes das viagens marítimas e das pesquisas desenvolvidas entre os séculos XV e XVIII.






«A Sombra do Passado», o romance de estreia de Nikola Scott, foi traduzido para mais de dez línguas e acaba de chegar a Portugal em exclusivo pelo Círculo de Leitores. The acordo com o The Daily Mail, «Se está à procura de uma história bem escrita, intrigante e recheada de segredos de família, leia este brilhante romance de estreia.»


«Bolos doces e salgados», de Vincent Amiel e com fotografias de Claire Payen, é o mais recente livro da coleção Pratos Únicos. Existirá algo melhor do que uma boa troca de gargalhadas entre amigos reunidos à volta de um aperitivo? E, nesse caso, o que é mais prático e eficaz do que um bom bolo, doce ou salgado que se pode partilhar entre todos?





Em todas as bibliotecas, existem livros intemporais. Foram inúmeras as gerações que os leram e amaram. Que viajaram com Gulliver, exploraram com Phileas Fogg ou riram com Josephine March. Agora, o Círculo de Leitores reúne todos estes personagens numa magnífica coleção com belíssimas ilustrações da artista italiana Francesca Rossi. Numa edição de grande formato e com mais de 50 aguarelas e desenhos, «A volta ao mundo em 80 dias», do francês Júlio Verne, é um autêntico modelo para contos e livros vindouros. A corrida eufórica contra o tempo do excêntrico Phileas Fogg e do seu fiel mordomo Passepartout numa volta ao mundo, para ganhar uma aposta, é aqui apresentada numa edição cuidada e moderna, graças às magníficas ilustrações de Francesca Rossi, uma artista que capta de forma sublime e delicada a atmosfera da narrativa, em mais de 50 aguarelas e desenhos.

Para os mais novos, o Círculo de Leitores sugere a coleção Primeiras Leituras. Com maravilhosas ilustrações, de dez artistas com estilos variados, estes livros conjugam belas histórias com textos simples para entusiasmar e inspirar qualquer leitor principiante. A coleção Primeiras Leituras foi concebida a pensar nas crianças que estão a começar a ler, sob consultadoria de Alison Kelly, especialista em Educação e Professora Associada na Universidade de Roehampton, Londres. Da leitura acompanhada à leitura autónoma, estes livros ajudam os mais novos a desenvolver a sua capacidade de compreensão e interpretação de textos, em três níveis evolutivos. Estão agora disponíveis os títulos «A Princesa e a Ervilha», com ilustrações de Lorena Alvarez e texto de Matthew Oldham, e «O Pintainho tem Medo», com ilustrações de Ann Kronheimer e texto de Russell Punter.

CELA| Connecting Emerging Literary Artists: Andrei Crăciun (Roménia)







CELAConnecting Emerging Literary Artists




O Livrómano junta-se como parceiro online ao projecto Cela| Connecting Emerging Literary Artists na divulgação de autores e tradutores emergentes na literatura europeia. 

18 autores oriundos de seis países serão apresentados em www.livromano.pt, semanalmente, desde Fevereiro até Junho. Esta divulgação consistirá em apresentação do projecto, biografia do autor, um testemunho do próprio autor e um conto. Desta forma, o leitor português enriquece os seus conhecimentos sobre os escritores e tradutores que, num futuro próximo, serão seguidos com atenção.

O Projecto:

O projeto CELA (Connecting Emerging Literary Artists) abre o palco europeu a uma nova geração de criadores literários. Permite uma cooperação transnacional intensiva entre talentosos escritores, tradutores e profissionais literários europeus em início de carreira. No decurso do projeto, os participantes enfrentam algumas das mais exigentes realidades da nossa era — de fraturas cada vez mais acentuadas na Europa a um setor editorial em mudança — e põem-nas em perspetiva, partilham o seu trabalho e colmatam o fosso que os separa do setor editorial e do público europeu.
As organizações literárias de seis países europeus uniram forças para fundar o projeto de incubação de talentos cela — Connecting Emerging Literary Artists. Partilhamos a necessidade de estabelecer uma infraestrutura sustentável de incubação de talentos para preservar a diversidade da literatura europeia e dar maiores oportunidades a línguas minoritárias. 
O projeto proporciona um percurso de dois anos com formação, instrumentos e uma rede que visam tornar possível uma carreira internacional e estabelecer uma prática profissional integrada. Com uma atenção em competências e mobilidade transnacional, incluímos especialmente as oportunidades digitais na literatura, novas formas de os participantes conseguirem emprego e rendimento.
Cada edição do projeto cela decorre durante dois anos. No primeiro ano, as organizações literárias orientam os escritores, tradutores e profissionais literários e proporcionam-lhes um programa multinacional de residências, formação e master classes para os preparar para trabalhar no mercado europeu e para um público internacional. No segundo ano, os participantes são inseridos por via de marketing internacional e campanhas publicitárias, uma digressão por festivais
europeus e apresentações ao público e a profissionais europeus por escritores e tradutores de renome (os nossos embaixadores cela) e organizações literárias. 

Os autores e tradutores participam em campanhas internacionais, festivais literários em diferentes países e numa rede de trabalho que proporcionará contacto entre todos os participantes.
Kick-Off: Hay Festival Segovia (Espanha), Tinto-no-Branco- Festival Literário de Viseu (Portugal), Book Fest (Roménia), Pisa Book Festival (Itália), Lev-Literatura em Viagem (Portugal), Passa Porta Festival (Belgium), Wintertuinfestival (Holanda) recebem os autores e tradutores do projecto CELA.


Parceiros:
Booktailors
Escuela de Escritores
Flemish-Dutch House deBuren
Passa Porta
Pisa Book Festival
Wintertuin



Biografia:  


ANDREI CRĂCIUN
Andrei Crăciun (1983) é um consagrado jornalista romeno. Dedica-se ao ensaio, romance (The Sunrise Street, Polirom, 2017) e à poesia (Poems for an unknown girl, Herg Benet, 2015 and All The Poetry of The World, Hyperliteratura, 2017). Escreve também narrativas breves (The Blue Hat and other stories, Herg Benet, 2015 and Bearable, Herg Benet, 2017).
Apresentamos, neste artigo, o seu conto "O comunismo visto por criancinhas". Andrei Crăciun é licenciado em Ciência Política e Mestre em Cultura e Civilização Judaicas.
Foi consagrado com vários prémios jornalísticos: Melhor Jornalista Jovem em Cultura (Freedom House), Melhor Colunista Romeno (Clube de Jornalistas da Roménia), Melhor Repórter Romeno (Fundação Friends for Friends)




Testemunho: 






Conto de Andrei Crăciun
O comunismo visto por criancinhas (tradução de Simion Doru Cristea)

Tenho quatro anos e nunca subi mais além do primeiro andar. Estou convencido de que a serpente azul do corrimão é infindável, que ela sobe, sobe e sobe, rebenta o teto de alcatrão do nosso prédio e avança invisível até ao céu. É um pensamento que não partilho com ninguém. O meu medo aquece-se na chama deste pensamento.
As pessoas descem dos andares superiores, lá do céu, por vezes falam entre elas em surdina e não oiço o que dizem. Mas nunca há um silêncio combinado entre elas. Nunca há silêncio. Os murmúrios flutuam de uma para outra. São como algumas abelhas ou talvez como algumas moscas obesas, que não se sabe o que podem esconder.
Mas não são apenas os murmúrios entre as pessoas. Outras vezes existe uma alegria estranha. Os homens esvaziam cálices de vinho pelas goelas. Imagino que nos cálices existe um espírito encantado que liberta os corações e desata as línguas. Mas sei que por vezes o espírito lhes leva as mentes, e então também os murmúrios e a alegria dão lugar aos gritos de mulheres. Ao ouvir os gritos das mulheres do prédio, a mãe diz-me que não é da nossa conta e aperta-me no peito. Gosto disto: gosto de que a mãe me aperte no peito, assim como — nas profundezas da alma — estou do lado do espírito que leva as mentes dos homens.
Escurece frequentemente. Cortaram a luz mais uma vez!, disse o pai. A mãe levantou o indicador e levou-o aos lábios. O pai nunca mais repetiu esta frase, mas eu não a esqueci. Quando cortam a luz, põem um banco em frente à porta do nosso andar. Nele senta-se o homem da casa. Por vezes, embora muito raramente, mesmo nós, as crianças, temos de os acompanhar. Os homens dizem palavras que só entendo pela metade. Todos são jovens, com dentaduras que cegam, brilham na escuridão. Aqueles que descem do céu, do andar superior, já não têm dentes, são parecidos com os filhos mais velhos, que os perderam assim que entraram na escola. Não sei por que razão, os que descem do céu não se orgulham mesmo nada das suas bocas desdentadas. Olho para os dentes do meu pai, para os dentes dos nossos vizinhos.
Por vezes, a luz irrompe bruscamente, todo o nosso prédio se ilumina e eu imagino-me então a viver no interior de um fogo, que não nos pode tocar. Quando acendem a luz, todos os homens fecham os olhos por um instante e iniciam um murmúrio de descontentamento, que dura menos de um instante.
Tenho quatro anos, é noite, todas as luzes estão apagadas, acordo e chamo pela mãe. Não me responde. Chamo o pai, não me responde. Estou sozinho e tudo está negro, tenho quatro anos e sei ler o relógio de parede. Tenho quatro anos, e fui abandonado às cinco de manhã. Vou até à cozinha, sei exatamente onde vou, escalo uma cadeira, chego à gaveta onde o pai tem um machadinho. O machadinho tem um cabo pintado metade vermelho e metade azul. Trago o machadinho, levo a cadeira, coloco-a à direita da porta que dá para mundo. Subo a cadeira e começo a bater no contraplacado com a lâmina do machadinho. Choro e bato no contraplacado.
Quase consegui abrir uma brecha na porta através da qual poderia entrar o meu anjo da guarda. A minha avozinha disse-me uma vez que tenho um anjo de guarda. Mas, do outro lado, no mundo não está o meu anjo da guarda. Do outro lado está o Tio Petre, o alfaiate, a gritar-me para eu parar. Eu não paro e o Tio Petre berra: O que tens, pá, que merda é que te deu?
Deixo o machadinho cair-me da mão, salto da cadeira, fujo para o quarto dos fundos e choro, o peito apoiado nos joelhos. O Tio Petre bate com o pé na nossa porta, a porta começa a voar pelo pequeno hall, mas eu não vejo isto, já não vejo nada, tenho uma cortina de lágrimas nos olhos. O Tio Petre vem ter comigo ao quarto dos fundos e diz-me que olhe para ele.
Não quero. E nisto chegou a mãe.
A mãe empurra o Tio Petre com as mãos e aperta-me no colo, como quando se ouvem gritos das mulheres no prédio. Já não tenho lágrimas, posso ver o pai que enche o quarto ao passear-se nele. Traz pendurado no ombro um saco azul por onde sai o gargalo de uma garrafa de leite vazia. 
No dia seguinte, os meus pais levaram-me para junto de Petrutza. Era o primeiro dia de agosto. O céu arde por cima de nós, e os sapatos da mãe deixam pegadas no asfalto. Era o dia em que decidi que nunca teria medo. Era o dia em que decidi que iria ser grande. Desde o nosso primeiro encontro quis declarar guerra a Petrutza, mas ela tinha um olhar que não admite oposição. Petrutza tinha os olhos de um bom gigante. Era a pessoa mais velha que alguma vez vira. Não lhe pude declarar guerra, apaixonei-me pelos olhos dela e comecei a ouvi-la. E não sei porquê, mas desde então não pude nunca mais olhar fixamente os olhos de nenhuma pessoa velha.
Os meus pais ensinam matemática na única escola geral da cidade, a matemática era um continente longínquo, a que chegarei depois de saber que, se tens duas maçãs e Petrutza te dá mais duas, terás quatro maçãs. Não gosto de maçãs.
Petrutza era paga para tomar conta de mim enquanto os meus pais estavam ocupados na escola ou com outros afazeres. E cuidava com afinco. Cortava as maçãs em fatias. Nunca mais pude comer uma maçã, se não tivesse sido cortada por mão de mulher.
Os meus depositavam-me de madrugada na casa de Petrutza e vinham recuperar-me à tarde. Fui feliz com Petrutza, juntos ouvíamos as notícias da rádio da capital. Notícias sobre o Partido Único e o Nosso Grande Líder, mas para Petrutza ele não tinha qualquer importância.
Quando se ouvia a voz do Nosso Grande Líder, ela gesticulava com a mão batendo o ar a partir do chão, num gesto que não podia significar senão:
Deixa...

Um dia, Petrutza perguntou-me, sem qualquer introdução:

— Queres que te ensine a dançar?

Não dei nenhuma resposta, pois não tinha nenhuma. Ninguém me propusera tal coisa e nem tinha a certeza de saber o que significa dançar.
Petrutza tomou o meu silêncio como um acordo. Petrutza ensinou-me a dançar e nem sei como se chegou a outubro.
Tinha um relógio de cuco, o cuco saía dignamente da sua casa de madeira e dava a hora exata. Era outubro, o relógio de cuco preparava-se para anunciar as doze horas. E eis que Petrutza teve uma ideia que mudou a minha vida. Contava-me estórias todos os dias. Mas agora, não me pediu para ouvi-la:
— Conta-me tu uma estória.

Olhei pela janela e, no jardim (Petrutza vivia num apartamento apenas com um quarto numa pequena vivenda construída pelos Alemães no período da última guerra mundial, da qual não tinha conhecimento), vi uma árvore enorme, cinzenta e sem folhas, só.
Contei uma estória a Petrutza de um ogre que queria ser o Príncipe Encantado e que lutava com outros ogres mais pequenos que viviam dentro dele. Petrutza olhou-me com os seus olhos grande e bondosos e disse-me apenas:
— Tu tens o dom do conto.
Petrutza não falava muito, mas dizia sempre tudo o que devia ser dito. Durante um ano fui ter com ela como se fosse para a academia, embora não soubesse o que significa uma academia.
Cresci à imagem e semelhança dela: ela era uma solitária, eu era um solitário. Éramos dois solitários. Neste ano — que foi o mais feliz da minha vida —, distanciei-me dos meus amigos do prédio, neste ano tornei-me selvagem, livre decididamente. Estava muito orgulhoso da minha liberdade. Este ano pôs-me aos ombros a roupa desta liberdade, que nunca mais quis despir, este ano ensinou-me a acreditar nas ilhas.
Num outro dia, não se sabe onde, apareceu no jardim de Petrutza um gato preto com uma risca cor de pérola que lhe dividia a cabeça de uma forma estranha. Petrutza não gostava especialmente de animais, chamava-lhes bestas, tinha marcado uma fronteira muito clara entre bestas e homens e dava muita importância a esta fronteira. Mas este gato preto... Talvez Petrutza tenha visto algo nele ou talvez tenha feito tudo sem se dar conta da importância dos seus atos, como acontece de vez em quando aos mortais. Petrutza decidiu, sem me consultar, que dali em diante não iriamos ter medo de gatos. Recusou a minha proposta de lhe dar um nome. Um nome é algo definitivo, acredito que Petrutza não gostava de acontecimentos definitivos. O meu pai nunca soube o que fazíamos com o leite por causa do qual ele acordava sempre às quatro da manhã. O pai nunca soube que o dividíamos com um gato preto que nunca teve nome próprio. A mãe talvez soubesse, sabia sempre tudo.
Eu e Petrutza tínhamos um mistério. E nada era mais importante na aproximação entre duas pessoas do que um mistério. O verão chegou uma vez mais. E, num dia daquele verão, pela primeira vez desde que nos encontrámos, o gato preto não veio ao jardim. Eu e Petrutza corremos desesperados pela estrada fora. Temíamos encontrá-lo despedaçado pelas rodas de algum carro, e nessa altura arrependemo-nos por não lhe termos
dado um nome para o podermos chamar, mas já era demasiado tarde. Procurámo-lo durante duas horas, depois sentámo-nos um ao lado do outro na beira da estrada e percorreu-nos um silêncio que podia significar o que quer que seja. Sobre nós uma faixa de céu começou a sangrar.


Tradutor:

SIMION DORU CRISTEA

Simion Doru Cristea (1965) nasceu em Bistrita, Roménia. É licenciado em Cinema na Faculdade de Filologia de Babes-Bolyai. É pós-graduado em Filologia e História pela mesma universidade.
Publicou várias críticas, participou em publicações colectivas e publicou livros em seu nome:Manifestul elevului de nota 10 (The Manifest of the A mark Student, Dokia Publishing House), Funcția symbolic-mitică în textul religios (Symbolic-mythic function in Religious text, Cluj-Napoca, GEDO Publishing House) e o romance Să trăiți, Domule Președinte (God speed, Mister President, Cluj-Napoca, Dokia Publishing House).








domingo, 24 de fevereiro de 2019

Divulgação: Apresentação de "O Efeito Marcelo: o comentário político em televisão" e outros retratos da Fundação Francisco Manuel dos Santos


















O Efeito Marcelo: o comentário político em televisão

| Rita Figueiras

O livro

Uma vez trouxe um leitão para o estúdio. Noutra, foi uma torta gigante e o respectivo pasteleiro. Com um discurso pedagógico e simples e dotes de entertainer, Marcelo Rebelo de Sousa democratizou o acesso à opinião esclarecida e massificou um produto de nicho. Durante 15 anos, a sua aparição dominical tornou-se a medida-padrão do comentário televisivo. Ainda hoje, nenhum comentador escapa à comparação, nenhum media ou político ignora a força do formato.

Mas quem são os sucessores do “Professor”? Como encaram a sua função e que temas privilegiam? Por que motivo tão poucos são mulheres? Que espaços têm à disposição? Com que distribuição partidária? Este livro analisa a evolução do comentário político na televisão portuguesa. Que é como quem diz, o “efeito Marcelo”.

A autora
Rita Figueiras é doutorada em Ciências da Comunicação, Professora Associada da Universidade Católica Portuguesa, onde leciona na licenciatura, mestrado e doutoramento em Comunicação. O seu trabalho centra-se na relação entre os media e o poder, desenvolvendo investigação na área da Comunicação Política, Economia Política dos Media e Jornalismo Político. Tem uma vasta obra sobre o comentário e os comentadores.

A apresentação 
19.02 | 17h | Livraria da Universidade Católica Portuguesa, Lisboa
Apresentado por Diogo Queirós de Andrade
Moderado por Carla Caldeira (Centro de Estudos de Comunicação e Cultura UCP)














Cientistas Portugueses

| David Marçal

O livro ​
Em Portugal a Ciência cresceu de forma rápida e inédita nas últimas décadas. Temos hoje mais investigadores científicos do que nunca (e cerca de metade são mulheres), cujo trabalho tem muito mais impacto do que antes. Mas o seu estatuto profissional diminuiu.

Só uma ínfima minoria dos doutorados consegue entrar para os quadros de uma universidade. Para os outros a vida é semelhante à de um futebolista: têm de estar no clube certo em cada momento, poucos atingem um elevado grau de reconhecimento e a carreira pode estar acabada antes dos 40. Este livro traça um retrato vívido de quem faz investigação científica por cá. O que os motiva a ficar no país ou a partir? Como conjugam a paixão pela ciência com a vida pessoal? Eis do que falamos quando falamos de cientistas portugueses.

O autor

David Marçal é doutorado em Bioquímica pela Universidade Nova de Lisboa. Redactor científico na Ciência Viva e coordenador da rede GPS (Global Portuguese Scientists). Autor de centenas de artigos na comunicação social, de espectáculos, de programas de rádio e de televisão, sobre ciência, e de livros de divulgação científica, entre outros, o ensaio “Pseudociência”, editado pela Fundação Francisco Manuel dos Santos.

A apresentação
20.02 | 18h | Centro Ciência Viva da Universidade de Coimbra
Apresentado por Nuno Ferrand  (CIBIO-InBio)
Moderado por Catarina Carvalho









Arquive-se

| Rita Almeida de Carvalho

O livro ​

Arquive-se! A ordem parece simples e é seguramente muito comum. Na prática, são a organização e o acesso dos documentos arquivados - os “laboratórios da História” - que determinam o seu papel na compreensão da nossa história. Portugal progrediu significativamente no domínio dos arquivos, mas investigadores e arquivistas concordam que muito está ainda por fazer.

Sabia, por exemplo, que um tratamento adequado da documentação arquivada pela Administração Pública, preservando apenas a que tem valor probatório ou histórico, resultaria numa poupança de cinco milhões de euros só em instalações?

Numa abordagem crítica, a autora deste livro parte da análise de casos e circunstâncias, do testemunho próprio e de colegas historiadores e arquivistas, para radiografar a gestão do património arquivístico nacional. Diz-nos que nem tudo está bem, e explica porquê.

A autora

Rita Almeida de Carvalho é doutorada em História Contemporânea e investigadora no ICS-UL - Instituto de Ciências Sociais da Universidade de Lisboa. Trabalha sobre o Estado Novo e actualmente estuda a associação entre arquitectura e política, procurando analogias e conexões entre o salazarismo e outras ditaduras de entre-guerras. Paralelamente, tem-se dedicado à arquivística e é responsável pelo Arquivo de História Social do ICS-UL.

A apresentação
08.03 | 19h | El Corte Inglés, Lisboa
Apresentado por Silvestre Lacerda  (director-geral do Livro, dos Arquivos e das Bibliotecas)
Moderado por Isabel Salema

sábado, 23 de fevereiro de 2019

Apresentação de Elogio da Sombra, colecção de poesia coordenada por Valter Hugo Mãe








Valter Hugo Mãe esteve na 20º edição das Correntes d`Escritas para apresentar “Elogio da Sombra”, colecção de poesia da qual é coordenador, na companhia de Andreia C. Faria (poeta), José Rui Teixeira (poeta) e Vítor Gonçalves (editor coolbooks)


O autor de “A Desumanização” propõe esta colecção publicada pela Coolbooks como “lugar de encontro para quem não se basta com medianias e valida a vida a partir do seu amplo mistério, do quanto tem para revelar”. Depois da sua “voz”, ouvida na sua “publicação da mortalidade”, é a vez de dar a palavra poética a quem o autor e coordenador vê qualidade. 
Os quatro livros, publicados há duas semanas, são um exemplo de uma aposta que se quer consistente, afirmou Vítor Gonçalves, editor da Coolbooks.
Para Valter Hugo Mãe, coordenar esta colecção é pura alegria, pois sonhou com poesia a vida toda. Foi a oficina da poesia que o ensinou a escrever. Tem mais livros de poesia do que qualquer outra coisa em casa.

Desde a anterior experiência – na Quasi há quinze anos – o mundo passou por grandes alterações, afirmou. Há mais fealdade e mais angústia. Aquilo que se dava como garantido é agora instável. O lugar do poeta mostra essa mudança.
É vibrante dar livros de poesia ao leitor porque há uma geração de autores cheia de energia, com alguma raiva até. Por esta razão, procura convencer a editora a aumentar o acordo de 10 livros por ano para 50 livros por ano. Neste momento, já tem previstos títulos para os próximos três anos.
“A poesia há de ser uma forma de transcendência”.





José Rui Teixeira, Isabel de Sá, Andreia C. Faria e Luís Costa são os primeiros autores a serem publicados.
“Autópsia (Poesia Reunida)” (Coolbooks), de José Rui Teixeira, reúne “dois ciclos de seis anos de trabalho do teólogo e poeta portuense: Diáspora e Antípoda , que são antecedidos por cinco inéditos de Eclipse (de 2018).”
José Rui Teixeira já havia sido publicado na Quasi, em 2002, ainda Valter Hugo Mãe era um dos líderes do projecto.
O autor de “Autópsia (Poesia Reunida)” recebeu nessa altura uma carta de Valter Hugo Mãe, mas nada percebeu entre o seu nome no início e a assinatura de Valter no fim. A carta era ilegível. Leu e releu, mas teve que telefonar, constrangido, para saber se era editado ou não. Já como editor, publicou “Pornografia Erudita”, do agora seu coordenador, e “Poesia Reunida”, da então estreante Andreia C. Faria. Para José Rui Teixeira, Andreia C. Faria é uma voz imprescindível na poesia contemporânea.
“Andreia é a voz feminina que mais me interessa.”
Andreia C. Faria, vencedora do Prémio SPA 2018 para o melhor livro de poesia, inclui em “Alegria para o fim do mundo” (Coolbooks) obras há muito esgotadas, cuidadamente revisitadas, e vários poemas inéditos. 
O que faz tem a ver com bravura, franqueza, coragem, afirmou Valter Hugo Mãe.
 “Gosto da sua perigosidade, de um certo sujo"
Andreia C. Faria faz parte de uma maravilhosa geração de poetisas em Portugal.
 A autora tinha alguns convites para reeditar livros já esgotados. Não lhe fazia sentido reeditar, mas o “factor valter”, para Andreia C. Faria, teve um efeito fundamental. Os autores presentes nesta colecção tiveram também muita influência.

“O real arrasa tudo” (Coolbooks),  representa a estreia de Isabel de Sá. A poetisa e artista plástica tem neste volume o essencial de 15 anos de trabalho.
A autora teve a obra completa publicada na Quasi. É uma das poetisas mais relevantes na poesia portuguesa, afirmou Valter Hugo Mãe. Desde a Quasi que não publicava.

O quarto livro publicado é da autoria de Luís Costa. “Amar o tempo das grandes maldições” (Coolbooks) situa-se, segundo o coordenador da colecção, “ao centro absoluto da existência”. É uma estreia, apesar de o autor ter cinquenta anos. É o primeiro estreante nesta colecção.

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